sexta-feira, 31 de março de 2017

Da dificuldade à oportunidade


 


 


Verificou o relógio, como era seu costume e passou os olhos pelas frestas de luz provenientes da janela do quarto. Jogou para trás os lençóis e espreguiçou-se demoradamente. No chão, os chinelos esperavam-lhe os pés despidos e na porta, o roupão previa-lhe o corpo.
A mobília daquele espaço era a mesma que vira pela última vez, há seis horas atrás, antes de adormecer. Os objetos permaneciam milimetricamente arrumados, o tapete não se movera um centímetro e as roupas penduradas, mantinham a mesma ordem. As mais claras em primeiro lugar, antevendo o escurecer das seguintes.
Em todas as divisões a ordem fora mantida durante a noite. Nada se movera.

Lá fora, o trânsito seguia o fluxo normal, com os engarrafamentos habituais e as buzinadelas repetidas. O caminho não se alterara nas últimas vinte e quatro horas. Certezas que também mantinha a respeito do frenesim da paisagem em constante movimento. A pressa movia-se sobre dois pés, as malas que pendiam dos ombros femininos pareciam pêndulos, as pastas dos engravatados corriam à sua frente e curvadas, as crianças arrastavam os pés esforçadamente, para levar adiante o peso do conhecimento que carregavam às costas.


Tudo acontecia conforme previsto. Dentro do previsível conforto da vida, que às gentes do mundo agradava.


- Mas porquê? – questionou-se – Tudo tão obvio, tão igual, tão banal, tão rotineiro e habitual. Porquê assim e não de outra forma? O que é que nos leva a isto? E pior, à sua aceitação? – Continuou a questionar-se.

Parou. Observou. Escutou. Demorou-se nos gestos e nas expressões de quem passava – sempre vira no óbvio algo incrível.
Olhou para o céu e para as pedras da calçada, onde entre duas, uma flor brotava.

- O que fazes tu aqui? A nascer em plena selva urbana, entre duas pedras à mercê de tantos pés…  


Um espanto assombroso tomou conta dela, desencadeando uma corrente de novas questões e admirações, fruto de um misterioso incómodo interior que sentia sempre que olhava mais profundamente para aquilo que os outros olhos não viam.


Quem se admira não se conforma com o que lhe é apresentado.


Não verificou o relógio como era seu costume, nem passou os olhos pelas frestas de luz provenientes da janela do quarto. Jogou, apenas, para trás os lençóis e espreguiçou-se demoradamente. No chão, os chinelos não lhe esperavam os pés despidos e na porta, o roupão não se encontrava pendurado. 
À sua frente, um caos. Nada estava conforme previsto. Nem a mobília, nem os objetos, tão pouco a ordem das roupas.
Com frio, viu-se obrigada a procurar o relógio, a vasculhar entre os cabides pelo seu vestido azul, a saltar por entre as caixas desordeiras que se estendiam pelo chão - dentro dos seus minutos contados.


Lá fora, as ruas cortadas não permitiam a rota normal. Desviou caminho e enveredou por atalhos, o que lhe permitiu observar novos detalhes, novos rostos, novos gestos e chegar à mesma hora ao local habitual.

- Onde estão os restantes?
- Atrasados devido aos congestionamentos de trânsito.


Pensou na flor que vira nascer entre duas pedras, num lugar improvável, em pleno caos citadino, exposta ao perigo. Analisou-lhe as dificuldades que tivera para ali florescer e as que agora enfrentava para, no mesmo local, sobreviver.

-Aquela flor nasceu para me provar que é na dificuldade que se encontra a oportunidade.


- Desculpa? Estás a falar de quê?


-De mim, José. De mim.


