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sábado, 21 de março de 2026

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo, indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada! - respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas,
que te espreitam,
à janela do casaco que vesti.

- Não me queiras sem Inverno. - prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me, aí fora!
No meu tempo,
chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.
Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

domingo, 29 de novembro de 2020

Viver

Na escola onde aprendi a Primavera também chovia
e os trovões emergiam dos percalços.
Entre clareiras, destroços e joelhos magoados,
os homens corriam desalmados
pela vida fora...
Procuravam e perdiam
o que tão velozmente seguravam
nas mãos grandes e vazias.
Rasgavam e remendavam as flores do campo
enquanto um desconhecido
chegava de mala à cidade,
instalando o seu canteiro
à esquina da mocidade.
Na escola onde aprendi a Primavera
as palavras não aconteciam desfazadas
das manhãs que nos trazem o jornal.
Diziam, pois, coisas diferentes
deixando, por vezes, contentes
túlipas e malvas de quintal.

E sobre tais flores de vaso,
falam-me os homens, sem atraso,
em línguas que não compreendo...
Aqui e ali,
primariamente selvagens
temendo passagens,
Obras, trechos e bagagens
que trago: sementes por terras além de mim.

Na escola onde aprendi a Primavera,
passou-me por dentro um Inverno qu'inda não clamou o fim.

[viver]

 

 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Podemos nunca saber

Podemos não saber
que o vento sem idade
sopra histórias de outros tempos
para que estejamos atentos
ao que ainda nem chegou!

Podemos não saber
que Primavera só começa,
quando o Amor se atravessa,
de fronte, na ponte
em iminência de ruir...
E o que o sentir
tudo remenda,
na ordem inversa à das estações.


Podemos não saber
que o mar nos espera antes da foz,
p'las margens paradas d'encato
à voz suave do canto
da ave da manhã...
sem permanecermos sós,
nas encostas de âmbar e avelã
ao entardecer.


Podemos não saber
se é azul a cor do céu
que se anula do lado de lá d
a campânula onde existimos, 
sem seguirmos para lado nenhum.


Podemos não saber
que o mundo se reveste de magia
e nos espera em harmonia
na nitidez dos sentidos
contidos, doridos, perdidos... 
pelo medo de não saber
que, quando o rio abraça o mar, 
aí nasce o segredo.


Podemos nunca saber.


 



 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Primaveras

Amanhece turquesa, o dia. Ou assim se mostra o céu do que vejo adiante. As nuvens, com pressa, abrem espaço aos raios de sol do caminho que desperta dos meus passos atrasados. Não estou p'las cortesas ruas da cidade. Tão pouco nos bucólicos trilhos verdes do campo. Estou a meio caminho, onde é incerta a estranheza de tudo o quanto ainda está por fazer . Estou nos espaços em branco e encontro-me, com frequência, na esquina doce do silêncio, ou na mais ensurdecedora agitação do pensamento. Ao fundo corre um ragato de sonhos. (Em mim).
Só vou por ali...
Entre o que fui e o que serei, estou. Sou.


Se são 30 as primaveras, talvez seja eu flor mediana neste jardim da vida.

domingo, 28 de outubro de 2018

Para me fazer lembrar...

Hoje estou triste. Cobrindo-me a alma, a retalhada manta melancólica do calendário que passou e não levou, na sua destreza ilusionista de dar o dito por não dito, o passado que não passou.
Hoje estou triste e a apatia que me rasga a roupa e expõe a alma, cresce e trespassa-me a calma que julgo ter, sempre que a mim regressas, vindo por becos e travessas, virando avenidas às avessas para, tão distante quanto o coração de ninguém, me envolveres em memórias agitadas.
Hoje estou triste e nem o velho tic-tac do coração suspenso, no pêndulo do relógio tenso, oiço marcar o compasso do dia. Arrasta-se o domingo dentro e fora de mim, como se o fim não coubesse na hora, na data ou na demora do abraço que não se tem.
Hoje estou triste, por qualquer coisa que ficou de um poema. Estou triste e a minha razão lamenta, o que meu coração guardou.

Hoje estou triste, ainda é longe e faz-se tarde para regressar ao lugar das memórias que fizemos e plantar, no seu lugar, flores que me façam lembrar o meu sabor a Primavera.

domingo, 5 de março de 2017

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada,
respondi
atenta aos botões
de camélias apressadas
(que te espreitam)
à janela do casaco que vesti.


- Não me queiras sem Inverno,
prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me,
aí fora
no meu tempo.
Chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.


Nada temas,
nem homens, nem máquinas nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.


Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...