quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

De tudo ficou um pouco

De tudo ficou um pouco, 
nas mãos vazias e gastas,
castas de amor.
Bagos de vida
e sonhos podados ao sol posto,
deposto o gosto do fruto
tardio, estranho à época.
De tudo ficou um pouco, 
no molde dos passos vincados
nas ruas que não servem a ninguém.
Vazias e gastas, 
cansadas, tardadas as gentes, 
as almas, as vidas, alguém
que fique... um pouco.
Tão tarde, a manhã, tão tarde... 
e antiga, a vida, colhida a romã
renascida do ramo de crenças que arde
na arte de tecer, à negra que bale, a lã.
De tudo ficou um pouco
e o tempo avança
depressa demais.
A mais, e estrangeiros ao pensar,
os outros, à esquina do futuro sentados
jogando cartas à sorte de nada saber...
Que bom seria beber
à sombra da batota do seu jogo de nada,
onde é pouco tudo o que fica por viver.

 

 

domingo, 27 de dezembro de 2020

Às vezes gosto de ser triste

Às vezes, gosto de ser triste.
Sentimento puro que resiste
em qualquer coisa que chora
devagarinho, em nós...
sem apagar as estrelas
e o rasto de carinho, 
causa de um qualquer sofrer.
[Pertencer]

Às vezes, gosto de ser triste
e aconchegar a tristeza no peito,
junto à poesia que persiste
enamorada da dor que existe
num acto de esperança,
por se ter pelo que cantar.
[Continuar]

Às vezes, gosto de ser triste, 
nessa tristeza de não sofrer
e que não consiste em chorar
o que parte, mas em contemplar a Arte.
Coisa que, só triste, consigo fazer.
[Crer]

Às vezes, gosto de ser triste
e ver a luz que entra pela fresta da porta,
abraçá-la como à manhã que demora
os pássaros no beiral da minha janela;
singela melancolia da Primavera em flor.
[Amor]

Às vezes, gosto de ser triste
e segurar, com delicadeza, o sabor
suave das coisas pequenas
que a vida nos traz
às dezenas, sem esperar
pela tristeza,
que nelas nos fará reparar.
[Valorizar]

Às vezes gosto de ser triste,
porque é na tristeza que resiste
a simplicidade de morar
na vida.

Às vezes....

 

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

São Traças, Meu Bem

São traças, meu bem, quem me devora
fio a fio.
Coração rendilhado
onde moras, sem que me habites.
Memória delicada, declinada e peregrina
esparsa em luz.

Desamparado, o lado esquerdo de um homem
não traduz nem se deita sobre a dor
com que tece e enaltece a saudade,
Sem alguém que ocupe as nuvens
de passagem, num peito fustigado
e trespassado
roso, gasto, fuligem.

Meu bem são traças. São traças meu bem
que me afligem.
E o teu nome...
aberto na noite em que desperto,
fissura de silêncio e lua,
nas crateras da noite
nua.

São traças meu bem, as farsas tuas.

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O meu lugar


Janelas abertas,
ao azul frágil do peito expostas.
Lugar de terra e cheiro
inteiro, num só grito, ágil
como a flecha saída do arco
dos meus lábios.
Palavras abertas,
secretas nas linhas de fogo
que me lavram o pensamento.
Não falo na vida que se entorna
e retorna ao corpo
onde o silêncio se despenha
e desenha manhãs inacabadas.
Janelas abertas,
por tanto lhes querer o mundo
que insiste em entrar
p'lo azul que persiste
na tarde do meu olhar.

Lugar imaginário e concreto.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Mãe

E se a vida mais não for do que o avesso de si própria?

És tu quem nos espera
do lado de dentro do inverno:
estigma de flor
erguendo a lua
e prolongando os dias verdejantes
num olhar, arado de esperança,
que aberto avança p'las tuas mãos
estranhas à desistência;
procurando abrigo entre os sonhos
risonhos e perpétuos,
refúgios inquietos
que o tempo abriga
sobre o sorriso de quem te vê passar.
Gesto necessário à correcção do Sol
que tudo pode...
no poder declarado de quem cega
à visão a cegueira de não ver
que em ti nos recolhes todos os dias.

Reunindo na sombra a ignorância,
sob um manto de versos ignóbeis e frágeis,
é por ti que jogamos sementes à terra,
mesmo que nada brote para colheita,
das palavras e do vento
que no presente nos enlaçam
e abraçam crentes...
Amanhã.

Serão sempre mais belas as flores que não se colhem. Apenas se contemplam:
Mãe.

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Eles não sabem...

Dir-me-ão quão estranha me consideram, ou apenas diferente. No ser, no estar, nos gostos e interesses pessoais, na intensidade do que sinto e como sinto, na simplicidade com que visto o coração e a alma inquieta. Dir-me-ão quão estranha sou, ou apenas diferente, sempre que não me compreenderem as palavras ou até, quiçá, os silêncios. Dir-me-ão, porém, que "o sonho é uma constante da vida", mesmo que nela não trajem as palavras do Poeta. Bem sei, sabendo também que mo dirão, que oiço, leio e penso fora da minha geração: por vezes antes, outras depois, mas sempre eu... no lugar onde estou, me considero e me sinto pertencer. Sejá lá quão estranha ou diferente for...
 
Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer
Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança

 

 

Inspiração


Não me lembro em que tarde disseste que vinhas

ao meu encontro...
Por versos soltos e entrelinhas
no desencontro cansado das rimas
que me compõem.

Onde andarás nessa noite vazia,
descendo a rua em passo de poesia
desconcertada e enamorada de mim
deixando um rasto de canções inacabadas?

Não me lembro em que nota te vi chegar
a primeira vez...
Entre folha e caneta, o que te fez
nascer em mim?
Assim, devagarinho, a sussurrar
que ser Poeta é não ter fim,
nem princípio onde debutar.

Onde andarás nessa madrugada fria,
recôndita e fugidia
sem sede de me abraçar?
Chove em branco no meu caderno
eterno de tanto esperar ...

Não me lembro em que dia disseste que vinhas...

 

domingo, 29 de novembro de 2020

Viver

Na escola onde aprendi a Primavera também chovia
e os trovões emergiam dos percalços.
Entre clareiras, destroços e joelhos magoados,
os homens corriam desalmados
pela vida fora...
Procuravam e perdiam
o que tão velozmente seguravam
nas mãos grandes e vazias.
Rasgavam e remendavam as flores do campo
enquanto um desconhecido
chegava de mala à cidade,
instalando o seu canteiro
à esquina da mocidade.
Na escola onde aprendi a Primavera
as palavras não aconteciam desfazadas
das manhãs que nos trazem o jornal.
Diziam, pois, coisas diferentes
deixando, por vezes, contentes
túlipas e malvas de quintal.