 





Olha para o mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo!
Rita


quinta-feira, 30 de março de 2017

Já não é tão alto o céu

Já não é tão alto o céu
Se na encosta da lua, sentado
Sonho o universo sem véu, 
nú e por desbravar.
Longe do negrume que assola a escuridão
da tua ambição
e de um caminho ainda réu
das margens do choro de um rio,
onde um barco vazio,
escoa perdido
por entre as pedras da calçada
onde te sentas
e lamentas:
- "Quão distante é o céu...”

Já não é tão longe a estrela
que me guia, lá no alto
quando à noite, sentado no asfalto
olho para trás e me sei capaz
de voar.
- Basta sonhar -
(E na lua já estive)
Porquê sabotar o descolar
do futuro
Se já não é tão alto o céu?

E tu, que parado ficas
a olhar para mim,
criticas-me as asas
"São contos de fadas"
dizes-me, já sem história.
E enquanto eu visto o universo nú
e acendo as estrelas da vitória
Tu cobres-te, gélido, com a mortalha
e dás por finda a batalha
da vida.

Respiras. Mas já não sonhas.

terça-feira, 28 de março de 2017

Reflexões - 11

Assim vai a Europa e o Mundo...




A união, quando (pro)movida por ideias e crenças bem vincadas, gera - inevitavelmente - desintegração, ao mesmo tempo que favorece o crescimento de grupos antagónicos e que incita à sua radicalização por inflexibilidade ideológica.




Rita          

segunda-feira, 27 de março de 2017

Primeira Edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra

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A Chiado Editora, a Hall Paxis e a Herdade Monte Novo e Figueirinha têm o prazer de anunciar a primeira edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra, nas categorias de Poesia e Prosa.


 


Sob a temática "Alentejo", os textos a concurso poderão ser submetidos até 10 de Maio para o endereço electrónico geral@chiadoeditora.com com a indicação expressa no campo de assunto: //DO MOSTO À PALAVRA 2017 //.


Poesia: um poema com  limite de 1.000 (mil) caracteres com espaços


Prosa: um texto com limite de 3.000 (três mil) caracteres com espaços


 


Prémios: 



  • 1º Lugar (Prosa e Poesia) – Publicação de um livro por parte da Chiado Editora + 50 livros de poesia do catálogo CHIADO

  • 2º Lugar (Poesia) – Pack de garrafas de vinho rotuladas com o poema do participante + + 20 livros de poesia do catálogo CHIADO

  • 2º Lugar (Prosa) – Pack de garrafas de vinho rotuladas com excerto do texto do participante. + 20 livros de prosa do catálogo CHIADO

  • 3º Lugar (Poesia) – Pack de garrafas de vinho de rótulo normal + 10 livros de poesia do catálogo CHIADO

  • 3º Lugar (Prosa) – Pack de garrafas de vinho de rótulo normal + 10 livros de prosa do catálogo CHIADO



A cerimónia de atribuição de Prémios terá lugar a 27 de Maio pelas 15h em pleno coração alentejano, na cidade de Beja e será aberta ao público em geral.


 


A entrega do Prémio decorrerá em contexto rural e a par de histórias contadas em torno de um copo de vinho, declamações, leituras e momentos musicais que animarão uma tarde passada à boa maneira alentejana. 
Como não poderia deixar de ser, encontrar-se-á aberta a todos os presentes, uma degustação de vinhos, azeites e tapas, para uma celebração da Alma Alentejana, dos seus Vinhos e Autores.


 


Para mais informações:


e-mail: geral@chiadoeditora.com


tel.: 213 460 100

Inquietude

 


Cala-te. Por favor cala-te.
Que impere o silêncio!
Pára. Por favor pára.
Só a bonança
Desta dança
Que é viver.
Sossega...
Peço-te eu.
E tu sem me ouvir
Aceleras noite e dia
Nessa tão estranha euforia
De algo mais aprender
Conhecer
Criar
Ensinar
Fazer.


