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domingo, 21 de dezembro de 2025

Os outros, nós e a empatia

🖊 Estranhos são os tempos que atravessamos, onde a capacidade empática parece assumir o comando das habilidades a desenvolver, para que nos mantenhamos à tona e possamos auxiliar outros nesse processo.

Falar de empatia é, muito provavelmente, falar de uma das funções mais importantes da inteligência humana, intimamente relacionada com a maturidade de cada um e com a gestão das emoções.

Ser empático é poder usar a capacidade de abertura para conhecer a realidade do outro e conseguir intepretá-la, assim como compreender tudo o que é comunicado e expresso através de palavras, ou de formas de expressão não verbais. Não é necessário que se tenha, em algum momento, experienciado, sentido ou vivido um capítulo idêntico, é apenas necessário estar disponível à conexão.

Sem praticar o julgamento precipitado, um ser empático procura auxiliar e compreender o comportamento alheio, em fragilidade, conseguindo estabelecer entre o próprio e o outro um equilíbrio entre aquilo que dele se espera e aquilo que esse alguém lhe poderá, efetivamente, oferecer. Colocar-se no lugar do outro, por outras palavras; o que não é tão fácil quanto possa parecer, embora nos seja, diaria e repetitivamente, imposto.

Ao longo da História, a humanidade sempre evidenciou dificuldade em lidar com a diferença, criando, nas sociedades onde se insere, lugares cativos que crê serem apenas destinados a outros, desde logo às minorias. Por consequência, tanto a alteridade como a empatia, por serem habilidades complexas com necessidade de desenvolvimento e trabalho ao longo da vida, dão lugar à facilidade e à necessidade recorrente de classificar cada qual nesse seu lugar diferente.

E que lugar é esse? É o lugar dos fracos, da mulher, dos pretos, dos brancos, dos homossexuais, dos inválidos, dos inteligentes, dos menos dotados, dos doentes, dos loucos, dos diferentes - resida a diferença naquilo que for.

Para que nos seja possível a colocação num outro lugar, que não o da nossa situação e condição, é-nos absolutamente necessária a abertura, a consciência e a racionalidade. Sem elas nunca nos será possível o auxílio, a compreensão de comportamentos, sentimentos e emoções.
Com clareza, não nos será possível saber nada a respeito de experiências que não foram por nós vivenciadas. Todavia, será sempre possível estar disponível a acolher e ouvir a experiência do outro, permitindo que a pessoa se mostre como é e seja quem ela é, aceitando que os resultados das acções e das experiências dependem de vectores diversos com influência no nosso caminho e não apenas de factores individuais, como a responsabilidade pessoal e a determinação.

E se fosse contigo?

 

terça-feira, 7 de maio de 2024

Saber Perder

Na sociedade actual a aceitação e a tolerância ao erro são cada vez menores. Saber lidar com a frustração da derrota tornou-se, por isso, uma das nossas maiores lacunas estando ela, no entanto, presente em múltiplas situações da nossa vida.

O “estar bem” deixou de ser um caminho pessoal para se tornar uma imposição social.

As fragilidades do ser humano deixaram de ter lugar, assim como a consciência de que somos falíveis, de que erramos, choramos, sofremos, passamos por dificuldades num ou noutro momento, de que a tristeza é tão válida quanto a alegria e não acordamos nem adormecemos perfeitos, tão pouco 100% realizados e sem quaisquer problemas na vida.

Nas redes sociais multiplicam-se os discursos e a montra das vaidades, e as livrarias estão repletas de livros que nos querem ensinar a ganhar, a ser melhores, a atingir um determinado patamar de vida e financeiro (quantas vezes utópico), a ser heróis, a formar a família perfeita ou a construir a relação ideal... por entre páginas e páginas de relatos e histórias de vida nem sempre reais.

