terça-feira, 31 de agosto de 2021

"Arte, Cidades, Alma - A Conexão como Alavanca"

“Onde nos ouvimos por dentro é casa também.” – As palavras de Pedro Abrunhosa que deram início à conferência Arte, Cidades, Alma – A Conexão como Alavanca.


Por ser urgente pensar as cidades, a arte, a alma, o património e as gentes, assim como perceber e debater a sua conexão e interligação, enquanto contributo para a alavancagem e construção do novo - entenda-se, futuro – sem evitar  questionar o modo como poderemos avançar, mudar paradigmas e corrigir lacunas, sem que se coloque em causa a herança que nos foi sendo doada ao longo dos tempos, a Hall Paxis convidou, a 31 de Outubro de 2020, o músico Pedro Abrunhosa, o actor Bruno Ferreira e o jornalista Paulo Barriga para uma tarde de reflexão conjunta no auditório do Centro Unesco, em Beja.

Desafiado a conceber um paralelismo entre versos de Mário Beirão e a presente realidade, Pedro Abrunhosa colocou-nos perante aquilo que, no seu entender, nos resta depois de tudo, o futuro e a luta permanente para que a existência encontre o seu sentido. “A Liberdade, o livre arbítrio, a construção do presente rumo ao futuro”, no sentido em que a estruturação de qualquer sociedade se iniciará sempre no presente, numa óptica de continuidade, resiliência e concepção de um tempo futuro, no qual o homem de hoje já não viverá.


Por esse motivo, afirmou Paulo Barriga, que uma cidade é composta por finas camadas históricas sobrepostas, “uma caixa de ressonância dos tempos passados”, onde a “impossibilidade material da cidade” converge no encontro do património edificado “com o acto cultural e a vivência”.  Desta forma, será “a ligação entre as pessoas, as políticas culturais, o passado de mil folhas sobrepostas (passado arquitectónico, urbanístico e arqueológico) quem transforma a cultura numa Obra”, a qual se designa cidade.


No entendimento de Bruno Ferreira, “o indivíduo, enquanto ser único, desenvolve-se num ambiente multicultural, com regras, padrões, crenças, o que transforma a cultura num processo de intercâmbio entre diversos indivíduos e comunidades, formando assim uma sociedade. A cidade é um jardim, cujas flores somos nós próprios, os cidadãos” e nessa perspetiva, será sempre necessária a existência de um “jardineiro dedicado” – referindo-se ao poder local - e artistas “que não sendo flores, são as abelhas que as polinizam, permitindo que sorriam”.


Num encadeamento de ideias, Pedro Abrunhosa propôs-nos reflectir sobre a visão de Platão, “nenhum homem se basta a si mesmo”, mas também sobre a possibilidade de “duas pessoas formarem uma cidade. Onde existem dois, existe uma relação de reciprocidade e a possibilidade do acto de um interferir na liberdade do outro”- abordando com clareza a ideia Platónica da construção da cidade justa, uma Cidade-Estado que assumiria todos os valores morais, erguendo-se como a única forma de sociedade possível, segundo uma política que o filósofo definia como “arte que cura a alma e a torna o mais virtuosa possível”.


Pedro Abrunhosa desenvolve a temática: “Alma não é um conceito religioso. É um conceito orgânico. Fazem parte do homem o corpo e a alma que o habita. A cidade tem alma, porque é animada pelas pessoas, muito mais do que pela arquitectura. É a alma que caracteriza o local e o torna identitário. E a política é a arte do possível, a arte de gerir as vontades de toda a gente”. E sobre arte, “é tudo o que nos retira de um local, para nos levar para outro local diferente, que não tem que ser bonito. A arte não tem que ser bonita. Tem que nos transportar de um tempo para outro. É, talvez a par do conceito de Deus, a maior criação da humanidade”.


Já a “política é a gestão do dia a dia” e “aquilo a que hoje se assiste um pouco por toda a Europa é ao desaparecimento de cidades que, outrora, já se assumiram como grandes potências históricas, Beja é uma delas”. “As cidades perdem habitantes, massa crítica, artistas, perdem o público desses artistas, perdem quem ensina e quem aprende”, continuou Bruno Ferreira, frisando o quão importante é o papel dos cidadãos na manutenção das suas cidades e no grau de exigência para com os poderes executivos. “Seria interessante retornar ao Ágora, enquanto espaço livre de encontro e discussão” entre cultura e política, expressão máxima da esfera pública.