 



Abres-me as portas do mundo
As janelas dos sonhos
Os olhos da alma…
Desenfreada e insaciavelmente
Como quem depende de tão grande inquietude
Para me fazer ser - quem sou.
Mas hoje não. Imploro-te:
Não sejas tão perspicaz,
Não penses, não queiras, não cries, não sonhes, não sejas...
Mais do que paz.


 


(Essa que só o teu silêncio me traz.)


quinta-feira, 23 de março de 2017

Ser-se mais qualquer coisa

Primeiro esgotaram o tempo
sem parar e tirar o relógio.
Esses que vivem agora sem espaço
cronológico.
Seguem já sem propósito
não sonham, não sentem
não falam só mentem
a si próprios, devastados.
Seguem a corrente de gente
que se diz cansada
de ser quem é!
Já sem querer ser mais qualquer coisa.


Sabem lá de si,
do tempo e do espaço onde ficaram
os sonhos que nem começaram
a sonhar. – Quanto mais a viver.
Ouvem e repetem como se fossem suas
todas as queixas
todas as deixas
de alguém que as escreveu para se expressar.
Já não sabem sentir.
Já não sabem pensar.
Já não sabem falar por si. – Há que citar
quem ainda vive, ou viveu
com tempo para ser mais alguma coisa.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Xeque-Mate

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Sem precisão temporal – a guerra roubou-lhe o significado do tempo, contou-me uma noite, depois de dar por terminada a mais longa partida de xadrez. Não dormiu durante vinte e sete horas. Ciente da sua capacidade de superação e de resposta ao imprevisto, fez xeque-mate ao rei adversário. Não se deixava surpreender, jogava o seu jogo e o jogo do seu opositor, mantendo a concentração e alterando a estratégia sempre que o adversário julgava tê-lo surpreendido. Venceu pela persistência. 
"Esta é uma lição que deverás levar para a vida, João Pedro", dizia-lhe o avô, retornando às memórias da Guerra Colonial.



Sem precisão temporal, durante uma acção de reconhecimento aéreo, foi localizada uma base do inimigo, camuflada no interior do mato. Base essa, que as forças terrestres especializadas tomariam de assalto durante a madrugada seguinte. A aproximação dos homens requeria especial atenção e precaução, não só pelas condições do terreno, demasiado acidentado, como pela existência de populações nas proximidades. Qualquer falha alertaria o inimigo e consequentemente, ditaria a sentença de morte para muitos de nós.
Após de uma análise detalhada da missão, oCcomandante da Companhia ordenou que se formassem quatro grupos. Um primeiro grupo, composto por vinte e cinco homens, saltaria de helicóptero sobre o alvo – a base  – enquanto o segundo e terceiro grupos montariam emboscadas nas zonas de acesso. Iria ser mantido como reserva um quarto grupo, que atuaria como reforço, ou entreveria numa eventual perseguição às tropas do inimigo.
Já a noite caíra quando o segundo e terceiro grupos saíram, em silêncio, para uma marcha de seis horas – segundo regitou o alferes Morais, porque como te disse meu neto, a guerra roubou-me o significado do tempo. Hoje, ao olhar para trás e ao relembrar as histórias que te conto, não sei se elas duraram um minuto ou um ano. Na altura, sei-o, foram o que vivi de mais semelhante com a eternidade. Esse espaço intemporal e infinito que só se conhece após a morte. E não foi isso que eu vivi? A morte? Também matei e vi matar, naquele cenário de horror e carnificina. - O segundo grupo posicionou-se perto da base e o terceiro permaneceu na periferia do rio.

Não houve qualquer sinal de alerta por parte do inimigo, nem das populações, mas era importante manter a descrição, atenção e concentração, a fim de evitar qualquer contacto até os homens do primeiro grupo realizarem o assalto - como numa partida de xadrez. É crucial certificares-te de que o teu oponente não te decifra antecipadamente. Qualquer palavra, gesto, trejeito ou olhar podem fornecer-lhe indicações sobre o teu pensamento estratégico, ou deixar clara a movimentação da tua próxima jogada. Nunca se sabe de que capacidades estão os outros dotados. Quer no jogo, na guerra ou na vida, a aptidão e prontidão para uma rápida resposta é o segredo. A morte já não me surpreende, mas a surpresa poder-me-á levar à morte.

