segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

10 notas sobre as Presidenciais

1- Não existe meio milhão de fascistas em Portugal. Isso é utópico.


2 – Do eleitorado de AV, uma percentagem significativa não provém de fieis seguidores, do fanatismo pelo líder, da inflexibilidade extrema e ideológica, nem dos menos capacitados para a análise e conhecimento que facilmente se deixam levar pelos discursos fáceis e ideias feitas à medida dos seus destinatários. Uma grande percentagem dos votos de AV provém da falta de alternativa política, de uma direita coxa e que desagrada aos seus militantes, da ausência de candidato PS ou apoiado pelo partido (sobre o qual recairá sempre o peso de ser um fundador da Democracia, recaindo também, sobre o mesmo partido, a responsabilidade de não ter apresentado qualquer candidato numa altura crucial para o país e para a sua Democracia), alguns votos de protesto e muitos provenientes de uma esquerda desgastada que tem vindo a deixar os seus territórios de força e históricos votados ao abandono e à descrença.


3- O resultado de Ventura, conseguindo o segundo lugar em 12 dos 18 círculos eleitorais, é demonstrativo do desagrado português, face às políticas instituídas, ao exercício do poder governamental dos últimos anos, ao abandono do interior do país, à constituição, organização e inflexibilidade dos partidos existentes, dos jogos de interesses, das coligações afáveis e ausência de oposição firme, entre outros aspectos que todos conhecemos. Um resultado que faz pensar e a isso nos obriga (finalmente?)


4- AV é um estratega, malabarista e inteligente. É, muitas vezes, o próprio e o seu contrário. Perigoso, também. Mudará a sua estratégia quantas vezes isso lhe vier a ser mais conveniente. Num cenário de legislativas, vejo-o numa aproximação carinhosa a Rio. Não o vejo, porém, a fazê-lo com Passos, assim decida regressar. O perigo não reside no seu fiel eleitorado, mas sim nos restantes, que como sucedeu ontem, procuram a alternativa ou o protesto, sem que seja possível medir a consequência da escalada de eleitores silenciosos. Esses sim, poderão colocar o partido no poder, ou com algum (demasiado) poder. Cabe aos restantes partidos reflecir, inverter caminho, corrigir erros e olhar para o seu eleitorado de forma digna e respeitosa, a fim de evitar outros males (irreversíveis).


5- A derrota é da esquerda, mas o PSD não pode reclamar a vitória de MRS, dado este ter sido eleito num cenário de igualdade de votos vindos do PS e PSD. À direita urge restruturação.


6- Não se combate o extremismo, seja ele qual for, com insultos ou força. Antes, com educação, respeito, literacia, educação, acesso à cultura e ao conhecimento, com transparência, verdade, combatendo a pobreza e estando presente sem atacar o espaço alheio. Só desta forma será possível, aos indivíduos, pensar e ter bases para reflectir e concluir sobre aquilo que consideram ser o seu caminho, ideias e ideais.


7- Vergonhoso foi verificar durante toda a campanha, insultos de parte a parte, à excepção de MRS. O exemplo é contagioso.


8- A respeito do Alentejo, mantenho a opinião escrita no post anterior. Tal como as redes que financiavam o PCP se sediavam no Alentejo, a grande rede que financia AV também aqui se encontra sediada, permitindo que a região lhe sirva de base estratégica e de fortaleza protectora. A força impulsionadora é relativamente fácil de conseguir por aqui. Isto permitirá um fortalecimento para galopadas maiores num futuro próximo, rumo ao domínio do interior do país. (Que bastante fustigado se encontra).


Ainda sobre redes, e apenas para clarificar, todos sabemos onde se encontram aquelas que financiam partidos maiores. Não é novidade que sempre existiram, existem e existirão.


9- Ana Gomes foi a mulher mais votada de sempre em eleições presidenciais em Portugal.


