quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

A última a morrer

Chego-te, através do horizonte
leve, ténue e casta brisa
névoa profetisa
que te toca sem tocar.
Em tudo me sentes
em nada me vês,
mas crês que existo!
E que de longe venho
contendo arte e engenho
(não olhas para trás).

Três passos mais perto
do fim do deserto
e miragem ainda sou!
Reflectindo a imagem
de sonho e coragem
que contigo acordou.
Não páras!
Sempre adiante,
filho de um acreditar constante.
Não há tempestade que te apague.

Ao longe, o horizonte
em ti, uma fonte
onde bebes de mim
crês-me sem fim
e chamas-me Esperança!

 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Asas

No ritual de quem parte,
rasgando, ao céu, o véu
com arte
de quem seduz a luz
e dança nas asas
dos recomeços.

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segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

É Preciso

Entre o que vem e o que vai, a vida acontece. Sem romantizar nem dramatizar, é-nos necessário enfrentar a imprevisibilidade do caminho.

Nem sempre a direcção é certeira ou linear ao nosso propósito, mas sair do lugar, criar movimento, ter atitude e determinação é fundamental quando se pretende mudança.

É essencial arriscar, vencer a dúvida, enfrentar o medo e explorar o desconhecido. É necessária coragem de viver, ousadia para tentar, determinação para acreditar e vontade para fazer. É necessário sair da zona de conforto e abraçar o desconforto da possibilidade da evolução, embora dolorosa. É preciso cair para aprender a erguer e voltar ao caminho. É preciso focar, não fugir do processo, não adiar, nem assumir o conformismo, a vitimização ou a derrota - ainda antes de começar. 

É imprescindível ser honesto consigo, traçar metas atingíveis, ultrapassar obstáculos, ser mais forte do que a desculpa, quantas vezes âncora das situações. 

É fundamental sonhar, criar compromissos, trabalhar o equilíbrio, encontrar a paz e olhar além. Aprender com as quedas, encarar os tropeços e utilizar a aprendizagem como veículo motor da transformação pessoal.

É crucial saber o que se quer, sendo tão ou mais importante ter perfeita consciência daquilo que não se quer - e atuar em conformidade.

É importante parar, tirar um tempo, fazer balanços e acertar a rota. Adiar as não urgências e focar no que é efetivamente importante.

Se, por vezes, existem períodos em que somos obrigados a adiar um dos lados da nossa existência (pessoal, emocional/sentimental ou profissional), por motivos diversos, outros há em que o tempo escasseia e a entrega e dedicação imperam.

Porque os timings são um axioma e a vida é quase nada, feita de fragmentos de quases, de pequenos muitos e de muitos nada; sendo nossa a responsabilidade do valor que atribuímos a cada um.

Tão importante quanto saber determinar a hora sair de cena é saber puxar da coragem na hora de abraçar o novo. 

 

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sábado, 2 de dezembro de 2023

Segreda-me um poema ao ouvido

Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. A vida e as estações
que por nós passam e os sonhos
que trazes em bolsos de amor.
Segreda-me a pressa dos relógios
e os dias agitados que nos engolem,
a solidão da cidade e a dor de não ver ninguém.
Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. A calma e a quietude
da loucura de ficar só mais um momento,
parada, em silêncio, a olhar para ti.

Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. Segreda-me a vida!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Ficar

Não me mostres o sul do olhar,
nem o caminho para lá voltar
ao entardecer.
Não me mostres o abraço da brisa
quando desliza
para lá do sonho
risonho que se guarda,
nem me mostres lugar algum
onde, em paz, não possa ficar
e sentir
sem partir a seguir,
sem que possamos chegar
à morada das coisas pequenas
que se degustam
calma e docemente,
que se vivem e entranham devagar.

Não me leves onde não possa perdurar.

 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Saber dizer NÃO

É fulcral saber quem se é. Ter certezas a respeito das próprias convicções, valores, princípios e crenças. É preciso saber delimitar o próprio espaço, a própria liberdade sem interferir com a liberdade do outro, respeitar e respeitar-se, assumir actos e identidade, preservar a paz interior e ter perfeita consciência do caminho que se quer - assim como daquilo que não se quer - traçando o percurso nesse sentido.

Muitas são as vezes em que o ser humano se perde por não saber dizer NÃO no momento devido, sendo apanhado em situações que não deseja e se arrastam, sem que seja criada uma porta de saída. Por medo da reação do outro, por forma de compensação do outro, por receio de magoar o outro, por falta de auto-estima, de certeza, de convicção - o que evidência que evitar um NÃO significa, também, em determinadas circunstâncias, agir em função do outro e não do próprio.

O ser humano cede por facilitismo, dá e recebe em dose excessiva na ilusão de um preenchimento de vazios e/ou falhas pessoais, permite-se ficar onde não quer (ou deseja) estar, por incapacidade de ser honesto consigo e com os demais, por conformismo ou habituação. Age contra-vontade por não ser conciso a respeito da direcção do proóprio caminho. Aceita situações e condições por falta de imposição pessoal. Permite-se e vai-se permitindo até ao limite do desconforto, do vazio extremo, da infelicidade e do sofrimento.

Por outro lado, a arte de saber ouvir e aceitar os NÃOS da vida é aquilo impulsiona novas direcções, permite ser melhor e fazer melhor, procurar novos horizontes, interesses, pessoas, evoluir, crescer, reinventar-se e encontrar-se.

