sábado, 11 de dezembro de 2021

Quis e já não quero


Eu já quis mudar de rua
minha porta, porta tua
deitar-me na mesma morada.
Cruzar de encanto o caminho
cabisbaixo e tão sozinho,
correr mundo de mão dada.

Quis olhar-te da janela,
meu coração sentinela,
em singela assoalhada.
Viver sem tecto, nem paredes
ter nos teus, meus olhos verdes
e contigo ser casada.

Roubar à rua o coração,
tê-lo na minha canção
e nos barcos que navegam
teus mares desencontrados,
sonhos outrora roubados
por fascínios que te negam.

Eu já quis e já não quero,
se é tarde e ainda espero
à tua porta sentada...
Pela vida que fingias
querer ter, mas não querias...
Contigo quis eu ser casada.

Se é tarde eu já não espero,
sou mais uma que te nego
o meu barco agora parte.
Não fiques à minha porta,
se é tua a chave que entorta;
quem te quiser, que te aguarde.

Não fiques à minha porta,
se é tua a chave que entorta...
Quem te quiser, que a guarde.


 

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Normalidade

Aquilo que mais receio no mundo é a normalidade. Dentro dela não existe progresso. Nada é mais perigoso do que a benevolência e anuência de uma sociedade, perante factos, comportamentos, acções e acontecimentos entidos e tidos como normais, num decurso transgressor e imoral da história (de um país, de um clube, de um partido, de uma instituição ou organização, de uma entidade ...).


A normalidade não incomoda, sendo esse o motivo pelo qual se aceita e institui.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Quisessem os teus olhos

 

Quisessem os teus olhos nos meus
trazer o tempo que por nós nunca passava,
a história da memória que cantava
da janela debruçada sobre mim.
E eu que corava, rosa brava de jardim,
esperava pela hora de a cantar dizeres que sim.

Quisessem os teus olhos naufragar
sem pressa, nessa pressa em que te vais...
ai quem me dera assim,
ai quem me dera assim...
ser porto, ancorar os teus sinais,
ser espera e a esperar dizer que sim.

Quisessem os meus olhos nos teus
plantar de amor eternas datas,
p'la luz da sombra em serenatas
de olhares futuros onde não viste
chegar, depois de um sonho triste,
a vida toda entrelaçada.

Ai quem me dera assim...
Ai quem assim me dera...


 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

"Arte, Cidades, Alma - A Conexão como Alavanca"

“Onde nos ouvimos por dentro é casa também.” – As palavras de Pedro Abrunhosa que deram início à conferência Arte, Cidades, Alma – A Conexão como Alavanca.


Por ser urgente pensar as cidades, a arte, a alma, o património e as gentes, assim como perceber e debater a sua conexão e interligação, enquanto contributo para a alavancagem e construção do novo - entenda-se, futuro – sem evitar  questionar o modo como poderemos avançar, mudar paradigmas e corrigir lacunas, sem que se coloque em causa a herança que nos foi sendo doada ao longo dos tempos, a Hall Paxis convidou, a 31 de Outubro de 2020, o músico Pedro Abrunhosa, o actor Bruno Ferreira e o jornalista Paulo Barriga para uma tarde de reflexão conjunta no auditório do Centro Unesco, em Beja.

Desafiado a conceber um paralelismo entre versos de Mário Beirão e a presente realidade, Pedro Abrunhosa colocou-nos perante aquilo que, no seu entender, nos resta depois de tudo, o futuro e a luta permanente para que a existência encontre o seu sentido. “A Liberdade, o livre arbítrio, a construção do presente rumo ao futuro”, no sentido em que a estruturação de qualquer sociedade se iniciará sempre no presente, numa óptica de continuidade, resiliência e concepção de um tempo futuro, no qual o homem de hoje já não viverá.


Por esse motivo, afirmou Paulo Barriga, que uma cidade é composta por finas camadas históricas sobrepostas, “uma caixa de ressonância dos tempos passados”, onde a “impossibilidade material da cidade” converge no encontro do património edificado “com o acto cultural e a vivência”.  Desta forma, será “a ligação entre as pessoas, as políticas culturais, o passado de mil folhas sobrepostas (passado arquitectónico, urbanístico e arqueológico) quem transforma a cultura numa Obra”, a qual se designa cidade.


No entendimento de Bruno Ferreira, “o indivíduo, enquanto ser único, desenvolve-se num ambiente multicultural, com regras, padrões, crenças, o que transforma a cultura num processo de intercâmbio entre diversos indivíduos e comunidades, formando assim uma sociedade. A cidade é um jardim, cujas flores somos nós próprios, os cidadãos” e nessa perspetiva, será sempre necessária a existência de um “jardineiro dedicado” – referindo-se ao poder local - e artistas “que não sendo flores, são as abelhas que as polinizam, permitindo que sorriam”.


Num encadeamento de ideias, Pedro Abrunhosa propôs-nos reflectir sobre a visão de Platão, “nenhum homem se basta a si mesmo”, mas também sobre a possibilidade de “duas pessoas formarem uma cidade. Onde existem dois, existe uma relação de reciprocidade e a possibilidade do acto de um interferir na liberdade do outro”- abordando com clareza a ideia Platónica da construção da cidade justa, uma Cidade-Estado que assumiria todos os valores morais, erguendo-se como a única forma de sociedade possível, segundo uma política que o filósofo definia como “arte que cura a alma e a torna o mais virtuosa possível”.


Pedro Abrunhosa desenvolve a temática: “Alma não é um conceito religioso. É um conceito orgânico. Fazem parte do homem o corpo e a alma que o habita. A cidade tem alma, porque é animada pelas pessoas, muito mais do que pela arquitectura. É a alma que caracteriza o local e o torna identitário. E a política é a arte do possível, a arte de gerir as vontades de toda a gente”. E sobre arte, “é tudo o que nos retira de um local, para nos levar para outro local diferente, que não tem que ser bonito. A arte não tem que ser bonita. Tem que nos transportar de um tempo para outro. É, talvez a par do conceito de Deus, a maior criação da humanidade”.


Já a “política é a gestão do dia a dia” e “aquilo a que hoje se assiste um pouco por toda a Europa é ao desaparecimento de cidades que, outrora, já se assumiram como grandes potências históricas, Beja é uma delas”. “As cidades perdem habitantes, massa crítica, artistas, perdem o público desses artistas, perdem quem ensina e quem aprende”, continuou Bruno Ferreira, frisando o quão importante é o papel dos cidadãos na manutenção das suas cidades e no grau de exigência para com os poderes executivos. “Seria interessante retornar ao Ágora, enquanto espaço livre de encontro e discussão” entre cultura e política, expressão máxima da esfera pública.


Concordando com a observação, Pedro Abrunhosa abordou o fenómeno das redes sociais que “fomentam o afastamento social e não a agregação social”, estabelecendo uma analogia com as palavras de Paulo Barriga, ao constatar que se assiste a uma (re)tribalização - um afastamento social premeditado, como se de tribos se tratasse, no maior retrocesso humano possível, em que os elementos de um mesmo grupo se reconhecem por características, ideias e ideais comuns, excluindo ou mantando os seus dissemelhantes. Segundo Pedro Abrunhosa, “as redes sociais só servem para gostar daquilo que já gostávamos, porque o algoritmo nos mostra aquilo que já conhecemos. A muralha à nossa volta revela-se ainda maior, porque deixamos de ter a percepção de que o outro existe. A incompreensão e a intolerância polarizam as pessoas, afastando-as cada vez mais”.


Já na recta final, e em opinião unânime, os elementos do painel defenderam que “é na cultura que os portugueses encontram razão para sustentar a sua autoestima”, tendo Pedro Abrunhosa definindo cultura como “tudo aquilo que necessita da mão do homem para existir. É o grande suporte do combate à ignorância”. E define-nos, tal como “o plástico define o século XX, porque isso também é cultura”.


Por seu lado, a arte acontece “quando pensamos em coisas que já não conseguimos colocar por palavras e nos silenciamos. Um silêncio de espanto perante uma Obra. Nenhuma língua traduz ou reproduz a emoção sentida, nem nunca será capaz de a explicar. Só explicam a arte, o silêncio e o espanto, sendo a arte o sítio para onde a linguagem escoa através do pensamento, do acto e da produção”.