Os comandantes da companhia ordenaram aos camaradas que iriam constituir o anel de cerco, que se dispusessem em posição de emboscada, em grupos organizados de cinco elementos, de rádios ligados e em escuta permanente. Aguardariam pelo início da operação, em silêncio e imóveis. Eu estava entre eles.
Ao amanhecer cacimbava, o que dificultou a descolagem dos helicópteros.
Voavam a baixa altitude e assim que o alvo foi localizado, na orla da mata, o capitão saltou. Os restantes vinte e quatro soldados seguiram-no, num salto contra o tempo. De imediato o grupo de vinte e cinco homens, já reunido em solo firme, levou a cabo o assalto.
Seguiram-se tiros, gritos e vultos a correr. Granadas e corpos caídos. Ordens, ordens e mais tiros, tiros, tiros e tiros. Sobraram os mortos, os nossos militares feridos e algumas das gentes que por ali viviam.
Ouvi novamente o barulho ensurdecedor das pás e das turbinas dos helicópteros sob escolta de um helicanhão. Evacuaram as tropas, recolheram os feridos e abandonaram o local.


Seguiu-se uma nova caminhada de seis horas de regresso à base – e essa foi a duração da eternidade para o alferes Morais que caiu, sem vida, a dez passos do nosso aquartelamento.


[ Baseado em factos históricos verídicos - Guerral Colonial 1961-1974]

domingo, 19 de março de 2017

Quando os filhos não têm um super-herói, mas sim uma super-guerreira - Feliz dia do Pai, Mãe!


 


 


Elas são mães e pais, não necessariamente por esta ordem, mas sim em simultâneo. Super Guerreiras sempre com a espada numa mão e o coração como escudo na outra.

E esse é o seu papel principal. Embora se desdobrem em tantos outros papéis num curto espaço de 24 horas. Não têm tempo para ler o guião, por isso improvisam. A intuição de que são dotadas raramente as deixa ficar mal e quando se trata dos filhos, nem o cansaço as vence.

"Enquanto sou mãe e pai sou também cozinheira, lavadeira, faxineira, professora, educadora, amiga e companheira, conselheira, organizadora, trabalhadora num qualquer departamento ou negociante, sou filha, sou amiga, sou vizinha, sou enfermeira e médica sempre que necessário, motorista, jardineira, anjo da guarda ou polícia, por vezes até cientista, pago contas, estico dinheiro e invento tempo para ser um bocadinho eu. Tudo isto em pose de senhora, num corpo feminino que os aconchega no colo, que se molda às cabeças no ombro e lhes deu de mamar quando eram bebés. Um corpo e uma mente com a flexibilidade necessária para cada nova situação com que me deparo e a voz doce e meiga que os protege, com a necessidade pontual da autoridade que os alerta e coloca em sentido."

Super Guerreiras. Para elas não há dias de folga, não existe um "toma agora tu conta deles para eu descansar", ou mesmo acompanhar as amigas num final de dia. Tudo para não falar de privar consigo mesmas e privilegiar de uns momentos sozinhas.

São a presença feminina assídua, perante uma ausência constante da figura masculina. Paternal dizem vocês. Discordo. A paternal é, na maioria das vezes, assumida por alguém, que nessa mesma maioria se intitula Mãe.