10- Escusadas serão as tentativas de conexão da minha pessoa a qualquer que seja o partido, porque como diz a minha mãe “o partido da Rita ainda não existe”. Cuidem-se e não se maltratem gratuitamente.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Vento

Nestes tempos conturbados, ousei lançar um livro. Um livro que fala de Liberdade, nas suas mais variadas formas. Do querer ao não querer, do fazer ao não fazer, de ficar ou do seu contrário; Liberdade de pensamento, de expressão, de escolha, de gostar ou não gostar, de vestir, de escrever, de ser.


O Vento conta com um prefácio delicioso do meu querido e Amigo Bruno Ferreira: conhecido humurista, apresentador, actor, cronista entre outras facetas.


Face a todas as contingências do panorama editorial nacional, restrições e proibição de venda física de livros, a aquisição apenas poderá ser feita através do link: https://www.velhalenda.com/p/vento/


Agradeço a todos quantos partilharem e reservarem o meu livro, com o forte desejo de que lhe sintam a Liberdade por dentro! ❤️


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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

'O Silêncio' de Pablo Neruda

Agora contaremos até doze
e ficaremos todos quietos.
Por uma vez sobre a terra
não falemos em nenhum idioma,
por um segundo nos detenhamos,
não movamos tanto os braços.


Seria um minuto flagrante,
sem pressa, sem automóveis,
todos estaríamos juntos
em uma quietude instantânea.


Os pescadores do mar frio
não fariam mal às baleias
e o trabalhador do sal
olharia suas mãos rotas.


Os que preparam guerras verdes,
guerras de gás, guerras de fogo,
vitórias sem sobreviventes,
vestiriam um traje puro
e andariam com seus irmãos
pela sombra, sem nada fazer.


Não confundam o que quero
com a inanição definitiva:
a vida é só o que se faz,
não quero nada com a morte.


Se não podemos ser unânimes
movendo tanto nossas vidas,
talvez não fazer nada uma vez,
talvez um grande silêncio possa
interromper esta tristeza,
este não nos entendermos jamais
este ameaçar-nos com a morte,
talvez a terra nos ensine
quando tudo parece morto
então tudo está vivo.


Agora contarei até doze
E você se cala e eu me vou.


- Pablo Neruda - 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Diz que é uma espécie de confinamento

 


Tem vindo a ser anunciado, de forma não oficial, mas oficiosa - garantindo a antecipação necessária à preparação de cidadãos e empresas - uma espécie de novo confinamento, em tudo semelhante ao de Março, Abril e Maio de 2020, não fosse o facto de nesta nova modalidade as escolas poderem permanecer abertas.


À primeira vista, parece-me a mim - que não especialista me confesso - que com cerca de milhão e meio de estudantes a circular, a que se juntam a classe docente e outros funcionários dos estabelecimentos de ensino, que não se tratará, por certo, de um confinamento, mas de uma espécie derivada do mesmo. Não se reduzirá o contacto próximo entre alunos dentro e fora das escolas (não sejamos assim tão ingénuos), pelo que o risco de contágio não sofrerá a redução que um período de confinamento pressupõe.
Serão necessários transportes públicos, onde as regras de higienização e distanciamento não serão as mais fáceis de cumprir, mas também serão necessárias deslocações familiares. Logo, mais uns milhares de portugueses a circular.


Por outro lado, confessando-me ignorante na matéria, fico com a leve sensação de que a tomada de posição do governo e dos parceiros sociais, no que à escola diz respeito, se deve ao tempo perdido e ao atraso da Transição Digital no sector, embora, para que tal acontecesse, tenham sido anunciados 400 milhões de euros, "em grande parte enquadrados no Plano de Recuperação e Resiliência (no qual se anunciaram 538 milhões de euros para as escolas)", segundo o Jornal Público.
A mesma fonte avança ainda que a "realidade é que os primeiros kits tecnológicos para os alunos mais carenciados chegaram à generalidade das escolas com o 1.º período a finalizar e em quantidade insuficiente" e que "só este mês está a arrancar um Plano de Capacitação Digital de Docentes", onde estaria prevista a disponibilização de equipamentos individuais ajustados às necessidades e acesso a conteúdos digitais de qualidade. Mas... nada disto aconteceu.