É esta "falsa felicidade" que tantas vezes cria, em quem assiste, um sentimento de inadaptação ao meio, frustração por não conseguir atingir determinados patamares de plenitude, objectivos que parecem tão fáceis de serem alcançados, desalento por não se ser tão bem sucedido quanto outros, o sentimento de culpa pela falta de realização pessoal e por falhar no caminho para a aceitação, segundo parâmetros que a mim me parecem questionáveis.

De facto, são mais os livros que visam o ensinamento da vitória, do que aqueles que nos ensinam a lidar com a frustração da derrota ou insucesso, fazendo-nos pensar e motivando a acção (ao invés da pacividade de nada fazer perante exemplos pouco reais de vencedores que no fundo sabemos não poder igualar).

Realisticamente falando, durante a vida, são muito mais as vezes em que perdemos do que aquelas em que ganhamos, sendo que o primeiro passo para manutenção do equilíbrio, deverá passar pela aceitação da realidade dos factos. Só essa aceitação nos alimentará a paz interior.
Porque qualquer que seja o nosso insucesso, a lição passará sempre por aprender com ele, utilizando o acontecimento como oportunidade de melhorar em prol do crescimento pessoal. Nunca a falha deverá ser sinónimo de derrota, mas sim de transformação.

Porém, à velocidade estonteante a que a sociedade (sobre)vive, preferimos os "falsos" resultados a curto prazo (ou movediços), do que aprender a traçar metas reais e mais consistentes a longo prazo, sob a ameaça dos ventos contrários e percalços no caminho. Mas, trabalhar nessas metas, aprendendo a respeitar e a aceitar o tempo de cada etapa, assim como retirando dos tomboas a devida lição, vai ser o que nos permitirá saborear, algumas vezes, a leveza da realização.

Porque já dizia Lavoisier: "Na Natureza (tal como na vida) nada se perde, tudo se transforma."

 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

É Preciso

Entre o que vem e o que vai, a vida acontece. Sem romantizar nem dramatizar, é-nos necessário enfrentar a imprevisibilidade do caminho.

Nem sempre a direcção é certeira ou linear ao nosso propósito, mas sair do lugar, criar movimento, ter atitude e determinação é fundamental quando se pretende mudança.

É essencial arriscar, vencer a dúvida, enfrentar o medo e explorar o desconhecido. É necessária coragem de viver, ousadia para tentar, determinação para acreditar e vontade para fazer. É necessário sair da zona de conforto e abraçar o desconforto da possibilidade da evolução, embora dolorosa. É preciso cair para aprender a erguer e voltar ao caminho. É preciso focar, não fugir do processo, não adiar, nem assumir o conformismo, a vitimização ou a derrota - ainda antes de começar. 

É imprescindível ser honesto consigo, traçar metas atingíveis, ultrapassar obstáculos, ser mais forte do que a desculpa, quantas vezes âncora das situações. 

É fundamental sonhar, criar compromissos, trabalhar o equilíbrio, encontrar a paz e olhar além. Aprender com as quedas, encarar os tropeços e utilizar a aprendizagem como veículo motor da transformação pessoal.

É crucial saber o que se quer, sendo tão ou mais importante ter perfeita consciência daquilo que não se quer - e atuar em conformidade.

É importante parar, tirar um tempo, fazer balanços e acertar a rota. Adiar as não urgências e focar no que é efetivamente importante.

Se, por vezes, existem períodos em que somos obrigados a adiar um dos lados da nossa existência (pessoal, emocional/sentimental ou profissional), por motivos diversos, outros há em que o tempo escasseia e a entrega e dedicação imperam.

Porque os timings são um axioma e a vida é quase nada, feita de fragmentos de quases, de pequenos muitos e de muitos nada; sendo nossa a responsabilidade do valor que atribuímos a cada um.

Tão importante quanto saber determinar a hora sair de cena é saber puxar da coragem na hora de abraçar o novo. 

 

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sábado, 5 de agosto de 2023

Cerca-te de pessoas que te inspiram

Pessoas. Terás sempre pessoas ao teu redor. As certas e as erradas.


