sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Aqui chegados, extraditemo-nos!

 


A propósito de um tema inflamável, e em debate público nos últimos dias, dizia Luís Pedro Nunes, no Eixo do Mal, que vivemos tempos onde o "ódio de trincheiras" é alimento das redes sociais.


E se, por um lado, é verdade que confinados a quatro paredes, com demasiado tempo livre, nos é praticamente impossível ficar indiferente aos acontecimentos que marcam a agenda mediática nacional, também é verdade que nos remetemos, nós próprios, à condição limite de permanecermos "fechados em casa a olhar para o Facebook a destilar ódio de pouca razoabilidade".
Chegados a este ponto, talvez importe questionar e/ou reflectir sobre que sociedade e cidadania queremos ter e sobre aquela que efectivamente se nos apresenta (e que integramos).


Um dos pontos críticos da democracia portuguesa, sabemos, é a falta de sociedade civil ou, mais recentemente, da sua aparição (ou deverei dizer destruição?) nos espaços "livres" de discussão, como o são as redes sociais, elevando-as a um falso estatuto de espaço de intervenção social e político.


Numa esfera impessoal, será, todavia, mais fácil dizer-se qualquer coisa, inclusivamente "coisas" que jamais se diriam noutras circunstâncias, ou no exercício de uma cidadania activa, em verdadeiro espaço público de discussão e de intervenção para o efeito. Isto acontece porque, o que realmente ali se passa, não é um diálogo presencial entre dois ou mais seres humanos, não são pessoas quem ali se apresenta, não verdadeiramente. Na realidade, há também lugar a falsas identidades.


Nesta perspectiva, engane-se quem, adoptando semelhantes posturas, considera ser um cidadão activo no exercício dos seus direitos.
Nunca as redes trouxeram à tona o melhor das pessoas, mas sim o seu pior, sem que as próprias tenham a capacidade de o avaliar e perceber. Falta empatia, igualmente necessária à democracia.


Sob o olhar atento das "almas vigilantes", rara será a notícia ou a partilha noticiosa, onde não se encontre desde o mais estapafúrdio comentário, à ofença gratuita, à difusão do ódio, passando pela mais orgulhosa opinião descabida de razão ou conhecimento (não contendo, por isso, nada de construtivo, tão pouco uma aparente solução). O ataque a tudo e a todos ganhou terreno e claro, sabemos todos, onde isto irá parar.
Certo é que quanto mais tensão ideológoca se propaga nas redes, mais pessoas nelas circulam. Assiste-se, portanto, a uma polarização da sociedade, à produção e imposição de visões vada vez mais extremistas e à difusão de fake news, bastante convenientes àqueles que têm neste campo de batalha o seu espaço e voz política.


Mas o que mais me intriga, porque me é impossível passar ao lado de um fenómeno que a todos nos arrasta para onde, na verdade, não queremos assim tanto ir, não é constatar que quem mais dispara são aqueles que mais se rebelam contra as políticas de cancelamento que lhes possam limitar a liberdade de expressão, o chamado políticamente correcto que, tantas vezes, impede que se diga tudo aquilo que se pensa (ou que nem se pensa), e ainda bem. O que mais me intriga é assistir à contradição de posturas, conforme o tema ou situação, mais ou menos favorável aos ideais com que os atacantes se apresentam em palco público. Se por um lado se defende de forma acérrima a liberdade de expressão, por outro (e não quero aqui entrar em debate sobre o tema nem o vou alimentar) condena-se à extradição um cidadão português que ousa dizer aquilo que pensa, independentemente de qual seja a sua visão/posição/razão/opinião. Não estaremos nós a fazer o mesmo? Que coerência?


Ouso dizer que, quando só se vê bem ao perto, se perdem as perspectivas e a capacidade de ampliar o campo de visão. Não se sai da ilha para que a ilha se veja, como diria Saramago. Ao invés, segue-se a direito, contra tudo e todos, incluindo o próprio, sem que seja sua a verdadeira noção de assim o ser, de assim proceder.


