quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A memória das mãos nunca esquece a paixão

 

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Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam. Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.

- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - tão pouco que destino os espera. Toda a vida vivi intensamente cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje, já calejado da vida, me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, a carne dos lábios, de olhos fechados.

Eurico rodou o banco de lona verde escura ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele, com a ponta do meu indicador, e lhe medisse a profundidade.

- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir... somente um vazio que não poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal sempre que, na demora da ausência, recordares uma mulher e, de olhos fechados, lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não cultivar, cuidar, amar e preservar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.

Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.

- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.

Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:

- Como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Remendar cadáveres com poemas

Vi, em vida, morrer o mundo
trespassado por balas perdidas;
vidas vencidas pelo cansaço a tombar na calçada rotineira
onde, rasos, os passos cediam ao vazio.
Vi, atear-se a fogueira na foz do rio sonhado,
navio de pólvora atacado por piratas de coração à deriva.
E numa tela, fogos de artifício à janela
de todos quantos por ali espreitam
e se enjeitam, sem ar
até ao lançar do infortúnio morteiro.
Sobrevivi, remendando um cadáver com poemas...
... e renasci
alinhavando mais dez. Cem. Mil.
Mas não chega, mundo senil!
Tragam-me o mar e a calma, é preciso cosê-los com alma
aos pedaços de céu, ao epicentro da vida!

 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O que é o Natal?

Em resumo:

O menino vai ao encontro de uma menina refugiada, sozinha na neve, e trá-la para sua casa.

A menina observa com admiração os detalhes no interior e pergunta: "O que é o Natal?" 

Abraçando-a, o menino responde: "O Natal é isto"! 

 

 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Espectro

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As rugas pareciam iluminar-se, a partir de dentro,
acompanhando o compasso provecto
de um coração muito antigo, 
albergado às portas da cidade deserta. 
Parado, o tempo, ostracizado pelas ruas de pranto, 
em enchorradas de encanto outrora navegadas
pela memória de travessias e seduções,
naufragadas no esquecimento
secreto de um velho palpitar. 
Pareciam iluminar-se, a partir de dentro, 
as memórias loiras das raparigas antigas...
e o olhar.
Pareciam iluminar-se, a partir de dentro, 
as janelas da casa do amor
... ao recordar.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Colarinho branco

Incógnito pelas ruas,
refugiando as mãos nos bolsos,
segue, sob o olhar atento da gula,
visível nos olhos da noite corrupta.

Habilmente tricotada em torno do pescoço,
tráz enrolada, nas voltas da vida,
a cascavel adormecida
que aquece e incita a mordida
envenenada; picada da língua afiada
no eixo certeiro do passo contíguo
de quem, sem nó de gravata,
no caminho honestamente se atravessa.

Sobre a calçada endurecida,
já muitos tombaram heroicamente,
à luz do candeeiro por interesse atenuado,
cansado que estava o rigor do país.
Exarcebado, fez o povo garrote
na própria perna e seguiu...
pela via da verdade, que o viu,
denunciar, em contra-mão,
quem não caiu, em falso passo, na escuridão
da intérmina auto-estrada da corrupção.

 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Na voz de uma mulher

Não precisas de esperar. Eu não me vou atrasar. Afinal fui eu quem sempre aqui esteve à hora certa e no momento devido. Hoje não seria diferente. Chego uma vez mais, a horas, para te dizer que não esperes por mim. Durante todo aquele tempo em que tu ias e voltavas, te perdias de ti e te reencontravas, eu esperei. Esperei e sempre estive do teu lado. Mesmo atrasado, ias chegando, ias sorrindo, ias ficando, até ao dia em que a tua ausência prolongada ditou o meu afastamento.

