O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura.
De toda a passagem
que fere e trespassa ,
se alonga e não cura.
Da verdade não se olvida a hora,
e é limpo o rio onde renasço:
asas, pétalas, sonhos e cores
histórias, livros, talvez amores...
Ser nascente e ir na corrente
de quem sente, de quem se abraça,
de quem sorri e se enlaça
ao lado certo da vida.
O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura.
E eu, o meu coração
a tudo, quanto à passagem,
olha, sente, cura...
...e perdura.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Libertação
domingo, 28 de outubro de 2018
Para me fazer lembrar...
Hoje estou triste. Cobrindo-me a alma, a retalhada manta melancólica do calendário que passou e não levou, na sua destreza ilusionista de dar o dito por não dito, o passado que não passou.
Hoje estou triste e a apatia que me rasga a roupa e expõe a alma, cresce e trespassa-me a calma que julgo ter, sempre que a mim regressas, vindo por becos e travessas, virando avenidas às avessas para, tão distante quanto o coração de ninguém, me envolveres em memórias agitadas.
Hoje estou triste e nem o velho tic-tac do coração suspenso, no pêndulo do relógio tenso, oiço marcar o compasso do dia. Arrasta-se o domingo dentro e fora de mim, como se o fim não coubesse na hora, na data ou na demora do abraço que não se tem.
Hoje estou triste, por qualquer coisa que ficou de um poema. Estou triste e a minha razão lamenta, o que meu coração guardou.
Hoje estou triste, ainda é longe e faz-se tarde para regressar ao lugar das memórias que fizemos e plantar, no seu lugar, flores que me façam lembrar o meu sabor a Primavera.
sábado, 27 de outubro de 2018
Escolha do Editor

E porque "A Possibilidade dos Recomeços" também é isso, despertar numa manhã outonal, aparentemente igual a tantas outras, e constatar que sou, uma vez mais e após um ano de ausência nesta plataforma, carimbo "escolha do editor".
Gratificante e reconstrutor, assim defino o meu sentimento, depois dos tumultuosos caminhos que, tantas vezes comuns a vários, sem que isso represente fraqueza ou vergonha, inadvertidamente nos distanciam de nós. Apenas a vida, as suas vicissitudes e contratempos, diria.
"A Possibilidade dos Recomeços" a todos pertence e a todos é devida. Aqui, como escolha do editor, representa um sorriso meu.
Para leitura:
A Possibilidade dos Recomeços
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Tudo o que o amor não é
Que não se confunda amor com abuso, manipulação e posse, situações que não são tão raras assim. Após a fase inicial do enamoramento, do deslumbre e da conquista, do encanamento e demonstrações de afecto e apreço, da paixão que brota e assalta o coração, cai a mascara e os sinais revelam o que anteriormente não era possível percepcionar.
Cativar...
«XXI
Foi então que apareceu a raposa.
– Olá, bom dia! – disse a raposa.
– Olá, bom dia! – respondeu educadamente o principezinho, que se virou para trás mas não viu ninguém.
– Estou aqui, debaixo da macieira – disse a voz.
– Quem és tu? – perguntou o principezinho – És bem bonita…
– Sou uma raposa – disse a raposa.
– Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho. – Estou triste…
– Não posso ir brincar contigo – disse a raposa. – Ainda ninguém me cativou…
– Ah! Então, desculpa! – disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar.
– “Cativar” quer dizer o quê?
– Vê-se logo que não és de cá – disse a raposa. – De que andas tu à procura?
– Ando à procura dos homens – disse o principezinho. – “Cativar” quer dizer o quê?
– Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar – disse a raposa. – É um grande inconveniente! E também fazem criação de galinhas. Aliás, na minha opinião, é o único interesse deles. Andas à procura de galinhas?
– Não – disse o principezinho. – Ando à procura de amigos. “Cativar” quer dizer o quê?
– É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços”…
– Criar laços?
-Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…
– Parece-me que estou a perceber – disse o principezinho. – Sabes, há uma certa flor… tenho a impressão que ela me cativou…
– É bem possível – disse a raposa. – Vê-se cada coisa cá na Terra…
– Oh! Mas não é na Terra! – disse o principezinho.