Arte, Cidades, Alma – Aquilo que nos conecta.


 


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sábado, 21 de agosto de 2021

AFEGANISTÃO - Numa guerra, ocupação, luta ou negociação não são os Direitos Humanos quem move as grandes potências


  • Ocupações e intervenções militares, tenham elas ocorrido no Vietname, no Médio Oriente ou em qualquer outro ponto do Globo, nunca foram movidas por fins humanitários.


  • ‌Não são os Direitos Humanos, neste caso concreto os direitos das mulheres, que mobilizam potências e lutas. É o poder. Seja ele de carácter político, económico ou ambos.


  • ‌As mulheres afegãs conseguiram alcançar maiores direitos  depois de um violento golpe sanguinário ter colocado o Partido Democrático do Afeganistão no poder. Direitos que vieram a perder na década de 90, após a queda do regime, mas ainda antes do poder ser conseguido pelos talibãs. Foi em países de regimes "socialistas" árabes, apesar de regidos por ditaduras aguerridas, que foram conquistados mais direitos para as mulheres. Isto, por não serem democracias e lhes ter sido possível, aos países, a imposição e sobreposição destes direitos ao poder inquestionável da religião.


  • ‌Há uma necessidade de domínio (histórica), por parte do ocidente, dos povos islâmicos,  através da tentativa de imposição de democracias e liberdades ocidentais, numa teimosa crença de que o regime político do país ocupante é transponível (por imposição) ao país ocupado.


  • ‌Sempre existiu uma certa arrogância ocidental,   exercício de superioridade, abuso de poder, ambição e acomulação com repercussões número de guerras perdidas.


  • ‌O desrespeito pelos povos árabes, pela sua religião, cultura e costumes é notório na forma como se tenta fazer crer que são errados (segundo o nosso "ocidentalismo" e formatação cultural), impondo mudanças e transições que, para nós, serão entendidas como evolutivas, mas que, na verdade, em certas circunstâncias, vão contra os princípios daquelas pessoas (a quem nada foi perguntado).


  • ‌Democracia e liberdade serão sempre processos de autodeterminação (e não de imposição).


  • ‌Uma ocupação é sempre uma ocupação, seja ela a pedido do governo do momento, ou não. Como exemplo, a ocupação Soviética a pedido do governo da República Democrática do Afeganistão, a fim de o ajudar no combate à guerrilha fundamentalista islâmica, depois de o poder lhe ter sido concedido [ao governo] após um duro golpe sangrento.


  • ‌De lembrar que, nessa altura, os EUA apoiaram grupos aramados ( "Freedom Fighters") contra o mesmo governo. Grupos aramados esses que, posteriormente, usaram o treino e o armamento fornecido contra o Ocidente. Momento em que deixaram de ser considerados aliados dos Estados Unidos.


  • ‌A Rússia nunca lutou pelos Direitos Humanos do povo afegão, mas sim pelo seu próprio domínio e império.


  • ‌A ocupação do Afeganistão pelos EUA não travou o islamismo radical, porque a fonte de financiamento do terrorismo não são os países inimigos dos EUA. Esta ocupação apenas fortaleceu os radicais.


  • ‌A ocupação falhou e prova disso é que, após 20 anos, não existe uma sociedade afegã muito diferente daquela que viu os talibã assumirem o poder em 1996. Tão pouco preparada, embora tenham sido investidos triliões no país, se tenha armado e treinado o exército e se tenham perdido vidas. Não existe um exército afegão capaz de defender Cabul, face ao avanço dos Talibãs.Como poderia eles não regressar?


  • ‌O Afeganistão é um dos maiores exportadores de droga do mundo. (Será, muito possivelmente, o número 1 no que respeita a heroína). A droga será sempre uma grande fonte de financiamento.


  • Um governo, seja ele qual for, que apoia uma ocupação, dificilmente será bem visto pelo povo.


  • Afeganistão é um país tribal, são 14 os grupos étnicos reconhecidos, o que torna inviável a ideia ocidental de democracia.


  • Como países apoiantes dos talibãs surgem o Irão, a Rússia e a China,com relações estabelecidas ainda antes da vitória militar.
    O primeiro tem todo o interesse em apoiar a luta talibã contra os EUA, tanto quanto na aliança entre milícias xiitas (apoiadas por Terão) e a Al-Qaeda.
    A Rússia quer assegurar a segurança dos seus satélites na Ásia Central, ao mesmo tempo que é do seu interesse que os talibãs controlem o Daesh. Já a China tem por necessidade assegurar o futuro da Nova Rota da Seda, pelo que a estabilidade no Afeganistão lhes é fundamental. O governo chinês já demonstrou o seu interesse em colaborar com os talibãs na recuperação afegã.


  • Em Março de 2021 Biden foi alertado pelos pelos serviços secretos de que os talibãs dominariam novamente o país em dois anos. Venceu a crença no exército, mas... Domingo passado, chefe do governo pró-americano fugiu, oferendo aos talibãs o domínio de Cabul e do país.
    Na verdade, já existiam negociações entre os chefes regionais e os talibãs.


  • O exercito oficial afegão desfez-se naturalmente, após a retirada dos EUA e dos aliados.
    Afinal, não era um exército tão forte assim. (Como os americanos faziam crer).


  • Para os Americanos, esta não é só mais uma derrota. É, sobretudo, uma enorme humilhação.
    Não, não são os Direitos Humanos quem os moverá.


 


Postos em resumo alguns aspectos, há questões fulcrais sobre o Afeganistão que ultrapassam (e muito) a questão dos direitos das mulheres.
E sobre isso é, também, urgente informar e debater-se, para que o conhecimento permita que não se limite e/ou restrinja o tema a um único ponto (sem lhe retirar importância), sendo ao mesmo tempo possível uma melhor compreensão do mundo, do nosso mundo, e daquilo que move verdadeiramente uns e outros (assim como o seu porquê).
Poder é sempre Poder.


Pertencer ou ser-se império exige combate, guerras, lutas, ocupações, negociações... mesmo que, para isso, seja necessário usar, de forma falaciosa, hipócrita e debochada, os Direitos Humanos como mote ou premissa.


 



"Só sei que nada sei".


 



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Fonte da imagem: Jornal PUBLICO


 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Não nascem flores no invisível

Densos,
os olhos afundam-se, negros,
no obscurantismo do oculto,
onde o fundamentalismo devora luz e jardins.
As cores deixam de ser cores
e o feminismo das formas
subtrai-se à vida humana.
Não se é
e por não se ser
se morre.
Não se olha
e por não se ver
se extingue.
Não se ouve
e por não ter voz
se esquece.


Não nascem flores
no invisível.


 


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Imagem: ′′ Mother, Daughter, Doll ", fotógrafa iemenita Boushra Almutawakel, da sua série ′′ The Hijab Series ", 2010.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O Oleiro Eremita

A estrada de barro vermelho segue
em silêncio e sem pressa
p'las mãos de um oleiro eremita.
Há uma dor antiga
no molde da terra,
no fundo dos passos,
na nudez absoluta de um corpo de mulher
esculpido sobre as pétalas
selvagens de um coração fugidio.
Segue a estrada greda adiante,
p'lo desamparo dos dedos fatigados
da ausência das formas
onde a noite viaja
e o vento se enrosca vagarosamente.
Só o coração bate
a despedida
que o caminho não conta, não leva, nem traz. 
É pelas mãos que o amor lhe foge e lhe chega;
a vida ao quilómetro, o barro da estrada.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Travessia


É isso, essa coisa da vida:
um infinito sombrio,
uma aventura de luz a correr
nessa ânsia, numa urgência desesperada
de quem cruzaria o mundo
para, de mim, ter somente o prazer
do seu último cigarro.


 


sexta-feira, 16 de julho de 2021

Autárquicas - Mas sempre fizemos assim...

Todos somos (teoricamente) livres e toda e qualquer liberdade termina onde se inicia a liberdade do outro.

 

Somos livres na visão e interpretação de discursos, sejam eles de índole política ou de outra coisa qualquer. Vemos e ouvimos o que queremos, como queremos ou como podemos, condicionando-nos tanto ou quanto nos auto imposermos barreiras e limitações (ideológicas, sectárias, religiosas, clubísticas e daí por diante).

