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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Aquieta-te

Remete-te ao silêncio,
se não são de paz, as palavras.
Subjuga-te, entrega-te, aquieta-te
se alumiar não consegues e prossegues
ultrajando razões de assim não ser.
Remete-te ao silêncio do pensamento,
sem insultos,
sem julgar ou apontar, das mãos,
os dedos infusos
sem noção ou condição de acurar
o chão presente.
Dorme sobre as trevas e limpa a vidraça.
Olha para dentro, para trás, para o espelho.
Aquieta-te!
No eco do ruído desmedido
o mundo estremece e tudo acontece,
ante o nada e o que parece ser.

Palavras e punhais,
quem salvais?
Remete-te ao silêncio!

sábado, 5 de março de 2022

Nem sempre vencer batalhas significa vencer a guerra

 

A Rússia, sabemos, é mais forte em armamento, é sua a supremacia aérea, gozou do factor tempo, ganho inicialmente, mas perdido à medida que se movimenta e infiltra no interior da Ucrânia (a morosidade das colunas de abastecimento militar fragilizam a resposta Russa e determinam a vulnerabilidade das tropas no terreno), poderá conseguir controlar e dominar cidades ou partes do território Ucraniano, como temos assistido, mas… não conseguirá, me parece, segurar o território conquistado. Não por muito tempo. Não contra a união soberana de forças de um povo.

Primeiro, porque não se preparou para a resposta imprevista do Ocidente, no apoio à Ucrânia. Esse Ocidente que, aos olhos da Rússia, sempre se preocupou mais em olhar para si próprio, de forma individualista, do que em falar a uma só voz, unanimemente. Apesar da certeza de Putin de que não existira intervenção da NATO em território Ucraniano, muito por receio de uma rápida escalada do cenário para guerra nuclear. Certeza essa que levou a outra, a de que a Europa empurraria as trincheiras do conflito para o interior da Ucrânia. Depois, porque teve por garantida a dependência ocidental de petróleo e gás russos, o que, à partida, limitaria a probabilidade de países como a Alemanha assinarem sanções pesadas contra o regime russo. E claro, não ponderou a possibilidade de um boicote económico à Rússia. Mas aquilo para que Putin verdadeiramente não se preparou, nem se conseguiria preparar, chama-se resistência da Sociedade Civil, quando, um pouco por todo o mundo, se levantam vozes manifestamente contra a invasão da Ucrânia. Até mesmo no seio do país invasor, onde os militares não são excepção.

O patriotismo e nacionalismo dos cidadãos Ucranianos, na defesa do seu território, tem sido uma lição para todos nós. A resistência, a resiliência, a força e o esforço (sobre)humano, contra um colosso e a barbárie, contra a anulação de um direito básico, a autodeterminação dos povos. E é aí que a guerra se ganha ou se perde, não nas batalhas.

É aí que o Homem se vê.

 

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O Outro Lado do Mundo

 

Por baixo da pele não há quem és.
És outro, não tu.
Não quem eu vejo. Não quem diz ser.
Por baixo da pele não cheira a impunidade. A sensatez.
E a dignidade, que era robustez e se desfez,
deixou à vista estilhaços e enchumaços
da hipocrisia que ostentas, mas não vês.

Há no teu sangue crimes de guerra
que a sociedade enterra para não ver.
(Será ela quem diz ser?)
E nos teus ossos, destroços 
de vidas idas, perdidas, desfeitas e esquecidas
entre delitos , conflitos e divergências de pigmentação,
orientação, ideologia e religião
dos filhos a quem negas a mão.

Já cheira a fel o teu hálito,
por tanto de nós devorado,
expugnado, assassinado, desumanizado.
Por baixo da língua, diz-me, quantos em ti morreram?
Cemitério do povo.

Conto-te nos olhos o mísseis prontos a disparar,
quando finges chorar
à margem dos morreram sem te olhar,
em campos de concentração e horror.
Crianças e adultos inocentes,
globais interesses existentes -
e nós? Sem chão onde nos salvar. 

Sempre que o teu ódio rebenta,
Verdadeira tormenta!
Terra Santa sangrenta.
E um dia irado, menos forte e julgado, 
farás uso do crânio
para nos brindar ao urânio
que a todos servirá de mortalha.

Por baixo da pele não haverá ninguém.

 

 

[ Incompleto, à data. Ou talvez não... O Homem é homem e a História repete-se... ]

sábado, 18 de abril de 2020

O que me dói

Dói-me a manhã,
a tarde e o fim do dia...
Dói-me a ausência do caos em que emergia
a necessidade da hora de acalmar.
Dói-me a madrugada acordada
e a passagem inerte do tempo
pela vida adiada,
neste chão onde me sento.


Trago na mão o calendário
das vidas, outras, que vivi...
Do presente nem diário,
procurei o obituário...
por dilação, mas não morri.


Desfaz-se em domingo, o meu peito
e lá fora nada acontece.
Arrefece-me o pensar,
embrulho-me, retalhada, na manta recatada
onde padece o meu sonhar.


Dói-me a manhã,
a tarde e o fim incerto
do deserto humano na cidade.
Dói-me.
Dói-me toda a noite o país
e, ao sol posto, a delonga mundial...
Dói-me a Europa: folha, caule e raiz
ceifada à mão,
História Universal.


Dói-me. 


 


 


 


 


 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...