Nunca te pedi muito, e o que pedi foi tão simples. Aquele minuto de atenção que nos faz sentir especiais. O respeito, o carinho e a consideração de quem se importa para com quem é importante. Tudo isso chegou até ti sem atrasos. A mim, foram muitas as vezes em que tão pouco os recebi. Porque tu, egoísta, vivias os dias envolto nos teus pensamentos, na tua rotina, na tua falta de tempo e nos teus maus momentos. Tinhas-me como presença certa e já nada fazias para que eu ficasse. Recorrias a mim somente quando mais nenhuma palavra te fazia sentido, quando nenhum conselho era tão válido quanto o meu, quando mais ninguém te fazia sentir seguro de ti mesmo ou te estendia a mão e te dizia “estou aqui”, quando mais ninguém te fazia sentir tão vivo o coração ou te despertava emoções que há muito não sentias.

Se precisavas de sorrir sabias onde encontrar o meu sorriso, se precisavas de um abraço sabias onde encontrar o meu, se precisavas de uma palavra, sabias que a minha seria a certa. Mas era sempre pela tua necessidade, e nunca pela minha ou a pensar que eu também poderia precisar de ti.

Como disseste e bem, sou forte, mas não tão forte que me seja indispensável o carinho, o conforto e a presença de alguém nos momentos difíceis. E onde andavas tu nos meus momentos de aperto? Desculpa que te diga, mas sempre que não me olhaste nos olhos para fugires de ti, sempre que não me agarraste com medo de a seguir me perder, sempre que não me amaste por cobardia, sempre que não me sorriste, sempre que não tiveste tempo ou paciência para mim, sempre que não chegaste ou deixaste algo por dizer ou fazer, tu não te atrasaste. Adiantaste-me sim a partida.

E enquanto tu eras o teu próprio centro de atenções e vivias embrenhado nos teus medos, nos teus pensamentos, nas tuas incertezas e na tua falta de tempo, eu vi o mar sem ti, a lua e o por-do-sol. Também não deixei de viver momentos sozinha, que queria viver ao teu lado, porque se tu me faltavas a mim, eu a mim não me falto. Sempre que fugiste de mim para não pensares em ti, acabaste por me perder ainda mais. E não só me perdeste a mim, como te perdeste de ti e perdeste muitos dos melhores momentos que tinhas para viver. São escolhas.

Agora, não me peças desculpa por tudo o que não fizeste ou não fizemos juntos. Se me conheces, sabes que prefiro a verdade dos atos à facilidade das palavras. E se de facto estás arrependido demonstra-mo sem atrasos.

Desculpa, o meu tempo está a terminar, a vida não espera por mim, o meu relógio não pára e há um lugar para ser feliz. Eu quero lá chegar a horas, por isso não espero por ti. Tu chegas sempre atrasado e outras vezes nem chegas.



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Na voz de um homem

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Desculpa o atraso.
És sempre tão pontual e eu chego sempre atrasado, por vezes nem compareço. Desculpa o atraso mas estive sempre ocupado. O trabalho e os meus afazeres diários. A rotina. A falta de tempo.
Desculpa o atraso nos “bons dias" e todos aqueles dias em que nem tos dei. Os teus chegavam sempre a horas.

 

Desculpa o atraso nas respostas às tuas mensagens, à tua presença, à tua atenção. Desculpa por todas as vezes em que não foste prioridade, mesmo em plena consciência de que, na maioria das vezes, eu sempre fui a tua.
Desculpa por todas as vezes em que não retribui os teus sorrisos abertos, o conchego do teu abraço e a doçura contidada em cada beijo teu.

O trabalho e a falta de tempo, ou todo o tempo que deixei passar embrenhado nos meus pensamentos, à volta de mim mesmo e fugi. Não de ti, mas de mim, do meu subconsciente que me dizia que eras tu quem eu queria ao meu lado, que eras tu quem me trazia tudo aquilo que sempre desejei, que eras tu quem ali estava sem qualquer obrigação, sempre à hora certa - nunca foi o momento errado.

Por fraqueza fugi. Porque sou fraco e tu és forte. Mas não tão forte que te seja indispensável a presença e o carinho de alguém, o conforto e o apoio nos momentos difíceis. E eu sou fraco e fujo, por cobardia, ao pensar que não sei como apoiar uma mulher que é dona de uma força soberba e que tanto admiro. E apesar da muralha que construíste, ainda consegues ser doce, meiga, delicada e ter um dom comum a poucas, ser Mulher com letra grande.