E sobre tais flores de vaso,
falam-me os homens, sem atraso,
em línguas que não compreendo...
Aqui e ali,
primariamente selvagens
temendo passagens,
Obras, trechos e bagagens
que trago: sementes por terras além de mim.

Na escola onde aprendi a Primavera,
passou-me por dentro um Inverno qu'inda não clamou o fim.

[viver]

 

 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Desigual

[Canção]


Era o sol nascente,
mais uma manhã,
num mundo exigente
puxando a corrente
futuro presente,
cela de amanhã.

Era a agitação fiel
e o burburinho,
o canto das aves sempre baixinho
e as flores já não davam mel.
Era o trânsito arrastado,
homens de olhar apagado,
mulheres de rosto cansado
e crianças sem brincar.
Eram janelas estridentes
vozes iradas, descontentes
horas tardias, negligentes
apatia do luar.
E sempre que o mundo
no horizonte se punha,
era o cansaço quem se impunha,
era tempo de abrandar.

Era uma manhã desigual
adiada a rotina
mal lida sina
p'la cigana ao passar.
Eram quatro, as paredes
lotadas de gente
de outra gente carente,
varandas por quintal.
As lojas fechadas,
grades nas fachadas
dos prédios elegantes
nascidos de fronte para o céu.
E é agora réu todo o afecto
que não sob o tecto
do coração que sustém o véu
à noite insone.
Paira uma nuvem de incerteza
sobre cada cabeça;
tudo deixou de ser colorido.
E num futuro dorido,
não ficará tudo bem.

O telefone toca,
a televisão alerta,
o medo disperta
e o trabalho de ontem ainda está por fazer.
Os miúdos não comem,
são tantos os que morrem!!!
É preciso não esquecer
que outros há, ao relento
sem pão, sem alento
nem abraços onde se recolher.
Ninguém nas ruas
tudo deixou de ser...
e parecem já suas
as razões do anoitecer.

- Mãe, como é que cabem tantos mortos no céu?

 

 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Raíz

O Alentejo tudo devolve à terra:
A raíz e o chão
a alma cansada e o tempo do pão,
a vida em pousio e o áspero fermento da espera
que em mãos antigas macera
o futuro: quimera
daquele que vem e que passa,
do que não vem, mas que fica
e do que vindo como quem passa
regressa puro à sua graça
e à semente que edifica.

 

domingo, 8 de novembro de 2020

Fado de Mim


Guardo um tesouro antigo, 

em náufrago e incerto navio.
Momentos e histórias que vivi,
contos, poemas que escrevi,
linhas inúteis de utilidade controversa
se perversa é a afeição do coração
sem pressa de cantar.

Fala por gestos e sorrisos d’olhar,
palpitares indiscretos, arritmias d’amar.
Dá de si, sem por defeito esperar, 
que ao fundo do navio se possa chegar
levemente...

Guardo um tesouro antigo,
sonhos de ouro
que teimo em sonhar;
livros não lidos, por não serem escritos,
por não revelar…
de mulher desejos, intensos sobejos
de mares por explorar;
céus moribundos, de estrelas defuntos,
astros por inventar.

Ao fundo de mim não vou!
Que nem me quero,
onde me acabo,
poder encontrar.
Porque, no fim de me ser,
mais que infinito,
ao fundo de mim
não te vi chegar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Fado de uma Saudade


Aminha saudade veste fato,

agitado por estro profundo.
Ávida do mundo, prende-me
num livro de folhas impossíveis, 
que se abre para dentro
sobre ideias complexas
e palavras desconexas 
de um poeta, homem sozinho. 


A minha saudade veste sonhos 
e encantos - tantos - de menino,
calça outros quereres e ambições,
marca o compasso, faz o caminho.


A minha saudade inquieta,
à noite de solidão trajada, 
duramente e sem entrega,
por coração que não sossega, 
traz a alma desolada. 


A minha saudade tem rosto, 
passos largos e o amanhã na voz.
castanhos enredos, entre os dedos,
amores, nascentes e foz.


A minha saudade tem nome
que se bebe sábio nos lábios idos...
E traz poesia no bolso, 
d'amor sentido, sem nele entrar.
A minha saudade é desgosto
de um sonho vivido e por inventar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O Admirável mundo dos anúncios de emprego

 


Dos muitos ensinamentos que nos deixou, Einstein defendeu que "loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual!"


Tem sido curioso explorar o mundo dos anúncios de emprego. A lista de critérios chega a ser tão extensa e elaborada que, em algumas situações, nem os próprios CEO seriam seleccionados para entrevista.
Na verdade, muitos dos conhecimentos exigidos/pedidos não chegarão a ser utilizados pelo candidato no desempenho da função, não só porque actualmente existe tecnologia que facilita processos, mas, também, porque a realidade das empresas não é igual entre umas e outras, havendo situações em que os requisitos não são aplicáveis (mas enriquecem o anuncio). Porém, os critérios de selecção parecem obedecer a um padrão instituído e bastante similar.


Há quem seja, de imediato, posto de parte por não ter conhecimento e capacidade para a leitura e análise de títulos em inglês (espantemo-nos, utilizados inclusivamente por empresas nacionais, que apenas operam em Portugal, sem contacto com mercados e clientes internacionais, pelo que não tirarão partido da fluência em inglês do candidato).
Na verdade, creio que se assiste a uma valorização excessiva do anglicismo, em detrimento da língua de Camões, o que se aplica, de igual forma, à valorização dos cargos e funções escritos e pronunciados em inglês (hoje em dia ser-se technical analyst, manager, office manager - entre outros - terá maior impacto do que ser-se técnico analista, gerente/gestor de alguma coisa ou simplesmente responsável).


Entre as dezenas de anúncios que leio diariamente, todos me parecem extremamente idênticos, pouco diferenciadores e capazes de transmitir o verdadeiro ADN do empregador, chegando mesmo a aparentar ser, por vezes, pouco realistas. E há alguns direccionados a alienígenas...


Em suma, também nós, candidatos, nos temos visto na obrigação de triar conteúdo e analisar mais a fundo as ofertas de emprego, fazendo uma análise, pré-selecção e posterior selecção, terra-a-terra, daquilo que estamos a procurar vs aquilo que o empregador anuncia e oferece. (O que não deixa de nos desenvolver a capacidade de análise!!! - ponto positivo).


Por fim, se por um lado se afastam candidatos, por outro descridibilizam-se organizações. O foco no público alvo, o cuidado na utilização da palavra e o direccionamento mais preciso, sem cair no facilitismo dos padrões ou "copy past" , talvez trouxesse resultados diferentes no processo de selecção e, consequentemente, no perfil dos candidatos a concurso.