Atrevo-me então a questionar o que é que andámos a fazer desde Março passado até ao momento, e o que é que aprendemos com a catastrófica realidade do ensino em Portugal nesta pandemia. Talvez anular o ano lectivo seja um fardo que nenhum governo queira carregar, contudo, volto ao atrevimento de questionar, que futuro?


Não será novidade que a grande maioria da população portuguesa se verá novamente impedida de trabalhar, sendo que, alguns, ainda nem retomaram a sua actividade (!!!). O lay-off a 100% já se encontra aprovado, assim como várias outras medidas de apoio às empresas, ainda por revelar. Recorrendo à futurologia, será de prever novo boom de despedimentos, o prolongamento das moratórias e um avolumar da bola de neve, cada vez maior e mais pesada, capaz de engolir um país.


Segundo fonte do governo, estima-se que as quebras de rendimentos no sector privado no primeiro trimestre de 2021 rondem os 4 a 7% do PIB, o que a mim não me espanta. Espanta-me sim, um ano de inactividade dos serviços públicos - sem cortes nem penalizações - , sector que, sabemos, não gera riqueza, enquanto os privados se vêm, mais uma vez, a braços com a responsabilidade, o dever e o sacrifício de reerguer um país, qual fénix a renascer das cinzas.


Já vai longa a conversa, mas não quero deixar de salientar a irresponsabilidade atroz e primária da sociedade, que tudo tem deitado a perder com o seu comportamento egoísta e desinteressado, mas também não quero deixar de referir a falta de transparência dos nossos governantes no que à evolução pandémica diz respeito, assim como a falta de coragem para que se impedisse um Natal à larga e sem as restrições. Restrições essas que agora se extremam (embora António Costa assuma que não pecam por tardias).


Os hospitais estão lotados, os óbitos aumentam de dia para dia, a capacidade de resposta a outras patologias é cada vez menor, os cuidados de saúde não chegam a todos e muitos morrerão (sozinhos) por falta de assistência e camas.
A solidão dos mais velhos é avassaladora e o sentimento de abandono cresce; dele padece quem se vê privado do carinho e da presença dos seus, no (pouco) tempo que lhe resta de vida. O que, queiram desculpar-me a sensibilidade, é de uma violência lancinante.


Mas existem as excepções, os pagamentos de favores e as incongruências dos nossos governantes. Assim como existem, nas várias comunidades, as festas privadas, os ajuntamentos em época festiva, as grandes almoçaradas e jantaradas, o egoísmo, a irresponsabilidade e o desrespeito pelo próximo. E tudo isto se paga caro, muito caro.


Que futuro?

domingo, 10 de janeiro de 2021

Abandono

Em terra de pouca sorte,
insípida p’las águas do pranto,
cantava o vento, correndo parado, 
memórias cansadas
ao entardecer da vida num banco
de praça, deserta e despida,
tricotando, incerta, a nudez
da memória de outrora esquecida.


E à luz da janela improvável,
na cal já gasta, esculpida,
vivia de língua amputada
o silêncio da despedida.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Fado de quem perdoa

É tão suave ao coração a minha mão,
que em gesto nobre se abre
para ti, flor – perdão -- por afeição,
se algum excesso cometi.
É tão simples o que me basta
desta estrada onde colapsa
a minha razão indigente.
Descrente, quem sente,
por leveza e docemente
em caminhos que corri.
Vou sem pressa e adiante,
filha de um acreditar constante
na barca de quem perdoa;
há, confesso, d’outro tempo sem regresso
uma saudade q’ inda ecoa.
E se agora, acaso te vir, perdoa!
Não vou partir, não vou ficar…
no vão do peito, que por defeito
arte faz de te sonhar.


Abro a mão, estendo-a de mim…
- por minha alma clemente -
pelo peito fora,
pelos olhos dentro,
pela demora
sempre que entro
no teu lugar.


Perdoa. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Ao Luís Trigacheiro

 


[ Ao meu querido e talentosíssimo conterrâneo, vencedor do The Voice Portugal 2020 ] 


E de repente, a tua voz
nesse fulgor de luz e terra
que, passo a passo, acelera
clara e doce, na rugosidade da espera
de um sonho luzindo no fundo do peito.