Desculpa por todas as vezes em que não te olhei com medo de ver em ti o que sabia que iria encontrar. Por ver em ti os meus pontos fracos. Por te saber o meu ponto forte.
Desculpa o meu atraso sempre que precisaste de mim, e desculpa-me ainda mais as vezes em que nem cheguei.
Desculpa os momentos intensos que não vivemos, os passeios que não fizemos, as aventuras que não partilhámos, todas as noites em que não olhámos juntos para o céu nem adormecemos lado a lado.

Tu és a amiga, a amante e a mulher que sempre quis e eu só agora tive a certeza disso. E mais uma vez já venho atrasado.
Desculpa por não te ter levado a ver o mar, o por do sol e a lua, sei o quanto gostas. Mas ainda vamos a tempo. Prometo não me atrasar desta vez.

Desculpa por ser eu o meu próprio centro de atenções, e desatento, não interpretar os teus sinais.
Tu chegas sempre a horas para tudo e mais alguma coisa, antecipadamente até para algumas. Tu chegas lá e fazes. E eu, cobarde, deixei tanto por fazer e dizer.

Só agora percebi que nos teus olhos vejo os meus, que no teu sorriso encontro o motivo do meu, que em ti encontro o que sempre procurei. (E do qual andei a fugir todo este tempo).
Desculpa-me por me achar fraco, por todas as idas e vindas, por todos os meus atrasos e pelas vezes que nem cheguei. Desculpa por me ter sido necessário já aqui não estares, para que eu percebesse que só permaneço estável, íntegro e completo ao pé de ti.

Desculpa, mais uma vez cheguei atrasado para dizer que Te Amo.

Sei que já aqui não estás, mas espero ainda ter vindo a tempo. Mesmo que te atrases, hoje sou eu quem espera por ti.

 

Qual é o caminho para a felicidade na rotina de consumo da sociedade contemporânea?

São pouco mais de quatro minutos de viagem por uma cidade onde a “felicidade” está espalhada por todo o lado, mas não se encontra em lado nenhum. Mais um excelente trabalho de Steve Cutts.

 

 

 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Reflexão

“Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual.”

Oscar Niemeyer, arquiteto brasileiro

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Salvé

A todos os que deram as mãos e baixaram as armas
na calada da noite. 
A todos os que em laços se coseram
e em abraços de afeto se deram
às claves de sol dos corações cintilantes. 
A todos os ventos cruzados
que aos condenados levaram
o cheiro dos poemas da Lira de Orfeu.
Doce lamento... (sei eu),
amenizando o sofrimento das almas exiladas para lá do Estige. 
A todos os rouxinóis matinais,
atestadores matriciais 
dos amores de antigamente. 
A todos os sonetos chorados.
A todas as cartas não lidas.
A todos os esplendores gritados.
Aos beijos roubados. 
E ao ardor das despedidas.

 

- A todos quantos o amor brindou!
Saudou a vida.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Prémios de Marketing 2017

A dedicação e a paixão por aquilo que fazemos é, sem dúvida, o motor para o sucesso. Foi com uma enorme emoção que no passado dia 23 de Novembro recebemos, na pessoa da Rita Palma Nascimento, a notícia de que a Hall Paxis tinha sido galardoada com o primeiro prémio de marketing no âmbito do Imocionate itec 2017.
"Do mosto à Palavra", uma ideia que surgiu do nada, que foi desenvolvida, cimentada e concretizada, saíu vencedora numa tarde de chuva, mas onde o calor humano encheu a FIL.
Muito obrigada a todos quantos acreditaram e ajudaram! Deixamos aqui a honra da consagração do primeiro lugar, entregue à Rita, uma das principais mentoras da ideia, e que nela trabalhou arduamente. Um grande bem-haja a todos quantos tornaram este prémio possível - Equipa Hall Paxis, parceiros de evento Chiado Editora e Herdade da Figueirinha, amigos, clientes, família, autores, viajantes, turistas... É por vós e para vós!

