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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Por todas as ruas

Nunca dediquei poemas a ninguém,
ao invés disso escrevi-os, 
de tal ordem que pedi que lhe cantassem a desordem
expressa naquela cadeira, onde me sento,
carpideira, desde o principio do mundo.

Às vezes, confesso, não tenho assunto
e ali fico, visita de Poeta moribundo
ignóbil, vil, asqueroso e sujo
como o Amor que nunca cantei.
Imaginei, porém, pura, digna, sobranceira e nobre,
sob o véu casto da Poesia que me cobre,
que percorria contigo todas as ruas do coração.

Pois não.
Nunca dediquei poemas a ninguém,
salvo a quem quero, de mão dada
e de soslaio, olhar embaraçada,
sob a vontade endiabrada
de lhe colher o sol do peito.
E se, por defeito, nenhum outro poema te for feito,
capaz de mim,
espero por ti aqui,
neste verso onde me deito
inábil, inútil, incapaz e sem jeito de te dizer:

Quero andar contigo de mão dada por todas as ruas.

 

domingo, 10 de agosto de 2025

Mar nos olhos

 

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, o sol poente.
Escrever poemas na pele
e salgar as ondas
que te nascem no cabelo.
Olhar-te fim de dia
sobre o azul que trago
e estender o céu...
Fazer-te casa no peito,
de areia fina, o leito
(ainda horizonte)
onde te abraço.

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, um barco à vela.
Abrir sobre nós a janela
e viajar para além da vida.
Deitar-te em mim, sobre os sonhos
e adormecer,
sem ter que saber velejar.
Entrar-te a correr pelas mãos
e ficar
onde o acaso acontecer.

Ter nos olhos o infinito
e a ti também!

 

 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

A Possibilidade dos Recomeços

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Na vida existem - e sempre existirão - períodos de mudança e transformação. À semelhança da transição entre estações do ano, também as etapas do nosso caminho são varridas por tempestades de inverno, ou abençoadas pelo florescer da beleza tranquila da primavera. O vento leva o que já não não acresce ou não nos serve a partir daí, e a chuva lava e purifica o que fica, preparando-nos para o período fértil dos recomeços. Das sementes que à terra deitarmos, nascerão as flores que nos acompanharão no caminho. E os sonhos, alimentados pelos nossos pés, beberão da leveza e da certeza que é por ali a estrada.


Cada um de nós é uno, mas os ciclos da existência individual não são tão díspares quanto possamos imaginar. Só a postura perante os factos e a inteligência emocional diferem, determinando tempos e modos de atuação, naturalmente diferentes.


Adiar mudanças, por um ou outro motivo, é comum. Mas existem aquelas que são necessárias, que sabemos serem a base para a nossa estabilidade, felicidade, bem estar. Estas, quando adiadas, vão abrindo espaço ao vazio, à tristeza, à ausência de realização pessoal, conduzem a perdas diversas no caminho e vão-nos consumindo até deixarmos de ser quem somos... no limite.


Não é fraqueza. É a vida a obrigar-nos a mudar.


Frequentemente, ao longo de um período demasiado extenso, afirmamos que o lugar onde nos encontramos não é o nosso lugar. Ajustamos as velas, mas não alteramos a rota. Até ao dia em que o casco onde navegavamos - e que nos faz - não suporta a última tempestade e afunda. Naufragada a vida, ficamos nós e o pouco que resta, à deriva, até que o mar nos devolva à terra.


Exaustos, paramos, pensamos e alguns agem.
É tempo de se ser criador de si mesmo. É tempo de efetivar mudanças. É tempo de retomar rotas anteriores e certas ou de iniciar novas estradas. É tempo de aceitar os lugares onde somos felizes, mesmo que a quilómetros de distância daquilo que pensámos ser. É tempo de procurar a leveza e o sorriso, abrir janelas ao sol e voltar a ser quem se é. Tudo o mais, o tempo e a verdade farão, garantidamente. Porque ela, a verdade, não poderá ocultar-se longamente.


Em  nós, ficará tudo o quanto for leve, simples e verdadeiro (mesmo que mais adiante, porque é sempre necessário reflorescer).
O lugar onde me encaixarei não é, de todo,  aquele onde presentemente me encontro. Mas sei-o adiante. E é para lá que me dirijo.
Por vezes, deixar capítulos para trás é o caminho certo.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Húmus

As minhas janelas não dão para lado nenhum.
Não há nada que se me mostre através delas.
As estradas e figuras que entrevejo
não me levam a lugar algum;
perdeu-se o Homem e o ensejo
Lá no alto, pelo asfalto.



Há nos meus olhos cansaços vários
decorrentes do esforço exabundante
de sonhar desejos deficitários
p’la mão de Virgílio,
nas margens do Letes de Dante.