Não sei, sou só eu a pensar para com os meus botões. Mas também não interessa nada, com o aumento exponencial do desemprego, mais dia menos dia, tudo o que for à rede é peixe.


albert_einstein_loucura_e_querer_resultados_difere


 

sábado, 17 de outubro de 2020

Rastilho

O silêncio que calo
e atravesso, só...
Como um rastilho:
a noite
que me alaga o desamparo
e se senta solteira por baixo da minha janela.
Resistem as portas
à passagem de ninguém
rente aos espaços
em branco
a que ninguém ouve o grito.
Um corpo inclinado
e um fio de aço a suster o coração
suspenso.
(segurá-lo-ias?)
Um olhar apagado
e a penumbra.
Vida:
corredor que me leva a lugar nenhum...


 



 


 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Escarpas

Clandestina, a vastidão avança entre as escarpas, perturbando o ruído. Evoco o silêncio e só lhe peço que emudeça ante a canção do mar. Pelos meus atalhos, só os pés de areia descalça caminham e há um cortejo de vagas sobre os escombros do mundo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A Música


Não vem no fim a magia, 
hora da sorte adiada,
se é de fada o seu vestir 
asas de música sentir
acordes de sol na madrugada.
Piano velho, pelos dedos, 
de guerras idas nos falou
e pisadas, cordas doridas,
ditaduras derrotou.
Soprou ao vento o alento
das revoluções consumadas
e percutindo mistérios
juntou almas exiladas.


No seu encanto profundo
toca fundo para nos salvar... 
E quando o peito estremece 
e o ruído emudece,
no silêncio do mundo
nada mais apetece
escutar!


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Ciclicamente

Nem tudo o que foi deixou efetivamente de ser:
a noite que nasceu e morreu, retornou
a hora ida depressa voltou
o mundo girou no mesmo sentido
e a rotatividade dos dias manteve o calendário
de quem vive em linha reta.
Paralela:
 a sua real existência.



Redondamente enganado
exilidado
condenado

no viver mundano e redondo
de um ciclo já viciado,
vê o homem, ciclicamente,
alterarem-se as estações,
quatro quartos de emoções,
Por ele experimentados:
esperança, suor, decadência e lágrimas.
Retornados.


Assim se nasce
assim se vive
assim se envelhece
a assim se morre.

Ciclicamente:
a vida.


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Aceleração


O tempo que fica do tempo que passa

a correr...
Acelerado, com passo de volta e meia
em meia volta de hora
em hora e meia de vida
num relógio de futuro atrasado.
Ser livre na liberdade
de preso ao tempo se ser
e correr...
Exercer domínio sobre o que nos tem dominado
e não chegar a lado nenhum:
partir para quem sempre chega,
chegar para quem sempre parte
E, por esforço ou arte,
o sacrifício de permanecer
- correndo o tempo -
às meias voltas de hora no mesmo espaço de vida.


É tanto o que passa no tão pouco tempo que fica...


 

sábado, 15 de agosto de 2020

Build the sky

 


I push the sky away
and you are running faster than the wind
all these words I can't say
hold my breath
just long enough

You promise me:
we will can fly before we hit the ground
but you pushed the sky away
And there is no way
go back there.
I'm around
running faster than fear
And I don't want to stay.

All these things we cannot speak
All these screams we cannot expel
Hold my scars just long enough
I'll heal yours
I thought about that for quite a spell:
We never asked to much
We just want to survive
Just want to feel alive.
But we pushed the sky away

You and me
Our breath like a breeze
When the sky opens
time freeze
and our fears broken
Hold me...

We will build the sky together.


 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Deixa-me ser

Quando vieres vigiar em mim
as nuvens e as sombras de passagem,
estaca.
Não atravesses o jardim.
Deixa-me ser silêncio.
Selvagem frenesim do vento.
Tempestade.
Calmaria.
Chuva e sol.
Névoa tardia.
Semente que cresce
e livre floresce
dia a dia.


Só se contemplam os caminhos que não atravessamos.


 



 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Noite

Abraça-te negra a noite
sobre as águas
e dorme a Lua.
Flutua a mística e a beleza...
tela nua.
Invicta de encanto e pureza
melíflua.


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domingo, 19 de julho de 2020

Porto

Não trago nada nos bolsos
e a alma é vasta.
Os olhos, outrora vagos, crescem,
emergem, cintilam, transbordam
das margens sulcadas
que me traçam, em cruz, o peito
e a luz:
D'ouro, meus sonhos de sol a sol
descalços, caminham rectos
pela desordem que trago de "lugar nenhum".
Tardias são as ruas
que me devolvem
(já depois de mim)
aos lugares a quem sempre pertenci,
anterior a qualquer transformação
violenta e precoce
e ao frenesim
da inquietação de não caber
no espaço de onde vim...


Porto:
leve e descalça, sem nada nos bolsos,
porque é na alma que tudo carrego.


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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Acaso

Não quero da noite as confissões famintas,
nem das estrelas a luz brilhante em meus olhos.
Não quero saber do que não sei que em ti brilha,
ou na sombra te coloca o coração,
quando a minha mão na tua mão
escurece o céu
para que cegos, os astros se revelem
à nossa passagem interdita.
Não quero do sol as revelações diurnas
das impossibilidades que o caminho oferece.
Somos nós quem os sonhos tece
e quem, por vezes, se esquece que na vida
o acaso só acontece perto do fim
de um caminho já cansado que se trás.
E se à porta baterem futuros,
que não se sente à mesa o passado,
nem se faça presente o que não nos sorri.
Nada sei sobre os jardins que percorri,
onde nada colhi, nem sementes deixei...
Mas a lua ainda brilha
e a noite ainda dorme...
há um véu sobre as ruas
e é céu o nosso abraço.


 


 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Menina dos Olhos de Mar

"Menina dos Olhos de Mar" é o novo tema do Luis Fernandez (música e voz) e tem letra da minha autoria. Uma canção doce, embora seja suspeita ao dizê-lo, que ganha intensidade na segunda parte, através da guitarra eléctrica do João Nunes. Com João Pina na Percursão, reuniam-se todos os ingredientes para que nascesse um belo tema dos Três & Roda (a banda dates três meninos).


Espero que gostem!



P'las cordas desta guitarra, 
Dedilho um sonho à janela
- alegre e singela cigarra -
Promessas nos olhos dela.


É breve o vestido ao passar, 
Leve brisa, véu lilás
Beleza da terra e do mar
Jeito encantado que satisfaz.


Quero nela ser saudade
Da paixão que chega tarde
No tempo d'outro lugar.
À sombra da lua onde canto
Beber-lhe os lábios d'encanto...
Menina dos olhos de mar.


É de todos e de ninguém
A esperança de um dia beber
Suaves, os seus lábios doces
Beijo terno de amor e prazer.


Mas quando rompe a madrugada, 
Adormece triste e sem leito,
Menina desconsolada
Por paixão avassalada
Sonha com seu coração refeito.