Saber olhar para as derrotas, retirar a lição devida, agradecer a aprendizagem e saber utilizá-la, será sempre meio caminho para atingir uma transformação interior positiva. Porque, em determinados momentos, aquilo de que se necessita é exatamente de que o NÃO aconteça.

Ser sábio é saber aceitar o que não pode ser alterado, saber esperar o tempo certo de e para cada situação, saber usar a disciplina como veículo de melhoria em tudo o quanto pode ser melhorado, retirar das lições os ensinamentos e aplicá-los construtivamente no futuro. É prestar atenção aos detalhes, ser respeitador e ter consciência de que um NÃO ouvido ou dito no momento exacto poderá ser a chave que futuramente abrirá a porta que realmente se quer. Lá dentro, paz de espírito, felicidade, realização e bem-estar.

 

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quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Lugares sem Nome

Há um lugar sem nome
onde moramos reféns
de memória e lugares antigos,
que dilui, em si e no tempo,
as cores e sabores
de uma identidade vivida
em fotografias antigas,
agora esquecidas
entre o pó de objectos sem cheiro e amor.

Por temor de recuar no tempo
e bater à nossa própria porta,
sem ninguém para a abrir,
somos lugares comuns
a viver entre flashes,
presos por um fio
de redes sociais e memórias instantâneas
que depress se esvai,
p'lo buraco negro da solidão
que consome o sofá noturno.

Vagos que nos tornamos,
perdemos momentos,
ocultamos sentimentos,
desatentos à grandiosidade
do pequeno, à riqueza do detalhe
e à pureza do enamoramento da vida,
que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,
rodamos a chave,
abrimos a porta,
mas não estamos lá.
Em nós são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

 

 

 

 

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Sós

Todo o verso é profecia
e memória
história e espanto
encanto, retórica
eloquência ou demência
dos dedos fartos da pele
e das mãos
que se trazem e partem,
nessa viagem de espaço sem tempo;
momento de passagem por ti.


Todo o verso é um
e nós
uma vezes poema, outras, por vezes,
sós.

domingo, 29 de outubro de 2023

Nos Olhos do Coração

Olhei. Olhei como se olha, vulgarmente 
ao passar por gente que nos olha, também.
Olhei e passei. Passei e voltei a olhar.
Parei. Olhei e não passei
a estrada daqueles olhos para os meus.
Fiquei. Como se fica, fortuitamente,
diante de quem por nós passa,
nos olha, nos estranha e repara
que talvez fique, também.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Raras

As pessoas distribuem-se, instantaneamente, por diversos lugares. Encontramo-las por toda a parte, mas permanecem tão raras quanto as estrelas da manhã! Raras para pessoas como eu que, no fim do dia, enquanto o mundo se agita nas suas rotinas e hábitos banais, me recolho na concha e me deixo ficar. Raras para pessoas como eu que, bivalve, me divido entre a sede do que ainda está por fazer e o desejo de me ocultar, confortavelmente, na segurança do infinito que abarco em mim. Raras...


 


Inusitada e espaçadamente no tempo, passa ligeiro e de perto alguém que me escuta, me vê, me sente e repara no que, de menos óbvio, trago em mim. Assim, levemente, sem invasão de espaço, ou intensão de que a concha se abra e se mostre nua. Retraio-me e permaneço fechada, porque são tão raras as pessoas que param e atentam.


Enraizar-me em determinado lugar, temporariamente, possa esse lugar não ser mais do que um recanto meu, é uma estrada livre para o auto-conhecimento. Porque é preciso. É preciso saber que existem lugares bonitos em nós, onde podemos e devemos parar e descansar, na nossa solidão. Porque as pessoas estão em qualquer lugar, a todo o momento, cruzando diariamente o nosso caminho e emitindo demasiado ruído.


Mas são tão raras, as outras. Essas que param, atentam, sentem e reparam que nos entendem, por lhes sermos raros, também.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Desapressadamente

Na urgência dos dias, desenvolvemos métodos de afastamento do mundo, a que recorremos quando o equilíbrio tende a desiquilibrar e a paz se anula às mãos rotineiras da mecânica da vida. Apesar da velocidade com que o exterior avança e se adianta, é minha a certeza de que é na ausência da pressa que o real acontece, se vive, se faz , se sente e se cria. Na sua presença tudo é fugaz, sem raiz ou alicerce, revogando-se no instante preciso em que deixamos de prestar atenção.


Não será sensato nem ajustado acompanhar a velocidade envolvente. Devemo-nos sim, saber segurar e acompanhar o movimento natural definido pelo nosso próprio (com)passo, respeitando as paragens necessárias, sem perder a noção daquilo que nos rodeia.


A vida é um combóio atrasado que anuncia chegar ainda antes de partir.


Até a Lua e a Terra assumem velocidades distintas no seu movimento, sem que se desconectem ou atrasem. E é assim, a diferentes velocidades, que se seguram.


 


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quarta-feira, 23 de agosto de 2023

O Porquê dos Porquês

Os acontecimentos recentes e repetitivos em sectores sensíveis do panorama nacional, têm criado, à semelhança do que temos visto acontecer noutros países, com maior ou menor grau de influência, um clima de insatisfação, contestação e suspeição relativo a instituições e figuras nacionais de relevo, que, face à sua posição e aos valores sociais que nos regem, seriam, à partida, por nós, colocados acima de qualquer suspeita.