Citando o jornalista Daniel Olivera numa frase que muito gostei, "Liberdade sem solidariedade é egoísmo".

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Rumo ao Sul



Mar na pele, maré cheia
da vida que se traz e norteia
o vento, gosto lento,
sal no rosto, desatento
ao tormento da lembrança.


Para sul desce ao contrário, a avenida
sentido oposto e temporário
sobre a vida, descaindo a medo.
Ao pôr do sol ainda é cedo,
ainda é cedo
para parar.


À noite o luar pinta o azul
de frescas conversas triviais.
Banais, os rostos sinceros
contradizem os severos;
tempos escassos, habituais.


Sobe a noite a avenida
e ruma ao céu para se deitar,
os cobertores estão de fugida
é já hora de acordar.
Ao relento não deixou
o infortunio que passou...
Sentido oposto e temporário
ainda é cedo,
ainda há tempo...
Rumo ao sul, desce ao contrário.


 



sábado, 6 de fevereiro de 2021

Sobre Arte, Palavras, Comunicação e Relações Interpessoais e Humanas

Numa Era onde o excesso de informação tem por consequência a banalização das diferentes formas de comunicar, é importante parar e pensar na importância da comunicação (verbal e não verbal), assim como na utilidade das diferentes formas de expressão, no poder da mensagem e na sua clareza.


Assistimos, diariamente, à degradação e distanciamento de relações interpessoais e humanas, fruto da dificuldade em dialogar, interagir e criar sincronizações claras de emissão e recepção de mensagens. A capacidade de compreender, não será, nunca, menos importante do que a predesposição para uma transmissão límpida da informação, assim como a sensibilidade nunca nos tornará frágeis, se é através dela que a Arte nos chega e nasce, como forma de expressão.


Ter a capacidade de empatizar é, também, em meu entender, possuir destreza comunicativa, uma vez que, só através dela, é possível chegar ao outro, recebendo dele também.


Se é verdade, como Eugénio de Andrade tão bem escreveu, que "São como um cristal,
as palavras./Algumas, um punhal,/um incêndio./Outras,/orvalho apenas.", quererá isto então dizer que a palavra tanto ama como mata, sendo detentora de um poder transcendental. E aqui depende somente de nós saber utilizá-la.


Ter o dom da palavra, não sendo arte comum a todos, é ter em si um talento capaz de fazer passar o que tantas vezes se perde, mudo... É ter ferramentas para chegar ao outro, é ter habilidade para desmistificar, clarificar, transformar e criar ligações e conexões, mais ou menos emocionais, consoante os casos.
O mesmo acontece com outras formas de Arte, sejam elas a dança, a música, a pintura, a fotografia, a escultura...


Porque isto, de comunicar e ensinar a fazê-lo, é também uma função do Artista.
Recordo um excerto de Afonso Cruz onde escreve "Para que servem? Os artistas? Sim. Para nada. São inutilistas. E o que é que este poeta faz? Poemas, respondi eu. Para que servem? Para muitas coisas. Há poemas que servem para ver o mar.". E é exatamente para isto que servem os Artistas, não só os Poetas, para fazer ver o que tende a não ser visto. Ou, para nos levar a olhar de outra forma para aquilo que em nós, na rotina e no mundo se tornou um lugar comum.


Certo é que sem interação não existe comunicação. E esta será tão ou mais eficiente quanto mais clara e humana for.


O poder da palavra é inequívoco, mas é-o também o da Arte, na transmissão da mensagem.


Invistam mais um minuto e assistam.