 

Em ano de autárquicas, discursos não faltarão, em campanha ou fora dela, que os haverá para todos os ouvidos. Uns assentes no que "está por fazer", outros cuja âncora os agarra e fixa no combate aos demais, com maior ou menor dose de críticas, insinuações, mal dizeres, injúrias, meias verdades, deturpações da realidade e outras que tais. Faz parte e sempre assim aconteceu. Certo é que olhar-se mais para trás do que para diante não nos fará, nunca, sair do mesmo lugar. E, evoluídos que estão os tempos, diminuir para se ser maior não é mais do que pura ilusão de óptica, para além de feio. Contam-se os anos nesse registo. Perde-se a conta. E talvez estejamos fartos. Fartos de combates de ego e de lutas campais. Talvez queiramos acção, trabalho na melhoria da cidade, do território, das instituições e das pessoas, propostas concretas e exequíveis, serviço à população, crescimento da região, desenvolvimento, abertura, inovação, juventude (a lista continua).  Talvez...

 

Nenhum mal dizer supera outro, todos se diminuem. Andamos, há décadas, a fazer o mesmo e nada se aprende, nada avança e estamos (generalizando, sim) cada vez mais mesquinhos, medíocres de credibilidade e a perder perspectivas (logo, a ver a direito e de forma limitadora). Tudo isso já foi fei(t)o.

Sou sincera, gostava de ouvir, uma vez que fosse, durante o período de campanha, discursos de respeito, construtivos, disruptivos, abertos, de visão e focados naquilo que a cada um compete, sem cair no facilitismo de rebaixar, difamar, usar, citar o nome ou falar dos "outros", sejam eles quem forem (porque os “outros” também o seremos nós, numa ou outra ocasião).

 

Serve, o desabafo, para todos. Não adianta tentar conotá-lo a nenhuma das partes, a não ser a mim própria. Porque sou e permanecerei de pensamento livre.

 

Se todos souberem respeitar o seu lugar e o lugar do outro, discordando ou concordando nas ideias, ideais, visões, crenças, pensamento, será sempre possível o diálogo construtivo, a tolerância e o respeito mútuo. Pensar-se diferente é positivo. Dos confrontos de ideias (levados com seriedade e assertividade) pode nascer o novo, a solução, a possibilidade ou abrir-se um qualquer caminho não vislumbrado ou tido como possível até aí. Certo é que pensar e fazer pensar é (e sempre será) um acto de altruísmo.

É preciso saber aceitar que todos são necessários, que há lugar e espaço para todos, mas que dentro desse espaço existe também o de cada um, assim como a sua liberdade (que não deverá ser posta em causa nem condicionada, como por vezes acontece através do silenciamento, afastamento, injúria, ofensas, críticas, complôs, esquemas, ...).

É dando-se ao respeito e respeitando que se é respeitado.

Que saiba levar o caminho assente nessa premissa.

 

 

Bom trabalho e boa sorte a todos!  

 


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segunda-feira, 12 de julho de 2021

Não me seduzem os velhos e hipnóticos cantares de sereia

Nunca a superfície do real me cativou. Ostentação, poder, riqueza, plateias, elites ou interesses de ordens diversas. Antes, sou atraída pelo que diáriamente construímos e alimentamos em nós, nos outros, mais dentro, em lugares mais profundos onde a vista não alcança. Laços. São eles que me atam ao que sou e me enlaçam ao que são (os demais, entenda-se). Lealdade, amor, respeito, fraternidade, confiança, amizade, solidariedade, tolerância, empatia, partilha e procura de tudo o que só esse caminho nos oferece. 
Bem sei que a superfície nos chama, mas ensurdeço para o mundo sempre que a realidade é rasa. 
O silêncio, esse, profundamente me envolve e completa. E e lá que tudo o que profundamente se sente, existe realmente.


Não me seduzem os já velhos e hipnóticos cantares de sereia.


 



 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Pequenos Artistas e os Ciclos de Invisibilidade

A Arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A Arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. Parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitou o diálogo entre os indivíduos, a começar pelas figuras rupestres presentes nas paredes das cavernas. Mutou-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística, impacto esse que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a Arte sempre possibilitou a aproximação entre o criador e o observador, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro.
Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a Arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a Arte humaniza.


Limitar a Arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, protecção, interesse ou perfilhamento, é errado. Tal como é errado limitar a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 
Difícil de entender? A falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de alguns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. E não é isso que está em causa, tão pouco o valor do seu trabalho). Persistem as assimetrias na representação artística da região, é inquestionável. Sendo necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.
Impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não interessa ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada. É dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.
A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.


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terça-feira, 29 de junho de 2021

A Minha Avó Dulce

 


Só posso saber quem sou e para onde vou, sabendo de onde vim.


Escreveu para todos eles, entre 1964 e 1987, com maior incidência entre 1974 e 1975.
Para os mais distraídos, o espaço temporal coincide com a entrada em decadência do regime Salazarista (no início da década de sessenta), queda do Estado Novo e a Revolução dos Cravos.
Não por acaso, mas exatamente porque assim tinha que ser. A minha avó, uma então Senhora, à época, dona de uma paixão que não lhe era permitida, mas, pelo contrário, oprimida, abafada e silenciada, o jornalismo, vivia em segredo a sua liberdade: a que a escrita lhe permitia. Entre palavras, tudo podia ser, até o que não era, ou quem não era. Prova disso são os muitos artigos que não assinou.


O desejo de uma Mulher, ser jornalista e livre, viria a ser a sua maior prisão. Num antagonismo vicioso que a acompanhou até ao seu último dia.
Também em segredo, na maioria das vezes, mantinha a sua grande admiração por Mário Soares. Os artigos que não redigiu, recortou e guardou, os jornais para onde não escreveu, comprou e colecionou, as palavras que não libertou leu e deixou... numa compilação de História agora descoberta.


Conhecer as nossas raízes e aqueles que nos antecederam, permite-nos uma melhor compreensão das gerações seguintes, onde nos incluímos. O modo como olhamos a História, assim como a conexão que travamos com ela, facilita-nos a narrativa identitária, autêntica e fundamental à compreensão do "eu". Ninguém nasce de geração espontânea.


Na vida, há sempre um futuro que nos leva ao passado.


É certo que a tendência de nos projetarmos além, é muito mais forte do que o nosso desejo e interesse em olhar para trás. Acreditar que os nossos pais, avós, bisavós, por terem vivido épocas diferentes, não têm nada para nos ensinar é absolutamente falacioso. São eles que nos dão, muitas vezes, se assim o aceitarmos, as ferramentas para melhor entender a nossa experiência e desafios presentes. (Também os futuros).
Claro que, cada época influenciará, em parte e de formas diferentes, maneiras de ser e estar. Condicionalismos distintos, mas com desafios tantas vezes iguais. Caminhos contínuos, mesmo que pertença, a alguns, a intenção deles se desviar.


A compreensão do ontem, a janela do amanhã.


Escreveu José Mário Branco, "Eu vim de longe/ De muito longe/ O que eu andei p'ra'qui chegar".


 


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sexta-feira, 25 de junho de 2021

Na Troca do Passo


A vida vai feia, o vento norteia
e eu vejo-a passar!
Na troca do passo, o meu embaraço fazendo corar
o pai que assiste e a rosa que insiste
em desabrochar
no meu rosto sério, dela o mistério,
beleza do mar.

Se é azar que tenho, ressalvo e mantenho
os pés no lugar.
Ao peito conheço os sonhos e preço
de se enamorar
por saias e ventos, em dias cinzentos, a rodopiar.
Menina travessa, ao amor avessa,
não quer namorar.

Meu amor sincero, degrau onde espero
a vida mudar
as voltas ao prego, por jeito tão cego
de me deixar ficar
à esquina da rua, julgando ver nua
a minha tristeza...
Por tanta avareza, tamanha destreza
em me apaixonar.

Se a vida vai feia e o vento norteia
eu quero navegar
no seu ar matreiro, ser seu marinheiro
o mar desvendar!!
E se o pai assiste e a rosa persiste
em desabrochar,
Insisto no leme, se não há quem reme
coração de alto-mar.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Sobre crise e liderança

Temos vindo, ao longo dos tempos, a adoptar um sentido de progresso linear, onde se crê que o futuro será sempre melhor do que o passado. Contudo, a nossa racionalidade permite-nos ter presente que a vida humana sempre se revelou cíclica e que, embora os progressos em diversas áreas sejam evidentes, também eles poderão ser suspensos, de tempos a tempos, como acontece em períodos de crise.