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Para os menos atentos a este cantnho, "Do Mosto à Palavra" foi uma ideia que surgiu numa solarenga tarde de Dezembro, em plena cidade do Porto, na esplanada do Chiado Café Literário, na Av. da Boavista, onde duas alentejanas de Beja (eu e a minha mãe) se encontravam a almoçar, tendo sido brindadas com um copo de vinho Alentejano, mais concretamente da Herdade da Figueirnha (Beja). 

Estava lançado o mote, à mesa juntaram-se uma imobiliária, o vinho e a literatura para um início de tarde que viria a ficar na hitória. 

Depois de "cozinhada" a ideia, ainda em fase embrionária, apresentámos a proposta de parceria tanto à Chiado Editora, como à Herdade do Monte Novo e Figueirinha, que aceitaram prontamente o desafio. E se à primeira vista estas três empresas nada têm em comum, desenganem-se: Pessoas, Cultura e Arte. Três elos de ligação e união capazes de mobilizar e dar origem a um Prémio Literário que recebeu paticipações de todo o Portugal Continental e Ilhas. A concurso, sob a temática "Alentejo", estiveram 420 participações entre as categorias Prosa e Poesia, tendo sido premiados três autores em cada uma das categorias, num evento vínico e literário que decorreu em Maio, na Herdade do Monte Novo e Figuerinha em Beja. 

Dada a dimensão alcançada, o projecto não poderia ficar por aqui. Foi entao anunciada, por parte da Chiado Editora, a compilação de todos os originais numa obra, a Coletânea "Do Mosto à Palavra" - Vol I, lançada extamete no mesmo local, no passado dia 18 de Novembro. 

E se a concurso obtivemos participações de Norte a Sul, incluíndo as ilhas, na assistência, "Do Mosto à Palavra" internacionalizou-se, com a presença de cidadãos Italianos, Holandeses e Colombianos. 

E agora perguntam vocês (e bem) "Qual o benefício/vantagem, para uma imobiliária, integrar um projecto como estes?". 

Vejamos, nos dias que correrm e sendo Beja uma cidade de pequena dimensão, só faz sentido desenvolver um negócio quando perfeitamente integrado no seio da comunidade. Quando a comunhão existe e a interligação entre partes é incentivada e fomentada. 
Desta forma, este plano de marketing permitu à Hall Paxis não só o posicionamento no seio do seu segmento alvo, como a criação de valor para a empresa, a par da divulgação e visibilidade ganhas tanto para a Hall, como para a cidade e para a região. 

Uma parceria improvável que resultou numa ideia out of the box, impulsionadora, inovadora e única. 

Para melhor perceberem a essência do que foi feito, deixo-vos o vídeo que nos valeu a conquista do 1º lugar nesta que foi a 1ª Edição dos Prémios de Marketing para o segmento imobiliário. 

 



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Monte Tradicional Alentejano - Um pouco de história e tradição

 

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Quando se fala em Monte Alentejano, somos inevitavelmente remetidos para uma sensação de tranquilidade, sossego, descanso, harmonia mas, também, de isolamento. Na verdade, foi extamente esse o príncipio que deu origem à estrutura conceptual do Monte Alentejano, tal como o conhecemos hoje.

 

A sua história remonta ao séc VII a. C. e à presença dos Fenícios que, por terem na Península Ibérica uma base importante e estratégica na sua rota de comércio, exerciam sobre este território uma forte influência.
À época, o conceito de Estado não existia – note-se que o conceito de Estado se refere a qualquer entidade com estrutura própria, politicamente organizada e com poder soberano para governar um povo dentro de uma área territorial perfeitamente delimitada. São poderes tradicionais do Estado o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário, sendo que numa Nação o Estado o Estado desempenha funções políticas, sociais e económicas. – e foram os agrupamentos sucessivos e cada vez maiores de seres humanos que nos fizeram chegar a essa concepção.