Constantemente me adio os escombros,
inevitáveis, quando à meia, a noite cair
e o céu me esborrachar de vez a cabeça.
No inferno, todos se vão rir
e na terra não há quem não me agradeça a retirada.
Que maçada…
todos escolheram o domingo para morrer
e até nisso eu saí controversa.
Nem no princípio nem no fim. Exatamente a meio
onde a semana dispersa.
Avessa, pedi para assistir ao meu funeral,
enterraram-me, por isso, primeiro o caixão
(que dele quero morrer longe).
Queriam-me os sonhos em valas comuns?
Não.
Sequem as lágrimas choradas
e desacreditadas de religião.
A minha única fé é sonhar!
E quem sonha, nunca sonha em vão.


Alimentar-vos-á o húmus
da minha ressurreição
porque se morro, não morro toda de uma só vez
e o que por terra cai,
levantar-se-á outra vez
sem que vós me entendeis a mão.


Querem graça?
Peçam o óbulo à porta da igreja
que a vida não vai de bandeja
e eu 'inda estou no meu funeral.


As minhas janelas não dão para lugar nenhum.


sábado, 18 de abril de 2020

O que me dói

Dói-me a manhã,
a tarde e o fim do dia...
Dói-me a ausência do caos em que emergia
a necessidade da hora de acalmar.
Dói-me a madrugada acordada
e a passagem inerte do tempo
pela vida adiada,
neste chão onde me sento.


Trago na mão o calendário
das vidas, outras, que vivi...
Do presente nem diário,
procurei o obituário...
por dilação, mas não morri.


Desfaz-se em domingo, o meu peito
e lá fora nada acontece.
Arrefece-me o pensar,
embrulho-me, retalhada, na manta recatada
onde padece o meu sonhar.


Dói-me a manhã,
a tarde e o fim incerto
do deserto humano na cidade.
Dói-me.
Dói-me toda a noite o país
e, ao sol posto, a delonga mundial...
Dói-me a Europa: folha, caule e raiz
ceifada à mão,
História Universal.


Dói-me. 


 


 


 


 


 

sábado, 21 de março de 2020

Aos Poetas, neste Dia Mundial da Poesia

 


Poetas.
Seres que só sonham. Seres que só sentem. Essa sede que têm de amar a tudo e a todos. Até a vida.


Poetas.
Esses seres que vivem do avesso, com o coração de fora. Que estranha forma de vida...
Os Poetas nada sabem, senão da vida. E tudo o que sabem já é demais.
Os Poetas usam-te. Usam-te os olhos, o nariz, os lábios, cada fio de cabelo, até a sola dos pés. Descrevem-te os contornos e embelezam-te a alma, mesmo quando negra.
Já os vi usar paisagens, cidades, edificios inteiros, recantos escondidos, a terra e o mar, o céu, a lua, o grito e o silêncio, o Mundo. A guerra e a paz, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o amor e o ódio.
Os Poetas são especialistas em sentir. Experimentam as suas mais diversas formas. Seres insaciados. Por isso morrem, tantas vezes, novos. Overdose de sentidos.


Poetas.
Seres obcecados com a musicalidade daquilo que dizem, de tudo o que vêm, até do que escrevem.
E a teimosia que encerram em querer pintar a vida? Acham-se donos das cores do arco-íris. E são.


Poetas.
Seres capazes de transformar o que dói num sorriso, o que fere em amor, o que mata em vida, a escuridão em luz.
Nunca vi ninguém venerar tanto um sentimento agreste como a saudade, quanto um poeta. Desconfio até que estes seres transformam qualquer presença em ausência, apenas para que possam ter mais meia dúzia de versos para escrever.
A verdade é que vivem com as entranhas de fora e, mesmo assim, passam despercebidos. Não se fazem notar, nem sabem, eles próprios, se são bonitos ou feios. Repugnam o supérfulo, admiram o detalhe. Parecem alienados do mundo. Transmitem serenidade mas, se lhes abrires a cabeça, protege-te do furacão de ideias e conhecimentos. Da inteligência.


Os Poetas estão-se nas tintas para o paleio e conversa fiada. Só querem escrever. Só querem sentir.
Alimentam-se sobretudo de amor e, quando este lhes falta, morrem devagarinho e gritam, gritam tanto que o silêncio ensurdece. E nascem poemas.


Poetas.
Ninguém se torna poeta. Ninguém idealiza ser poeta. Alguns nascem poetas e só esses morrem poetas, porque foram poetas da vida.


E eu, que não sou poeta, tao pouco poetisa, estou certa que, no dia em que morrer, alguns irão perguntar:
-Morreu? Morreu de quê?
E alguém lhes responderá:
-Coitada. Nasceu poeta.


 

domingo, 15 de março de 2020

Quanto valemos?