O mundo dos negócios não é absolutamente controlável. É composto por factores internos, externos e variáveis, algumas aleatórias e imprevisíveis, requerendo mentalidade e visão infinitas, por parte da liderança, assim como humildade e aceitação face à veracidade da necessidade de alteração de regras durante o jogo, consoante o seu decurso.
A capacidade de reacção às adversidades, a visão da oportunidade, o tempo de resposta, assim como a sabedoria da aprendizagem com os erros, são competências fundamentais para enfrentar a crise, contudo os resultados das organizações - em períodos de crise ou não crise - são o resultado dos contributos dos seus líderes, mas também do seus liderados. Sempre. 


Frequentemente, em alturas controversas, tentam encontrar-se bodes expiatórios a quem se possa imputar responsabilidades. Sejam eles quais forem. No limite, serão os próprios clientes um incómodo, residindo neles a "culpa" dos resultados. Isto acontece por falta de preparação para os cargos de liderança, excesso de ego, desenquadramento, falta de acompanhamento no terreno, resistência à mudança e desvalorização de sinais pré-existentes. (As crises antes de emergirem já criaram raízes).


Assumir a solidão do poder, inequivocamente, impede o contacto directo entre líder e liderados, assim como bloqueia a interacção e a percepção da realidade que se atravessa, abrindo espaço a um canal de informações, nem sempre objectivas e fidedignas, capaz de alimentar rumores e falsas permissas.


Do lado oposto, assumir a frente da batalha e dar o corpo às balas, na consciência de que é a dedicação, a vontade, o esforço e o empenho que fazem os resultados, e que trabalho é missão (mais do que o sucesso), permite uma maior consciência do estado terreno, do quadro de operações e das suas necessidades, facilitando a actuação e o rigor das medidas a serem tomadas e impostas.
Assumir que não se tem respostas para tudo, que os erros são humanos e que a ajuda das equipas é crucial para vencer tempestades, ser transparente a respeito da situação das organizações e apoiar situações de fragilidade, resultará num elo de ligação e fortificação. Porque as organizações são edificações colectivas, no melhor e no pior e, quando se é parte integrante de uma cadeia de valor, todos são responsáveis pela rapidez da sua recuperação.


Também a adopção de uma postura de protecção dos colaboradores desenvolve o respeito e a lealdade, o compromisso, o sentido de gratidão e a motivação dos operacionais em tempos adversos. Porque liderar nunca foi chefiar ou ordenar, liderar sempre consistiu em conduzir e desenvolver pessoas no presente rumo ao futuro, através do exemplo, tornando-as parte da solução e da construção do novo.
Ninguém é sozinho.


"Liderança não é sobre títulos, cargos ou hierarquias. Trata-se de uma vida que influencia outra” – John C. Maxwell.


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sábado, 5 de junho de 2021

Cais


No teu rosto há uma praia que começa
e atravessa, sem olhar, em contramão
a rua já com pressa que apeteça
molhar, em ti, os pés do coração.

Entrar devagarinho e sem temer
não ter, no pé, firmeza de enfrentar
o canto das ondas sem perder
o sol de fim de tarde no olhar.

Não esperei naqueles olhos ver-me ser
o casco de um pesqueiro em erosão,
sem norte ou história onde acontecer
no mar, ao solesticio, a paixão.

No teu rosto há um horizonte que começa
e atravessa, sem pensar, a vida inteira
barcos com pressa que amanheça,
em ti, o sol do Cais da Carrasqueira.

Barcos com pressa que se veja,
em ti, nascer-lhes mar a vinda inteira.


 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Transumância

Sempre que se apresentava à vida, tinha os sonhos no porão e a viagem por fazer. Chegava cansada. O caminho que a levava nunca, a cada paragem, a retornava a si. Eram sempre partidas - que as há de ir, de corja e de quebra – e assim o eram, entre o destino e o desejo de chegar. Conhecia-lhes somente três passos, esses primeiros, ao início do desvio – D E S. Meia vida, meia palavra, meio caminho. Pela metade, sempre pela metade.
No bolso o mundo, na mente o mais, no peito a ferida. E o peso. O peso de não levar, leves, os sonhos pela mão.
Transumante, diante das paisagens sobre si, seguia. A busca, a estrada, a crença, o futuro e o pão. O livro de páginas secas, salgado o olhar de mar revolto. O sangue, as pedras, as chagas, as noites ao nascer do sol, a luz silvestre das flores sós, o caminho, o caminho, o caminho…
Sempre que se apresentava à vida, era outra, mas sempre igual. Os anos, diziam-lhe, não lhe passavam pelo rosto, pelas mãos, pelo corpo. [Mas, “Quem é por dentro outra pessoa”?]
Chegava sempre cansada a lugar nenhum, com a mala no porão e a vida por viver. Ela por se ser. O Futuro por nascer.
Sobre os quilómetros de luta, o ranger dos passos em soalho de pressa e o silêncio… [“Quem é que o saberá sonhar?]

terça-feira, 4 de maio de 2021

Morena


Nestas ruas onde mora
a saudade que demora
no tempo que corre em mim...
sob o céu onde me deito,
por amor trago no peito
a morena do jardim.

Adiante pela praça
risonha, cheia de graça
vem andando para mim.
E p'lo sol em que me abraça
vê o homem a desgraça
de cantar amor assim.

De manhã, endiabrada
desce as escadas apressada
deixo que me cante o fim
De uma canção sem começo,
se nos braços lhe amanheço,
faço dela o meu jardim.

Saudade que já não mora
no meu peito p'la aurora
nem nela ao anoitecer.
Vem andando pela praça,
cai-me nos braços por graça
porque tinha que assim ser.


 

terça-feira, 20 de abril de 2021

Casa

No tempo em que ainda éramos casa

e as ruas abriam portas a quem vinha,
as janelas não tinham portadas.
Tudo era visto!
O mundo desembocava nas praças
e as estradas davam graças
aos viajantes descalços, sobre a vida.
Do mapa, a textura de todos os caminhos
e o cheiro da terra desconhecida.
No tempo em que ainda éramos casa
e o sol encontrava a lua no patamar das escadas,
o céu não se cruzava tantas vezes com o chão.
A vida era grande, de tão pequena
e as noites nasciam nos quintais.
As notícias traziam versos
e os jornais sabiam a data do teu nascimento.
As portas sempre abertas para o mundo
que terminava no princípio da rua.
Ali, onde a casa éramos nós.
Nós na casa.
A casa em nós.


 


Porta e Soleira.jpg


Pintura de Flávio Horta
"Porta e Soleira", acrílico sobre tela, 2004






 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Lugar de Crescer

Aos Professores


Ensinar o céu, treinar o voo,
dar a asa ao medo e voar.
Pelas palavras, preparar para ver
o que olhos ensinam a olhar.
Pensar assim e pensar ao contrário,
do avesso se necessário
e orientar, passo a passo, o caminho.
Tropeçar, cair, levantar, recuar...
falar da escola da vida,
por meio de poema ou cantiga,
ser guia e templo, mestre ou farol
girar com o sol, instruir em qualquer lugar.
Abrir o mundo sobre a janela,
deixar entrar. Ensinar as perguntas:
assim a viagem se faça longa.
Dar-se a todos por inteiro, parte a parte,
e por missão, profissão ou arte
educar no presente a construção do futuro.

quarta-feira, 31 de março de 2021

32


"Estou sempre a começar", sejam dez, dezoito, quaisquer vintes ou agora trinta e dois. Começo e, por vezes, recomeço, na força do prefixo que me agarra e me empurra para diante. Pisar linhas de partida, tantas vezes escritas na curva da imprevisibilidade da vida, não nos restitui a lugar nenhum no tempo, onde já possamos ter estado. Ao invés, adverte-nos para a necessidade de revisitar tempos e espaços (sem os reinventar ou rescrever) a fim de lhes entender sombras e luz para, assim, seguir o caminho de quem somos.
Um ano passou e tenho a sensação que muitos anos se passaram dentro dele (e com ele). De tudo aconteceu um pouco. Bom ou menos bom, não interessa agora, tanto menos à maioria.
Certo é que nos dirigimos para um lugar novo e desconhecido, sobre o qual não sabe ninguém, por mais ruído que se faça ou se ouça na caminhada que fazemos, sem que dela demos conta. Claro, há sempre tanta coisa a dizer... Trazemos todos tantas palavras barulhentas que, pasmemo-nos, nem a nós próprios nos ouvimos. Deixo falar, deixo que quase se nos ensurdeçam o peito e os olhos de ver, mas deixo, sobretudo, no meu recorrente começar, silêncio. Silêncio nos passos, silêncio por onde passo e silêncio atrás de mim. Silêncio para que pensem, para que se pense, para que consiga pensar e fazer pensar.
Novas realidades exigem novas criações, talento e pensamento, visões, caminho e recomeços.


