segunda-feira, 8 de junho de 2026

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização.
Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comentado, criticado e debatido, mas deixa-se de agir sobre ele. É nesse momento que a normalização deixa de ser um fenómeno psicológico para se tornar um fenómeno social, político e moral.

Um dos exemplos mais evidentes do nosso tempo é a degradação do discurso público.
A mentira deliberada, a agressividade permanente, a simplificação de problemas complexos, a substituição do argumento pelo insulto ou a transformação do adversário em inimigo. Nenhum destes fenómenos é novo. A novidade reside na sua amplificação e na rapidez com que nos habituámos à sua presença.

Comportamentos que, há algumas décadas, teriam provocado indignação prolongada, hoje cingem-se a curtos ciclos noticiosos. O escândalo é substituído pelo escândalo seguinte, a transgressão pela transgressão seguinte, o caso mediático de hoje pelo caso mediático do dia seguinte. Isto acontece não porque a gravidade se extinga, mas porque a familiaridade atenua a reação coletiva que anteriormente produziria consequências. E quando a indignação desaparece, há um factor que desaparece com ela, a exigência.

Esta supressão da exigência está igualmente patente naquilo que a sociedade espera dos seus representantes, dos meios de comunicação, das instituições e até daquilo que os cidadãos esperam uns dos outros. Quando essas expectativas se degradam, a democracia degrada-se com elas. Basta pensar que a democracia não assenta apenas em eleições livres, instituições sólidas ou separação de poderes. Assenta também nas expectativas colectivas que os cidadãos constroem acerca do funcionamento dessas instituições.

Percebemos, pois, que o verdadeiro perigo da degradação do discurso público não reside apenas na qualidade do debate. Reside no impacto que essa degradação produz sobre as próprias democracias. Quando essas fronteiras se tornam difusas, não desaparece apenas a qualidade do debate, diminui a confiança, enfraquece o escrutínio, reduz-se a participação cívica e o espaço público torna-se progressivamente mais vulnerável à manipulação emocional do que à argumentação racional.

Esta preocupação não é meramente teórica. A própria OCDE tem vindo a alertar para os riscos que a desinformação, a polarização e a degradação da integridade do espaço informativo representam para as democracias contemporâneas. No relatório Facts not Fakes, a organização identifica a erosão da confiança nas instituições, a dificuldade crescente em construir consensos sobre problemas colectivos e o enfraquecimento da capacidade das sociedades responderem a desafios complexos, como algumas das consequências associadas à degradação do ambiente informativo.

A questão é particularmente relevante na medida em que o sistema democrático carece de uma realidade minimamente partilhada que permita aos cidadãos discordar sobre soluções sem deixarem de concordar sobre os factos fundamentais.

Nesta perspectiva, a capacidade de estranhar constitui uma forma de vigilância democrática. Afinal, os padrões que uma sociedade normaliza acabam, inevitavelmente, por se institucionalizar. Quando deixamos de esperar elevação no debate, deixamos também de a procurar, adaptando-nos progressivamente à sua erosão.

Em suma, uma sociedade que se limita a adaptar-se perde gradualmente a capacidade de se transformar. É aqui que a normalização produz o seu efeito mais profundo: alterar os horizontes do possível. Por outras palavras, leva a sociedade a confundir aquilo que é frequente com aquilo que é legítimo.


"Ver aquilo que está diante do nosso nariz exige uma luta constante."
- George Orwell - 



sexta-feira, 29 de maio de 2026

Herscht 07769: A sátira do presente e a fragilidade da civilização

Em Herscht 07769, Laszlo Krasznahorkai constrói muito mais do que uma distopia. O romance funciona como uma crítica intensa à desintegração moral e política das sociedades contemporâneas. Numa comunidade atravessada por ressentimento, paranoia e vazio espiritual, torna-se evidente como a fronteira entre a civilização e a barbárie é mais ténue do que a linguagem política tende a admitir.

O aspecto mais perturbador do livro é a sua proximidade com a actualidade. O nacionalismo surge não como ideologia consistente, mas como mecanismo de compensação numa sociedade em erosão. Perante a perda de estabilidade económica, a fragilidads dos vínculos sociais e a erosão da confiança nas instituições, a identidade colectiva endurece de forma defensiva. O “nós” deixa de ser um projecto partilhado e passa a ser linha de separação. Neste movimento, o inimigo externo não é um acidente político, mas uma construção funcional, dá forma ao medo e reorganiza a sensação de perda. Krasznahorkai sugere assim que certos contextos sociais não apenas produzem populismo, tornam-no quase inevitável como linguagem de sobrevivência.

