segunda-feira, 8 de julho de 2024

Crise e liderança nas organizações

Temos vindo a adoptar, ao longo dos tempos, um sentido de progresso linear onde se crê que será o futuro sempre melhor do que o passado. Sem, no entanto, considerarmos que a vida sempre se revelou cíclica e que, embora os progressos em diversas áreas sejam evidentes, também eles poderão ser suspensos, de tempos a tempos, como acontece em períodos de crise.

O mundo dos negócios não é inteiramente controlável. Composto por factores internos, externos e variáveis, algumas aleatórias e imprevisíveis, requerer lideranças ágeis, humanas e competentes, de mentalidade aberta e visão infinita, conscientes da necessidade e aceitação de alteração das regras, durante o jogo, consoante o seu decurso.

A capacidade de reacção às adversidades, a visão de oportunidade, o tempo de resposta, assim como a sabedoria de utilizar o erro como fonte de aprendizagem, são competências fundamentais quando se enfrenta uma crise. Todavia, os resultados das organizações - em períodos de crise ou não crise - são resultado dos contributos dos seus líderes, mas também do seus liderados. Sempre.

Frequentemente, em alturas controversas, nomeiam-se bodes expiatórios, a quem se possa imputar responsabilidades. Sejam elas de que natureza forem. No limite, serão os próprios clientes um incómodo, residindo neles a "culpa" dos resultados. Isto acontece por falta de preparação para os cargos de liderança, excesso de ego, desenquadramento, acompanhamento insuficiente do e no terreno, resistência à mudança e desvalorização de sinais pré-existentes. (As crises antes de emergirem já criaram raízes).

Assumir a solidão do poder - ainda culturalmente aceite em muitas organizações - impede o contacto directo entre líder e liderados, bloqueando a interacção e a percepção da realidade, abrindo espaço à destorção e suposição, em canal aberto, de informações nem sempre objectivas e fidedignas, capazes de comprometer respostas superiores. 

Do lado oposto, assumir a frente da batalha e dar o corpo às balas, na consciência de que é a dedicação, a vontade, o esforço e o empenho que constroem resultados, vestindo-se a premissa de que é, o trabalho, missão muito mais do que sucesso, permite maior consciência do terreno e do quadro de operações, assim como das suas variantes, necessidades e dificuldades, facilitando a actuação e o rigor das medidas a implementar.

Assumir que não se tem respostas para tudo, que errar é humano e que a ajuda das equipas é crucial para vencer tempestades é o primeiro passo para aceitar a exposição ao terreno. Já a transparência, a presença, o apoio e a disponibilidade em situações de maior fragilidade organizacional, resultarão no fortalecimento do elo de ligação entre os diferentes níveis da pirâmide, cimentando o respeito, a lealdade, o compromisso e a motivação dos operacionais em tempos adversos. Porque as organizações são edificações colectivas, no melhor e no pior e, quando se integra de uma cadeia de valor, todos são responsáveis pela queda e pela rapidez da sua recuperação.

Porque liderar nunca foi chefiar ou ordenar, a liderança conduz e desenvolve pessoas, no presente, rumo ao futuro, através do exemplo, tornando-as parte da solução e da construção do novo.

Ninguém é sozinho.

"Liderança não é sobre títulos, cargos ou hierarquias. Trata-se de uma vida que influencia outra” – John C. Maxwell.

 

Cinzento Fotografia Mês História Negra Post Face

 

 

 

 

 

terça-feira, 25 de junho de 2024

No Fim


Há, por certo, o tempo certo
e a certeza em cada fim.
Há no tempo menos certo
o coração dizer que sim.
Há estradas e desvios,
barcos, velas e navios,
mar e sonhos por navegar...
à proa de recomeços,
de vitórias e tropeços,
onde a arte é caminhar.
Há lonjuras e rotas certas,
há lugares por desvendar,
há luares que não se viram,
céus ainda por chegar.
E se lua sai à noite
no seu vestido comprido
são de estrelas os teus olhos
brilho raro, destemido.
Segues certo do teu tempo
e do sol por abraçar,
do presente que te cruza
do futuro por traçar.
Abres o teu peito ao mundo
e o sorriso a quem te dás
sendo a esperança, lá no fundo,
um amor que a vida traz.

Há por certo o tempo certo
e o bater certo, enfim!
Se não é certo o que bate,
certo é: não é o fim.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Quisessem os teus olhos

Quisessem os teus olhos nos meus
trazer o tempo que, por nós, nunca passava,
a ternura do olhar, que demorava,
alado, em sonhos, sobre mim.
Quisessem os teus olhos naufragar
sem pressa, nessa pressa em que te vais!
Ser porto, ancorar os teus sinais,
ser espera e a esperar dizer que sim.

Quisessem os meus olhos nos teus
plantar de amor eternas datas,
p'la luz da sombra em serenatas
de olhares futuros onde não viste
chegar, depois de um sonho triste,
a vida toda, entrelaçada!