Alma que avança sobre a noite
em que o céu se quebra
e o vento arde
com a violência de uma vida inteira:
Da Ceifeira à Mondadeira despontada
das vozes, outrora caladas, que agora despertas.
Abertas as gentes, por te ouvir
o coração na terra
(emoção que ferra qualquer olhar descrente)
intenso e aceso, nos mais secretos caminhos
do teu cantar. Tão lindo amar
o chão que te viu nascer e crescer...


De repente, o Alentejo na voz...
e um país a nascer
de ti.

domingo, 3 de janeiro de 2021

(A)final o Alentejo

 


A final do talent show português The Voice Portugal que, semanalmente, ao domingo, entra em nossas casas e nos tolhe as mais variadas emoções, acontecerá hoje, dia 3 de Janeiro de 2021. A edição do corrente ano tem surpreendido pela elevada qualidade dos participantes, mas também pelos diferentes registos que se apresentaram a concurso. E se é verdade que as interpretações na Língua de Camões não deixam ninguém indiferente, importa realçar a capacidade emotiva e de entrega dos nossos três alentejanos, Luís Trigacheiro , Miguel Costa e João Maria Freixial Baião, todos finalitas desta edição.


Carregando o Alentejo na voz e ao peito o fado, sentimento transversal a um país, o Luís tem arrebatado com a sua simplicidade e humildade, genuinamente alentejanas e carismáticas, cantando a força da identidade de um povo e das suas raízes, de forma casta, mas fulgurosa. Uma alma intensa e imensa, que já atravessou oceanos e mares, à proa das emoções com que desbrava corações, sem conhecer limites fronteiras ou divisas. Há nele o encarnar de uma vida inteira - das vozes de outrora - da Ceifeira à Mondadeira, despontadas da paixão de um peito jovem, onde luz o sonho, a palavra e o Cante.


Há no Luís um "não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como" e encanta sem necessitar de um porquê. Um brilho subtil e sincero, de luz elegante e gentil, que se entranha e arrepia, sempre que nos encanta com o respeito com que trata a Poesia de um país.


Delicias que nos chegam, também, através da cumplicidade e harmonia no jogo de vozes do Miguel e do João. Uma irmandade poética, um cordão umbilicalmente musical e emocional. Uma presença de dois, que num só se fundem no sentimento do que fazem. Uma conjugação de factores de peso, desde o chão Alentejano ao sol do Brasil, passando pelas suas (e grandes) referências nacionais e pela forma peculiar de sentir e estar em cada actuação. Tal como na vida. Melodicamente envolventes, num toque de ternura irreverente, cantam e encantam (quase) toda a gente.


Posto isto, atrevo-me a dizer que na final que se avizinha não se tratará apenas de talento, mas da tremenda ascensão do Baixo Alentejo enquanto território identitário, assim como de tudo o quanto ele encerra. As suas gentes, a sua História, o Cante, as vivências, costumes e tradições, a essência, as raízes, a humildade e humanidade, os campos, a calma, o sol e os corpos de trabalho, o pão, o azeite, o vinho e a semente da terra.


De pouca sorte, o Baixo Alentejo tem sido, ao longo dos tempos, deixado para trás, à boleia da cauda de um país. Embora valorizado pela sua pacatez, paisagens e gastronomia, os olhares descrentes nunca o souberam sentir verdadeiramente. Sementeira de sonhos e talentos únicos, a região detém um património de valor incalculável. Ou não fosse nossa aquela manifestação popular de expressão musical genuína e única no mundo, que dá por nome Cante Alentejano, reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2014.


Hoje, no palco do The Voice, vencerá, pelas vozes do Luís, do Miguel e do João, sem que para tal se tenha assumido a concurso, um sentimento que a muitos transcende, edificado por diferentes gerações ao longo dos tempos: O Alentejo.


 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Epílogo

Não se chega ao fim para morrer.
Chega-se ao fim para sentir o todo,
para deixar a parte...
para que se conclua o caminho
já saciado de vida.
Chega-se ao fim para se Ser.


[ Avó ] 🖤

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...