 

Os Fenícios foram um dos primeiros povos a tentar implementar um conceito semelhante, onde as regras fossem similares entre os diferentes povos que coabitavam a região. Os grandes centros urbanos, por eles dominados, foram os primeiros locais a acolher e a implementar estas regras, o que levou a que uma boa parte dos seus habitantes - habituados a viver segundo as suas próprias normas - começassem a dispersar por todo o sudoeste peninsular, de modo a poderem viver segundo os seus próprios costumes. Por consequência, levavam consigo muito da influência Fenícia no que à construção e à estrutura habitacional dizia respeito.

Com uma história que ascendente os 2500 anos, o Monte Alentejano teve a sua maior influência na arquitetura mediterrânica, instituída, em grande parte, pelos Fenícios. É de realçar a privacidade de espaço como característica principal, situando-se a habitação no centro dos pátios, o que garantia a sua salvaguarda.

 

Contudo, a edificação do Monte Alentejano poderá também ser considerada uma ruptura conceptual, estrutural e arquitectónica para com as características predominantes nas habitações da época. Senão vejamos, com a dispersão dos grandes povoados, na parte final do século VII e no início da idade do Ferro, a realidade do cultivo, da força laboral e do conceito de família é transmitida para a construção, sendo abandonada a estrutura circular das pequenas cabanas, para abraçar uma nova realidade arquitectónica.
Sendo já uma base da comunidade, a família torna-se igualmente base do trabalho e da organização estrutural, cultural e social.

 

Provenientes da região litoral, as técnicas de construção e da própria organização do espaço foram implementadas em determinadas zonas do interior, permitindo a criação de pequenas comunidades rurais auto-sustentáveis, predominantemente instaladas junto a linhas de água, por forma a reforçar o carácter agrícola e agro-pastoril das comunidades.

 

Estudos arqueológicos indicam que estes antiquíssimos protótipos do Monte Alentejano seriam construídos em pedra e terra e seriam, tal como atualmente, pintados de branco.

 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Lançamento do Vol I da Antologia Do Mosto à Palavra

Na sequência do anúncio feito aquando da entrega do Prémio Literário "Do Mosto à Palavra", no evento com o mesmo desígnio, realizado a 27 de Maio do presente ano, irá ser apresentada no próximo dia 18 de Novembro a respetiva Antologia que compila os textos submetidos a concurso. 
O evento realizar-se-á na Herdade do Monte Novo e Figueirinha, mediante a parceria improvavel entre as 3 empresas por vós já conhecidas, Hall Paxis, Chiado Editora e Herdade do Monte Novo e Figueirinha.
Será para nós um gosto tê-lo presente, naquela que podemos assegurar vir a ser uma tarde diferente, especial e bem passada, à boa maneira alentejana é claro!




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sábado, 21 de outubro de 2017

Espero por ti ao pé da ponte

Esperei por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos,
te visse vinte e oito passos apressada.

Chegavas-te a mim com três laranjas no regaço
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá que embarcar.

Aqui, deste lado da ponte, não há quem sou.
Mas acolá, onde os pássaros cantam,
onde as flores encantam
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim,
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
- enquanto te esperava do lado de cá -
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter.
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer.
Vem sentar-te nas minhas costas
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...

(não é desleixo) e lá em baixo,

no lazarento jardim dos meus sonhos,
será fértil tudo o quanto dele beber.

Vem, que por ti ainda espero ao pé da ponte.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

De um país de doutores, à tragédia de um país de especialistas

Ou como disse Heisenberg (e bem), “Um especialista é alguém que sabe quais os piores erros que podem ser cometidos na sua área e os evita".

Oh Portugalito, e o que andam tantos especialistas a fazer contigo?

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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Dá-me tua mão

Agora, difícil é expulsar o frio do inverno que parece ter atravessado o calendário, para além do seu tempo, instalando-se nas almas de quem ficou e viu partir, em cinzas, as suas primaveras.