Serás levado a aprender a escolher entre quem te vai influenciar positivamente e entre aqueles que pouco ou nada te acrescentarão. Serás, também, impelido a compreender quem são as pessoas que te elevam e quem são as te enfraquecem.


Chegará o dia em que sentirás necessidade de te rodear de pessoas mais inteligentes, sentir a atracção da energia positiva, motivadora e gratificante, capaz de acrescentar valor e transformar a forma como encaras a vida.


Pessoas que te elevam, te desafiam e estimulam, pessoas que te aguçam o pensamento e a sede de conhecimento, gente que te cativa, motiva e se constata  lufada de ar fresco. Pessoas com a capacidade de te fazer olhar para o mundo de forma diferente, idóneas e de bom caráter. Pessoas cuja presença é um contributo para que te possas tornar, a cada novo dia, alguém melhor.


Pessoas que sabem utilizar tão bem o cérebro, quanto o coração. E estão contigo, e por ti, sem qualquer obrigação!


Estas são as tuas pessoas. Fundamentais para o teu crescimento e desenvolvimento pessoal. Para que a tua inquietude seja uma característica construtiva e jamais te impeça de respirar fundo e enfrentar os desafios naturais da vida.


São, também, quem te fará aprender que aquilo que recebes não será mais do que o eco daquilo que emites. E que os locais que frequentas e o teu ciclo de influências interferem directamente com o teu astral.


Quem queres ser? Quais são os teus sonhos e metas?
Quem são aqueles que contribuem - sempre! - para lá chegares e quem são os outros, aqueles que te desviam do caminho, ou se ausentam nos momentos mais críticos?


Cabe-te a ti escolher as pessoas com quem te relacionas e saber atribuir-lhe o grau certo de importância e influência na tua vida.


Cabe-te a ti saber escutar o coração, mas é também teu dever saber ouvir as vozes certas. As que te dizem o que precisas de ouvir e não aquilo que gostavas que te dissessem.


Porque há quem por ti passe, tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.


Post para Instagram frase motivacional citação _


 


 


 


 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

A Possibilidade dos Recomeços

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Na vida existem - e sempre existirão - períodos de mudança e transformação. À semelhança da transição entre estações do ano, também as etapas do nosso caminho são varridas por tempestades de inverno, ou abençoadas pelo florescer da beleza tranquila da primavera. O vento leva o que já não não acresce ou não nos serve a partir daí, e a chuva lava e purifica o que fica, preparando-nos para o período fértil dos recomeços. Das sementes que à terra deitarmos, nascerão as flores que nos acompanharão no caminho. E os sonhos, alimentados pelos nossos pés, beberão da leveza e da certeza que é por ali a estrada.


Cada um de nós é uno, mas os ciclos da existência individual não são tão díspares quanto possamos imaginar. Só a postura perante os factos e a inteligência emocional diferem, determinando tempos e modos de atuação, naturalmente diferentes.


Adiar mudanças, por um ou outro motivo, é comum. Mas existem aquelas que são necessárias, que sabemos serem a base para a nossa estabilidade, felicidade, bem estar. Estas, quando adiadas, vão abrindo espaço ao vazio, à tristeza, à ausência de realização pessoal, conduzem a perdas diversas no caminho e vão-nos consumindo até deixarmos de ser quem somos... no limite.


Não é fraqueza. É a vida a obrigar-nos a mudar.


Frequentemente, ao longo de um período demasiado extenso, afirmamos que o lugar onde nos encontramos não é o nosso lugar. Ajustamos as velas, mas não alteramos a rota. Até ao dia em que o casco onde navegavamos - e que nos faz - não suporta a última tempestade e afunda. Naufragada a vida, ficamos nós e o pouco que resta, à deriva, até que o mar nos devolva à terra.