A raposa pareceu muito intrigada.
– Então, é noutro planeta?
– É.
– E nesse planeta há caçadores?
– Não.
– Começo a achar-lhe alguma graça… E galinhas?
– Não.
– Não há beleza sem senão… – suspirou a raposa.
Mas voltou a insistir na mesma ideia:
– Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo…
– Se fazes favor… Cativa-me! – acabou finalmente por pedir.
– Eu bem gostava – respondeu o principezinho, – mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e um bocado de coisas para conhecer…
– Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa. – Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
– E tenho que fazer o quê? – disse o principezinho.
– Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas podes-te sentar cada dia um bocadinho mais perto…
O principezinho voltou no dia seguinte.
– Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. – Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… Precisamos de rituais.
– O que é um ritual? – disse o principezinho.
– Também é uma coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas. Por exemplo, os meus caçadores têm um ritual. À quinta-feira, vão dançar com as raparigas da aldeia. Por isso, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear às vinhas. Se os caçadores fossem dançar num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora da despedida:
– Ai! – suspirou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
– A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar…
– Pois pedi – disse a raposa.
– Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
– Pois vou – disse a raposa.
– Então não ganhaste nada com isso!
– Ai ganhei, sim, senhor! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…
E acrescentou:
– Anda, vai ver as rosas outras vez. Vais entender que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho foi ver as rosas outras vez.
– Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada – disse-lhes ele. – Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como a minha raposa era, uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e ela passou a ser única no mundo.
E as rosas ficaram bastante arreliadas.
– Vocês são bonitas, mas vazias – insistiu o principezinho. – Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas, sozinha é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.
Depois voltou para o pé da raposa e despediu-se:
– Adeus…
– Adeus – despediu-se a raposa. – Agora vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos…
– O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Os homens já não se lembram desta verdade – disse a raposa. – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa…
– Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.»
O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry (Tradução de Joana Morais Varela, Ed. Presença, pp. 66-74)
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
Falácias do amor
Cheira o orvalho ao teu perfume
e a tua boca ao aroma do café da manhã
que me acorda, com ciúme
do cantar do rouxinol que no galho assume,
os contornos do canto do teu corpo de pagã.
Queria eu cantar-te assim
e tocar-te, pauta de cinco sentidos
entre os lábios
com gestos sábios dos dedos molhados
que em ti deslizam, como proas de barcos
salgados no Tejo ao sol poente.
Como são fáceis de alcançar
os tectos da cidade que há em ti,
quando me inundas de estrelato
o palato da boca que crepuscula
nos teus seios
abrindo portas a noturnos devaneios
a que me entrego no teu jardim.
Entre lençóis de luar e cetim
num frenesim de corpos suados
e condenados no fim
às falácias do amor.
Foi já sem sabor, que ele lhe bebeu
nos lábios desnudos de rubor,
o esfriar do último café.
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos
Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos.
Depois do naufrágio, da tempestade que se abate e não se prevê, da névoa duvidosa nos inquietos caminhos do coração que nos levam ora atrás, ora adiante.
É frequente, e acima de tudo humano, sofrer. E nas relações, sabemo-lo, nunca a isenção da dor e dos maus momentos é garantia. Contudo, não deixarmos de ser (quem somos) é determinante para a minimização das feridas que possam um dia ser abertas, por motivos diversos e que nos são comuns a todos.
Ser, honesta e integralmente quem somos, para nós e para os demais, jamais deverá ser sinónimo de culpa ou sentimento de inferioridade, mesmo que não nos tenham sabido sentir, viver, amar, acarinhar, respeitar e cuidar. Dar, é um dos pilares cujas fundações, bem profundas, garantem a sustentabilidade das relações pessoais e emocionais, sendo fundamental para a harmonia e equilíbrio, tanto da individualidade, como do casal.
Li, por aí, que “precisamos de morrer algumas vezes de amor para percebermos o que queremos da pessoa ao nosso lado e o que é que temos para lhe dar.” Para mim, que me assumo pouco sabedora da “ciência” do amor, amar reside no dar e nao no receber, embora sem partilha uma relação não possa coexistir.