A verdade é que somos, ainda, e apesar de tudo, um povo brando e romântico, sem prejuízo de, por vezes, se nos acender o pavio, esse que tão rapidamente se inflama e queima como se apaga. E é esta dualidade experimentada que nos tranca o pensamento, quantas vezes em becos sem saída, impedindo-nos de distinguir o principal do acessório, eliminando o segundo. Este confronto interno de chama rápida, que nos condiciona a lucidez para pensar de forma crítica, tem sido o alimento do populismo e do radicalismo ideológico sagaz, presente à hora certa no momento exacto, servindo de combustível à labareda inicial. A par disso, é notória a dificuldade com que olhamos e pensamos os acontecimentos de forma crítica, não colocando em causa o que vemos, lemos e ouvimos, numa óptica de afastamento para análise e compreensão naturalmente diferente, consoante a perspectiva e o contexto nacional ou internacional, de acordo com o presente da História. Porque sim, os ingredientes estão todos lá, há anos, mas a ignorância quase sempre se adianta e se apressa.


Certo é que nos é impossível tomar decisões acertadas sobre o que quer que seja que não conhecemos, assim como não nos é legítimo tomar ou não partido de algo sobre qual não se detém real conhecimento. E isto é válido, inclusive, para as avaliações e análises de “especialistas”, não extremistas, mas, por vezes, tendenciosas e pouco transparentes, que possam não ter por base o legítimo conhecimento de causa. Porque pensar que dominamos todos os assuntos e temáticas e que controlamos o ambiente à nossa volta é absolutamente falacioso.



Vivemos na Era virtual e instantânea, onde o rol de informação e conteúdos nos cresce nas mãos e onde os algoritmos estão montados para nos prender e sugar a atenção. Não há tempo para pensar pela própria cabeça nem para filtrar informação, assim como deixamos de estar disponíveis para a importância das percepções e da observação da realidade à nossa volta. Os ecrãs roubam-nos muito, desde o pensamento, à verdade, passando pelo poder de observação.

Porém, a evolução das sociedades não deixa de estar intimamente ligada aos meios de transmissão de informação, sobretudo digitais. Existisse esta capacidade de dissociar o principal do acessório, a verdade da inverdade, a propaganda da informação, a manipulação da fonte segura, a coerência do oportunismo e a sociedade ganharia maior consciência da sua irrelevância, ausência de influência e da sua falta de importância.

No entanto, sucede que as redes sociais colocam-nos a todos no mesmo patamar, igualando-nos, influenciando-nos a seguir as mesmas modas e tendências, desviando a nossa atenção para conteúdos virias pouco idóneos, permitindo que se diga tudo aquilo que se tem absoluta liberdade para dizer, sobrepondo-se esta liberdade à responsabilidade do acto e evitando a discussão de assuntos que importam e impactam a sociedade e que exigem, realmente, ser pensados. É inequívoco o contributo envenenado das redes sociais na uniformização do pensamento.


Isto leva-nos ao ponto seguinte que é o nosso entendimento sobre uma possível crise de valores, que nos parece tão antiga quanto inultrapassável, por ser de abordagem sistemática, mas sobre a qual não temos opinião firme. A verdade é que o conjunto de mudanças velozes e permanentes nos vários sistemas e tecidos sociais, políticos, profissionais, ideológicos e económicos nos afectam, criando um desequilíbrio ao nível do entendimento sobre quais são, efectivamente, os valores pelos quais nos regemos enquanto sociedade.


Será isto uma crise ou uma transformação? Será ela o apanágio da liberdade ou a sua ameaça enquanto sociedade democrática? Talvez nos seja apenas necessário mantê-la sob vigilância, enquanto as mutações vão acontecendo e o que tem que se acertar acerta, para que os valores e pilares fundamentais não cedam, por forma a tentar criar condições para fomentar uma cidadania activa consciente, baseada no conhecimento, na justiça, na solidariedade, na ética, no respeito e na inclusão. E aqui, o ensino assumirá sempre um papel preponderante, uma vez que é através da educação e da promoção da literacia que as sociedades evoluem construtivamente, adquirindo os mecanismos e ferramentas necessárias para lidar e enfrentar a mudança e o desconhecido.


Será, pois, então, verdade que, sobre o que não sabemos não perguntamos, mas será igualmente verdade que por sabermos, de antemão, algumas respostas, não formulamos as devidas perguntas. Porque acaso o fizéssemos, obteríamos as respostas que nos obrigariam a agir sobre a causa e é isso, em geral, que não queremos ou evitamos fazer.


Nas palavras de Valter Hugo Mãe "(...) podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é. As ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. Não importam. As liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. Sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. É um dado adquirido (...)"



sábado, 5 de agosto de 2023

Cerca-te de pessoas que te inspiram

Pessoas. Terás sempre pessoas ao teu redor. As certas e as erradas.


Serás levado a aprender a escolher entre quem te vai influenciar positivamente e entre aqueles que pouco ou nada te acrescentarão. Serás, também, impelido a compreender quem são as pessoas que te elevam e quem são as te enfraquecem.


Chegará o dia em que sentirás necessidade de te rodear de pessoas mais inteligentes, sentir a atracção da energia positiva, motivadora e gratificante, capaz de acrescentar valor e transformar a forma como encaras a vida.


