quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Um voo com destino ao Futuro


 


 


8h45 – SALA DE EMBARQUE


Um homem lê o jornal.
Uma mulher amamenta o filho.
Duas crianças brincam e saltam por cima dos bancos.
Um casal idoso dás as mãos.
Um casal jovem mexe no telemóvel. Ela tira fotos, ele passa os olhos no facebook.
Duas amigas conversam.
Dois amigos comentam.
Um homem de negócios reponde a e-mails.
Uma mulher de negócios retoca a maquilhagem.
3 turistas trocam impressões à roda de um mapa.
Um rapaz dorme.
Um militar parece ansioso.
Um pai brinca com o filho.
Um avô conta uma história.
Uma menina encosta-se ao vidro e, em silêncio, segue com o olhar os aviões que aterram e os que descolam.
Alice, a mãe, apenas observa.



Ouve-se: “Primeira chamada para o voo com destino a Lisboa.”


A menina que observava aviões dirige-se ao segurança da porta de embarque:
- O meu avião vai para Lisboa?
- Sim.
- E de onde vêm todos os outros?
- Do mundo inteiro.
- E eu não posso ir para o mundo inteiro?
- Quando fores grande.
- Mas todos estes senhores são grandes e só vão para Lisboa…


Alice levanta-se e prepara-se para o embarque:- Clarinha não aborreças o senhor, vamos?
- Mas mãe, tu disseste que íamos para o futuro…
- E vamos.
- O futuro fica em Lisboa?
- Por agora sim, quando fores grande ficará onde tu quiseres.
- NO MUNDO INTEIRO!!!
Oh mãe, acho que estes senhores estão enganados. Eles também vão para o futuro?
- Não Clarinha, vão apenas para Lisboa.
- Hmmm… para irem para o futuro eles precisam de ser pequenos outra vez não é?
- Talvez. Ou talvez precisem apenas de sonhar tanto quanto tu.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Lê-me como quem beija


 


 


Lê-me como quem beija e sente o toque das palavras na alma, o arrepio na pele e a suavidade nos lábios quando as lês. 


Lê-me como quem beija e deixa-te absorver por cada linha, em cada gesto escrito e descrito e em cada rasto sentido, deixado pelos dedos suaves de alguém ao escrever.


Lê-me como quem beija e deixa que os teus olhos pintem uma tela, um beijo em aguarela, ao sabor de um poema.
Lê-me como quem beija e sente o coração palpitar, a mente esvoaçar e o corpo tremer.


Lê-me como quem beija e deixa-te pelas linhas levar, sente os teus olhos a fechar de vagar e agora, a sonhar, relembra-me só mais uma vez. 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...