sábado, 29 de setembro de 2018

Antes Existir

Passos frios,
de pedra em pedra, calçada
desgastada pelas solas do silêncio
amargo e profundo.


Mel no olhar derramado
lentamente, à passagem das mãos vazias
pelos dias.
Vai tudo dormir.
Ouve-se o reflexo da lua no mar
r e v o l t o. E o amor antigo 
que os cascos dos navios fazem 
com a tempestade.
Vai tudo dormir.
Os jardins descansam.
Cheira a melancolia.
Travo a estrelas cadentes.
Nos bolsos guardado,
enjeitado sonho taciturno...
passeio noturno
pelo calçadão da vida. 
Vai tudo dormir...
... quando, um dia, se abate
o lençol de pedra sem arte:



- Antes existir!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Falsos profetas e outras marionetas

Naquela manhã comum, todos se pareciam com bonecas de corda. Bem vestidos, cara lavada, cabelo escovado e alinhado, focados e rodopiando sem desvios em torno de si próprios.


Nós aplaudíamos - assim nos ensinaram - levados pela melodia das histórias feitas, ensaiadas e tão poucas vezes verdadeira e honestamente vividas. 
Vinte minutos era o espaço de tempo decorrido entre o puxar da corda e a vénia final. Na verdade, cada um dos oradores presentes a isso se resumia, vinte minutos de palco. E o que é um orador de histórias contratadas se não, apenas, o tempo que as demora a contar? Não nasceu antes, nem morrerá depois. Foi ali criado, aliciado pela nova tendência de debitar palavras emotivas. Sinceramente, não as entendo. Às palavras. Não aos oradores. Esses são de corda, como as bonecas, vestem a dança e morrem no instante em que falácia finda. Nem antes, nem depois. Exatamente ali.


 


No meu tempo enforcavam-se com palavras, é certo. Não sei se será a mesma coisa - corda por corda - mas julgo que sim.


 


Voltando às palavras, dizia eu que não as entendo. Deram em emotivas? Essas modas que agora seguem. Ali estão enquanto servem, usadas e abusadas por quem escreve e lê e por quem fala e ouve. Depois, cai a moda e abrem-se valas comuns onde se enterram as ditas, já desgastadas. Mas, tal como é costume nas boas modas, logo estarão outras de volta, aquelas que já anteriormente haviam sido usadas e que, mais adiante, voltarão sê-lo.


 


Das modas e das palavras já sabe que vão e vêm.


 


Fazem-me lembrar os namoros de hoje em dia. Já o disse à minha neta. Correm, correm, correm que se farta. Estão sempre cheios de pressa. Para chegar onde? Ainda não entendi. Todos se parecem perder pelo caminho. Quando voltam, já trazem outro pelo braço. Ainda a semana passada lhe perguntei se era ruim o piso do caminho de agora, tão coxos que os vejo do coração. É no que dão as pressas!
Namorados e oradores são todos bonecas de corda. Bem ensaiadas. Em vinte minutos, que é o tempo que tenho até morrer.


 


Derramem-me o castanho da capa de um livro por cima, deixem-no inundar a manta com que à noite me tapo e permitam-me cheirar a terra fértil molhada.


Não me fechem já o caixão! Ainda não! Quero a última dança. O meu palco final é castanho e a vida só dura vinte minutos.


 

sábado, 22 de setembro de 2018

(Des) ilusões

A sala está vazia, quase tanto como a fotografia do homem que não se revela.
Não entro. Não tenho espaço em lugares ausentes.
Uma certa estranheza, sinto que a vida não passou por ali.


Transborda uma história, por meia moldura ja cansada. Se a fixo, esvai-se num ápice, sem que o ângulo do instante ancorado em mim possua tempo e me recorde, página por página, o album que nunca se fez. Afinal, do enredo nu e vazio, só eu me vesti de verdade. 


 


O nada é lugar suficiente para arrumar as memórias que não se fizeram.


 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Olvido-te

Quero esquecer-me de tudo.
E varrer a caruma do caminho velho,
que a leva, em voo vazante e esquecido,
para lá da minha lembrança.
Quero esquecer-me da voz
que já não oiço, porque me mente:
eco displicente e taciturno
dos passos decompostos que te trouxeram.
Quero esquecer-me dos lugares que não existem,
senão mais no ensaio do que não foi.
E quero que a cinza, ardida a história,
se dilua nos braços das primeiras chuvas.
Inglória memória, para que te quero?
Arrasta-me, como a corrente do rio onde nasci,
para lá da margem que me atravessou o peito,
por punhal e rosas desfeito.
Quero esquecer-me de ti.


Quem és?


Se mais poder encerra a poesia do que as armas,
hoje é o esquecimento quem te leva para lá da poesia.


Olvido-te.


 


 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Do primeiro andar dos meus sonhos

Do primeiro andar dos meus sonhos, sobre o íntimo da manhã que se abre sobre as asas livres e flutuantes dos pardais, vai a minha esperança, por distância ao coração exposta, rumo aos lugares ainda sem nome, supostos ou por inventar; julgados impossíveis por quem ao peito não trás o querer das vertiginantes viagens infinitas, a que chamo acreditar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O Fogo, a água e a confiança

"Era uma vez... o FOGO, a ÁGUA e a CONFIANÇA. Entraram numa floresta escura e o fogo disse:


- Se eu me perder procurem o fumo, pois onde há fumo, há fogo!


 


A água disse:


- Se eu me perder procurem a humidade, pois onde há humidade há água!