Exaustos, paramos, pensamos e alguns agem.
É tempo de se ser criador de si mesmo. É tempo de efetivar mudanças. É tempo de retomar rotas anteriores e certas ou de iniciar novas estradas. É tempo de aceitar os lugares onde somos felizes, mesmo que a quilómetros de distância daquilo que pensámos ser. É tempo de procurar a leveza e o sorriso, abrir janelas ao sol e voltar a ser quem se é. Tudo o mais, o tempo e a verdade farão, garantidamente. Porque ela, a verdade, não poderá ocultar-se longamente.


Em  nós, ficará tudo o quanto for leve, simples e verdadeiro (mesmo que mais adiante, porque é sempre necessário reflorescer).
O lugar onde me encaixarei não é, de todo,  aquele onde presentemente me encontro. Mas sei-o adiante. E é para lá que me dirijo.
Por vezes, deixar capítulos para trás é o caminho certo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Normalidade

Aquilo que mais receio no mundo é a normalidade. Dentro dela não existe progresso. Nada é mais perigoso do que a benevolência e anuência de uma sociedade, perante factos, comportamentos, acções e acontecimentos entidos e tidos como normais, num decurso transgressor e imoral da história (de um país, de um clube, de um partido, de uma instituição ou organização, de uma entidade ...).


A normalidade não incomoda, sendo esse o motivo pelo qual se aceita e institui.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Não me seduzem os velhos e hipnóticos cantares de sereia

Nunca a superfície do real me cativou. Ostentação, poder, riqueza, plateias, elites ou interesses de ordens diversas. Antes, sou atraída pelo que diáriamente construímos e alimentamos em nós, nos outros, mais dentro, em lugares mais profundos onde a vista não alcança. Laços. São eles que me atam ao que sou e me enlaçam ao que são (os demais, entenda-se). Lealdade, amor, respeito, fraternidade, confiança, amizade, solidariedade, tolerância, empatia, partilha e procura de tudo o que só esse caminho nos oferece. 
Bem sei que a superfície nos chama, mas ensurdeço para o mundo sempre que a realidade é rasa. 
O silêncio, esse, profundamente me envolve e completa. E e lá que tudo o que profundamente se sente, existe realmente.


Não me seduzem os já velhos e hipnóticos cantares de sereia.


 



 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Transumância

Sempre que se apresentava à vida, tinha os sonhos no porão e a viagem por fazer. Chegava cansada. O caminho que a levava nunca, a cada paragem, a retornava a si. Eram sempre partidas - que as há de ir, de corja e de quebra – e assim o eram, entre o destino e o desejo de chegar. Conhecia-lhes somente três passos, esses primeiros, ao início do desvio – D E S. Meia vida, meia palavra, meio caminho. Pela metade, sempre pela metade.
No bolso o mundo, na mente o mais, no peito a ferida. E o peso. O peso de não levar, leves, os sonhos pela mão.
Transumante, diante das paisagens sobre si, seguia. A busca, a estrada, a crença, o futuro e o pão. O livro de páginas secas, salgado o olhar de mar revolto. O sangue, as pedras, as chagas, as noites ao nascer do sol, a luz silvestre das flores sós, o caminho, o caminho, o caminho…
Sempre que se apresentava à vida, era outra, mas sempre igual. Os anos, diziam-lhe, não lhe passavam pelo rosto, pelas mãos, pelo corpo. [Mas, “Quem é por dentro outra pessoa”?]
Chegava sempre cansada a lugar nenhum, com a mala no porão e a vida por viver. Ela por se ser. O Futuro por nascer.
Sobre os quilómetros de luta, o ranger dos passos em soalho de pressa e o silêncio… [“Quem é que o saberá sonhar?]

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Eles não sabem...

Dir-me-ão quão estranha me consideram, ou apenas diferente. No ser, no estar, nos gostos e interesses pessoais, na intensidade do que sinto e como sinto, na simplicidade com que visto o coração e a alma inquieta. Dir-me-ão quão estranha sou, ou apenas diferente, sempre que não me compreenderem as palavras ou até, quiçá, os silêncios. Dir-me-ão, porém, que "o sonho é uma constante da vida", mesmo que nela não trajem as palavras do Poeta. Bem sei, sabendo também que mo dirão, que oiço, leio e penso fora da minha geração: por vezes antes, outras depois, mas sempre eu... no lugar onde estou, me considero e me sinto pertencer. Sejá lá quão estranha ou diferente for...
 
Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer
Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança

 

 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Vezo Cotidiano

Giramos. Todos os dias rodamos sobre nós próprios. Dia e noite, noite dia, ciclicamente enquanto a terra não nos devora e o disco que somos não deixa de se ouvir.
Ouvimo-nos?
Giramos...
Observamos quem gira em redor.
Giramos...
Voltando sempre ao início da faixa exordial.
Rodamos sozinhos, nesta solidão rotineira que nos consome, apenas fazendo sentido quando nos cantam, quando nos tocam, quando nos ouvem, quando nos sentem.
Giramos em roda viva reinventada, desde o nascimento até à morte. Esse é o espaço que somos.
E tocamos. Tocamos até que o cansaço nos vença, que a vida não passe de um vinil riscado, que as notas percam o sentido e nada mais em nós ecoe que não o desgaste.
Ou tocamos harmoniosamente, rodopiando para sempre no coração, espaço-casa, de quem seja capaz de dançar por nos ter.


Do imediatismo da vida, valha-nos quem nos aconchegue os acordes desta ádvena existência.


 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

terça-feira, 5 de maio de 2020

Desconfinamento


Vamos, devagarinho, no gerundio dos dias, caminhando... 
Para que a pressa não nos interrompa a acção.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Tudo nos é necessário

São-nos necessários alguns anos, lutas, chagas e tropeços para compreender que a nossa maior riqueza é a evolução, o sentimento de realização e a paz que isso nos tráz.

Da mesma forma, são-nos necessários alguns capítulos de vida para que possamos atingir uma certeza fundamental: a maior pobreza é a de espírito e a necessidade de afirmação pelo lado material. Não,  não é ao acaso que todos conhecemos a expressão "existem pessoas tão pobres que a única coisa que têm é dinheiro".

O caminho, mais ou menos sinuoso, vem ensinar-nos que a maturidade é saber valorizar cada conquista e o sacrifício a ela inerente, agradecer cada obstáculo e as lições retiradas dos momentos mais difíceis. É saber valorizar apenas e só o essencial, o leve, o verdadeiro e puro, o que se faz sentir e que, por isso, faz sentido. É saber seguir a direção certa e o caminho da verdade interior. É saber fazer o certo e ser, amanhã, melhor do que hoje. É seguir o fluxo sem o desgaste de lutar contra a maré, porque com o tempo tudo se acerta.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Primaveras

Amanhece turquesa, o dia. Ou assim se mostra o céu do que vejo adiante. As nuvens, com pressa, abrem espaço aos raios de sol do caminho que desperta dos meus passos atrasados. Não estou p'las cortesas ruas da cidade. Tão pouco nos bucólicos trilhos verdes do campo. Estou a meio caminho, onde é incerta a estranheza de tudo o quanto ainda está por fazer . Estou nos espaços em branco e encontro-me, com frequência, na esquina doce do silêncio, ou na mais ensurdecedora agitação do pensamento. Ao fundo corre um ragato de sonhos. (Em mim).
Só vou por ali...
Entre o que fui e o que serei, estou. Sou.


Se são 30 as primaveras, talvez seja eu flor mediana neste jardim da vida.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Sobre o Amor...

... (nos dias de hoje)

Já quase ninguém quer amar. Quer-se apenas estar, conhecer melhor alguém ou conhecer alguém melhor; quer-se explorar algo que nos desperta interesse ou quer-se somente companhia; quer-se a aparência de não se estar só, alguma partilha (mas não uma partilha por inteiro) ; querem-se sorrisos, mas sem despertar sentimentos; quer-se conforto e segurança, mas sem se estar realmente lá. Querem-se domingos aconchegados, ou fins de semana bem passados, mas sem exceder o convívio semanal. Querem-se palavras de carinho por mensagem, mas nunca os telefonemas sem motivo a meio da noite, quando o pensamento desperta e não adormece sem matar a vontade de ouvir a voz do outro lado:
- Estavas a dormir?
- Estava...
- Liguei apenas para te deixar um beijo. Dorme bem.