Aos filhos preenchem silêncios, para que estes não falem tão alto. Ocupam-lhe os tempos livres para que eles não tenham tempo para sentir a falta de um pai ausente, mas também lhes ensinam que para quem realmente importa não existe ausência nem falta de tempo, que lembrar não é estar presente, que pai não é só um nome comum, nem um estatuto adquirido, mas sim um adjetivo caracterizador e complexo. Que os direitos são para quem assume os deveres e que uma pensão de alimentos não serve para uma mãe se governar, mas sim para ajudar a suprir as necessidades de um filho. Ensinam-lhes que o dinheiro compra bens materiais, brinquedos e objetos supérfluos, mas não compra amor, carinho, amizade e atenção. Ensinam-lhes que sempre que o telefone não toca, nem a campainha da porta se faz ouvir, existe uma outra porta na vida que, apesar de tudo, não se deve fechar. Mas que só a atravessa quem realmente quer, sem necessidade de ser convidado a fazê-lo.

Acima de tudo e de qualquer outra coisa, ensinam e demonstram todos os dias úteis, feriados e fins de semana, a tempo e horas ou fora delas, que um coração de mãe é infinito.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Fomes

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Comia-se mal e passava-se fome. Muita fome. A desorganização que se vivia e a falta de meios aéreos ditavam que não fossemos abastecidos corretamente. Existia, porém, algum apoio logístico a nível alimentar, mas apenas quando nos encontrávamos junto às viaturas. Se tal não acontecia, a nossa alimentação era baseada em ração de combate. Duas latas de atum e sardinha e um pacote de bolachas de água e sal, já com bolor. À exceção de um ou outro cabrito roubado, abatido e assado por nós, ou de meia dúzia de papagaios que por ali se matavam. 


Alturas houve em que a escassez alimentar tomou proporções tais, que passámos a alimentar-nos de mandioca crua, do pouco que conseguíamos roubar nas povoações e daquilo que nos era dado a troco de favores que iam desde os curativos aos sexuais.


Nesta altura éramos já - e apenas só - animais do mato regidos por instintos, em busca da satisfação das necessidades mais básicas e primárias do homem.
Não me orgulho João Pedro, não me orgulho de perder a racionalidade e permitir que o desejo carnal se transformasse em algo tão básico como apenas fome de carne, que saciei em vários corpos diferentes.
Não sei quantos filhos deixei. Nem se os cheguei a fazer. Um homem quando age assim não é digno do milagre da vida.
Corpos. Eram apenas corpos. Tanto os que caiam em combate e que jaziam e apodreciam ao nosso lado, como os outros. Os delas. As que nos serviam o pecado tição.
Exceção feita à delícia do beijo da poesia negra – Shaira.
Recordo os seus lábios carnudos nos meus, num beijo que começava terno, calmo e molhado, mas que depressa me dominava e possuía. Entranhava-se em mim. Pedindo-me que me entranhasse nela. Que entrasse nela e me demorasse.
Não teria mais do que os seus dezassete anos e as proporções poeticamente exactas, num corpo que me pedia para ser lido e sentido ali mesmo, no intervalo preciso entre a hora da morte e o exato segundo onde o meu coração começava.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Introspectiva

Silenciam-se os passos no barulho da mente.
Caminhas descalço em busca do teu presente,
quando o tens à tua frente
por vezes quieto e calado,
dás por ti a pensar nele noites a fio acordado.
Silencias a mente para nele não pensar;
embora vivendo-o, tens medo de o agarrar...
e perdes os teus passos, encontrando o pensamento
que te rouba a lucidez para viveres o teu momento.


 



Calas o que pensas, não nascendo o que sentes.
Fechas os teus olhos, porque é só a ti que mentes.
Finges que não te importas com o que a vida não te dá,
mas sabes que és tu quem o futuro mudará.


Noites em claro, pensamentos a voar.
Lágrimas que caem (continuas a chorar).
Aprende: a vida é uma e acaba!
Sorri e faz sorrir, porque um sorriso não mata!
Agarra o presente, deixa para trás o que passou,
vive o que tens e o que a vida te reservou.
Embora penses que o pensas não faz sentido,
escuta o coração se ele te falar ao ouvido.