Quero nela ser saudade
Da paixão que chega tarde
No tempo d'outro lugar.
À sombra da lua onde canto
Beber-lhe os lábios d'encanto...
Menina dos olhos de mar.


 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Vezo Cotidiano

Giramos. Todos os dias rodamos sobre nós próprios. Dia e noite, noite dia, ciclicamente enquanto a terra não nos devora e o disco que somos não deixa de se ouvir.
Ouvimo-nos?
Giramos...
Observamos quem gira em redor.
Giramos...
Voltando sempre ao início da faixa exordial.
Rodamos sozinhos, nesta solidão rotineira que nos consome, apenas fazendo sentido quando nos cantam, quando nos tocam, quando nos ouvem, quando nos sentem.
Giramos em roda viva reinventada, desde o nascimento até à morte. Esse é o espaço que somos.
E tocamos. Tocamos até que o cansaço nos vença, que a vida não passe de um vinil riscado, que as notas percam o sentido e nada mais em nós ecoe que não o desgaste.
Ou tocamos harmoniosamente, rodopiando para sempre no coração, espaço-casa, de quem seja capaz de dançar por nos ter.


Do imediatismo da vida, valha-nos quem nos aconchegue os acordes desta ádvena existência.


 

domingo, 17 de maio de 2020

A vida no gerundio

Caminhando...
Acção ininterrupta, a dinâmica a acontecer, o caminho a cumprir-se passo a passo.
Mais ou menos veloz, menos ou mais lentamente, no seu tempo, no próprio passo, no ritmo mais adequado a cada momento.
É importante persistir e aprender a apreciar o compasso da vida, mesmo que, a dada altura, tenhamos perfeita consciência de que ainda não é por ali, mesmo que seja necessário saltar ou encurtar etapas, prolongar outras ou demorarmo-nos um bocadinho mais numa dada travessia. Ter consciência da direcção certa será meio caminho para alcançar aquilo a que nos propomos.
Ir caminhando, porque caminhar, no gerundio, leva-nos lá, ao lugar onde é necessário ir, onde é necessário estar ou que nos é imprescindível conhecer para poder continuar.


Situações há em que outos se deslocam na mesma direcção, contudo, nenhuma jornada é igual e nenhum caminho se faz de forma similar. Olhar para a esquerda e para a direita, durante o percurso, apenas nos fará desviar o foco da estrada, dos passos e do horizonte (que existe para que não deixemos de caminhar).


Aprender a apreciar a viagem e ir caminhando é tão ou mais importante do que trabalhar a destreza, a rapidez e a agilidade, na medida em que serão, também eles, parte da preparação para a chegada. Seja qual for a viagem que se faça, o mais importante será sempre o caminho e a forma como nele caminhamos.


Não é a vitória ou a derrota, é o esforço. Não é o primeiro ou o último, é o empenho. Não é a rapidez ou a demora, é a precisão. Não é o melhor ou o pior, é a entrega. Não é o timing é a dedicação. Não são as circunstâncias, é a vontade. Não é a sorte, é o trabalho. Não são os outros, és tu!


Gosto do gerundio das coisas acontecendo...

terça-feira, 12 de maio de 2020

Quando uma Guitarra se Cala

"Quando uma Guitarra se Cala" é um Fado com letra da minha autoria, composição musical do fantástico músico bejense João Nunes e com voz da doce e talentosíssima fadista bejense Mafalda Vasques.


Escrito em homenagem ao meu Avô Goinhas Palma, também ele fadista e guitarrista, o Poema esteve três anos na gaveta, na espectativa de uma eventual possibilidade de ser musicado. Foi talvez, por meia dúzia de vezes, pela brava vontade que havia em mim de imortalizar a homenagem possível, apresentado a outros músicos, sem que o interesse desse frutos.


Uma noite, naquelas madrugadas longas num bar da cidade, ao som de um Blues, o João pergunta-me sobre a minha escrita e eu, em jeito de desabafo, digo-lhe que escrevo muito mas não imortalizo nada e que era sonho meu ver alguns Poemas musicados. Pediu-me que lhe enviasse dois ou três para apreciação. Nessa mesma semana compôs o néctar melódico que haveria de ser cantado pela voz celestial da Mafalda.


Ontem lançado, espero que o sintam. 


Avô, é teu ❤️



Quando eu era pequenina
À sombra do teu olhar
Foi de sol a minha sina
E todo o verso que rima
Ao ouvir-te dedilhar...

Foram acordes p'rá vida
Essas notas que tocavas
Com a paixão desmedida
D' uma alma florida
Desse jardim que amavas...

Nas cordas d'uma guitarra
D'outros tempos que vivi
Quantas vozes despontadas
Dessas cordas dedilhadas
Cresceram como eu cresci...

E se vou ao coliseu
Para ouvir cantar o fado
De quem contigo cresceu,
Pressinto vindo do céu
Esse orgulho redobrado...

A guitarra já não toca
E tornou-se em mim saudade
Mas quando alguém bate à porta
No meu sonho o que importa
É que chegues, mesmo tarde...

quinta-feira, 7 de maio de 2020

terça-feira, 5 de maio de 2020

Desconfinamento


Vamos, devagarinho, no gerundio dos dias, caminhando... 
Para que a pressa não nos interrompa a acção.


sábado, 2 de maio de 2020

Evidência

Não se deve acordar demasiado cedo
para o sossego da tarde...
Apertar flores contra o peito
como se fosse de cheiro a saudade.
Não se deve resgatar o abandono
ao reencontro,
se o lugar de onde voltamos
não é o mesmo para onde partimos
antes de começar
a perder a elementaridade das coisas.
Porque o maior decoro é não ter passado
e não acordar de manhã, demasiado cedo,
para o encontro da tarde
em nós.


 



 

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Desígnio


Quando uma ave descobre que voa, vai ao encontro do céu. No momento em que a ave encontra o céu, descobre o motivo pelo qual tem asas para voar.



 



 

sábado, 25 de abril de 2020

Liberdade

Sair do ninho
Um bater de asas
sozinho:
abrir o céu
anunciar os sonhos
pisar o chão,
beber no lago.
Pousar canção, no galho nú:
quebrar o tempo
despontar da noite
inclusa;
florescer por dentro
diminuir o domínio
e a punição.
Emergir do silêncio, hino:
Ode, Libertação!
E devagarinho
voltar para o ninho:
cumprir,
dormir,
sonhar,
e sair para voar
de manhã.



 


 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Há mundo para além do mundo

Agasalhados pela ditadura da vida frenética, enquanto o tempo nos engolia pouco a pouco, fomos acreditando que nada podia parar. Nem nós. A vida comia-se rapidamente, sem pensar muito nela, preferindo a trivialidade das conversas, o fast-food visual ou os empadões de ideias feitas – que os há para todos os gostos.