Pessoas que te elevam, te desafiam e estimulam, pessoas que te aguçam o pensamento e a sede de conhecimento, gente que te cativa, motiva e se constata  lufada de ar fresco. Pessoas com a capacidade de te fazer olhar para o mundo de forma diferente, idóneas e de bom caráter. Pessoas cuja presença é um contributo para que te possas tornar, a cada novo dia, alguém melhor.


Pessoas que sabem utilizar tão bem o cérebro, quanto o coração. E estão contigo, e por ti, sem qualquer obrigação!


Estas são as tuas pessoas. Fundamentais para o teu crescimento e desenvolvimento pessoal. Para que a tua inquietude seja uma característica construtiva e jamais te impeça de respirar fundo e enfrentar os desafios naturais da vida.


São, também, quem te fará aprender que aquilo que recebes não será mais do que o eco daquilo que emites. E que os locais que frequentas e o teu ciclo de influências interferem directamente com o teu astral.


Quem queres ser? Quais são os teus sonhos e metas?
Quem são aqueles que contribuem - sempre! - para lá chegares e quem são os outros, aqueles que te desviam do caminho, ou se ausentam nos momentos mais críticos?


Cabe-te a ti escolher as pessoas com quem te relacionas e saber atribuir-lhe o grau certo de importância e influência na tua vida.


Cabe-te a ti saber escutar o coração, mas é também teu dever saber ouvir as vozes certas. As que te dizem o que precisas de ouvir e não aquilo que gostavas que te dissessem.


Porque há quem por ti passe, tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.


Post para Instagram frase motivacional citação _


 


 


 


 

domingo, 9 de julho de 2023

A memória das mãos nunca esquece a paixão

Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam. Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.


- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - tão pouco que destino os espera. Toda a vida vivi intensamente cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje, já calejado da vida, me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, a carne dos lábios, de olhos fechados.


Eurico rodou o banco de lona verde escura ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele, com a ponta do meu indicador, e lhe medisse a profundidade.


- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir... somente um vazio que não poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal sempre que, na demora da ausência, recordares uma mulher e, de olhos fechados, lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não cultivar, cuidar, amar e preservar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.


Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.


- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.


Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:


- Como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!


 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

A Possibilidade dos Recomeços

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Na vida existem - e sempre existirão - períodos de mudança e transformação. À semelhança da transição entre estações do ano, também as etapas do nosso caminho são varridas por tempestades de inverno, ou abençoadas pelo florescer da beleza tranquila da primavera. O vento leva o que já não não acresce ou não nos serve a partir daí, e a chuva lava e purifica o que fica, preparando-nos para o período fértil dos recomeços. Das sementes que à terra deitarmos, nascerão as flores que nos acompanharão no caminho. E os sonhos, alimentados pelos nossos pés, beberão da leveza e da certeza que é por ali a estrada.


Cada um de nós é uno, mas os ciclos da existência individual não são tão díspares quanto possamos imaginar. Só a postura perante os factos e a inteligência emocional diferem, determinando tempos e modos de atuação, naturalmente diferentes.


Adiar mudanças, por um ou outro motivo, é comum. Mas existem aquelas que são necessárias, que sabemos serem a base para a nossa estabilidade, felicidade, bem estar. Estas, quando adiadas, vão abrindo espaço ao vazio, à tristeza, à ausência de realização pessoal, conduzem a perdas diversas no caminho e vão-nos consumindo até deixarmos de ser quem somos... no limite.


Não é fraqueza. É a vida a obrigar-nos a mudar.


Frequentemente, ao longo de um período demasiado extenso, afirmamos que o lugar onde nos encontramos não é o nosso lugar. Ajustamos as velas, mas não alteramos a rota. Até ao dia em que o casco onde navegavamos - e que nos faz - não suporta a última tempestade e afunda. Naufragada a vida, ficamos nós e o pouco que resta, à deriva, até que o mar nos devolva à terra.


Exaustos, paramos, pensamos e alguns agem.
É tempo de se ser criador de si mesmo. É tempo de efetivar mudanças. É tempo de retomar rotas anteriores e certas ou de iniciar novas estradas. É tempo de aceitar os lugares onde somos felizes, mesmo que a quilómetros de distância daquilo que pensámos ser. É tempo de procurar a leveza e o sorriso, abrir janelas ao sol e voltar a ser quem se é. Tudo o mais, o tempo e a verdade farão, garantidamente. Porque ela, a verdade, não poderá ocultar-se longamente.


Em  nós, ficará tudo o quanto for leve, simples e verdadeiro (mesmo que mais adiante, porque é sempre necessário reflorescer).
O lugar onde me encaixarei não é, de todo,  aquele onde presentemente me encontro. Mas sei-o adiante. E é para lá que me dirijo.
Por vezes, deixar capítulos para trás é o caminho certo.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Excesso

Completo, o dia abre espaço à noite,
à lotação das sombras
ao cheiro das estrelas
aos repetidos caminhos do regresso,
entre filas e faróis fatigados.
Ao longe,
o silêncio:
rasgado pelo uivo dos cães tardios.


Toma a dianteira, o desconhecido,
desafiando-o:
rotineiro
habitual
automático
mecânico.
Para onde nos dirigimos?