Concordando com a observação, Pedro Abrunhosa abordou o fenómeno das redes sociais que “fomentam o afastamento social e não a agregação social”, estabelecendo uma analogia com as palavras de Paulo Barriga, ao constatar que se assiste a uma (re)tribalização - um afastamento social premeditado, como se de tribos se tratasse, no maior retrocesso humano possível, em que os elementos de um mesmo grupo se reconhecem por características, ideias e ideais comuns, excluindo ou mantando os seus dissemelhantes. Segundo Pedro Abrunhosa, “as redes sociais só servem para gostar daquilo que já gostávamos, porque o algoritmo nos mostra aquilo que já conhecemos. A muralha à nossa volta revela-se ainda maior, porque deixamos de ter a percepção de que o outro existe. A incompreensão e a intolerância polarizam as pessoas, afastando-as cada vez mais”.


Já na recta final, e em opinião unânime, os elementos do painel defenderam que “é na cultura que os portugueses encontram razão para sustentar a sua autoestima”, tendo Pedro Abrunhosa definindo cultura como “tudo aquilo que necessita da mão do homem para existir. É o grande suporte do combate à ignorância”. E define-nos, tal como “o plástico define o século XX, porque isso também é cultura”.


Por seu lado, a arte acontece “quando pensamos em coisas que já não conseguimos colocar por palavras e nos silenciamos. Um silêncio de espanto perante uma Obra. Nenhuma língua traduz ou reproduz a emoção sentida, nem nunca será capaz de a explicar. Só explicam a arte, o silêncio e o espanto, sendo a arte o sítio para onde a linguagem escoa através do pensamento, do acto e da produção”.


Arte, Cidades, Alma – Aquilo que nos conecta.


 


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sábado, 21 de agosto de 2021

AFEGANISTÃO - Numa guerra, ocupação, luta ou negociação não são os Direitos Humanos quem move as grandes potências


  • Ocupações e intervenções militares, tenham elas ocorrido no Vietname, no Médio Oriente ou em qualquer outro ponto do Globo, nunca foram movidas por fins humanitários.


  • ‌Não são os Direitos Humanos, neste caso concreto os direitos das mulheres, que mobilizam potências e lutas. É o poder. Seja ele de carácter político, económico ou ambos.


  • ‌As mulheres afegãs conseguiram alcançar maiores direitos  depois de um violento golpe sanguinário ter colocado o Partido Democrático do Afeganistão no poder. Direitos que vieram a perder na década de 90, após a queda do regime, mas ainda antes do poder ser conseguido pelos talibãs. Foi em países de regimes "socialistas" árabes, apesar de regidos por ditaduras aguerridas, que foram conquistados mais direitos para as mulheres. Isto, por não serem democracias e lhes ter sido possível, aos países, a imposição e sobreposição destes direitos ao poder inquestionável da religião.


  • ‌Há uma necessidade de domínio (histórica), por parte do ocidente, dos povos islâmicos,  através da tentativa de imposição de democracias e liberdades ocidentais, numa teimosa crença de que o regime político do país ocupante é transponível (por imposição) ao país ocupado.


  • ‌Sempre existiu uma certa arrogância ocidental,   exercício de superioridade, abuso de poder, ambição e acomulação com repercussões número de guerras perdidas.


  • ‌O desrespeito pelos povos árabes, pela sua religião, cultura e costumes é notório na forma como se tenta fazer crer que são errados (segundo o nosso "ocidentalismo" e formatação cultural), impondo mudanças e transições que, para nós, serão entendidas como evolutivas, mas que, na verdade, em certas circunstâncias, vão contra os princípios daquelas pessoas (a quem nada foi perguntado).


  • ‌Democracia e liberdade serão sempre processos de autodeterminação (e não de imposição).


  • ‌Uma ocupação é sempre uma ocupação, seja ela a pedido do governo do momento, ou não. Como exemplo, a ocupação Soviética a pedido do governo da República Democrática do Afeganistão, a fim de o ajudar no combate à guerrilha fundamentalista islâmica, depois de o poder lhe ter sido concedido [ao governo] após um duro golpe sangrento.


  • ‌De lembrar que, nessa altura, os EUA apoiaram grupos aramados ( "Freedom Fighters") contra o mesmo governo. Grupos aramados esses que, posteriormente, usaram o treino e o armamento fornecido contra o Ocidente. Momento em que deixaram de ser considerados aliados dos Estados Unidos.


  • ‌A Rússia nunca lutou pelos Direitos Humanos do povo afegão, mas sim pelo seu próprio domínio e império.