 

MAUS TEMPOS

Agora nos calamos
E já não mais cantamos.
Nosso passo é pesado.
É a noite, o seu tempo é chegado.

Dá-me a tua mão,
Talvez que seja longo este caminho ainda.
E a neve cai, a neve!
O inverno em terra estranha nunca finda.

Onde está o tempo
em que uma luz, um lar por nós ardia?
Dá-me a tua mão.
Talvez seja longo este caminho ainda.

Herman Hess

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Ser-se mais qualquer coisa

Primeiro esgotaram o tempo
sem parar e tirar o relógio.
Esses que vivem agora sem espaço
cronológico.
Seguem já sem propósito
não sonham, não sentem
não falam só mentem
a si próprios, devastados.
Seguem a corrente de gente
que se diz cansada
de ser quem é! 
Já sem querer ser mais qualquer coisa.

Sabem lá de si,
do tempo e do espaço onde ficaram
os sonhos que nem começaram
a sonhar. – Quanto mais a viver. 
Ouvem e repetem como se fossem suas
todas as queixas
todas as deixas
de alguém que as escreveu para se expressar.
Já não sabem sentir. 
Já não sabem pensar. 
Já não sabem falar por si. – Há que citar
quem ainda vive, ou viveu 
com tempo para ser mais alguma coisa.

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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Morte da Verdade

Ninguém a viu morrer…
Em contra luz, cegueira acesa e mesa posta
ao redor sentados, desgarrados e embeiçados
pela hipocrisia de bem parecer.
Ninguém a viu morrer…
Só. Num jardim que definhou
sem gota a gota de amor regado
e onde só a trapaça medrou,
num canteiro que se quis florido,
mas desde logo ferido
pela lisura que não viu.
Em cada cravo, em cada rosa
uma pétala arrancada,  
imoralidade marcada pela desonestidade de ser.
Ninguém a viu morrer…
quando ávidos, das suas lágrimas beberam
e do seu corpo comeram
- cansado e ferido -
apodrecidos que estavam,
de coração desnutrido e alma salobra.
Ninguém a viu morrer…
afogada no rio de lodo
de patranhas e engodo,
onde todos lavaram as mãos.

Ninguém viu a verdade morrer.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Tentações

Olhei-a, sentado no meu terraço
impávido e sereno,
cigarro aceso e um copo de bagaço,
antevendo o melaço do regaço daquela mulher.
Em pé, ombro apoiado na parede
mini saia preta e blusa de rede,
uma taça tinta de vinho na mão
e a cumplicidade de um Marlboro na outra. 
Sem infração, contou-me em silêncio segredos,
expondo-me os medos 
que ouvi e bebi, como se fossem minhas 
as pétalas de fumo que lhe nasciam nos lábios.
Embriagado pela subtileza dos gestos sábios,
cedi.
E fumei-lhe a espera,
num salgado jogo sem pressa 
ao leme da tentação.
Em maresia sem promessa...
entregues à ondulação,
dois corpos famintos,
em goles de beijos tintos
salgados instintos de prazer carnal.
Devoção em alto mar
até a onda rebentar...
... e a jusante da maré
lhes permitir regressar.
 


Amantes citadinos num terraço ao pôr-do-sol,
nus.
- Só a liberdade é necessária para amar!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Trapézio

Roçou o vento no trapézio,
quando seguia, já em pontas,
a subtileza do passo
no equilíbrio da vida...
Tombou e ficou
a dor das feridas lambidas,
quantas vezes caladas,
quantas vezes escondidas...
quantas mais vezes ardidas no ruído ensurdecedor do silêncio.
Solas gastas, pegadas despidas.
Noites soluçadas,
manhãs esquecidas, p'la calçada adormecida de sonhos...
Ao virar da rua deserta,
vinte e oito escadas para lado nenhum.



(Ainda ontem lá estava o trapézio...)