A realidade foi, por nós, sendo reduzida ao que há de mais concreto, elementar e absoluto, através da subtração da nossa capacidade de a interrogar e pensar além, renunciando à liberdade – enquanto seres pensantes - da contemplação, da expansão, da transformação e da inconformidade. Abolimos, a esta mesma realidade, a soberania para ser o que é, à medida que lhe condicionámos o âmago e a síntese primordial: a substância e a alma, a transcendência e o impacto, o espanto, o pasmo, a estranheza, a surpresa, a magia e o sobressalto. No seu lugar plantámos o concreto, o racional, o objecto, o inteligível e acessível, o óbvio, o concebível e decifrável.


Ao desconhecido, negámos a entrada nas rotinas, erguendo muros físicos, espirituais, sociais e políticos, distorcendo distâncias e negando toda e qualquer oportunidade de acesso ao exterior. Encurralámos-nos, num mundo global.
Das janelas várias, abertas num espaço comum, confortavelmente distante de nós, acompanhámos mais de perto o desenvolvimento da ciência, do marketing, da tecnologia, do virtual onde nos debruçamos, curiosos e iludidos, sem medo de cair. Mas fechámos a porta às artes e à filosofia, por já não sabermos andar descalços e sentir a vida com a sola dos pés.
Sem substracto, parámos de forma sagaz e abrupta o crescimento de um outro mundo - o interno - assente na busca e na escuta do que é maior e nos supera qualquer carência e necessidade de recompensa material.


Submissos ao despotismo do tempo, fomo-nos empurrando para o fim de semana, à vida para o mês seguinte, ao coração e à alma para outro século (contradizendo a urgência com que António Ramos Rosa escrevia “não posso adiar o amor para outro século/ não posso”).
A braços com a cegueira de uma crença absoluta - enquanto o outro mundo, por dentro, se desmoronava - detivemo-nos nos versos de Carlos Tê, tantas vezes rodados na interpretação de Veloso: “Houve um tempo em que julguei/ que o valor do que fazia/ era tal que se eu parasse/ o mundo à roda ruía”.


E agora, que parámos, é nossa a percepção de que nada ruiu, excepto nós próprios, à mercê de uma ameaça invisível. Ameaça essa, que exige que se ergam barreiras e fronteiras ao contacto humano, à realidade tangível e à vida rotineira, tal e qual a conhecíamos. Ameaça essa que, por oposição, nos exige que se destruam os limites por nós impostos à realidade incorpórea (enquanto dela quisemos fugir), sob pena de não haver bote que nos salve.


Não sei se algum dia, num outro dia, terão sido muitos os que, de forma regular, experimentaram a atitude contemplativa, numa projecção larga e transcendente, através de um outro olhar – silencioso – sobre a vida. Não sei se terão sido muitos os que souberam manter uma relação profunda - de interioridade - consigo e com o mundo, encontrando o silêncio e voltando o ouvido para dentro, para que num espaço mais íntimo se pudessem descobrir. Não sei se terão sido muitos os que não recearam os caminhos estreitos e a companhia da própria sombra. Os que se interrogaram, questionaram, escutaram, observaram, sentiram e viajaram além de si, além do ser, além do óbvio. Não sei se terão sido muitos os que descobriram o privilégio e a possibilidade de visionar, ignorando os telhados opacos das mentes catastroficamente fechadas, sobrevoando-os.


Não sei. Mas se não outro dia, haverá sempre um dia em que nos veremos a tal obrigados: “só a alma convive com as paragens estranhas”. Há mundo para além do mundo.


 


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sábado, 18 de abril de 2020

O que me dói

Dói-me a manhã,
a tarde e o fim do dia...
Dói-me a ausência do caos em que emergia
a necessidade da hora de acalmar.
Dói-me a madrugada acordada
e a passagem inerte do tempo
pela vida adiada,
neste chão onde me sento.


Trago na mão o calendário
das vidas, outras, que vivi...
Do presente nem diário,
procurei o obituário...
por dilação, mas não morri.


Desfaz-se em domingo, o meu peito
e lá fora nada acontece.
Arrefece-me o pensar,
embrulho-me, retalhada, na manta recatada
onde padece o meu sonhar.


Dói-me a manhã,
a tarde e o fim incerto
do deserto humano na cidade.
Dói-me.
Dói-me toda a noite o país
e, ao sol posto, a delonga mundial...
Dói-me a Europa: folha, caule e raiz
ceifada à mão,
História Universal.


Dói-me. 


 


 


 


 


 

Desalmada

Afirmei, no meu último poema "Tenho sempre tantas coisas dentro da cabeça". E tenho. Coisas demais. Tantas que, por vezes, nem me chegam, mas ocupam espaço. Transporto também as inúteis, assim me vou transportando, entre uma palavra e a seguinte, entre um verso e a ultima estrofe. Entre um artigo que passou de fugida pelos olhos de alguém e outro que não terá o nível esperado de interesse para ninguém.


Vou. Com tanta coisa dentro da cabeça. Mas sempre só. As coisas, essas tantas, foram sempre a minha melhor companhia e, por conseguinte, também eu - para mim - assim me fui sendo, ao construir-me lego do saber de outros.


Momentos tenho em que não me suporto. Tão pouco ao mundo. E fico, por ali, a um canto da vida, à espera que passe, aproveitando para colocar mais alguma coisa dentro da cabeça. Chegarei à loucura. Estou certa. Mas é-me abominavelmente assustador pensar na possibilidade de não pensar em coisa nenhuma, não ter nada para dizer, ou não saber tão pouco poemas de cor. De me arrastar vazia por aí a falar do tempo, e de como vai mal o país e a vida da gente, sempre contente por nada saber. Sentar-me numa mesa de um café vazio e pegar no jornal da terra, para ver a necrologia, lamentando quem já foi e ficando contente por não ser eu quem lá se apresenta. Mas... e o que ando eu por aqui a fazer? Sempre com tantas coisas dentro da cabeça que para nada me servem, a não ser para escrever aquilo que nunca será lido, para lá das casas onde vivo (que é como quem diz, para além de quem me aperfilhou p'lo coração. E que até nem gosta de ler). 


Há dias assim, em que, com tantas coisas dentro da cabeça, não sei de mim e me perco num labirinto que eu própria desenhei. Expressar não me sei, e fiquei parada, suspensa, num poema que alguém escreveu por mim também. 


 


Alexandre O'Neil brindou-nos com "Palavras que nos beijam" de todas as formas, afirmando que a seu favor tinha "o verde secreto dos teus olhos". E dos meus, terá certamente. 


Hoje, O'Neil vem, por mim, expressar o que eu não sei. E é assim que "O poeta sai de chofre, por uns tempos desalmado..." 


