terça-feira, 30 de maio de 2023

Excesso

Completo, o dia abre espaço à noite,
à lotação das sombras
ao cheiro das estrelas
aos repetidos caminhos do regresso,
entre filas e faróis fatigados.
Ao longe,
o silêncio:
rasgado pelo uivo dos cães tardios.


Toma a dianteira, o desconhecido,
desafiando-o:
rotineiro
habitual
automático
mecânico.
Para onde nos dirigimos?


Há um excesso que nos empurra e atropela:
emoções
informações
expectativas
ambições
e pressa. Muita, muita pressa
de chegar e não parar
até que se chegue
[sem lá se estar]
ao lugar de onde, ainda agora, se partiu.

Corpos de cansaço e fadiga
abandonados à força dos dedos
sustendo a fronte, à vida
e às ideias inacabadas,
onde se adormece e habita.


Há um excesso que nos devora, conduz e domina.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

De se ser

No decote da noite emaranhada,
Num fio de cabelo que ficou
Pousado na memória enevoada
Dos traços que o destino não juntou

Desceu às estrelas, a correr
Como quem quer delas apagada
a luz no peito ao adormecer
em braços nus de lua, enamorada.

Foi Deus chamado e não ouviu,
nos olhos, tom de sonhos adiados,
a valsa da paixão que não seguiu
dos astros, os acordes alinhados.

Se era tempo amarrotado ou o segredo,
de se ser mais caminho do que chão,
de se ser mais fissura que romance,
de se ser mais no remendo, o coração.


 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

O Papel da Arte e do Artista na vida e construção de uma cidade

Republico hoje uma das minhas crónicas n' O ATUAL . 


 


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A arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. É parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitando o diálogo entre os indivíduos, desde cedo, através da representação de figuras rupestres nas paredes das cavernas. Tem vindo a mutar-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a arte sempre possibilitou a aproximação entre indivíduos, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro. Mais do que isso, a arte opera a capacitação de lidar com o mundo, com o confronto e com a diferença.


Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a arte humaniza.


Limitar a arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção que nem sempre é proporcional ao talento) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, preferência, protecção, interesse ou perfilhamento é errado. Tal como é errado limitar e reduzir a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 


Do que estarei eu a falar? Difícil de entender? Talvez, para alguns.


Em primeiro lugar, a falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de uns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. Não é isso que está em causa) em detrimento de outros, persistindo as assimetrias na representação artística da região. Neste ponto, será necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.


Em segundo lugar, impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista e fechada em si própria tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não é de interesse ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte e Cultura têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


E se “sair da ilha para ver a ilha” é necessário, parafraseando Saramago, “sair da ilha para VER” é ainda mais necessário. Olhar para fora e por fora, sair, ir, vivenciar e entender a realidade externa como uma dimensão da experiência humana. Captar o que de que bom se faz noutros locais, procurar conhecer e ter contacto com iniciativas e artistas diferentes, imaginar e inovar, ousar o diferente e o novo, criar movimento e ser motor de inspiração, em nome da vida urbana, transformada e renovada, onde todos possam exercer e beneficiar do seu direito à atividade participante e à cidade, aos locais de encontro e de partilha, à diversidade cultural.


O exercício da cidadania passa pelo reconhecimento recíproco, pela afirmação e reconhecimento de grupos que ainda se mantém à margem, mesmo pertencendo à cidade, seja na procura de oportunidades para trabalhar e viver, como para conviver, disfrutar, alargar horizontes, ter acesso a programação cultural do seu interesse, mais abrangente e diversificada. A cidade deve ser capaz de garantir a liberdade de escolha, sem que isso se afigure como um factor de exclusão, e  deverá converte-se num espaço de circulação pluricultural e atrativo, onde os seus agentes, grupos, indivíduos (residentes ou visitantes) possam produzir, assistir, disfrutar, encontrar-se e usufruir das mais diversas e diversificadas áreas culturais e artísticas.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada e é dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.


A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.

Húmus

As minhas janelas não dão para lado nenhum.
Não há nada que se me mostre através delas.
As estradas e figuras que entrevejo
não me levam a lugar algum;
perdeu-se o Homem e o ensejo
Lá no alto, pelo asfalto.