 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A crise e os Millennials: Não somos os filhos do azar

[Republicação]


Muito tem sido falado e discutido, nos últimos anos, sobre os Millennials (ou geração Y), nascidos nos anos 80 e 90. Uma geração que veio ao mundo já com a tecnologia no terreno, embora incipiente - e que cresceu de mãos dadas com o seu boom de desenvolvimento. A Internet permitiu-lhes a globalização, sendo - os Y - caracterizados por ela. Muito mais abertos à aquisição de conhecimentos e partilha de experiências, foram os impulsionadores de diversas mudanças de paradigma, desde logo ao nível da consciência social e do desenvolvimento de relações, ao nível comportamental, passando pelas causas ambientais e entrando em campos como  o consumo e a forma de consumir, a visão empresarial, o mercado de emprego, o turismo, a habitação e a aprendizagem.


São uma geração, na sua maioria, muito mais capacitada e qualificada do que a anterior, com um sem fim de possibilidades e oportunidades para vingar, mas que "por azar" - como tem sido escrito em variadíssimos artigos - enfrenta agora uma segunda crise económica no espaço de doze anos. "É inédito" - outra das expressões que muito se encontra -. É, de facto, inédito, mas também comprometedor. É inédito e desolador. É inédito e, "por azar" apanhou os mesmos, quando finalmente estavam a conseguir equilibrar-se num casco desgastado e fino, depois do confronto com uma longa tempestade que lhe toldou sonhos, metas e projectos de vida.


[A nossa voz]


2008 não ficou para a história. 2008 imortalizou-se na identidade de cada um de nós, nas nossas feridas e desesperos, na amputação do futuro, na reinvenção constante que nos foi sendo imposta e dal que fomos capazes, nas lágrimas dos nossos pais (ao verem cair por terra muito do que haviam ambicionado e construído para nós, através dos seus esforços e lutas).


Nós, os Millennials, somos uma geração fadada para a reinvenção, para os desafios e para a inovação, graças ao engenho e à arte de nos desdobrarmos sistemáticamente. Porém, é nosso o fado da "geração à rasca" - ou "rasca" como também nos designaram - que se viu a braços com a era dos recibos verdes, do desemprego jovem, da precariedade de trabalho, auferindo salários substancialmente mais baixos do que a anterior geração (para as mesmas funções). Uma geração sem horários e escrava do medo de não corresponder ao que é esperado por parte do empregador, embora consciente de que 6 meses de vínculo não lhe garantem fixação. Uma geração que conhece o sabor amargo da falsa independência e dos obstáculos, quantas vezes intransponíveis, que se lhes colocam a cada nova tentativa de conquista da independência, por exemplo, na aquisição de habitação. (Se há os acomodados, há os que aos 30 anos ainda não reunem garantias essênciais para abandonar a casa dos pais, seja por falta de condições económicas e profissionais para contrair crédito, seja pelo preço crescente da habitação, ou pelos valores praticados no mercado de arrendamento).
Diz-se, frequentemente, que não colocam alma e risco naquilo que fazem e que se propõem fazer, sendo esquecidas todas as marcas que trazem, todos os tombos, todas as nódoas negras ainda visíveis e todo o receio que os domina, fruto de vivências dolorosas. Diz-se que planeiam demasiado, que não arriscam sem ponderar excessivamente, que vivem o seu presente com restrições que lhes impedem o salto... mas, e todas as quedas, faltas, carências, dificuldades vividas, cujas marcas permanecem?


Foi violento o nosso começo de vida e violento serão os próximos tempos. Se há estudos que afirmam que são precisos dez anos para superar os efeitos nefastos de uma crise, "por azar" iremos precisar de vinte, ou não estejamos a falar de duas crises extremamente violentas num curto espaço de tempo. Vinte anos de uma guerra interior e sofrida, de aflição e momentos de dúvida e privação, vinte anos de dependência de outros (hajam pais), vinte anos de incerteza, de quedas consecutivas, de precariedade, desemprego, fome, de vida adiada de futuro hipotecado. Vinte anos...


"É inédito" e não somos "rascas", tão pouco filhos do "azar". Somos a geração que nasceu da mudança e para a mudança, onde habitam sonhos, horizontes, desejos e metas... novamente comprometidos.


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A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...