Há um excesso que nos empurra e atropela:
emoções
informações
expectativas
ambições
e pressa. Muita, muita pressa
de chegar e não parar
até que se chegue
[sem lá se estar]
ao lugar de onde, ainda agora, se partiu.

Corpos de cansaço e fadiga
abandonados à força dos dedos
sustendo a fronte, à vida
e às ideias inacabadas,
onde se adormece e habita.


Há um excesso que nos devora, conduz e domina.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

De se ser

No decote da noite emaranhada,
Num fio de cabelo que ficou
Pousado na memória enevoada
Dos traços que o destino não juntou

Desceu às estrelas, a correr
Como quem quer delas apagada
a luz no peito ao adormecer
em braços nus de lua, enamorada.

Foi Deus chamado e não ouviu,
nos olhos, tom de sonhos adiados,
a valsa da paixão que não seguiu
dos astros, os acordes alinhados.

Se era tempo amarrotado ou o segredo,
de se ser mais caminho do que chão,
de se ser mais fissura que romance,
de se ser mais no remendo, o coração.


 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

O Papel da Arte e do Artista na vida e construção de uma cidade

Republico hoje uma das minhas crónicas n' O ATUAL . 


 


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A arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. É parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitando o diálogo entre os indivíduos, desde cedo, através da representação de figuras rupestres nas paredes das cavernas. Tem vindo a mutar-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a arte sempre possibilitou a aproximação entre indivíduos, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro. Mais do que isso, a arte opera a capacitação de lidar com o mundo, com o confronto e com a diferença.


Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a arte humaniza.


Limitar a arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção que nem sempre é proporcional ao talento) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, preferência, protecção, interesse ou perfilhamento é errado. Tal como é errado limitar e reduzir a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 


Do que estarei eu a falar? Difícil de entender? Talvez, para alguns.


Em primeiro lugar, a falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de uns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. Não é isso que está em causa) em detrimento de outros, persistindo as assimetrias na representação artística da região. Neste ponto, será necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.


Em segundo lugar, impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista e fechada em si própria tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não é de interesse ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte e Cultura têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


E se “sair da ilha para ver a ilha” é necessário, parafraseando Saramago, “sair da ilha para VER” é ainda mais necessário. Olhar para fora e por fora, sair, ir, vivenciar e entender a realidade externa como uma dimensão da experiência humana. Captar o que de que bom se faz noutros locais, procurar conhecer e ter contacto com iniciativas e artistas diferentes, imaginar e inovar, ousar o diferente e o novo, criar movimento e ser motor de inspiração, em nome da vida urbana, transformada e renovada, onde todos possam exercer e beneficiar do seu direito à atividade participante e à cidade, aos locais de encontro e de partilha, à diversidade cultural.


O exercício da cidadania passa pelo reconhecimento recíproco, pela afirmação e reconhecimento de grupos que ainda se mantém à margem, mesmo pertencendo à cidade, seja na procura de oportunidades para trabalhar e viver, como para conviver, disfrutar, alargar horizontes, ter acesso a programação cultural do seu interesse, mais abrangente e diversificada. A cidade deve ser capaz de garantir a liberdade de escolha, sem que isso se afigure como um factor de exclusão, e  deverá converte-se num espaço de circulação pluricultural e atrativo, onde os seus agentes, grupos, indivíduos (residentes ou visitantes) possam produzir, assistir, disfrutar, encontrar-se e usufruir das mais diversas e diversificadas áreas culturais e artísticas.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada e é dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.


A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.

Húmus

As minhas janelas não dão para lado nenhum.
Não há nada que se me mostre através delas.
As estradas e figuras que entrevejo
não me levam a lugar algum;
perdeu-se o Homem e o ensejo
Lá no alto, pelo asfalto.



Há nos meus olhos cansaços vários
decorrentes do esforço exabundante
de sonhar desejos deficitários
p’la mão de Virgílio,
nas margens do Letes de Dante.


Constantemente me adio os escombros,
inevitáveis, quando à meia, a noite cair
e o céu me esborrachar de vez a cabeça.
No inferno, todos se vão rir
e na terra não há quem não me agradeça a retirada.
Que maçada…
todos escolheram o domingo para morrer
e até nisso eu saí controversa.
Nem no princípio nem no fim. Exatamente a meio
onde a semana dispersa.
Avessa, pedi para assistir ao meu funeral,
enterraram-me, por isso, primeiro o caixão
(que dele quero morrer longe).
Queriam-me os sonhos em valas comuns?
Não.
Sequem as lágrimas choradas
e desacreditadas de religião.
A minha única fé é sonhar!
E quem sonha, nunca sonha em vão.


Alimentar-vos-á o húmus
da minha ressurreição
porque se morro, não morro toda de uma só vez
e o que por terra cai,
levantar-se-á outra vez
sem que vós me entendeis a mão.


Querem graça?
Peçam o óbulo à porta da igreja
que a vida não vai de bandeja
e eu 'inda estou no meu funeral.


As minhas janelas não dão para lugar nenhum.


sábado, 13 de maio de 2023

Abarcar

É preciso escrever com as mãos limpas
o eco da poesia que corre
entre as margens de erro da vida;
e emendar o céu... 
com o olhar simples
de quem apanha as estrelas distraídas
e voa, para que se abracem.
É preciso corrigir a lonjura sempre que chove
e o dilúvio da cidade solitária se abate sobre os nossos corações.
Escorrem as emoções, ao sul
desaguando no mar azul
que te tráz
e só termina nos meus olhos.

