quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

De tudo ficou um pouco

De tudo ficou um pouco, 
nas mãos vazias e gastas,
castas de amor.
Bagos de vida
e sonhos podados ao sol posto,
deposto o gosto do fruto
tardio, estranho à época.
De tudo ficou um pouco, 
no molde dos passos vincados
nas ruas que não servem a ninguém.
Vazias e gastas, 
cansadas, tardadas as gentes, 
as almas, as vidas, alguém
que fique... um pouco.
Tão tarde, a manhã, tão tarde... 
e antiga, a vida, colhida a romã
renascida do ramo de crenças que arde
na arte de tecer, à negra que bale, a lã.
De tudo ficou um pouco
e o tempo avança
depressa demais.
A mais, e estrangeiros ao pensar,
os outros, à esquina do futuro sentados
jogando cartas à sorte de nada saber...
Que bom seria beber
à sombra da batota do seu jogo de nada,
onde é pouco tudo o que fica por viver.

 

 

domingo, 27 de dezembro de 2020

Às vezes gosto de ser triste

Às vezes, gosto de ser triste.
Sentimento puro que resiste
em qualquer coisa que chora
devagarinho, em nós...
sem apagar as estrelas
e o rasto de carinho, 
causa de um qualquer sofrer.
[Pertencer]

Às vezes, gosto de ser triste
e aconchegar a tristeza no peito,
junto à poesia que persiste
enamorada da dor que existe
num acto de esperança,
por se ter pelo que cantar.
[Continuar]

Às vezes, gosto de ser triste, 
nessa tristeza de não sofrer
e que não consiste em chorar
o que parte, mas em contemplar a Arte.
Coisa que, só triste, consigo fazer.
[Crer]

Às vezes, gosto de ser triste
e ver a luz que entra pela fresta da porta,
abraçá-la como à manhã que demora
os pássaros no beiral da minha janela;
singela melancolia da Primavera em flor.
[Amor]

Às vezes, gosto de ser triste
e segurar, com delicadeza, o sabor
suave das coisas pequenas
que a vida nos traz
às dezenas, sem esperar
pela tristeza,
que nelas nos fará reparar.
[Valorizar]

Às vezes gosto de ser triste,
porque é na tristeza que resiste
a simplicidade de morar
na vida.

Às vezes....

 

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

São Traças, Meu Bem

São traças, meu bem, quem me devora
fio a fio.
Coração rendilhado
onde moras, sem que me habites.
Memória delicada, declinada e peregrina
esparsa em luz.

Desamparado, o lado esquerdo de um homem
não traduz nem se deita sobre a dor
com que tece e enaltece a saudade,
Sem alguém que ocupe as nuvens
de passagem, num peito fustigado
e trespassado
roso, gasto, fuligem.

Meu bem são traças. São traças meu bem
que me afligem.
E o teu nome...
aberto na noite em que desperto,
fissura de silêncio e lua,
nas crateras da noite
nua.

São traças meu bem, as farsas tuas.

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O meu lugar


Janelas abertas,
ao azul frágil do peito expostas.
Lugar de terra e cheiro
inteiro, num só grito, ágil
como a flecha saída do arco
dos meus lábios.
Palavras abertas,
secretas nas linhas de fogo
que me lavram o pensamento.
Não falo na vida que se entorna
e retorna ao corpo
onde o silêncio se despenha
e desenha manhãs inacabadas.
Janelas abertas,
por tanto lhes querer o mundo
que insiste em entrar
p'lo azul que persiste
na tarde do meu olhar.

Lugar imaginário e concreto.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Mãe

E se a vida mais não for do que o avesso de si própria?

És tu quem nos espera
do lado de dentro do inverno:
estigma de flor
erguendo a lua
e prolongando os dias verdejantes
num olhar, arado de esperança,
que aberto avança p'las tuas mãos
estranhas à desistência;
procurando abrigo entre os sonhos
risonhos e perpétuos,
refúgios inquietos
que o tempo abriga
sobre o sorriso de quem te vê passar.
Gesto necessário à correcção do Sol
que tudo pode...
no poder declarado de quem cega
à visão a cegueira de não ver
que em ti nos recolhes todos os dias.

Reunindo na sombra a ignorância,
sob um manto de versos ignóbeis e frágeis,
é por ti que jogamos sementes à terra,
mesmo que nada brote para colheita,
das palavras e do vento
que no presente nos enlaçam
e abraçam crentes...
Amanhã.

Serão sempre mais belas as flores que não se colhem. Apenas se contemplam:
Mãe.

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Eles não sabem...

Dir-me-ão quão estranha me consideram, ou apenas diferente. No ser, no estar, nos gostos e interesses pessoais, na intensidade do que sinto e como sinto, na simplicidade com que visto o coração e a alma inquieta. Dir-me-ão quão estranha sou, ou apenas diferente, sempre que não me compreenderem as palavras ou até, quiçá, os silêncios. Dir-me-ão, porém, que "o sonho é uma constante da vida", mesmo que nela não trajem as palavras do Poeta. Bem sei, sabendo também que mo dirão, que oiço, leio e penso fora da minha geração: por vezes antes, outras depois, mas sempre eu... no lugar onde estou, me considero e me sinto pertencer. Sejá lá quão estranha ou diferente for...
 
Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer
Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança

 

 

Inspiração


Não me lembro em que tarde disseste que vinhas

ao meu encontro...
Por versos soltos e entrelinhas
no desencontro cansado das rimas
que me compõem.

Onde andarás nessa noite vazia,
descendo a rua em passo de poesia
desconcertada e enamorada de mim
deixando um rasto de canções inacabadas?

Não me lembro em que nota te vi chegar
a primeira vez...
Entre folha e caneta, o que te fez
nascer em mim?
Assim, devagarinho, a sussurrar
que ser Poeta é não ter fim,
nem princípio onde debutar.

Onde andarás nessa madrugada fria,
recôndita e fugidia
sem sede de me abraçar?
Chove em branco no meu caderno
eterno de tanto esperar ...

Não me lembro em que dia disseste que vinhas...

 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...