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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Sombra de Esperança

Era um dia igual a todos os outros. E todos os outros eram, agora, iguais a todos os dias. Passavam, como o tempo empoeirado, por vezes parado, pelos ponteiros descoordenados de um relógio velho, a caminho de um lugar comum.
E eu, que nunca soube a direcção da estrada, frequentemente me encontrava, díspar, em locais contrários e diferentes das gentes a quem agora me igualei. Inútil. Improfícua. Imprestável. Só.
Era um dia igual a todos os outros, cheio de números e tarot, que todos ouviam, à excepção dos outros que partiam, porque até nisso os dias eram todos iguais: levavam, levavam... e pouco traziam.
Cheirava a café acabado de fazer e à tinta da caneta que chorava o desnorte. Doía-me a vida e sonhos de bolsos vazios.
Era um dia igual a todos os outros, em que já ninguém sorria, nem se devolvia o abraço. Restava o cansaço...
E eu, que nunca fui bússola para ninguem, nem soube caminhar de cor, era já, também, igual aos dias e a todos os outros. Permanecia... Sombra de esperança.


 


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Pintura "Sombra de Esperança" da minha autoria 


 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Dentro da minha cabeça

Tenho sempre tantas coisas dentro da cabeça...
a navegar, desiquilibradas, à proa
como quem voa com o mundo nos pés.
Tenho tantas coisas à rés
de um barco parado
que nunca as acabo.
Nem a mim...
que me comecei numa caneta
e nunca mais cheguei ao fim.
Tenho tantas coisas na minha cabeça
que acabei por comprar um pincel ensinado,
não seja caso de, acabado, o desenho voltar a fluir
e eu fugir atrás dele,
e ele de mim,
e eu dele e de mim, e de mim e dele
sem saber para onde ir.
Tenho tantas coisas na cabeça...
que é também minha a certeza
de que o silêncio povoaria bem melhor a noite.
Mas... há o Tom Waits e o Cohen,
o Dilan e o Paul Simon,
o Miles Davis,
o Chet Baker
e o Bill Whiters...
Os inúmeros King
e todos os Parker.
O Ray Charles,
a Etta James...
O Jazz, o Rock e o Blues!
Ahh!! Tirem-me tudo isto da cabeça
e levem de mim também os Poetas,
os Romancistas,
os Cronistas
e os Psicólogos.
Censurem o conhecimento e os Filósofos
e deixem-me só, mergulhada
na madrugada acordada,

entre pensamentos amorfos.


Ah! Tenho sempre tantas coisas...
Levem-me, por favor, a cabeça.


 


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Pintura da minha autoria

terça-feira, 14 de abril de 2020

Norte e Alentejo, semelhanças nas diferenças

Sou uma alentejana apaixonada pelo norte. Especialmente pelo Porto e toda a região vitivinícola demarcada do Douro. Poderia escrever sobre isso, talvez ainda o venha a fazer, mas o que hoje me faz reflectir aqui, neste espaço de partilha, prende-se com a reportagem transmitida ontem pela TVI que, espantosamente, concluiu que em termos epidemiológicos a pobreza e a educação são factores preponderantes de transmissão de Covid-19, ilustrando a questionável reportagem com uma imagem da cidade do Porto.


Após leitura do post do Dr. Rui Moreira, em resposta a esta reportagem, cuja leitura aconselho (aqui), dei por mim embrulhada numa análise reflexiva sobre o quanto a região Norte e o meu Alentejo são semelhantes nas suas diferenças. E escrevi o seguinte:


 


No meu tempo (e neste tempo à deriva que passa diante de si próprio e não sei a quem pertence), havia um país pequenino à beira-mar plantado. Um país tão pequenino, que era possível percorrê-lo de norte a sul em cinco horas. Mas, também, um país, por vezes, tão mais pequeno que era possível, pelo senso rudimentar de alguns dos seus habitantes, reduzi-lo a uma área não superior aos metros quadrados da sua própria habitação. Um país tão pequenino, que era possível, imagine-se, ao poder político esquecer algumas das suas regiõe, por tão diminutas, subtraindo mais um bocadinho de terra sistematicamente.


Um país tão pequenino, que a própria comunicação social ousava fragmentar ainda mais, em tempos onde o tempo já não pertence a ninguém.
No meu tempo havia um norte trabalhador, suado, historicamente abandonado, educado, resiliente, entregue a si próprio e sustentado pelo investimento privado, pela visão, persistência, insistência e acção de alguns. Existia um norte cuja história não foge à realidade da história do sul. Deste meu Alentejo à deriva e descurado, tão grande e quase invisível. De gentes que lavram o próprio pão, que trabalham o triplo para conseguir alguma coisa, de suor e lágrimas, de persistência e igual resiliência, de superação e reinvenção em circuito permanente, mas sem a sorte de igual sustento, numa escala equalitária, por parte do investimento privado. Um Alentejo onde também não falta educação, visão, nem exemplos de acção, de vontade, de revolta e superação. Um Alentejo onde o sonho é sempre maior do que a sorte.


No meu tempo havia um país onde se tiravam conclusões epidemiológicas baseadas em premissas como educação e pobreza, transmitidas na televisão.
Um país onde, quantas vezes, é a pobreza, também ela, vítima de centralização. Sim, a pobreza de espírito. Um país onde a educação seja ela cultural, política, científica, emocional, educativa ou social (baseada nos princípios que defendem os Direitos Humanos e nos pressupostos da vivência numa sociedade democrática) deverá ser acessível a todos, de igual forma de norte a sul. Sob pena de se disseminarem, por falta dela, outras epidemias sociais e cívicas, quiçá, mais perigosamente atacantes e nacionalmente contagiosas.
Porque, não nos esqueçamos, num país tão pequenino, contempla-se o umbigo em Lisboa, põem-se os olhos a norte e as costas permanecem voltadas a sul.


Não. Não é a educação, nem a pobreza.
É a pequenez cada vez mais pequenina e poderosamente centralizada, em Portugal. 


 


 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

É preciso

É preciso escrever baixinho
e tecer devagarinho
as palavras, Ode de linho, 
no tear verde de esperança.


 


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Soleil Levant, de Claude Monet

sábado, 11 de abril de 2020


Escrito na carne
um verso de amor e pó.
Quietas, as mãos
paralelas ao céu,
sob o ímpio véu
de um deus qualquer.
Suportável, a dor e o dó
daquela janela...
Alguém abriu a alma
sobre a rua,
com a mesma calma
com que nascem frutas fora de época.
- "É preciso que esteja perto, para que o sinta realmente longe."
Um pássaro canta
uma flor floresce
uma criança nasce
e um poema desce apressado,
salgado pelo rosto.
Alguém abriu a janela
e chora o desgosto
que trás na pele.
O sol brilhou
e aqueceu a semente
que a terra guardou,
germinando, de repente,
a saudade de quem sente
um amor que não ficou.
Pó.
Escrito na carne
de alguém
que fecha em verso aquela janela.