Abarca-me.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

À proa


Nasço eu, p’los teus braços, amanhã.
Estratosférica e profunda,
breve e oriunda de sonhos crescentes,
como a lua esta noite.
Fóssil de mim, ajusto os ossos,
a mais dura parte de quem sou
à saudade.
Baixa mar de um rio que rasgou as margens
da impossibilidade, ao nascer.
Para os lados da foz, vazante, não lhe conheço caminho
e a jusante de mim, só o teu desaguar
no lago do jardim que me dá de beber
ao coração.
Tu entraste antes de mim nas flores que ficarão
com as lembranças,
quando a névoa cerrar o caminho
e a tua mão deslizar sobre o pensamento,
colhendo o que de nós brotou:


Arte livre, inocente e múltipla,
na proa erguendo o amor.


 

terça-feira, 9 de maio de 2023

Esperei por ti ao pé da ponte

Esperei por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos
te visse trinta passos apressada.



Chegavas-te a mim com três laranjas no regaço
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá que embarcar.


Aqui, deste lado da ponte, não há quem sou.
Mas acolá, onde os pássaros cantam,
onde as flores encantam
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim,
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
(enquanto te esperava do lado de cá) 
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter.
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer.
Vem sentar-te nas minhas costas
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...
(não é desleixo) e lá em baixo,
no lazarento jardim dos meus sonhos,

será fértil tudo o quanto dele beber.


Vem, que por ti ainda espero ao pé da ponte.


segunda-feira, 1 de maio de 2023

Asa


Tenho um desejo menino
que desperta devagarinho
dos sonhos que a vida tem.
Descalço, pelo meu peito, 
dança a compasso e sem jeito
Não dá a mão a ninguém.

Tenho nos abraços-casa
a alma livre p'la asa
de voar para onde quer.
Pequeninos, entre os dedos,
guardo, seguros, segredos
tudo o que a vida me der.

Se p'los olhos me entra o mundo
e o amor nasce profundo, 
eu não sei o que fazer...
Quanto mais eu me confundo, 
mais a noite perde o fundo
e eu só quero adormecer.

Nestas coisas da paixão
mais difícil que a razão
é dizer ao coração
que é preciso aprender:
não importa a emoção,
senti-la é um turbilhão, 
o necessário é viver.


 


 


 

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Talvez o céu

 


Derramadas as estrelas
sobre a noite quieta,
serve-se a vida
em chávena quente.


Lá fora, anamnese sonora:
dois corações que se tocam, distantes.
Dentro de si, estrangeiras:
as emoções vagueiam,
quase miragem
à margem das circunstâncias.
Transpostas fronteiras, o amor lidera
e os corações encontram-se
no espaço tridimensional
do afecto:
pele com pele
boca com boca
corpo com corpo.
Despojados de procedimentos
metodologias
normas
e tutoriais para comportamentos,
incuprem e amam
sem distância.


Perto:
lugar secreto
do agora
onde a vontade demora
e só a verdade consegue chegar.
Ficar:
distância longa,
excesso de perto.
Dois corações que se tocam, distantes.


Talvez o céu.


 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

E depois?


Aqui sentada sobre o mundo

que onde fica eu já não sei,
neste meu jeito profundo
de procurar, não encontrei
maneira mais indelicada
de olhar a vida virada
da janela feita para dois…
Se depois, parto cidade,
pelas luzes da saudade
e depois meu bem, depois…

Fico sentada sobre o tempo
que atrasado me chegou
olhando o mar em seu lamento
por barco que não ancorou.
Sem sinais nem alfaiate
que lhe cosa uma canção
ao casco que comigo parte
sem tirar ao amor a arte
de naufragar um coração.

E depois meu bem, depois…

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Diferentes Pesos, Diferentes Medidas

Visto, sobretudo, como um país de emigração, Portugal tem vindo, nos últimos anos, a contrariar a tendência, assumindo-se, cada vez mais, como país de destino. O saldo migratório foi, pela primeira vez, positivo em 2017 e são cada vez mais os cidadãos estrangeiros a escolher e/ou procurar Portugal para trabalhar, estudar ou viver. Mas o país pacato e aberto, à beira-mar plantado é, por vezes, traiçoeiro para aqueles que de longe nos olham e cujo sonho parece chamar.