Contudo, é também neste ponto da doação que assenta a perigosidade de podermos deixar de nos ser, aos poucos, em relações que não entendemos, no seu início, serem unilaterais. Chamemos-lhe relações egoístas, na medida em que uma parte apenas dá e a outra se limita a receber.
Não raras são as vezes em que estas relações se estabelecem entre pólos opostos: um alguém manipulador e outro puramente honesto e sensível, um ser emocional se assim quisermos, em que o primeiro estuda o segundo para que se possa moldar inequivocamente à sua medida e daí, pouco a pouco, conseguir retirar dele tudo aquilo de que a sua alma e vida carecem. A imagem que o manipulador alimenta no ser emocional, cria elos profundos e desperta emoções e sentimentos genuínos como a empatia, a atração, a amizade, a confiança, o respeito, a admiração, o amor… Na verdade, este quase se revê a si na imagem criada.
Não é vergonha assumi-lo. Não é vergonha afirmar que se amou alguém que, afinal, nunca existiu. Chorar sobre os bocadinhos de si próprio caídos no chão, sempre que, inadvertidamente, se vê desmoronar um ideal enraizado do lado de dentro do coração, é humano e puro.
Dá-se. Dá-se sempre mais e procura-se dar ainda mais sempre que a relação não está bem, para que o equilíbrio do parceiro estabilize o barco que, um sozinho, dificilmente faz mover. Sem se dar conta, o ser emocional reduz-se sempre que se constata ser necessário caber nos ideais, vontades, caprichos ou necessidades do manipulador. Cede com frequência e, mesmo quando se impõe, perante situações em que os seus valores são colocados em causa ou estremecem, acaba sempre por apresentar um pedido de desculpa, apenas para ter o prazer de ver o parceiro sorrir e poder sentir a paz reinar novamente. (No fundo, e embora duro de aceitar, são esses momentos em que o outro sorri, ri, se demonstra saciado de amor e transparece bem-estar que dão alimento ao primeiro).
E enquanto de barriga cheia segue um, vai o outro ficando sem si, até ao limite em que deixa de ser e se perde…
Habituado a viver numa solidão assistida, vai ficando até não mais ser possível. Aqui, das duas uma, ou é libertado (ou se liberta) para que se possa restabelecer e (ou não) voltar depois, com mais para dar, ou poderá ser descartado e culpabilizado pelo fracasso da relação. Podendo, também, em alguns casos, ser utilizado como o "mau da fita" na relação seguinte, garantido a explicação para a suposta fragilidade do manipulador que, assim, garante a repulsa do novo manipulado para com o anterior, abrindo espaço para jogar com duas peças sempre que isso se justificar.
Desengane-se quem julga que situações destas apenas acontecem aos patetas ou pessoas mais frágeis, porque um dia, sem esperarmos, podemos ser nós. Os mesmos que hoje dizemos "isso comigo não aconteceria". Basta ter coração e permitir que este se sobreponha à razão. Por mais inteligentes que possamos ser, o nosso lado emocional também nos comanda, boqueia ou liberta, de acordo com as circunstâncias. Do coração, poucas razões lhe conhecemos.
“As relações mais importantes são profundamente frágeis, porque estão sempre debaixo de um sufrágio muito apertado da nossa parte.” (Professor Eduardo Sá)
Mas, e porque há sempre um mas… Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos: a nós!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Para lá do poente
As nossas ruas já tiveram a delicadeza dos meus vestidos
e as sombras da luz em sobressalto nos teus olhos.
O temor das madrugadas no teu rosto
que me bebia o sossego suave do amor,
em eco deposto,
na tua triste e fatal solidão.
Já encostámos ao ouvido as arcaicas palavras do búzio
que, demoradamente, nos falava ao coração,
relembrando o começo infinito dos rios que correm,
mas que nunca atestam o (a)mar.
(Na paixão que não transborda, fica tudo por viver…)
Já te esperei para lá do poente
e antes de haver vida,
nas prolongadas demoras do teu ser ausente.
