Naquela manhã comum, todos se pareciam com bonecas de corda. Bem vestidos, cara lavada, cabelo escovado e alinhado, focados e rodopiando sem desvios em torno de si próprios.
Nós aplaudíamos - assim nos ensinaram - levados pela melodia das histórias feitas, ensaiadas e tão poucas vezes verdadeira e honestamente vividas.
Vinte minutos era o espaço de tempo decorrido entre o puxar da corda e a vénia final. Na verdade, cada um dos oradores presentes a isso se resumia, vinte minutos de palco. E o que é um orador de histórias contratadas se não, apenas, o tempo que as demora a contar? Não nasceu antes, nem morrerá depois. Foi ali criado, aliciado pela nova tendência de debitar palavras emotivas. Sinceramente, não as entendo. Às palavras. Não aos oradores. Esses são de corda, como as bonecas, vestem a dança e morrem no instante em que falácia finda. Nem antes, nem depois. Exatamente ali.
No meu tempo enforcavam-se com palavras, é certo. Não sei se será a mesma coisa - corda por corda - mas julgo que sim.
Voltando às palavras, dizia eu que não as entendo. Deram em emotivas? Essas modas que agora seguem. Ali estão enquanto servem, usadas e abusadas por quem escreve e lê e por quem fala e ouve. Depois, cai a moda e abrem-se valas comuns onde se enterram as ditas, já desgastadas. Mas, tal como é costume nas boas modas, logo estarão outras de volta, aquelas que já anteriormente haviam sido usadas e que, mais adiante, voltarão sê-lo.
Das modas e das palavras já sabe que vão e vêm.
Fazem-me lembrar os namoros de hoje em dia. Já o disse à minha neta. Correm, correm, correm que se farta. Estão sempre cheios de pressa. Para chegar onde? Ainda não entendi. Todos se parecem perder pelo caminho. Quando voltam, já trazem outro pelo braço. Ainda a semana passada lhe perguntei se era ruim o piso do caminho de agora, tão coxos que os vejo do coração. É no que dão as pressas!
Namorados e oradores são todos bonecas de corda. Bem ensaiadas. Em vinte minutos, que é o tempo que tenho até morrer.
Derramem-me o castanho da capa de um livro por cima, deixem-no inundar a manta com que à noite me tapo e permitam-me cheirar a terra fértil molhada.
Não me fechem já o caixão! Ainda não! Quero a última dança. O meu palco final é castanho e a vida só dura vinte minutos.