Numa tendência generalizada, é crescente o número de cidadãos estrangeiros residentes em Portugal (superior a 555 mil), calculando-se um acréscimo de 40% nos últimos 10 anos, embora com alterações no perfil de entrada. Segundo o Relatório Estatístico Anual sobre Indicadores de Integração de Migrantes 2021, publicado pelo Alto Comissariado para as Migrações, até ao início do século XXI a maior percentagem de solicitações de entrada seriam de natureza laboral, tendo, daí em diante, e por decréscimo das oportunidades de trabalho, sido associadas à necessidade de reagrupamento familiar e ao estudo, pese embora a realidade possa diferir entre regiões. Diferente será, também, a distribuição demográfica e geográfica das comunidades migrantes, sendo certo que, as nacionalidades com maior expressividade em Portugal são a Brasileira (27.8%), Reino Unido (7%), Cabo Verde (5.5%), Roménia (4.5%) e Ucrânia (4.3%).
Segundo dados do INE, sabemos, também, que existe uma tendência crescente das entradas de cidadãos oriundos de países asiáticos, sobretudo nos concelhos onde o trabalho provém, maioritariamente, de explorações agrícolas. No caso do concelho Beja estão identificadas 17 nacionalidades, lideradas pela Índia, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil e Angola, onde se incluem estudantes, cidadão activos e não activos.
Sabe-se, também, que a maior concentração de migrantes acontece na área metropolitana de Lisboa e que 60.5% do total de cidadãos estrangeiros a residir no país são “economicamente activos”, sobretudo em áreas como o comércio, construção civil, limpeza, restauração, distribuição e sector agrícola, em actividades que, assume o país, de outra forma “não sobreviveriam ou entrariam em colapso”.
As habilitações e remunerações verificam-se mais elevadas, em comparação com as dos portugueses, para cidadãos oriundos da EU e EUA, por oposição às remunerações dos trabalhadores oriundos da Tailândia, Bangladesh, Nepal ou Guiné. E destes, 67.7% tem vínculo laboral precário.
Segundo o INE 14.3% dos cidadãos estrangeiros serão patrões e/ou empregadores.


Situando-se a média de idades nos 37.3 anos, abaixo da média da população portuguesas, assumem, não só, estes cidadãos, um papel fundamental na eficiência do mercado de trabalho, como no atenuar dos efeitos do envelhecimento crónico da população, que se verifica há anos, a que soma o contributo para a natalidade (13.5% do total de nascimentos em 2020).
Posto isto, e à margem do populismo das medidas propostas por uns, da falsa “dignidade” defendida por outros, do sacudir ou não “a água do capote” inerente a vários ou mesmo da necessidade de se “escolher que tipo de imigrantes queremos para serem os colabores do nosso desenvolvimento”, citando o líder do PSD, importa, fundamentalmente, discutir com urgência e seriedade as políticas de imigração. Porque sim, evidentemente, Portugal precisa de imigrantes.
E não há dúvidas, segundo o Relatório Estatístico Anual 2022 “os estrangeiros assumem maior capacidade contributiva e são necessários para apoiar a sustentabilidade do Sistema de Segurança Social”, tendo contribuído, em 2021, com 1.293,2 milhões de euros, representando 10% dos contribuintes do país. E se dúvidas houvesse, no balanço entre prestações sociais e contribuições, são as segundas quem mais pesa. É, então, factual a importância do contributo estrangeiro para o “alívio do sistema e para a sua sustentabilidade”.
Por outro lado, no reverso da medalha, existe à luz da legislação portuguesa permissão para a estadia em Portugal de milhares de seres humanos incapazes de garantir o seu sustento, a viver em condições indignas e incapazes de escapar à violência da exploração laboral e humana, por ineficácia do controlo e fiscalização de entradas e das condições de vida e laborais. Vítimas das redes oportunistas, que têm nas lacunas legais a sua oportunidade de negócio, chegam-nos, todos os meses, seres humanos cujo peso da dívida, no país de origem, transcende a dureza da vida. Porque sabemos, as redes de tráfico humano são uma realidade, assim como a fragilidade destas pessoas, expostas a abusos e excessos por parte de patrões, mediadores e dos modelos de trabalho das novas plataformas de distribuição, onde o contrato de trabalho é inexistente e onde todas as responsabilidades inerentes à actividade são afectas aos parceiros, entenda-se distribuidores.



Já não fechamos os olhos, nem permitimos à classe política que os feche, às condições de habitabilidade de 37.7% da população migrante que, segundo o resultado do CENCUS, assume viver em alojamentos sobrelotados. Sobretudo desde que Odemira e Beja passaram a ser uma realidade das ruas lisboetas e que o poder governativo passou a ser confrontado com aquilo que parecia, até então, apenas ao poder local dizer respeito – quando dizia, pois, nem sempre.
O que à distância acontecia está agora demasiado perto.
Em boa verdade, e à boa vontade, é necessário que se juntem as políticas públicas de apoio, ao trabalho incansável das IPSS e às iniciativas privadas e de cidadãos singulares já existentes, criando uma estratégia concertada que permita dar melhor resposta a quem nos chega, vindo de um país diferente, de uma cultura diferente e em situações, quantas vezes, delicadas.
A responsabilidade de acolher e integrar é, também, dos organismos públicos. Assim como é sua a responsabilidade de perceber, com abertura, olhando para fora, quais as necessidades prementes e de que forma podem, estes organismos, ajudar a supri-las.



Curiosa será, no entanto, a aproximação do risco de pobreza entre cidadãos migrantes e portugueses; 20.2% para os primeiros e 19.3% para os segundos. Revelador da ineficácia das actuais políticas estruturais e sociais e da urgência em discuti-las e trabalhá-las.
E se a discussão do momento é sobre se Portugal deve ou não continuar aberto a imigrantes, sim. Mas garantindo o apoio real e necessários às IPSS, garantindo ética social, transparência na atribuição de vistos e autorizações de residência, combatendo a exploração e o trabalho clandestino e tornado (mais) dignas as condições de vida das pessoas. Porque são diferentes os pesos e as medidas quando se fala em imigração comunitária e extracomunitária, mas também sobre elites privilegiadas - reformados, investidores, trabalhadores altamente qualificados e nómadas digitais – e os demais trabalhadores de base. É necessária a discussão: como viver em Portugal, como habitar Portugal e como ser casa em Portugal?
Não somos ilhas. Somos humanos e devemos pensar como tal: global.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

O Porquê dos Porquês

Os acontecimentos recentes e repetitivos em sectores sensíveis do panorama nacional, têm criado, à semelhança do que temos visto acontecer noutros países, com maior ou menor grau de influência, um clima de insatisfação, contestação e suspeição relativo a instituições e figuras nacionais de relevo, que, face à sua posição e aos valores sociais que nos regem, seriam, à partida, por nós, colocados acima de qualquer suspeita.