Não sendo senão cela de saudade,
tombava o meu corpo sobre o teu, já frio,
matando-te a sede; o luar da minha boca
acostumada à intermitência da ausência
que aprendi a suportar.
Ensinei ao peito o silêncio do amor
e a demora da espera à Primavera em flor.
E do vestido que agora tomba
como mortalha carmim, sobre mim,
fizeste casa…
E por fim,
o teu corpo caiu morto sobre o meu,
renascendo agora às mãos da condenação de mais uma mulher.
Quem és?
terça-feira, 16 de outubro de 2018
Névoa
Há, fora do tempo,
outro tempo que nos fazia;
no território das horas inatingíveis,
à boleia do navegar de um veleiro
p'lo tecido azul da tarde.
À proa da névoa, em manto branco envolto,
o alongar do deserto fez-se certo em meu peito.
E p'la sombra prolongada,
morria a lua dilacerada, à noite na baía.
Não podia, porém, saber que era meu o cadáver
que ali sorria,
com a memória da lembrança adiada,
dos sonhos que ainda trazia.
Hoje, trago a roupa cansada
da solidão deste quarto.
E os sapatos, de sola ausente, gritam
elevando-se ao silêncio das letras
que à meia-noite me confortam,
sempre que me vem à boca a saudade dos beijos que já não dei...
no seu travo a licor amargo
de um amor que não se cumpriu.
Heresia ou eco de um destino breve,
que cedo e agreste
a bordo de um veleiro anónimo partiu.
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Travessia
Atravessar a humanidade deserta
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela,
que pela janela,
baixa-mar dos meus olhos,
entra serena.
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram?
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada.
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina,
gritar como o silêncio
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão
de um poema vivo.
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes,
o luar, o amor e o acreditar que
externa, do lado oposto do mundo,
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.
domingo, 14 de outubro de 2018
Quero
Quero querer, ou será que queria,
um dia...
esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver...
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência,
em que a distância é lugar onde habito,
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo,
quero!
sábado, 13 de outubro de 2018
O arroz doce da vida
(Das boas e doces memórias... Porque recordar, por vezes, também é viver.)
Comi o amor e bebi a saudade, num prato de mar, em frente à vida...
Comi o amor.
Quente e intenso, como se quer o café da manhã. E único, como o teu coração quando, ao cheiro do pão, se derrete pelo queijo fundido da vida.
Comi o amor e lambuzei-me. Voltei a comer e a lambuzar-me outra vez.
Doce e com canela, na medida certa, como o arroz da tua alegria.
Porque o amor, afinal, também é fazer pão com queijo e café, e servir, na dose certa em pequenas taças de alma aberta, o arroz doce da vida.
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
Vem sentar-te comigo à beira-Tejo
Vem sentar-te comigo à beira-Tejo,
futuro, que se faz tarde;
e o por do sol anoitece
no limiar de um peito que arrefece
às mãos do solstício da saudade.
terça-feira, 9 de outubro de 2018
Todas as folhas de Outono são histórias de amor
Tudo são histórias de amor
amarelas e caducas,
leves e secas, dançando nos braços do vento
ao som da cidade agitada.
Hão-de guiar-me...
na inflexão da história dos nossos passos,
pelas ruas que existem em ti;
nas horas paradas das tardes de outono
para me agasalhar no teu peito.
Doce jeito de me consertar…
(folha seca caída, no chão estendida e pronta a estalar).
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Tudo em ti é naufrágio
Em ti tudo é naufrágio,
abandonado o cais da lisura,
nenhum regresso ensejes.Arde a candura inflamada
nos peitos ilusos,
por teu marear clandestino, desfeitos.
Obtusos caminhos e desejos,
onde ardem candeias fúnebres;
cemitério de almas puras e corpos sinceros…
Oh ilha, de solidão cercada,
em ti tudo é naufrágio!
Temor do esquecimento que te avassala
e despedaça, como copo de cristal nas mãos
vazas de uma criança.
Estala, coração tártaro!
De deslustre em deslustre,
derrocada por desonra: peito, leito e travesseiro adúltero.