O globalismo promete aproximar o mundo, mas muitas vezes deixa a sensação contrária. Tudo circula mais depressa, bens, informação, capital e, ainda assim, cresce a dificuldade em encontrar lugares de pertença, relações duradouras e referências comuns. Entre a escala global e a experiência individual abre-se um espaço onde a alienação encontra terreno fértil.

Entre esta abstracção global e a reactividade identitária do nacionalismo, as personagens vivem num estado de alienação contínua, sem forma estável de pertença.

Também o colapso ecológico atravessa a obra. A degradação da natureza acompanha a degradação da linguagem e da vida social, como se todas estas dimensões respondessem ao mesmo processo de esgotamento. O presente reflecte este quadro de forma inquietante: crises climáticas sucessivas são tratadas como episódios isolados, apesar de indicarem uma transformação estrutural mais profunda.

A ideia mais perturbadora de Herscht 07769 talvez seja a de que o colapso não ocorre como ruptura súbita, mas como normalização progressiva. A violência torna-se parte do quotidiano, o cinismo substitui a reflexão e a vida entre ruínas deixa de ser reconhecida como anomalia. É neste desfasamento entre deterioração e percepção que o romance encontra a sua actualidade mais desconfortável.

No fim, Krasznahorkai não oferece um cenário distante, mas um espelho crítico do presente. E é precisamente isso que faz de Herscht 07769 não apenas uma narrativa sobre a desintegração do mundo, mas uma forma de o tornar legível enquanto ainda insiste em manter-se de pé.

Talvez o desconforto provocado pelo romance nasça daí. Não da possibilidade de um colapso futuro, mas do reconhecimento de que muitos dos seus sinais já habitam o nosso quotidiano. 

O livro não nos confronta apenas com a possibilidade de um colapso futuro, obriga-nos a interrogar aquilo que, no presente, deixámos de estranhar.





sábado, 18 de abril de 2026

Recomendação de leitura: "Algoritmocracia"


"Algoritmocracia", de Adolfo Mesquita Nunes, parte de uma constatação inquietante: as democracias contemporâneas já não são apenas moldadas por instituições políticas e media tradicionais, mas por algoritmos que organizam, filtram e personalizam a informação que consumimos.

Estes sistemas não são neutros, operam segundo a lógica da maximização da atenção, com consequências profundas. Cada pessoa passa a viver numa realidade informativa ajustada às suas preferências, crenças e fragilidades, o espaço público fragmenta-se e a base dos factos, essencial ao debate democrático, começa a desaparecer. A verdade deixa de ser o principal critério, sendo ultrapassada por conteúdos emocionais, extremos ou polarizadores que, não sendo mais rigorosos, geram, indubitavelmente, mais envolvimento.

O resultado é um ambiente em que o choque substitui o argumento e o racional, a indignação substitui a reflexão, a viralidade se sobrepõe à verdade e a mentira, tal como o discurso inflamado, deixam de ser exceções tornam-se estratégias eficazes.

Simultaneamente, a personalização extrema reforça bolhas informativas, onde os utilizadores são expostos sobretudo a ideias que confirmam as suas convicções, reduzindo o confronto e o diálogo com perspetivas divergentes e transformando o debate democrático numa soma de monólogos.
Há também uma inversão silenciosa das fontes do saber, num ecossistema dominado por visibilidade e viralidade, os influencers ganham protagonismo em detrimento da ciência e do conhecimento especializado que passam a competir num terreno que não foi desenhado para premiar o rigor e a verdade, mas a atenção e os ganhos.

Nada disto significa rejeitar a tecnologia, mas obriga a reconhecer que o espaço público está a ser reconfigurado de forma profunda.

"Algoritmocracia" apresenta-se, então, como um alerta. Mais do que uma transformação tecnológica, estamos perante uma reconfiguração profunda do espaço público e da formação da opinião. Sem maior transparência, regulação e literacia crítica, o risco é que o poder efetivo se desloque silenciosamente das instituições democráticas para os sistemas algorítmicos que moldam aquilo que vemos, a forma como pensamos e, em última instância, aquilo que decidimos.

 

FB_IMG_1776464957977.jpg

 

sábado, 21 de março de 2026

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo, indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada! - respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas,
que te espreitam,
à janela do casaco que vesti.

- Não me queiras sem Inverno. - prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me, aí fora!
No meu tempo,
chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.
Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Opiniões à parte, a que horas há jornalismo?