 



 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Desabafo de um ninguém...


A Arte é múltipla. A Arte são rostos e corpos,quantas vezes anónimos. A Arte é, mas a arte faz-se. A Arte precisa de outros, que Arte não fazem, para se mostrar. E a esses, poucos lembram a existência, sempre na sombra. Vivem do trabalho que dedicam, por sinal, à Arte que não sabem fazer e são, também eles vidas, tão adiadas quanto as restantes. E os outros, que sendo Artistas não lhes é visto o rosto na televisão? Actuam em praças e para plateias de rua, em Teatros, escolas, e palcos de lua...
E ainda há outros, ditos pequeninos, que fazem os grandes parecerem maiores.
A Arte é Arte, não entretenimento. A Arte são pessoas, não egos. Arte são todos, à sua escala e dimensão. Arte não é descriminação. A Arte faz rir, faz chorar, faz pensar, faz dançar e encenar, faz gritar, faz nascer e crescer, mas também pode matar. A Arte captura e mostra, canta, mas também toca... sobretudo a alma. A Arte pinta, a Arte escreve, desenha e é ilustração. A Arte tece, a Arte cose, a Arte veste. A Arte move-se, a Arte expressa-se, molda-se, cria-se, é reinvenção. A Arte fala em silêncio,  por gestos, imagens ou em todas as línguas, de formas distintas mas universais.
A Arte é, mas a Arte faz-se.
Até mesmo essa Arte dita pequenina que não escolhe onde nasce...


Desculpem-me alguns... com todo o meu respeito, mas hoje estou profundamente aborrecida. 

Tempo


No meu tempo havia um mundo
em tempos de outrora sonhado.
No meu tempo eu via ao fundo
o teu tempo, imaginado.


No meu tempo outro já fora,
para mim escrito passado;
no teu tempo já o meu ide
História antiga, inveterado.


No meu tempo há o teu tempo
e outro que por mim passou...
O meu tempo tem futuro
no passado que não voltou. 


No tempo deles, o meu não foi
senão simples criação romancista.
Estudo de Arte, Filosofia,
quiçá doutrina Existencialista.


O teu no meu, sei lá! Não sei.
Ruas por onde nunca passei... 
Poemas lidos, discos ouvidos,
comigo só, eu me cruzei. 


Se no meu tempo espero o teu,
depois de outro já ter passado,
"Quem és, oh tempo?" - pergunto eu -
em horas certas, adiantado. 


No meu tempo havia um mundo
que o teu mundo já não viu,
depois desse virá a História
que alguém no teu previu.


E a estes tempos e mundos
que passam, que são e virão... 
une-os um só coração! 
Num espaço curto de tempo,
num curto espaço de vida:


São. 


 



 


 

terça-feira, 7 de abril de 2020

Material vs Espiritual na superação da crise

AVISO: Leitura potencialmente perigosa, pela complexidade da mensagem reflexiva que se impõe.
Não aconselhável em caso de incompreensão da mensagem, via poética, que habitualmente trago.



Nodecorrer dos dias, e ao longo dos tempos, mantivemos com o “material” uma relação de dependência que, equivocamente, nos concedeu uma falsa sensação de poder, de posse ou de superioridade, como forma compensatória.
Vivendo exteriormente, para a imagem, para as rotinas e consequente recompensação, fomo-nos afastando de nós, dos nossos propósitos, daquilo que somos, do que gostamos, do que nos mantém unos, de tudo o que verdadeiramente nos impulsiona, acrescenta e atribui sentido à existência. Passámos a ser (porque também assim nos apresentamos) um determinado título, uma profissão, o vizinho do carro vermelho, o dono da empresa X, a mulher/marido de Y, o indivíduo que veste fato... mas quem somos, por trás do acessório?


A realidade que à data vivemos, entre outras premissas, veio mostrar-nos o quão frágeis e vulneráveis somos face a acontecimentos extrínsecos, incontroláveis e imprevisíveis. Veio fazer-nos pensar na insignificância do valor “material”, que em nada nos diferencia, diante de um cenário de pandemia que se abate e que a todos nos designou como alvo. Veio lembrar-nos da importância de nos questionarmos sobre três do mais importantes lugares da vida:


1 - Para onde nos dirigíamos?
2- Onde ficámos? Ou onde estamos?
3- Para onde queremos ir?


Veio fazer-nos sentir que o conforto se adquire materialmente, mas que, em confinamento, só nos confortará o que espiritualmente formos capazes de atingir (não por via religiosa), na procura pelo equilíbrio emocional. E isso não se compra.


Presentemente, desprotegidos, diante de uma ameaça invisível capaz de nos levar a nós e aos nossos, sem que exista um critério de escolha, fica o sabor amargo da impotência, perante o choque frontal com a constatação do quão verdadeiramente finitos e pequenos somos.


Resta-nos observar o mundo e observar-nos a nós. Caminhar para dentro e ser capazes de nos encontrarmos connosco, de nos conhecermos no escuro, como à semente que germina no interior da terra, em silêncio, antes de se mostrar planta à luz do dia.
Resta-nos saber olhar para o espelho e ver através dele. Não só o reflexo do presente, mas também o caminho já percorrido, para que, com firmeza, nos possamos questionar sobre o depois.
Resta-nos a esperança, feita de indignação e coragem. Indignação para que sejamos capazes de apreender o que não está bem e a coragem para que o possamos mudar o possível.
Resta-nos a criatividade e a arte da reinvenção.
Resta-nos a observação, sem somatizar a realidade circundante, uma vez que, só dessa forma, será possível reunir a energia (positiva) necessária à transformação do velho em novo.
Resta-nos a iluminação interior, conseguida através da consciência e clareza a respeito da nossa missão, assim como da conservação da vontade e honestidade do seu cumprimento.


Resta-nos ser, apenas, sem acessórios, para conseguir encontrar o caminho da superação, da libertação, do distanciamento a causas externas, mas também o rumo mais certo após a tempestade.
Porque o mundo, esse, continuará no mesmo lugar, mas a vida não.
O que ontem tínhamos por garantido (erroneamente), poderemos já não ter, e aquilo que pretendíamos alcançar poderá já não ser atingível ou real. A sociedade não será a mesma e a crise não será apenas económica, será sectorial e social, com toda a devastação e mudança que isso implica.


E se agora não é altura para nos dividirmos entre fortes e fracos, doravante prevalecerá a força interior. Essa força que vem de dentro e só cresce se ousarmos praticar o auto-conhecimento (por mais que nos assuste conhecermo-nos) . Essa força que só se revela se soubermos para onde vamos e por que vamos. Essa força quantas vezes desnutrida e enfraquecida, camuflada por aquilo que mostramos e/ou gostamos de parecer ser.
Essa força que é preciso alimentar. Essa força que não derruba ninguém, mas ajuda a levantar.