A verdade é que somos, ainda, e apesar de tudo, um povo brando e romântico, sem prejuízo de, por vezes, se nos acender o pavio, esse que tão rapidamente se inflama e queima como se apaga. E é esta dualidade experimentada que nos tranca o pensamento, quantas vezes em becos sem saída, impedindo-nos de distinguir o principal do acessório, eliminando o segundo. Este confronto interno de chama rápida, que nos condiciona a lucidez para pensar de forma crítica, tem sido o alimento do populismo e do radicalismo ideológico sagaz, presente à hora certa no momento exacto, servindo de combustível à labareda inicial. A par disso, é notória a dificuldade com que olhamos e pensamos os acontecimentos de forma crítica, não colocando em causa o que vemos, lemos e ouvimos, numa óptica de afastamento para análise e compreensão naturalmente diferente, consoante a perspectiva e o contexto nacional ou internacional, de acordo com o presente da História. Porque sim, os ingredientes estão todos lá, há anos, mas a ignorância quase sempre se adianta e se apressa.


Certo é que nos é impossível tomar decisões acertadas sobre o que quer que seja que não conhecemos, assim como não nos é legítimo tomar ou não partido de algo sobre qual não se detém real conhecimento. E isto é válido, inclusive, para as avaliações e análises de “especialistas”, não extremistas, mas, por vezes, tendenciosas e pouco transparentes, que possam não ter por base o legítimo conhecimento de causa. Porque pensar que dominamos todos os assuntos e temáticas e que controlamos o ambiente à nossa volta é absolutamente falacioso.



Vivemos na Era virtual e instantânea, onde o rol de informação e conteúdos nos cresce nas mãos e onde os algoritmos estão montados para nos prender e sugar a atenção. Não há tempo para pensar pela própria cabeça nem para filtrar informação, assim como deixamos de estar disponíveis para a importância das percepções e da observação da realidade à nossa volta. Os ecrãs roubam-nos muito, desde o pensamento, à verdade, passando pelo poder de observação.

Porém, a evolução das sociedades não deixa de estar intimamente ligada aos meios de transmissão de informação, sobretudo digitais. Existisse esta capacidade de dissociar o principal do acessório, a verdade da inverdade, a propaganda da informação, a manipulação da fonte segura, a coerência do oportunismo e a sociedade ganharia maior consciência da sua irrelevância, ausência de influência e da sua falta de importância.

No entanto, sucede que as redes sociais colocam-nos a todos no mesmo patamar, igualando-nos, influenciando-nos a seguir as mesmas modas e tendências, desviando a nossa atenção para conteúdos virias pouco idóneos, permitindo que se diga tudo aquilo que se tem absoluta liberdade para dizer, sobrepondo-se, esta liberdade, à responsabilidade do acto, evitando a discussão de assuntos que importam e impactam a sociedade e que exigem, realmente, ser pensados. É inequívoco o contributo envenenado das redes sociais na uniformização do pensamento.


Isto leva-nos ao ponto seguinte que é o nosso entendimento sobre uma possível crise de valores, que nos parece tão antiga quanto inultrapassável, por ser de abordagem sistemática, mas sobre a qual não temos opinião firme. A verdade é que o conjunto de mudanças velozes e permanentes nos vários sistemas e tecidos sociais, políticos, profissionais, ideológicos e económicos nos afectam, criando um desequilíbrio ao nível do entendimento sobre quais são, efectivamente, os valores pelos quais nos regemos enquanto sociedade.


Será isto uma crise ou uma transformação? Será o apanágio da liberdade ou a sua ameaça enquanto sociedade democrática? Talvez nos seja apenas necessário mantê-la sob vigilância, enquanto as mutações vão acontecendo e o que tem que se acertar acerta, para que os valores e pilares fundamentais não cedam, por forma a tentar criar condições para fomentar uma cidadania activa consciente, baseada no conhecimento, na justiça, na solidariedade, na ética, no respeito e na inclusão. E aqui, o ensino assumirá sempre um papel preponderante, uma vez que é através da educação e da promoção da literacia que as sociedades evoluem construtivamente, adquirindo os mecanismos e ferramentas necessárias para lidar e enfrentar a mudança e o desconhecido.


Será, pois, então, verdade que, sobre o que não sabemos não perguntamos, mas será igualmente verdade que por sabermos, de antemão, algumas respostas, não formulamos as devidas perguntas. Porque acaso o fizéssemos, obteríamos as respostas que nos obrigariam a agir sobre a causa e é isso, em geral, que não queremos ou evitamos fazer.


Nas palavras de Valter Hugo Mãe "(...) podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é. As ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. Não importam. As liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. Sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. É um dado adquirido (...)"



A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...