Na infância da negritude teu ser ferido,
carrega em braços a cruz do amor impuro
que não prospera.
Porão de escombros,
homem perdido,
olhar de assombros,
corpo encardido,
mortalha de tantas mulheres...
Impuro.
Tudo em ti é naufrágio.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Bolsonaro e poder de empoderamento das campanhas "anti"
Um post não habitual no que concerne às genese deste blog, mas representativo do que vou escrevendo/expressando por outras paragens.
Em jeito de desabafo, e para que possa receber os vossos pontos de vista, optei por partilhar as linhas seguintes aqui, no Conta-me Histórias, a casa da poesia por excelência mas, também, um abrigo para esta mente inquieta...
Creio que o mundo não tenha compreendido ou aprendido a lição que as últimas eleições Americanas nos concederam. A eleição de Trump, como sabemos, e para além de outros meandros, teve por base o empoderamento que as campanhas “contra” lhe atribuíram.
À semelhança do que sucedeu com o actual presidente dos EUA, também Bolsonaro está, hoje, a beneficiar de uma enorme campanha política e avassaladora visibilidade, através da hastag "ele não" (não utilizei o # propositadamente) e dos inúmeros eventos “anti” que se têm realizado.
De pouco nos vale preconizar a nossa repulsa contra algo ou alguém, se a forma como o fazemos determina o resultado que não desejamos.
A atribuição de poder através da palavra “não” é uma realidade, quando falamos em linguagem energética. Esta, não enfatiza a descrença, mas sim a quantidade de energia reunida em torno da questão. Assim, todos quantos “contra” nos manifestamos, publica e conjuntamente, estamos, na verdade, a reunir em torno de Bolsonaro a força necessária à sua vitória.
A meu ver, a única forma de combate a este candidato, seria a proclamação do que se deseja ver realizado e que o próprio não defende. A repetição constante dos nomes que defendem essas causas, a campanha a favor deles e dos direitos, dos valores, das medidas certas e concretas para o povo brasileiro, a fim de que estas possam alcançar a força e visibilidade necessárias à vitória.
Fazer campanha pelo “não” é contraproducente.
Donald Trump é exemplo vivo de que o populismo leva à conquista, ou não fossem investidos mundo e fundos em campanhas e publicidade. O cérebro humano retém a informação que mais ouve e vê e, por isso, são tão perigosas as demonstrações massivas de discordância para com Bolsonaro. Na hora de votar, muitos serão os cidadãos que, sem a cultura, formação e informação devidas, colocarão a cruz no nome mais sonante. Não só por ser aquele que retêm, mas por lhes conferir a falsa segurança de que “se se fala, tem poder. Os outros não conheço”.
Posto isto, invertam a vossa forma de fazer campanha, por favor!

segunda-feira, 1 de outubro de 2018
Não te demores, em lugar tão longínquo, amor…
Não te demores, em lugar tão longínquo, amor…
Sombra de quem?
Lança-me vapores cálidos e húmidos aromas, da terra fértil
de onde vens.
Respira-me, meu bem, o perfume das ilusões enamoradas
por onde vagueio e encalço o gozo do enlaço
das estrelas que deténs.
A cada dia mais longo, contemplo lascivamente
o ínfimo horizonte da verde espera,
para de novo tombar sob a visão imaginada
docemente, em teus bolsos transportada,
da semente mal fadada
que me detém; flor.
Pútridos passos teus…
Névoa? Fogo? Fumo ou pó?
Amor dos sonhos meus, não te demores, tão longe…
Por onde vens?
Arrasta-me e apressa-te, respiraremos juntos o inverno
que me invade a cama…
… deserta de crimes e paixão sideral.
Do lugar fúnebre das lembranças,
nada tragas!
Porque as cinzas, já findas, das histórias passadas,
arderão de novo:
corpo e alma, lenha e fogo,
ardente e louco
(a)mar…
Esse mar que só há depois de amar,
para nos queimar outra vez.
Não te demores, em lugar tão longínquo, amor…
A normalização como absolvição colectiva
Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...