E eu, que "estou sempre a começar", não sei ver a direito na curva do horizonte.

domingo, 28 de março de 2021

Aos profissionais de saúde

Não sei se foram as mãos que me disseram
que ali dentro havia gente.
De capa e espada, branca bravura 
dos Lírios de armadura, na frente de batalha. 
Sobre o caos da vida, quilómetros de mortalha
e peitos mordidos pelo cansaço,
Sem abrigo humano, ou braços de aço onde se recolher.
Se ao menos um olhar bastasse... 

Não sei se foram as mãos que me disseram, 
que era gente quem na frente se erguia, 
noite e dia, contra a morte, e persistia 
ao alto, de pé: a imponente coragem sem rosto
e o coração disposto à salvação do mundo. 
Mas sei que foram, ante o céu, em prece, 
as mãos brancas dos Lírios, na esperança que cresce, 
quem trabalhou a bonança e se fez ponte de aliança 
sobre a humanidade. Sei de quem foram as mãos.

sábado, 27 de março de 2021

A política, o indivíduo e a sociedade

Ainda me dizem: "Vem por aqui"


Não raras vezes me advertem "não te metas na política".
Pergunto: será isso possível?
Ou até: estarão mesmo a aconselhar-me a não participar da construção social?
"Não, não vou por aí" (Referência de ao poema Cântico Negro de José Régio).


A política, quer se queira e se aceite, ou não, é parte daquilo que somos, de quem somos, estando presente de forma informal e natural nas mais diversas actividades e acções humanas do dia-a-dia.
Senão vejamos, as tomadas de decisão diárias, a definição de regras e formas de gestão da vida familiar, decisões sobre onde incidirão as reduções de custos. Mas, também, a forma como os interesses individuais, os gostos, os princípios, os valores, as opiniões e as vontades têm impacto nas relações com os outros e na comunidade onde nos inserimos.
Dito de outra forma, a política é necessária e inevitável e está presente em casa, na escola, no trabalho, na associação desportiva, na associação de moradores, no indivíduo, no Estado e na Nação.


Não será, por isso, de estranhar que, ao chamamento dos descrentes, questione: "Como, pois, sereis vós/ Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem/Para eu derrubar os meus obstáculos?"


"E nunca vou por ali"...


Já na Grécia antiga, crê-se que oito milénios antes de Cristo, aquando da formação das primeiras cidades-estado (Pólis), tenha surgido uma palavra (muito semelhante a uma outra que vulgarmente utilizamos) para designar aqueles que podendo participar activamente na vida da comunidade, se demitiam dessa participação, recusando-a: os idiotés.
Pois bem, sabendo, então, que a política é o instrumento de ação de transformação da sociedade e que é da natureza humana viver nela, não será minha pretensão ser uma idioté e negar-me a busca e pelo bem comum (dentro daquilo que considerar ser minha missão).


Sei que a política me dá (nós dá) um propósito e direcção, consoante as nossas ideias e valores, sei que, por natureza, "o homem é um animal político", nas palavras de Sócrates (o filósofo, para que não restem dúvidas) e sei-o, porque há milhares de anos que participa da vida da cidade/sociedade e se preocupa com o colectivo. Mas sei-o, sobretudo, porque desde cedo que me interessei em perceber qual seria, e como seria, o meu papel nessa mesma sociedade. Todos somos agentes de mudança, por mais pequena que ela seja, se assim quisermos.


A simples tomada de decisão de querer ser independente foi, na altura, um acto político. Arrendar uma casa, trabalhar, pagar as contas, decidir sobre quantas horas podia ter o aquecedor ligado no inverno (sendo que, na maioria dos dias não dispunha de possibilidades para o fazer), decidir sobre se bebia um café ou se comprava pão no dia seguinte, se trabalhava mais horas para conseguir mais uns trocos, ou se ia a uma festa com amigos, decidir sobre onde poderia cortar, ainda mais, para fazer face às despesas ditas essenciais como saúde e alimentação.
Da mesma forma, assumir o retrocesso e incapacidade de fazer face aos custos da independência, na situação actual em que vivemos, tendo que regressar a casa da mãe, foi igualmente uma decisão política.


O facto de ter começado a trabalhar há 12 anos, na última crise económica, e de ter vivido nela e com ela, obrigou-me sempre a esfolar os joelhos, a reinvenções constantes e, também por isso, a uma vontade crescente e incansável de ajudar e participar na mudança de paradigma, ou no melhoramento das condições de vida dos jovens (já, por diversas vezes, me ouviram o "grito"). E, de facto, gostaria de os ver mais activos e participativos, aos jovens, nas questões da nossa cidade/sociedade, que é como quem diz, não se demitindo do seu papel de cidadãos, de indivíduos políticos e do ser social.


Quanto a mim, "não vou por aí", quando me dizem "alguns com olhos doces,/Estendendo-me os braços, e seguros/De que seria bom que eu os ouvisse/ Quando me dizem: “vem por aqui”!".


Não, não está só nas mãos das novas gerações, admiti-lo é sinónimo de demissão de funções sociais, é anular o indivíduo político em direitos e deveres e, enquanto cidadãos, é aceitar a submissão às escolhas e decisões de terceiros (talvez seja mais fácil). Mas é também desistir, no presente, de lutar pelo futuro de filhos e netos (e o exemplo é contagioso).
A política tráz o futuro por dentro e está sempre ao virar da esquina, nos transportes públicos, no acesso aos cuidados de saúde, no acesso ao ensino, no direito à reforma, no direito à habitação, no direito ao trabalho, no valor do salário e nas políticas laborais, nas tomadas de decisão diárias, nos impostos e no desenvolvimento, ou não desenvolvimento, da comunidade onde nos inserimos. Está em tudo e em todos e, por isso, não só nas mãos de alguns. Tão pouco dizendo respeito apenas a outros.
Não sejamos ideotés e façamos, cada um, a nossa parte.


O perigo de não querer saber, de não se querer envolver, de não se ter interesse em participar é, sobretudo, o alheamento e a falta de conhecimento e de capacidade para discernir sobre assuntos de peso considerável nas actividades diárias do cidadão, tomando, muitas vezes, como verdadeiras realidades distorcidas, afirmações sectárias e crenças limitantes que culminam, em última instância, no embarque em fake news.


Jamais me digam para não seguir os meus próprios passos.


 

sábado, 13 de março de 2021

Princípio do Pressuposto

"Princípio do Pressuposto II" é a última obra do artista plástico Flávio Horta.
Atribuído por mim, a convite, o título é extensível ao poema que acompanha a pintura, por lhe retratar traços e história, em representação do imaginário de Flávio, traduzido por mim, em verso. 
"Princípio do Pressuposto" seguirá, em breve, para a Casa das Artes de Arcos de Valdevez, onde integrará uma exposição aberta ao público. 


 


Princípio do Pressuposto


Sem olhar, ante o espelho, a própria face.
Louco que julga saber ser o outro,
à força de não ter
vontade nem prazer
de, aos demais, o lugar entender.
Além mundo, a sua porta...
e nada mais suporta.
Que importa?
O olhar emprestado,
a voz de todos sem ninguém:
o princípio do pressuposto
por intuir ser suposto
seguir e estar disposto
ao raciocínio de outrém.
Sem a frágil piedade,
por coração de quem cedeu,
fala o Homem sobre a vida,
sobre a história e a divisa,
sobre o que nunca conheceu.
Lugar comum, o seu,
se fácil é a explicação,
ante a incompreensão,
de quem sofreu.