Quer-se, mas não se quer... Porque amar se tornou um exercício demasiado complexo e rebuscado, exigente e sujeito a regras utópicas, regulamentado por um código de ética e etiqueta social que nem sempre se encontra ao nosso alcance.

Lê-se aqui e ali que o amor é cor-de-rosa, mágico e perfeito. Que os casais deverão comportar-se como principes e princesas, roçando a perfeição enquanto individualidades e enquanto casal.
Retratam-se as relações como tamanho brio, que qualquer discórdia de ideias deverá ser confitada para não azedar. O amor, nos dias que correm, transformou-se num prato gourmet (não sendo, por isso, servido em todas as mesas, tão pouco acessível a todos).

Mas a magia não é nem está no amor. Está naquilo que se faz do amor, com o amor e pelo amor.
Porque o amor não está no que se mostra ou possui, no estatuto social, num acto de conveniência ou na necessidade momentânea. O amor está no que se sente e se faz sentir. O amor está em se acordar despenteado e não existir preocupação em que nos vejam ao natural, está nas olheiras das noites mal dormidas, está nas preocupações diárias, ou no beijo de bom dia antes de se lavar os dentes. Está no abrigo do abraço roubado. Está em não se ter vergonha do outro, nem de parecer tolo aos seus olhos... Está na indiferença após um dia conturbado, na discórdia e na discussão, em chorar ou chamar a atenção, em enraivecer ou pedir mimo, em conversar sobre tudo e nada, ou no acto de ficar em silêncio. Está no endoidecer, no entristecer, no desencanto e desalento, na desilusão... Em todas as cedências e pedidos de desculpa (com ou sem motivo ou razão). O amor está no café e no filme de sexta-feira à noite, no presente sem motivo, numa festa ou nas loucuras conjuntas de uma noite de copos entre amigos.

O amor está no olhar disfarçado, no sorriso rasgado, no beijo roubado, na presença que nos fascina ou incomoda. Está na falta de coragem para arriscar ou seguir em frente. Está no cheiro da almofada, na camisola emprestada, na carta rasgada... Está nos segredos da madrugada...
Está no negar que em nós ele existe... e no outro também.
Está na simplicidade e é imperfeito, chegando, quantas vezes, disfarçado e sem aviso:
- Quando chegares avisa-me.
- Vai com cuidado.
- Agasalha-te.
- Estás bem?
- Gosto de te ver sorrir.
- Lembrei-me de ti.
- Como correu o teu dia?

Hoje em dia temos à disposição uma multiplicidade de opções e tentações que nos conferem vastas experiências relacionais no curriculum. Tudo se tornou demasiado fácil, fútil, efémero e igual e, por isso, pouco interessante.
Mas, por maior e mais variada que seja a oferta que a vida nos apresenta, não sei se existirá algo melhor do que adormecer nos braços (figurados ou não) do amor. E com o amor a morar em nós...

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Por dentro

Vês-me, à porta de um lugar qualquer, de olhos fechados, sentado no prolongamento dos minutos que te separam do coração.
No silêncio das mãos, que evitas estender, guardas-me em memória, num abraço quente e tardio.
Faz frio, à tua porta... coração com passagem para lugar nenhum.
Vês-me, mas não me olhas.
Claro que ainda tens medo de que eu te entre pelos olhos!

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A Fuga da Intimidade da Descoberta Lenta

Apressadamente, assim queremos que seja, assim vivemos, assim sentimentos, assim nos vamos sendo. 