  • ‌A ocupação do Afeganistão pelos EUA não travou o islamismo radical, porque a fonte de financiamento do terrorismo não são os países inimigos dos EUA. Esta ocupação apenas fortaleceu os radicais.


  • ‌A ocupação falhou e prova disso é que, após 20 anos, não existe uma sociedade afegã muito diferente daquela que viu os talibã assumirem o poder em 1996. Tão pouco preparada, embora tenham sido investidos triliões no país, se tenha armado e treinado o exército e se tenham perdido vidas. Não existe um exército afegão capaz de defender Cabul, face ao avanço dos Talibãs.Como poderia eles não regressar?


  • ‌O Afeganistão é um dos maiores exportadores de droga do mundo. (Será, muito possivelmente, o número 1 no que respeita a heroína). A droga será sempre uma grande fonte de financiamento.


  • Um governo, seja ele qual for, que apoia uma ocupação, dificilmente será bem visto pelo povo.


  • Afeganistão é um país tribal, são 14 os grupos étnicos reconhecidos, o que torna inviável a ideia ocidental de democracia.


  • Como países apoiantes dos talibãs surgem o Irão, a Rússia e a China,com relações estabelecidas ainda antes da vitória militar.
    O primeiro tem todo o interesse em apoiar a luta talibã contra os EUA, tanto quanto na aliança entre milícias xiitas (apoiadas por Terão) e a Al-Qaeda.
    A Rússia quer assegurar a segurança dos seus satélites na Ásia Central, ao mesmo tempo que é do seu interesse que os talibãs controlem o Daesh. Já a China tem por necessidade assegurar o futuro da Nova Rota da Seda, pelo que a estabilidade no Afeganistão lhes é fundamental. O governo chinês já demonstrou o seu interesse em colaborar com os talibãs na recuperação afegã.


  • Em Março de 2021 Biden foi alertado pelos pelos serviços secretos de que os talibãs dominariam novamente o país em dois anos. Venceu a crença no exército, mas... Domingo passado, chefe do governo pró-americano fugiu, oferendo aos talibãs o domínio de Cabul e do país.
    Na verdade, já existiam negociações entre os chefes regionais e os talibãs.


  • O exercito oficial afegão desfez-se naturalmente, após a retirada dos EUA e dos aliados.
    Afinal, não era um exército tão forte assim. (Como os americanos faziam crer).


  • Para os Americanos, esta não é só mais uma derrota. É, sobretudo, uma enorme humilhação.
    Não, não são os Direitos Humanos quem os moverá.


 


Postos em resumo alguns aspectos, há questões fulcrais sobre o Afeganistão que ultrapassam (e muito) a questão dos direitos das mulheres.
E sobre isso é, também, urgente informar e debater-se, para que o conhecimento permita que não se limite e/ou restrinja o tema a um único ponto (sem lhe retirar importância), sendo ao mesmo tempo possível uma melhor compreensão do mundo, do nosso mundo, e daquilo que move verdadeiramente uns e outros (assim como o seu porquê).
Poder é sempre Poder.


Pertencer ou ser-se império exige combate, guerras, lutas, ocupações, negociações... mesmo que, para isso, seja necessário usar, de forma falaciosa, hipócrita e debochada, os Direitos Humanos como mote ou premissa.


 



"Só sei que nada sei".


 



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Fonte da imagem: Jornal PUBLICO


 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Não nascem flores no invisível

Densos,
os olhos afundam-se, negros,
no obscurantismo do oculto,
onde o fundamentalismo devora luz e jardins.
As cores deixam de ser cores
e o feminismo das formas
subtrai-se à vida humana.
Não se é
e por não se ser
se morre.
Não se olha
e por não se ver
se extingue.
Não se ouve
e por não ter voz
se esquece.


Não nascem flores
no invisível.


 


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Imagem: ′′ Mother, Daughter, Doll ", fotógrafa iemenita Boushra Almutawakel, da sua série ′′ The Hijab Series ", 2010.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O Oleiro Eremita

A estrada de barro vermelho segue
em silêncio e sem pressa
p'las mãos de um oleiro eremita.
Há uma dor antiga
no molde da terra,
no fundo dos passos,
na nudez absoluta de um corpo de mulher
esculpido sobre as pétalas
selvagens de um coração fugidio.
Segue a estrada greda adiante,
p'lo desamparo dos dedos fatigados
da ausência das formas
onde a noite viaja
e o vento se enrosca vagarosamente.
Só o coração bate
a despedida
que o caminho não conta, não leva, nem traz. 
É pelas mãos que o amor lhe foge e lhe chega;
a vida ao quilómetro, o barro da estrada.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...