 


Poema: Rita Palma Nascimento
Princípio do Pressuposto II”
Acrílico sobre tela, (80x90) 2021
Modelo: Mariana Lampreia
Pintura: F. Horta


 


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terça-feira, 9 de março de 2021

As Valas

 


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(Escrito em 2017 e republicado hoje, porque a História não se apaga nem se reescreve, de acordo com aquilo que se pretende - à data, por conveniência - que ela seja ou tenha sido. A História é o que é, é o que foi, é o que somos). 



Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da Companhia que vinha ao nosso encontro solicitava ajuda à aviação. Haviam caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo inimigo.
Foi o apelo mais dramático de que me recordo, durante toda a Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação: que se bombardeasse tudo. Incluindo a Companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável e o inimigo avançava em número bastante superior.

Quis Deus, que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de tantos outros obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não passaria de miragem. Mas seguimos. Quem a bordo das viaturas se encontrava, saltou para o chão e a coluna avançou a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.


Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos às dezenas. Menos trinta e uma vidas, das nossas.


À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos. Tantos!! Mas estes de alegria. Disseram-me, porque já não os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia.
Ali, o sangue era outro. Sangravam as nossas Colónias e cheirava a perecimento e as lágrimas, mais pesadas que todo o armamento. Lágrimas que sabiam a luto, ódio e potrefação.


Com a noite descemos às valas, que era onde se dormia, em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem, quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.


Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

(Baseado em 3 testemunhos reais, relatados na primeira pessoa).


domingo, 7 de março de 2021

P'los Campos da Escravidão

Um homem sabedor incomoda.
Um homem de direitos não se quer.
Um homem instruído é uma maçada!
Os homens de leis são infiéis.
Quer-se aquele, o que nos bolsos nada trás,
para lá do tecido roto onde jaz
o próprio ser...
que cai 
à noite,
como a noite,
sobre os sulcos do colchão de guerra
sujo
moribundo
fraco
e sombrio.
Querem-no a ele e aos outros iguais
em terra d'ouro, em mãos marginais.
Em tecto mouro,
é interdito, tudo o que é dito,
pouco podem compreender!
Além, o dever:
labutar
aceitar
sucumbir
esquecer.
As mãos, doridas e gastas,
incapazes de segurar no pão que há-de vir...
duro! Tanto quanto o chão onde cresce
e onde, à sorte, padece, 
entregue aos restos de ração.
Na pele queimada do sol, arde-lhes a vida
e a planta dos pés, sem rumo.
Restam as solas no piso defunto,
onde morrem.
E morrem de todas as maneiras, 
todos os dias,
pelo menos uma vez.
Morrem.
À dignidade, a viuvez.
Morrem. 
Vazios de tudo, anteriores à idade,
sem identidade, 
ou palavra na boca,
sem nada na mão,
sem nada no bolso,
sem nada na alma,
nada no coração...
Nada!
Nem Liberdade.


São estes os filhos da escravidão. 



 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Aqui chegados, extraditemo-nos!

 


A propósito de um tema inflamável, e em debate público nos últimos dias, dizia Luís Pedro Nunes, no Eixo do Mal, que vivemos tempos onde o "ódio de trincheiras" é alimento das redes sociais.


E se, por um lado, é verdade que confinados a quatro paredes, com demasiado tempo livre, nos é praticamente impossível ficar indiferente aos acontecimentos que marcam a agenda mediática nacional, também é verdade que nos remetemos, nós próprios, à condição limite de permanecermos "fechados em casa a olhar para o Facebook a destilar ódio de pouca razoabilidade".
Chegados a este ponto, talvez importe questionar e/ou reflectir sobre que sociedade e cidadania queremos ter e sobre aquela que efectivamente se nos apresenta (e que integramos).


Um dos pontos críticos da democracia portuguesa, sabemos, é a falta de sociedade civil ou, mais recentemente, da sua aparição (ou deverei dizer destruição?) nos espaços "livres" de discussão, como o são as redes sociais, elevando-as a um falso estatuto de espaço de intervenção social e político.


Numa esfera impessoal, será, todavia, mais fácil dizer-se qualquer coisa, inclusivamente "coisas" que jamais se diriam noutras circunstâncias, ou no exercício de uma cidadania activa, em verdadeiro espaço público de discussão e de intervenção para o efeito. Isto acontece porque, o que realmente ali se passa, não é um diálogo presencial entre dois ou mais seres humanos, não são pessoas quem ali se apresenta, não verdadeiramente. Na realidade, há também lugar a falsas identidades.


Nesta perspectiva, engane-se quem, adoptando semelhantes posturas, considera ser um cidadão activo no exercício dos seus direitos.
Nunca as redes trouxeram à tona o melhor das pessoas, mas sim o seu pior, sem que as próprias tenham a capacidade de o avaliar e perceber. Falta empatia, igualmente necessária à democracia.


Sob o olhar atento das "almas vigilantes", rara será a notícia ou a partilha noticiosa, onde não se encontre desde o mais estapafúrdio comentário, à ofença gratuita, à difusão do ódio, passando pela mais orgulhosa opinião descabida de razão ou conhecimento (não contendo, por isso, nada de construtivo, tão pouco uma aparente solução). O ataque a tudo e a todos ganhou terreno e claro, sabemos todos, onde isto irá parar.
Certo é que quanto mais tensão ideológoca se propaga nas redes, mais pessoas nelas circulam. Assiste-se, portanto, a uma polarização da sociedade, à produção e imposição de visões vada vez mais extremistas e à difusão de fake news, bastante convenientes àqueles que têm neste campo de batalha o seu espaço e voz política.


Mas o que mais me intriga, porque me é impossível passar ao lado de um fenómeno que a todos nos arrasta para onde, na verdade, não queremos assim tanto ir, não é constatar que quem mais dispara são aqueles que mais se rebelam contra as políticas de cancelamento que lhes possam limitar a liberdade de expressão, o chamado políticamente correcto que, tantas vezes, impede que se diga tudo aquilo que se pensa (ou que nem se pensa), e ainda bem. O que mais me intriga é assistir à contradição de posturas, conforme o tema ou situação, mais ou menos favorável aos ideais com que os atacantes se apresentam em palco público. Se por um lado se defende de forma acérrima a liberdade de expressão, por outro (e não quero aqui entrar em debate sobre o tema nem o vou alimentar) condena-se à extradição um cidadão português que ousa dizer aquilo que pensa, independentemente de qual seja a sua visão/posição/razão/opinião. Não estaremos nós a fazer o mesmo? Que coerência?


Ouso dizer que, quando só se vê bem ao perto, se perdem as perspectivas e a capacidade de ampliar o campo de visão. Não se sai da ilha para que a ilha se veja, como diria Saramago. Ao invés, segue-se a direito, contra tudo e todos, incluindo o próprio, sem que seja sua a verdadeira noção de assim o ser, de assim proceder.


Citando o jornalista Daniel Olivera numa frase que muito gostei, "Liberdade sem solidariedade é egoísmo".

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Rumo ao Sul



Mar na pele, maré cheia
da vida que se traz e norteia
o vento, gosto lento,
sal no rosto, desatento
ao tormento da lembrança.


Para sul desce ao contrário, a avenida
sentido oposto e temporário
sobre a vida, descaindo a medo.
Ao pôr do sol ainda é cedo,
ainda é cedo
para parar.


À noite o luar pinta o azul
de frescas conversas triviais.
Banais, os rostos sinceros
contradizem os severos;
tempos escassos, habituais.


Sobe a noite a avenida
e ruma ao céu para se deitar,
os cobertores estão de fugida
é já hora de acordar.
Ao relento não deixou
o infortunio que passou...
Sentido oposto e temporário
ainda é cedo,
ainda há tempo...
Rumo ao sul, desce ao contrário.


 



sábado, 6 de fevereiro de 2021

Sobre Arte, Palavras, Comunicação e Relações Interpessoais e Humanas

Numa Era onde o excesso de informação tem por consequência a banalização das diferentes formas de comunicar, é importante parar e pensar na importância da comunicação (verbal e não verbal), assim como na utilidade das diferentes formas de expressão, no poder da mensagem e na sua clareza.


Assistimos, diariamente, à degradação e distanciamento de relações interpessoais e humanas, fruto da dificuldade em dialogar, interagir e criar sincronizações claras de emissão e recepção de mensagens. A capacidade de compreender, não será, nunca, menos importante do que a predesposição para uma transmissão límpida da informação, assim como a sensibilidade nunca nos tornará frágeis, se é através dela que a Arte nos chega e nasce, como forma de expressão.