Já nada em nós se demora, tão pouco nós nos demoramos lá fora, nos outros, em conversas, em almoços, em trocas de ideias ou em lugares por onde passamos tão rapidamente que se esgota a paisagem em segundos. É nossa a fugacidade. É nossa a efemeridade. É nossa a pressa de não chegar a lugar algum onde possamos parar, estar, sentir, usufruir, partilhar, encontrar, conhecer, amar, dividir, somar, sonhar, viver...
Tudo acontece demasiado rápido, sem tempo para ser ou cultivar recordações. Passa tudo por passar. Também nós assim passamos, sem que impere a necessidade de nos darmos a conhecer, de parar, de nos reconhermos a nós, de nos podermos encontrar sempre que, por um motivo ou por outro, nos distanciamos do caminho. Na ânsia pelo momento seguinte, quem somos agora?

Rapidamente: assim se definem as novas relações com os lugares e com os outros.

Perdemos a intimidade da descoberta lenta, da simplicidade, do arrebatar dos sentidos, da surpresa seguinte, da nudez do momento que, imóvel, nos desnuda também. Os corpos já não se conhecem, porque é preciso partir amanhã. A alma já não amanhece, porque à luz do dia o encanto é maior. As mãos já não se entrelaçam, porque distância é segurança e o acordo não é ficar. A vida já não surpreende... Queixamo-nos, mas somos nós quem não quer ser surpreendido. Queremos, apenas, em número e velocidade, as coisas a passar e a acontecer "ao longe".

Não temos casa, nem somos casa para ninguém. Fizemo-nos apenas muros, portões fechados e fortalezas.
Não somos felizes, nem aparentamos infelicidade. Na pressa do tempo que nos consome, não somos ninguém, nem para ninguém.

Sabemos que no fim, quando o tempo escassear, aquilo que nos resta será somente a capacidade de ter estado, estar e permanecer nu perante a vida, assim como o resultado da vida em nós. Porém, perdemos ou abdicamos do tal "qualquer coisa mais que nos acrescente", como seja a possibilidade da intimidade da descoberta, aquela que poderíamos ter desfrutado nela e com ela, calma e demoradamente...

sábado, 3 de agosto de 2019

Nas contas da vida

Ao início tudo se SOMA:
os amigos, os sonhos, as festas, as experiências, as emoções, as paixões, as ambições, os vícios do que, na altura, temos por prazeres, as celebrações, os amores e desamores, os lugares…

A vida celebra-se diariamente, assim como a idade, até ao momento em que preferimos trocar a intensidade do fôlego com que apagamos as velas a mais, pela intensidade do sabor da liberdade da SUBTRAÇÃO, da paz, da alegria e do bem-estar pessoal.

Diminui o tempo dedicado a situações que, outrora, nos pesavam e nos retiravam tempo, espaço e disponibilidade mental. No patamar do "já pouco importa", o grau de importância dos nossos interesses sofre metamorfoses e tudo o quanto não nos acresce começa a perder lugar. Ao invés, aumenta o valor que atribuímos à capacidade de apreciar, de forma mais selectiva e apurada, o que de melhor a vida tem para nos oferecer.

As pequenas coisas conquistam um espaço maior e um lugar especial em nós, sendo que, até nos dias mais pequenos, se começa abrir espaço para que caiba muito do pouco que realmente valorizamos: a partilha, as boas conversas, as pessoas certas, os verdadeiros amigos, a compreensão e aceitação da sinceridade das emoções e sentimentos, os passeios, os lugares que nos fazem, os afectos, os hobbies de que gostamos, os livros de que precisamos, as músicas onde viajamos, os filmes, os jantares ou almoços onde nos demoramos o tempo suficiente para degustar o que de mais simples e genuíno a vida tem para nos oferecer.

Porque no final, quando o tempo escassear, o que nos resta é a capacidade de poder ter estado (estar e ainda poder permanecer) nus, perante o lado mais puro da vida.

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O resultado da subtração tem agora, em nós, um valor superior ao da soma.

 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Reflexão - 23

Um passo, depois outro e outro ainda, continuamente. Começar e prosseguir: é isto que traça um caminho.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...