Disse-o Oscar Wilde “O jornalismo moderno tem uma coisa a seu favor. Ao oferecer a opinião dos deseducados, mantém-nos em dia com a ignorância da comunidade.”

Notória será a decadência deontológica e a acentuada deriva para o sensacionalismo presentes na Comunicação Social global.

O espetáculo, o escândalo, a violência e a tragédia em directo, a ânsia de se ser o primeiro a chegar, a mostrar, a impressionar.

 Os jornalistas deixaram de pertencer à imprensa escrita, rádio ou televisão, são antes profissionais “todo-o-terreno” ou agentes multimédia e protagonistas, se assim se quiser, movidos pela tirania das audiências e pressão das entidades a operar no sector.

Conseguir público e notícias são demandas, mesmo que o preço a pagar seja a perda de rigor informativo, de imparcialidade, da verdade e da ética, ou que se misture informação e entretenimento num fenómeno já bem conhecido, o "infotainment".

Mas não só a actividade jornalística tem vindo a ser afectada pelos avanços tecnológicos e digitais, também as sociedades democráticas contemporâneas o foram, sendo, sobretudo, fortemente impactadas pelo alastrar da desinformação e pela forma como cada cidadão se relaciona com o mar de informação disponível. É disto exemplo o negócio das fake news, assente no click bait por via de conteúdo enganoso e/ou sensacionalista, apetecível a quem navega e se deixa levar sem critério.

A dificuldade em legislar nos meios digitais é evidente, até pelo perigo de limitar liberdades e princípios fundamentais, contudo, parece-me, não deverá ser a mediação algorítmica a determinar as regras do jogo.

Dos conteúdos que diariamente nos chegam, é cada vez mais ténue a linha que separa a opinião do factual, a inquisição da investigação, a alegação do jornalismo. As fontes são maioritariamente anónimas ou insuficientes e os factos não são mais do que hipérboles que acentuam e limitam um determinado ponto de vista ou, pelo contrário, inexistentes se incómodos.

 Caem assim por terra os valores fundamentais do jornalismo e os princípios expressos no artigo 9º do Código de Ética do Jornalista.

Repare-se que há muito que a imprensa deixou de participar de forma isenta e imparcial no espaço público. A objectividade deixou de ser critério, abrindo cada vez o espectro ao espaço de opinião, que é legítimo, mas que não pode condicionar o entendimento do debate. Até porque esse debate não substitui a informação e a diversidade ideológica é uma particularidade da Democracia.

A figura do comentador - tanto mais ou menos especialista em assuntos mediáticos - cada vez mais presente no meio, será, por isso, continuamente moldada pelos suas vivências e contextos sociais, políticos, religiosos, étnicos, espirituais, assim como pelas estreitas relações pessoais e isto é necessário manter presente, sempre que nos questionamos sobre o motivo pelo qual as narrativas não mudam.

E neste ponto de inflexão não é necessário que os media perteçam ao Estado para que a independência jornalística seja colocada em causa, perante a pressão de figuras superiores. O mesmo acontece quando o detentor de um órgão de comunicação social é uma empresa ou grupo económico ou mesmo através das agências de publicidade que, como sabemos, financiam os meios “podendo” ditar as regras.

Talvez a reflexão passe por entender que empresas de comunicação social e jornalismo já não convergem na mesma realidade e que, apesar dos monopólios e do negócio da informação, ainda existem jornais e jornalistas éticos e de referência. Talvez uma parte dessa reflexão se prenda com a necessidade de revisão do modelo de negócio informativo, tornando-o mais sustentável por forma a permitir que os próprios jornalistas possam exercer de forma livre, independente e plural. E isto não passa por contratos publicitários, mas sim, talvez, quem sabe, com o leitor. E para isso é preciso voltar a ganhar a sua confiança, recuperando credibilidade e respeitando os princípios primordiais do jornalismo.

Dizia Eça de Queiroz, “Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ações - mesmo as boas.”

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Aquieta-te

Remete-te ao silêncio,
se não são de paz, as palavras.
Subjuga-te, entrega-te, aquieta-te
se alumiar não consegues e prossegues
ultrajando razões de assim não ser.
Remete-te ao silêncio do pensamento,
sem insultos,
sem julgar ou apontar, das mãos,
os dedos infusos
sem noção ou condição de acurar
o chão presente.
Dorme sobre as trevas e limpa a vidraça.
Olha para dentro, para trás, para o espelho.
Aquieta-te!
No eco do ruído desmedido
o mundo estremece e tudo acontece,
ante o nada e o que parece ser.

Palavras e punhais,
quem salvais?
Remete-te ao silêncio!

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...