Ter a capacidade de empatizar é, também, em meu entender, possuir destreza comunicativa, uma vez que, só através dela, é possível chegar ao outro, recebendo dele também.


Se é verdade, como Eugénio de Andrade tão bem escreveu, que "São como um cristal,
as palavras./Algumas, um punhal,/um incêndio./Outras,/orvalho apenas.", quererá isto então dizer que a palavra tanto ama como mata, sendo detentora de um poder transcendental. E aqui depende somente de nós saber utilizá-la.


Ter o dom da palavra, não sendo arte comum a todos, é ter em si um talento capaz de fazer passar o que tantas vezes se perde, mudo... É ter ferramentas para chegar ao outro, é ter habilidade para desmistificar, clarificar, transformar e criar ligações e conexões, mais ou menos emocionais, consoante os casos.
O mesmo acontece com outras formas de Arte, sejam elas a dança, a música, a pintura, a fotografia, a escultura...


Porque isto, de comunicar e ensinar a fazê-lo, é também uma função do Artista.
Recordo um excerto de Afonso Cruz onde escreve "Para que servem? Os artistas? Sim. Para nada. São inutilistas. E o que é que este poeta faz? Poemas, respondi eu. Para que servem? Para muitas coisas. Há poemas que servem para ver o mar.". E é exatamente para isto que servem os Artistas, não só os Poetas, para fazer ver o que tende a não ser visto. Ou, para nos levar a olhar de outra forma para aquilo que em nós, na rotina e no mundo se tornou um lugar comum.


Certo é que sem interação não existe comunicação. E esta será tão ou mais eficiente quanto mais clara e humana for.


O poder da palavra é inequívoco, mas é-o também o da Arte, na transmissão da mensagem.


Invistam mais um minuto e assistam.



 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A crise e os Millennials: Não somos os filhos do azar

[Republicação]


Muito tem sido falado e discutido, nos últimos anos, sobre os Millennials (ou geração Y), nascidos nos anos 80 e 90. Uma geração que veio ao mundo já com a tecnologia no terreno, embora incipiente - e que cresceu de mãos dadas com o seu boom de desenvolvimento. A Internet permitiu-lhes a globalização, sendo - os Y - caracterizados por ela. Muito mais abertos à aquisição de conhecimentos e partilha de experiências, foram os impulsionadores de diversas mudanças de paradigma, desde logo ao nível da consciência social e do desenvolvimento de relações, ao nível comportamental, passando pelas causas ambientais e entrando em campos como  o consumo e a forma de consumir, a visão empresarial, o mercado de emprego, o turismo, a habitação e a aprendizagem.


São uma geração, na sua maioria, muito mais capacitada e qualificada do que a anterior, com um sem fim de possibilidades e oportunidades para vingar, mas que "por azar" - como tem sido escrito em variadíssimos artigos - enfrenta agora uma segunda crise económica no espaço de doze anos. "É inédito" - outra das expressões que muito se encontra -. É, de facto, inédito, mas também comprometedor. É inédito e desolador. É inédito e, "por azar" apanhou os mesmos, quando finalmente estavam a conseguir equilibrar-se num casco desgastado e fino, depois do confronto com uma longa tempestade que lhe toldou sonhos, metas e projectos de vida.


[A nossa voz]


2008 não ficou para a história. 2008 imortalizou-se na identidade de cada um de nós, nas nossas feridas e desesperos, na amputação do futuro, na reinvenção constante que nos foi sendo imposta e dal que fomos capazes, nas lágrimas dos nossos pais (ao verem cair por terra muito do que haviam ambicionado e construído para nós, através dos seus esforços e lutas).


Nós, os Millennials, somos uma geração fadada para a reinvenção, para os desafios e para a inovação, graças ao engenho e à arte de nos desdobrarmos sistemáticamente. Porém, é nosso o fado da "geração à rasca" - ou "rasca" como também nos designaram - que se viu a braços com a era dos recibos verdes, do desemprego jovem, da precariedade de trabalho, auferindo salários substancialmente mais baixos do que a anterior geração (para as mesmas funções). Uma geração sem horários e escrava do medo de não corresponder ao que é esperado por parte do empregador, embora consciente de que 6 meses de vínculo não lhe garantem fixação. Uma geração que conhece o sabor amargo da falsa independência e dos obstáculos, quantas vezes intransponíveis, que se lhes colocam a cada nova tentativa de conquista da independência, por exemplo, na aquisição de habitação. (Se há os acomodados, há os que aos 30 anos ainda não reunem garantias essênciais para abandonar a casa dos pais, seja por falta de condições económicas e profissionais para contrair crédito, seja pelo preço crescente da habitação, ou pelos valores praticados no mercado de arrendamento).
Diz-se, frequentemente, que não colocam alma e risco naquilo que fazem e que se propõem fazer, sendo esquecidas todas as marcas que trazem, todos os tombos, todas as nódoas negras ainda visíveis e todo o receio que os domina, fruto de vivências dolorosas. Diz-se que planeiam demasiado, que não arriscam sem ponderar excessivamente, que vivem o seu presente com restrições que lhes impedem o salto... mas, e todas as quedas, faltas, carências, dificuldades vividas, cujas marcas permanecem?


Foi violento o nosso começo de vida e violento serão os próximos tempos. Se há estudos que afirmam que são precisos dez anos para superar os efeitos nefastos de uma crise, "por azar" iremos precisar de vinte, ou não estejamos a falar de duas crises extremamente violentas num curto espaço de tempo. Vinte anos de uma guerra interior e sofrida, de aflição e momentos de dúvida e privação, vinte anos de dependência de outros (hajam pais), vinte anos de incerteza, de quedas consecutivas, de precariedade, desemprego, fome, de vida adiada de futuro hipotecado. Vinte anos...


"É inédito" e não somos "rascas", tão pouco filhos do "azar". Somos a geração que nasceu da mudança e para a mudança, onde habitam sonhos, horizontes, desejos e metas... novamente comprometidos.


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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

10 notas sobre as Presidenciais

1- Não existe meio milhão de fascistas em Portugal. Isso é utópico.


2 – Do eleitorado de AV, uma percentagem significativa não provém de fieis seguidores, do fanatismo pelo líder, da inflexibilidade extrema e ideológica, nem dos menos capacitados para a análise e conhecimento que facilmente se deixam levar pelos discursos fáceis e ideias feitas à medida dos seus destinatários. Uma grande percentagem dos votos de AV provém da falta de alternativa política, de uma direita coxa e que desagrada aos seus militantes, da ausência de candidato PS ou apoiado pelo partido (sobre o qual recairá sempre o peso de ser um fundador da Democracia, recaindo também, sobre o mesmo partido, a responsabilidade de não ter apresentado qualquer candidato numa altura crucial para o país e para a sua Democracia), alguns votos de protesto e muitos provenientes de uma esquerda desgastada que tem vindo a deixar os seus territórios de força e históricos votados ao abandono e à descrença.


3- O resultado de Ventura, conseguindo o segundo lugar em 12 dos 18 círculos eleitorais, é demonstrativo do desagrado português, face às políticas instituídas, ao exercício do poder governamental dos últimos anos, ao abandono do interior do país, à constituição, organização e inflexibilidade dos partidos existentes, dos jogos de interesses, das coligações afáveis e ausência de oposição firme, entre outros aspectos que todos conhecemos. Um resultado que faz pensar e a isso nos obriga (finalmente?)


4- AV é um estratega, malabarista e inteligente. É, muitas vezes, o próprio e o seu contrário. Perigoso, também. Mudará a sua estratégia quantas vezes isso lhe vier a ser mais conveniente. Num cenário de legislativas, vejo-o numa aproximação carinhosa a Rio. Não o vejo, porém, a fazê-lo com Passos, assim decida regressar. O perigo não reside no seu fiel eleitorado, mas sim nos restantes, que como sucedeu ontem, procuram a alternativa ou o protesto, sem que seja possível medir a consequência da escalada de eleitores silenciosos. Esses sim, poderão colocar o partido no poder, ou com algum (demasiado) poder. Cabe aos restantes partidos reflecir, inverter caminho, corrigir erros e olhar para o seu eleitorado de forma digna e respeitosa, a fim de evitar outros males (irreversíveis).