Ai quem me dera assim,
Se assim fosse, quem te dera!

terça-feira, 7 de maio de 2024

Saber Perder

Na sociedade actual a aceitação e a tolerância ao erro são cada vez menores. Saber lidar com a frustração da derrota tornou-se, por isso, uma das nossas maiores lacunas estando ela, no entanto, presente em múltiplas situações da nossa vida.

O “estar bem” deixou de ser um caminho pessoal para se tornar uma imposição social.

As fragilidades do ser humano deixaram de ter lugar, assim como a consciência de que somos falíveis, de que erramos, choramos, sofremos, passamos por dificuldades num ou noutro momento, de que a tristeza é tão válida quanto a alegria e não acordamos nem adormecemos perfeitos, tão pouco 100% realizados e sem quaisquer problemas na vida.

Nas redes sociais multiplicam-se os discursos e a montra das vaidades, e as livrarias estão repletas de livros que nos querem ensinar a ganhar, a ser melhores, a atingir um determinado patamar de vida e financeiro (quantas vezes utópico), a ser heróis, a formar a família perfeita ou a construir a relação ideal... por entre páginas e páginas de relatos e histórias de vida nem sempre reais.

É esta "falsa felicidade" que tantas vezes cria, em quem assiste, um sentimento de inadaptação ao meio, frustração por não conseguir atingir determinados patamares de plenitude, objectivos que parecem tão fáceis de serem alcançados, desalento por não se ser tão bem sucedido quanto outros, o sentimento de culpa pela falta de realização pessoal e por falhar no caminho para a aceitação, segundo parâmetros que a mim me parecem questionáveis.

De facto, são mais os livros que visam o ensinamento da vitória, do que aqueles que nos ensinam a lidar com a frustração da derrota ou insucesso, fazendo-nos pensar e motivando a acção (ao invés da pacividade de nada fazer perante exemplos pouco reais de vencedores que no fundo sabemos não poder igualar).

Realisticamente falando, durante a vida, são muito mais as vezes em que perdemos do que aquelas em que ganhamos, sendo que o primeiro passo para manutenção do equilíbrio, deverá passar pela aceitação da realidade dos factos. Só essa aceitação nos alimentará a paz interior.
Porque qualquer que seja o nosso insucesso, a lição passará sempre por aprender com ele, utilizando o acontecimento como oportunidade de melhorar em prol do crescimento pessoal. Nunca a falha deverá ser sinónimo de derrota, mas sim de transformação.

Porém, à velocidade estonteante a que a sociedade (sobre)vive, preferimos os "falsos" resultados a curto prazo (ou movediços), do que aprender a traçar metas reais e mais consistentes a longo prazo, sob a ameaça dos ventos contrários e percalços no caminho. Mas, trabalhar nessas metas, aprendendo a respeitar e a aceitar o tempo de cada etapa, assim como retirando dos tomboas a devida lição, vai ser o que nos permitirá saborear, algumas vezes, a leveza da realização.

Porque já dizia Lavoisier: "Na Natureza (tal como na vida) nada se perde, tudo se transforma."

 

sexta-feira, 29 de março de 2024

Um alfaiate não cose vidas

 

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Ilustração de Flávio Horta 

Dormíamos, a maior parte das vezes, no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos qualquer coisa semelhante com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de um animal, durante o destacamento.

Embarquei, em Portugal, em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete de trinta mil toneladas, capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era a pele, parte fundamental do equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número, o nome do soldado e o tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra, para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a outra, a quem chamávamos "Fiel Companheira de Mato", a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, arma de grande porte por quem os guerrilheiros ganharam grande respeito.

Durante as patrulhas, as principais funções eram o reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio, transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão, podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos, por escassos minutos, para comer qualquer coisa ou aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha, muitas vezes, a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?

[Voltemos ao cais]
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Hei-de beber do amor

Hei-de beber, da taça dos teus lábios,
o amor, ao entardecer.
E hei-de o saber, anunciado
pelo ruído de curiosidade da vizinha,
sem cuidado, ao ver-te descer a rua, a correr
e cair-me nos braços
por mil embaraços no coração.

Hei-de te ter,
visão dos meus olhos ao anoitecer,
estrelas de um céu onde sonho
e acordo, para continuar a beber
da taça do amor que os teus lábios
me servem, quando, pela manhã,
raiarem os teus cabelos de sol
na minha almofada.

Hei-de escrever,
pelas ruas da saudade,
sobre a calçada do eco dos passos,
quando saíres, pela manhã,
e abrir, amarela, a vista da janela
do campo de girassóis
dos teus caracóis na minha lembrança.

Hei-de fazer correr tinta
por versos imersos na ausência
dos teus dedos nos meus.
Porque será a distância
a única coisa em que tocam,
para além da elegância desta caneta
que te fez:
Criação da minha mente.

Hei-de beber do amor!

 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...