Não cales o que pensas se for para nascer e prosseguir.
Abre os teus olhos, não podes ao presente mentir.
Não finjas que não te importas, se sabes que a vida te dá
motivos para sorrir, só de ti dependerá.


domingo, 12 de março de 2017

No lume

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O hall abria-se para as restantes divisões. E ele estava em todas elas.
À esquerda, no escritório, lia Hemingway de perna cruzada e recostado na velha poltrona de braços largos, estufada em couro castanho dourado com acabamentos de madeira de jacarandá, estilo Dona Maria e ao gosto do avô inglês. 
À direita, era comum assistir-se à erudição das partidas de xadrez que travava contra o Professor Wesley e à frialdade com que, três ex-combatentes, debatiam temáticas como as antigas colónias, o marfim, os diamantes, os anos em que haviam integrado os teatros de operações da Guerra de África que, inevitavelmente, culminavam nas mais acesas críticas ao atual regime. No ar, os pensamentos enevoados de três charutos cubanos e nos lábios, o sabor de um Midleton irlandês que ardentemente descia e lhes aquecia as entranhas. O velho Stephen, filho de mãe inglesa e de um antigo Major português, costumava compará-lo ao sabor de uma africana que amara uma dezena e meia de vezes nas margens do rio Níger, durante a sua estadia em Bamako, capital do Mali, em 1952.


 


-Primeiro mordia-me e molhava-me os lábios com fervor, assaltando-me a boca com a sua língua encorpada, qual golada de verão num copo de Midleton sem gelo. A loucura do calor que em mim se entranhava queimava-me as vísceras. 
Ardemos durante várias noites, nas margens do rio Níger. Eu lume. Ela carvão.


Seguindo em frente pelo hall, envolvia-nos o cheiro a linguiça assada que se cruzava, já no interior da cozinha, com o do arroz de cabidela. O seu prato de eleição. Ouvia-se o roscar do saca-rolhas e o grito do vácuo ao saltar da rolha, seguindo-se a suave melodia com que o aveludado tinto alentejano tocava as paredes do copo. A faca de serrilha no pão, o arrastar da cadeira, dois talheres em trabalho e o mastigar com gosto.


Espreitei ao alpendre. O jornal do dia em cima da mesa. O avô não andaria longe.
Cheirava os coentros e a salsa. Desbastava a era que, fazendo jus aos seus dotes de boa trepadeira, cobria já a totalidade da parede de uma vida e do portão do casão, ao fundo do quintal.
Voltei ao interior e o avô não tardou em reaparecer, fazendo-se acompanhar por quatro grandes laranjas sumarentas que espremeu, dando-me a beber.


Sensivelmente a meio do corredor, ao virar do aparador em madeira de cerejeira antiga - peça de mobiliário datada de 1903 - entrava-se no seu quarto. E ali estava ele. Na moldura, na poesia de Eugénio de Andrade, no par de peúgas esquecido aos pés da cama e no smoking que levara ao meu casamento, impecavelmente pendurado no seu guarda-fato.
Ali estava ele também, em todas as suas memórias escritas e nunca partilhadas, por mim encontradas debaixo do pesado colchão que carregou durante anos o peso da vida que agora esmagava.


Ali estava ele. Em tudo e em nada. Ali estava ele, entre os espaços vazios. Ali estava ele, sempre que a luz se apagava e que comigo saía de mão dada, deixando para trás umas casa cheia, mas tão vazia de si.


Ali estava ele, o meu avô Stephen, outrora lume. E ela carvão.


Ali estava ele, o meu avô Stephen, muitas vezes pólvora e outras tantas munições.


Ali estava ele, o meu avô Stephen, agora em cinzas.


 

domingo, 5 de março de 2017

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada,
respondi
atenta aos botões
de camélias apressadas
(que te espreitam)
à janela do casaco que vesti.


- Não me queiras sem Inverno,
prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me,
aí fora
no meu tempo.
Chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.


Nada temas,
nem homens, nem máquinas nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.


Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...