Quanto valemos, enquanto corremos,
sem dias nem tempo
para enfrentar
um presente sem nome,
utopia e viagem,
em permanente contagem
para regressar
à ilusão de outro dia,
luz, paz e magia
lugar encantado
pelo consumo criado
na sociedade ausente
que crente se fez
num presente comprado?

ir…
sem nunca chegar.

Quanto valemos, cansados, esgotados
à noite prostrados
em camas incógnitas?
Por laços desfeitos
sem abraços, nem leitos
corações por salvar?

Quanto valemos no avesso da vida?
História interdita
que evitamos contar…
Somos gestos distantes,
palavras vazias e egos gritantes
Era virtual…
Numa proximidade ilusória
enganamos o tempo
que nos resta passar.

E agora, na realidade da ausência da mão
que nos agarra, toca, segura e não larga
Quanto valemos?

Abraços no olhar
virão para nos levantar
do chão feito de nada onde corremos
sem nunca alcançar o Éden.

Quanto valemos?


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Sonho clandestino

Desce, a lua cálida,
sobre as águas inquietas da lembrança
que dança no teu lugar.
Descalça, a fonte entorna-me
os passos do olvido amor,
sobre a folhagem seca das ruas solitárias
que vagueiam em mim.
Faz frio e os meus ossos quebram,
os sapatos estão velhos
e o abraço do asfalto que me espera,
acelera a tua imagem, num tropeço inesperado,
pelo sonho transportado
clandestinamente - de onde vim?

Na carruagem do fim, viajas tu
em contra-tempo, 
correndo por um momento
de pensamento...
presença em mim.

 

 

 

 

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Travessia

Atravessar a humanidade deserta
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela, 
que pela janela,
baixa-mar dos meus olhos,
entra serena. 
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram? 
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada. 
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina, 
gritar como o silêncio 
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão 
de um poema vivo. 
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes, 
o luar, o amor e o acreditar que 
externa, do lado oposto do mundo, 
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos 
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.

sábado, 29 de setembro de 2018

Antes Existir

Passos frios,
de pedra em pedra, calçada
desgastada pelas solas do silêncio
amargo e profundo.


Mel no olhar derramado
lentamente, à passagem das mãos vazias
pelos dias.
Vai tudo dormir.
Ouve-se o reflexo da lua no mar
r e v o l t o. E o amor antigo 
que os cascos dos navios fazem 
com a tempestade.
Vai tudo dormir.
Os jardins descansam.
Cheira a melancolia.
Travo a estrelas cadentes.
Nos bolsos guardado,
enjeitado sonho taciturno...
passeio noturno
pelo calçadão da vida. 
Vai tudo dormir...
... quando, um dia, se abate
o lençol de pedra sem arte:



- Antes existir!

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Hei-de Levar-te Lá

Tropeçar nas cores do arco-íris
e colher, no céu, pétalas de estrelas.
E das rosas, que são prosas
que habitam o jardim que sou,
beber-lhes as asas...
Com elas, visitaremos os astros
e pousaremos, amantes, na paixão da lua cheia.


Hei-de levar-te lá,
à tela branca e simples,
para que me pintes assim...
sempre que a janela se abrir, leve
sobre os recantos de mim.
Hei-de mostrar-te os barcos na bruma
e o amor que, sem pressa, navega
na ilusão breve das cores
das asas das borboletas.
Hei-de abraçar-te,
na rua onde te habitam os sonhos
e hei-de encontrar-te,
na esquina do acaso da ternura
sem urgência.
É lá, que ao tempo decai a premência
e os dias se abrem como camélias sem estação...
à medida do que somos:


Cartas de afeição que o vento leva...
sem resposta,
do meu ao teu coração.


 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Nas letras dos meus sonhos

 Hoje levo-vos novamente ao baú. Recuemos aos meus 15 anos... Sonhar, sonhar, Sonhar!


Não sei porque escrevo,


porque sonho as letras,
porque canto as vírgulas,
ou porque ondulo nas frases
sem nunca chegar a um ponto.
Não sei porque vivo um texto,
nem porque desejo um conto
que nunca começa nos Às,
tão pouco termina nos Zês.
Não. Não quero parar!
Quero continuar a saltar
barreiras de capítulos;
escalar páginas sem cume,
remar ao sabor das sílabas
que ardem no meio do lume.
Quero partir das reticências,
sem nunca alcançar os dois pontos.
Trepar interrogações,
abraçar as exclamações…
e sem perder o ritmo,
escrever milhares de contos.


 


Quero casar com os nomes,
e ser íntima dos verbos,
quero namorar os pronomes
e fazer dos determinantes meus servos.
Quero ser chefe de imprensa
e quero, para sempre, sucumbir ao Poeta.
Quero uma prosa imensa,
não quero um ponto na meta!


 


Já li toda a Epopeia
e escreverei duas ou três,
sem perder a consciência
que no meu sonho de menina
era tudo "Uma Vez"!

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...