quinta-feira, 28 de maio de 2020

Vezo Cotidiano

Giramos. Todos os dias rodamos sobre nós próprios. Dia e noite, noite dia, ciclicamente enquanto a terra não nos devora e o disco que somos não deixa de se ouvir.
Ouvimo-nos?
Giramos...
Observamos quem gira em redor.
Giramos...
Voltando sempre ao início da faixa exordial.
Rodamos sozinhos, nesta solidão rotineira que nos consome, apenas fazendo sentido quando nos cantam, quando nos tocam, quando nos ouvem, quando nos sentem.
Giramos em roda viva reinventada, desde o nascimento até à morte. Esse é o espaço que somos.
E tocamos. Tocamos até que o cansaço nos vença, que a vida não passe de um vinil riscado, que as notas percam o sentido e nada mais em nós ecoe que não o desgaste.
Ou tocamos harmoniosamente, rodopiando para sempre no coração, espaço-casa, de quem seja capaz de dançar por nos ter.


Do imediatismo da vida, valha-nos quem nos aconchegue os acordes desta ádvena existência.


 

4 comentários:

Francisco disse...

E quando encontrarmos quem nos toque, que nos juntemos e que se prolongue a melodia, para todo o sempre ser tocada, e não apenas no nosso tempo.
Que sejamos eternos, sendo mais que nós mesmos, sendo mais que um simples acorde, e sim composições inteiras, que sozinhos jamais tocaríamos sem o conhecimento da nota seguinte...
Que ao invés de tocarmos o único acorde da nossa sinfonia, que aprendamos a tocá-lo junto com outro, que todos nos juntemos e não só rodaremos com o mundo, mas faremo-lo rodar connosco!
Que o ciclo se repita, que o ciclo seja eterno... Que cada nota seja tocada, que cada sinfonia seja prolongada.
Que sejamos sempre mais um pouco a cada «retorno», que se oiça mais uma nota a cada rodagem, que no final não haja fim!

Rita PN disse...

"Que no final não haja fim!"
Shakespeare dizia "The earth has music for those who listen" - talvez a sinfonia do coração.

Um beijinho Francisco, e obrigada pela visita e pelo comentário.

cheia disse...

Que bom, girar com quem nos faz pensar!

Rita PN disse...

Muito obrigada pela leitura e por ter parado nela... para a sentir e pensar.
:) É bom ter quem nos pense as palavras.

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