5- A derrota é da esquerda, mas o PSD não pode reclamar a vitória de MRS, dado este ter sido eleito num cenário de igualdade de votos vindos do PS e PSD. À direita urge restruturação.


6- Não se combate o extremismo, seja ele qual for, com insultos ou força. Antes, com educação, respeito, literacia, educação, acesso à cultura e ao conhecimento, com transparência, verdade, combatendo a pobreza e estando presente sem atacar o espaço alheio. Só desta forma será possível, aos indivíduos, pensar e ter bases para reflectir e concluir sobre aquilo que consideram ser o seu caminho, ideias e ideais.


7- Vergonhoso foi verificar durante toda a campanha, insultos de parte a parte, à excepção de MRS. O exemplo é contagioso.


8- A respeito do Alentejo, mantenho a opinião escrita no post anterior. Tal como as redes que financiavam o PCP se sediavam no Alentejo, a grande rede que financia AV também aqui se encontra sediada, permitindo que a região lhe sirva de base estratégica e de fortaleza protectora. A força impulsionadora é relativamente fácil de conseguir por aqui. Isto permitirá um fortalecimento para galopadas maiores num futuro próximo, rumo ao domínio do interior do país. (Que bastante fustigado se encontra).


Ainda sobre redes, e apenas para clarificar, todos sabemos onde se encontram aquelas que financiam partidos maiores. Não é novidade que sempre existiram, existem e existirão.


9- Ana Gomes foi a mulher mais votada de sempre em eleições presidenciais em Portugal.


10- Escusadas serão as tentativas de conexão da minha pessoa a qualquer que seja o partido, porque como diz a minha mãe “o partido da Rita ainda não existe”. Cuidem-se e não se maltratem gratuitamente.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Vento

Nestes tempos conturbados, ousei lançar um livro. Um livro que fala de Liberdade, nas suas mais variadas formas. Do querer ao não querer, do fazer ao não fazer, de ficar ou do seu contrário; Liberdade de pensamento, de expressão, de escolha, de gostar ou não gostar, de vestir, de escrever, de ser.


O Vento conta com um prefácio delicioso do meu querido e Amigo Bruno Ferreira: conhecido humurista, apresentador, actor, cronista entre outras facetas.


Face a todas as contingências do panorama editorial nacional, restrições e proibição de venda física de livros, a aquisição apenas poderá ser feita através do link: https://www.velhalenda.com/p/vento/


Agradeço a todos quantos partilharem e reservarem o meu livro, com o forte desejo de que lhe sintam a Liberdade por dentro! ❤️


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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

'O Silêncio' de Pablo Neruda

Agora contaremos até doze
e ficaremos todos quietos.
Por uma vez sobre a terra
não falemos em nenhum idioma,
por um segundo nos detenhamos,
não movamos tanto os braços.


Seria um minuto flagrante,
sem pressa, sem automóveis,
todos estaríamos juntos
em uma quietude instantânea.


Os pescadores do mar frio
não fariam mal às baleias
e o trabalhador do sal
olharia suas mãos rotas.


Os que preparam guerras verdes,
guerras de gás, guerras de fogo,
vitórias sem sobreviventes,
vestiriam um traje puro
e andariam com seus irmãos
pela sombra, sem nada fazer.


Não confundam o que quero
com a inanição definitiva:
a vida é só o que se faz,
não quero nada com a morte.


Se não podemos ser unânimes
movendo tanto nossas vidas,
talvez não fazer nada uma vez,
talvez um grande silêncio possa
interromper esta tristeza,
este não nos entendermos jamais
este ameaçar-nos com a morte,
talvez a terra nos ensine
quando tudo parece morto
então tudo está vivo.


Agora contarei até doze
E você se cala e eu me vou.


- Pablo Neruda - 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Diz que é uma espécie de confinamento

 


Tem vindo a ser anunciado, de forma não oficial, mas oficiosa - garantindo a antecipação necessária à preparação de cidadãos e empresas - uma espécie de novo confinamento, em tudo semelhante ao de Março, Abril e Maio de 2020, não fosse o facto de nesta nova modalidade as escolas poderem permanecer abertas.


À primeira vista, parece-me a mim - que não especialista me confesso - que com cerca de milhão e meio de estudantes a circular, a que se juntam a classe docente e outros funcionários dos estabelecimentos de ensino, que não se tratará, por certo, de um confinamento, mas de uma espécie derivada do mesmo. Não se reduzirá o contacto próximo entre alunos dentro e fora das escolas (não sejamos assim tão ingénuos), pelo que o risco de contágio não sofrerá a redução que um período de confinamento pressupõe.
Serão necessários transportes públicos, onde as regras de higienização e distanciamento não serão as mais fáceis de cumprir, mas também serão necessárias deslocações familiares. Logo, mais uns milhares de portugueses a circular.


Por outro lado, confessando-me ignorante na matéria, fico com a leve sensação de que a tomada de posição do governo e dos parceiros sociais, no que à escola diz respeito, se deve ao tempo perdido e ao atraso da Transição Digital no sector, embora, para que tal acontecesse, tenham sido anunciados 400 milhões de euros, "em grande parte enquadrados no Plano de Recuperação e Resiliência (no qual se anunciaram 538 milhões de euros para as escolas)", segundo o Jornal Público.
A mesma fonte avança ainda que a "realidade é que os primeiros kits tecnológicos para os alunos mais carenciados chegaram à generalidade das escolas com o 1.º período a finalizar e em quantidade insuficiente" e que "só este mês está a arrancar um Plano de Capacitação Digital de Docentes", onde estaria prevista a disponibilização de equipamentos individuais ajustados às necessidades e acesso a conteúdos digitais de qualidade. Mas... nada disto aconteceu.


Atrevo-me então a questionar o que é que andámos a fazer desde Março passado até ao momento, e o que é que aprendemos com a catastrófica realidade do ensino em Portugal nesta pandemia. Talvez anular o ano lectivo seja um fardo que nenhum governo queira carregar, contudo, volto ao atrevimento de questionar, que futuro?


Não será novidade que a grande maioria da população portuguesa se verá novamente impedida de trabalhar, sendo que, alguns, ainda nem retomaram a sua actividade (!!!). O lay-off a 100% já se encontra aprovado, assim como várias outras medidas de apoio às empresas, ainda por revelar. Recorrendo à futurologia, será de prever novo boom de despedimentos, o prolongamento das moratórias e um avolumar da bola de neve, cada vez maior e mais pesada, capaz de engolir um país.


Segundo fonte do governo, estima-se que as quebras de rendimentos no sector privado no primeiro trimestre de 2021 rondem os 4 a 7% do PIB, o que a mim não me espanta. Espanta-me sim, um ano de inactividade dos serviços públicos - sem cortes nem penalizações - , sector que, sabemos, não gera riqueza, enquanto os privados se vêm, mais uma vez, a braços com a responsabilidade, o dever e o sacrifício de reerguer um país, qual fénix a renascer das cinzas.


Já vai longa a conversa, mas não quero deixar de salientar a irresponsabilidade atroz e primária da sociedade, que tudo tem deitado a perder com o seu comportamento egoísta e desinteressado, mas também não quero deixar de referir a falta de transparência dos nossos governantes no que à evolução pandémica diz respeito, assim como a falta de coragem para que se impedisse um Natal à larga e sem as restrições. Restrições essas que agora se extremam (embora António Costa assuma que não pecam por tardias).


Os hospitais estão lotados, os óbitos aumentam de dia para dia, a capacidade de resposta a outras patologias é cada vez menor, os cuidados de saúde não chegam a todos e muitos morrerão (sozinhos) por falta de assistência e camas.
A solidão dos mais velhos é avassaladora e o sentimento de abandono cresce; dele padece quem se vê privado do carinho e da presença dos seus, no (pouco) tempo que lhe resta de vida. O que, queiram desculpar-me a sensibilidade, é de uma violência lancinante.


Mas existem as excepções, os pagamentos de favores e as incongruências dos nossos governantes. Assim como existem, nas várias comunidades, as festas privadas, os ajuntamentos em época festiva, as grandes almoçaradas e jantaradas, o egoísmo, a irresponsabilidade e o desrespeito pelo próximo. E tudo isto se paga caro, muito caro.


Que futuro?

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...