Essa força espiritual não assente no “material” nem na religião. Essa força. A força de cada um. A força de quem se é verdadeiramente.
A luz!


 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Espero pelo amanhã

Espero pelo amanhã
como quem espera por outra vida,
deixando que sobre.
Espero pela manhã
como pela a aceitação da escuridão,
pela semente
que com ela se cobre,
para que brote, à luz do dia,
a magia que há-de surgir.


Espero pela hora de olhar o mundo
como se fosse a primeira vez.
Sentir que sou feita da mesma matéria
profana e prosaica
de quem nos fez,
e que a espera que desespera
se desfez... em pó de livros,
cujos versos me ensinam a cair,
enquanto espero pela hora de me levantar
e seguir caminho, sem tempo para regressar
a casa.


Espero pela vida,
como pela pressa de me levantar de manhã
e correr... correr... sem saber pelo que corro,
enquanto não morro,
enquanto só espero que o mundo se mostre
depois da má sorte a que fomos votados.


Espero pelo amanhã
como quem espera que lhe nasça um filho.


 



 

domingo, 5 de abril de 2020

Nem mais, nem menos (paradoxos e desigualdades em tempos de pandemia)

Poema reeditado, do qual me recordei após a leitura do artigo de Maria Clara Sottomayor sobre a dedigualdade social em tempos de pandemia. Um artigo cuja leitura aconselho, aqui.


Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco, que exista alguém que a mais se eleve,
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida.
Envolto no sopro de um cobertor de memórias,
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias,
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa de papel onde o coração dormita.

Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo quanto por ela passa,
por ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça,
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem senãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita.

Frequentemente largo,
o amargo cheiro das pregas vazias:
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadamos os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.

Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu, mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
e os que muito sentem vivem às portas do céu.
- Centésimo andar a contar do vale dos mortos -
Não creio que tenhamos nós mais do quele eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir,
sem sentir que, todos nós temos alguma coisa,
entre nascer e morrer, esse espaço que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos,
mas temos.


 



 

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Amor à Liberdade

-Aqui, somos todos loucos!


Dizem eles armados; versos na mão
punhais cravados,
amores baleados
por sentimentos minados
de pura ilusão.
Ardem-lhes as dores e as sombras do passado, 
secaram os jardins, anteriormente atravessados
por beijos molhados e olhares cúmplices
de um crime que só um louco viria a cometer – AMAR!
Só o rasto de pólvora da paixão e a putrefação das memórias ficou.
Cheiram a amoníaco as rosas da face, agora murchas,
e sangram os espinhos
outrora macios, se mordidos nos lábios
por desejos sábios, doravante enjeitados
pela morbidez lânguida da pele.


- Aqui somos todos loucos!
Gritam eles de armas na mão.
Assassinatos, extermínios, massacres, campos de concentração
de versos conjugados, em mares antes navegados
por sentimentos aguçados (agora renegados) e exulceração.

A última vítima do amor pela liberdade foi encontrada hoje, irreconhecível...
...Tinha um poema cravado no coração


 



 

Everybody knows


 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Crise económica: Romantização vs Consequências


Penso, para com os meus botões, na romantização massiva da catástrofe a que temos assistido.



 



1- Deste logo as questões ambientais, cuja melhoria é indubitavelmente uma consequência positiva da paragem abrupta dos vários sectores económicos e da nossa própria rotina, mas que sabemos que não se manterá quando regressarmos à tão ansiada normalidade: necessitaremos de produzir e consumir, de nos deslocar e de produzir desperdício.



 



2- A par, a utópica ideia de que o Ser Humano atingirá o belo e assim permanecerá no pós-guerra, a residir numa espécie de paraíso de campanha. A ideia, compreendo, é necessariamente uma forma de nos mantermos unos no presente, mas não o será a posteriori, no momento em que as consequências sociais da crise se fizerem sentir sem demora.



 



3- Por último, a perigosidade do optimismo económico generalizado, gerado pela incapacidade de nos questionarmos, de analisarmos, de pensarmos e de prever. Consequentemente, de antecipar.



 



Senão vejamos:



 



Segundo a OCDE, a pandemia da covid-19 é o “terceiro choque económico, financeiro e social do século XXI, depois dos atentados do 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, e da crise financeira global de 2008.” Nas previsões inicialmente feitas, a mesma OCDE equacionou o pior cenário: reduzir em metade o crescimento da economia mundial em 2020, situando-o em 1,5%, o que poderia levar à recessão de economias como a europeia e a japonesa. Porém já ultrapassámos consideravelmente o cenário previsto.



 



O Governo aprovou a suspensão, até Setembro, do pagamento de créditos à habitação e de créditos de empresas, para aqueles que comprovarem a quebra de rendimentos devido à crise actual, provocada pelo surto de covid-19. Óptimo. Mas…



 



Embora as moratórias permitam que a prestação (capital e juros) possa ser adiada na íntegra ou parcialmente durante seis meses, “os juros vencidos durante o período da suspensão passam a ser contabilizados automaticamente como capital em dívida.”



O que fará subir o valor de empréstimo, assim como dos respectivos encargos.



Questiono-me se, na altura, existirá disponibilidade financeira nas famílias e empresas, para fazer face a este aumento. Mas não só. Coloco também em questão se serão os portugueses capazes de poupar no entretanto, ou se, por libertação das obrigações mensais, gastarão mais, ou demasiado. Já assistimos ao açambarcar dos produtos alimentares nos supermercados, como um primeiro momento de reacção à situação actual. Seguir-se-à um segundo momento de irracionalidade, quando soar a ordem de soltura e a corrida às férias, aos restaurantes, às viagens, aos produtos de luxo e ao consumo por impulso, do qual estivemos privados, acontecer.



 



Também o mercado de trabalho não se manterá sem alterações. Sofrerá. E muito. Serão inúmeras as empresas que não resistirão. O aumento do desemprego acompanhar-nos-á e as dificuldades das famílias aumentarão. Isto porque muitas das empresas que assegurarem a sua continuidade, reduzirão postos de trabalho. E não existirão moratórias…



Será o salve-se quem puder. A competitividade tornar-nos-á muito menos humanos, muito menos unos, muito menos tolerantes, muito menos passivos e, obcecados com a sobrevivência, deixar-nos-emos guiar muitas vezes por esse mesmo instinto.



 



Relembrar a crise de 2008 talvez nos avive o significado de “olho por olho, dente por dente”.



Num mercado que se revelará selvagem, resistirá e permanecerá quem melhor e mais rápido se adaptar às mudanças.



 



E ainda estarão por pagar as moratórias…



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A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...