sexta-feira, 17 de abril de 2020

Sombra de Esperança

Era um dia igual a todos os outros. E todos os outros eram, agora, iguais a todos os dias. Passavam, como o tempo empoeirado, por vezes parado, pelos ponteiros descoordenados de um relógio velho, a caminho de um lugar comum.
E eu, que nunca soube a direcção da estrada, frequentemente me encontrava, díspar, em locais contrários e diferentes das gentes a quem agora me igualei. Inútil. Improfícua. Imprestável. Só.
Era um dia igual a todos os outros, cheio de números e tarot, que todos ouviam, à excepção dos outros que partiam, porque até nisso os dias eram todos iguais: levavam, levavam... e pouco traziam.
Cheirava a café acabado de fazer e à tinta da caneta que chorava o desnorte. Doía-me a vida e sonhos de bolsos vazios.
Era um dia igual a todos os outros, em que já ninguém sorria, nem se devolvia o abraço. Restava o cansaço...
E eu, que nunca fui bússola para ninguem, nem soube caminhar de cor, era já, também, igual aos dias e a todos os outros. Permanecia... Sombra de esperança.


 


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Pintura "Sombra de Esperança" da minha autoria 


 

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