Há nos meus olhos cansaços vários
decorrentes do esforço exabundante
de sonhar desejos deficitários
p’la mão de Virgílio,
nas margens do Letes de Dante.


Constantemente me adio os escombros,
inevitáveis, quando à meia, a noite cair
e o céu me esborrachar de vez a cabeça.
No inferno, todos se vão rir
e na terra não há quem não me agradeça a retirada.
Que maçada…
todos escolheram o domingo para morrer
e até nisso eu saí controversa.
Nem no princípio nem no fim. Exatamente a meio
onde a semana dispersa.
Avessa, pedi para assistir ao meu funeral,
enterraram-me, por isso, primeiro o caixão
(que dele quero morrer longe).
Queriam-me os sonhos em valas comuns?
Não.
Sequem as lágrimas choradas
e desacreditadas de religião.
A minha única fé é sonhar!
E quem sonha, nunca sonha em vão.


Alimentar-vos-á o húmus
da minha ressurreição
porque se morro, não morro toda de uma só vez
e o que por terra cai,
levantar-se-á outra vez
sem que vós me entendeis a mão.


Querem graça?
Peçam o óbulo à porta da igreja
que a vida não vai de bandeja
e eu 'inda estou no meu funeral.


As minhas janelas não dão para lugar nenhum.


sábado, 13 de maio de 2023

Abarcar

É preciso escrever com as mãos limpas
o eco da poesia que corre
entre as margens de erro da vida;
e emendar o céu... 
com o olhar simples
de quem apanha as estrelas distraídas
e voa, para que se abracem.
É preciso corrigir a lonjura sempre que chove
e o dilúvio da cidade solitária se abate sobre os nossos corações.
Escorrem as emoções, ao sul
desaguando no mar azul
que te tráz
e só termina nos meus olhos.

Abarca-me.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

À proa


Nasço eu, p’los teus braços, amanhã.
Estratosférica e profunda,
breve e oriunda de sonhos crescentes,
como a lua esta noite.
Fóssil de mim, ajusto os ossos,
a mais dura parte de quem sou
à saudade.
Baixa mar de um rio que rasgou as margens
da impossibilidade, ao nascer.
Para os lados da foz, vazante, não lhe conheço caminho
e a jusante de mim, só o teu desaguar
no lago do jardim que me dá de beber
ao coração.
Tu entraste antes de mim nas flores que ficarão
com as lembranças,
quando a névoa cerrar o caminho
e a tua mão deslizar sobre o pensamento,
colhendo o que de nós brotou:


Arte livre, inocente e múltipla,
na proa erguendo o amor.


 

terça-feira, 9 de maio de 2023

Esperei por ti ao pé da ponte

Esperei por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos
te visse trinta passos apressada.



Chegavas-te a mim com três laranjas no regaço
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá que embarcar.


Aqui, deste lado da ponte, não há quem sou.
Mas acolá, onde os pássaros cantam,
onde as flores encantam
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim,
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
(enquanto te esperava do lado de cá) 
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter.
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer.
Vem sentar-te nas minhas costas
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...
(não é desleixo) e lá em baixo,
no lazarento jardim dos meus sonhos,

será fértil tudo o quanto dele beber.


Vem, que por ti ainda espero ao pé da ponte.


segunda-feira, 1 de maio de 2023

Asa


Tenho um desejo menino
que desperta devagarinho
dos sonhos que a vida tem.
Descalço, pelo meu peito, 
dança a compasso e sem jeito
Não dá a mão a ninguém.

Tenho nos abraços-casa
a alma livre p'la asa
de voar para onde quer.
Pequeninos, entre os dedos,
guardo, seguros, segredos
tudo o que a vida me der.

Se p'los olhos me entra o mundo
e o amor nasce profundo, 
eu não sei o que fazer...
Quanto mais eu me confundo, 
mais a noite perde o fundo
e eu só quero adormecer.

Nestas coisas da paixão
mais difícil que a razão
é dizer ao coração
que é preciso aprender:
não importa a emoção,
senti-la é um turbilhão, 
o necessário é viver.


 


 


 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...