 


Então a confiança disse:


- Se eu me perder não me procurem, pois uma vez perdida nunca mais me encontrarão. "

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Descansa agora desse teu crónico cansaço

O dia nascerá, e não serás ninguém.
Não te restarão, em mim, traços, sentidos ou memórias.
Serás como névoa pálida que se esfuma e desintegra,
e esvair-te-ás letra a letra, por entre a putrefação cadavérica
de cada uma das figuras do engodo,
tombadas às mãos da verdade. Vencidas.
Sem nome, nada serás!
Uma história anónima não se escreve,
não se faz, nem se vive.
De mim, irás ao nascer do dia virgem, como livro em branco, seco e velho,
que em poeira se desfaz.


Não serás ninguém!
Por tantos tais que em ti surgiam, ninguém soubeste ser.
Nada fica.
E o que vai, não chegou a ser
senão mais do que ilusão do meu querer.
Pinto-te transparente numa tela,
expondo-a na parede ausente da lembrança, e deixo-te lá, onde nem o tempo se recorda de o ter sido.
Descansa agora, desse teu crónico cansaço


de não seres mais que patranhas, de ninguém me seres,
de nada mais seres, 
porque...
O dia nascerá, mas tu não.

Uma história anónima não se escreve.

Não principia, não tem meio, nem fim. Inexiste. 
Como tu em mim. 
Como tudo em ti. 


 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Nas ruas manuscritas do meu peito

Como mortalha que avança e cobre a noite,
assim se estendem as ruas manuscritas do meu peito,
pelo rubro dos teus passos ausentes.
Tu que persentes quando me atraso ou adianto,
e à esquina do meu pensar, por espanto,
te insurges indecifravelmente só…
Onde estás?

Ardem até ao fim, as velas breves dos sinais, e o céu,
por estrelas rejeitado, não aclama por nós.
Invariavelmente sós, os teus olhos já não vêem
nos meus a ternura dos silêncios conjugados.
Calaram-se os sonhos, o carinho, o amor e a corrente de gente
que nos arrasta e desgasta, em pontas opostas de um mesmo laço,
pelo desalento do mundo.  
Onde está o teu abraço?

Reconheço-te nas pedras do caminho
a sombra da dilação;
a luz confundiu a aurora do teu coração cego
e sedento de alma. Basta-te nela, o toque frágil.
Sobrando-te, agora, o doloroso tacto da ausência.
Se a penumbra é carência,
acende-me outra vez!

E afirmarei, no fim, a quem me quiser ouvir,
a quem me quiser escutar, sentir ou admoestar
sobre razões que o meu coração desconhece:
- É preciso que o amor baste!

Acende-me outra vez!


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

sábado, 8 de setembro de 2018

No cais que me fiz

Atravessa-me um barco vão
e a velha bruma da delonga
antecipada...
da partida, o adeus sem volta
retorta, apenas ida.


No cais que me fiz, permaneço...
prolongada.


 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Encosta o teu silêncio no meu

Sei que ainda aí estás. Vestindo a ausência magoada sobre a pele de silêncios. Foi lá que nos encontrei, na ausência do ruído, depois das palavras, lado a lado sem incómodo. Dois silêncios em rima branca completos, versos soltos por escrever. Se o nosso lugar falasse, diria que nos completávamos por silêncios e nos (des)encontrávamos nas palavras.
Sei que ainda aí estás e me procuras na quietude dos fins de tarde, na verdadeira solidão das horas velhas. Podes entrar. Não fiques ao relento da vida, sob o casaco azul cansado de ombros caídos. Puxa uma cadeira e encosta o teu silêncio no meu.

Ainda há para além de ti um doce sonhar, onde descalça dancei. Um jardim por arranjar, onde flor me fizeste, e um céu melancólico por explorar docemente. Do mar negro e revolto em que te vais, recolhi as vagas vorazes que te desfizeram, e joguei-me em salvamento. Fui eu quem morreu no final, mas sei que ainda aqui vens para te encontrar nas sementes que deixei.

(Hão-de receber-nos, essas ruas da saudade, à vista de toda a gente.)

Luz em ti o que em ti fui. E escurece tudo o quanto não mais consegui ser, descalça e de alma nua… Não fiques às escuras, entra e puxa uma cadeira, encosta o teu (uni)verso no meu.
Sei que ainda aí estás e que aqui vens para te encontrar, quando todos os sons do mundo se elevam em demasia. É fácil trocar palavras, difícil é ser-se inteiro, em silêncio.

Por todos os cantos da vida esperei por quem me calasse as palavras, permanecendo.
Encosta o teu silêncio no meu. Sei que ainda aqui vens. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Lembranças: um rasgo de tinta e flores

Uma lembrança cai da estante sobre a minha mão e penetra-me a carne macia, onde ainda se entranha e remexe, se aprofunda e permanece junto ao coração.
Como castelo de cartas ao vento, assim me sinto, assim me voo – em asas de memórias inadequadas ao sossego. O som estanca e do ventre de um movimento suspenso paira o momento sobre si, permanecendo muito mais do que ele próprio. O tempo não é corrigido e eu, deformada nas dobras das horas, dos dias e das lembranças, eternizo-o. Suspenso no silêncio que inerte se faz marcha rumo a mim.
Quando a alma se deita sobre a cama de núpcias do mutismo, o mundo está cheio de mais para falar…
Cais-me, memória a memória, da estante onde me propus guardar-te. Sem nome, sem rosto, nem formas, só verso a verso: a poesia que em ti eu li --  do mar ao abismo, da flor ao tormento, do amor ao lamento.
Perco-te o mundo ao adormecer, mas ganho-me em Universo.
Resta-me que amanheça. Essa é a hora em que tudo é puro e translúcido, é a hora em que apenas a luz se move e nos reacende.

Um rasgo de tinta e flores.

As memórias são inadequadas ao sossego. 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...