 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Sem mais, sem menos


 

 

 


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Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco que exista alguém que a mais se eleve
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida,
envolto no sopro de um cobertor de memórias
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa sem tecto e paredes de papel onde o coração dormita.



Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo o quanto por ela passa
por mais ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem se nãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita;
Aos contornos, frequentemente largo
o amargo cheiro das pregas vazias.
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadados os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.


Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
E os que muito sentem, escolheram o rés-do-céu para viver.
E sonhar no centésimo andar, a contar do vale dos mortos.
Não creio que tenhamos nós mais do que eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir
sem sentir, que todos nós temos alguma coisa
entre nascer e morrer. Espaço cronológico que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos.
Mas temos. E dar-lhe-emos valor?


… é amor do Criador, o oxigénio que a todos brinda, por igual.




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Diz-me, o que é que te diferencia?

Vivemos, boa parte do tempo, julgando-nos - a nós e aos outros - sob parâmetros errados e pré-estabelecidos de ideais de sucesso e aptidões pessoais. 
Da mesma forma, são poucos os que não seguem o rebanho e param para refletir sobre qual é, afinal de contas, a sua genealidade. Essa característica inata, pautada por habilidades e talentos intrínsecos, capazes de tornar únicos os seus detentores. 
Ambicionar ser bom em tudo, sempre foi meio caminho para não se ser óptimo em nada. Aí reside a importância de nos questionarmos e apostarmos naquilo que nos pode, efetivamente, distinguir e fazer sobressair social e profissionalmente entre os demais: os nossos talentos inatos. A genealidade de cada um.

Diz-me, o que é que te diferencia?


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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Reflexões - 16


Há em nós recantos e encantos, para lá do eco do ruído das recordações ressequidas e do ranger dos passos secos sobre a folhagem morta de um jardim de inverno, que só o amor (nos) permite descobrir.

Rita 



Com um especial agradecimento à nossa Kalila, por ser capaz de arrancar de dentro mim pensamentos tão sóbrios como este. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Amores da Madrugada

Notas soltas, melodias de amor
por lírios roxos cantadas
às rosas murchas da madrugada;
desfolhadas por ventos mundanos
a quem, seduzidas por falsos encantos, se deram
levadas p'lo cetim vermelho
do breve toque na fragilidade do coração.


De pétalas frias, sombrias e hirtas no chão,
choram candidas, lágrimas de sangue
sobre a carpete encarnada, 
manchada p'la inocência roubada
na flor da juventude. 
Apaixonadas que se julgaram 
p'lo assobiar do vento bandido
que, de sentimentos despido, 
lhes tirou a Primavera.


Lírios roxos cantando,
Rosas murchas chorando
Melodias de amor, de madrugada.


 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Em Frente

Em frente, olha em frente para o caminho
dos lados, nada. Apenas uma mão
que se estende e te leva, calmamente e adiante
pelos buliçosos e cegos caminhos do coração.
Olha em frente para o destino,



para lá da curva da estrada, das intempéries idas
e do nevoeiro das manhãs outonais, que se esvai
tão depressa quanto a própria vida,
distraída, por aí…

Em frente!
Mesmo quando não vês
mais do que o ontem, talvez
possas abrir as cortinas
e pintar a aguarelas as memórias findas
e escrever degraus em verso,
aqueles de onde caíste, avesso
a tudo o quanto tinha que assim ser.
… e continuar a vencer
… e continuar a crescer
… e continuar a sorrir
… a amar e a sentir
que é em frente o caminho a seguir.


Olha de fronte para o sol,
mesmo que cego estejas
p’la escuridão onde viveste.
E respira devagar a Primavera
que te espera, para lá das minúsculas misérias
de uma Era de tragédias apressadas,
galgadas que foram as margens do valores
ancestrais e dos princípios boreais
da aurora da humanidade.


Em frente, olha em frente para o caminho.
Nunca nele estarás sozinho,
se souberes coser em abraços
os laços que jamais se irão desfazer.
Em frente, por onde a soma de dois é um
e o amor é o lugar comum
ao coração dos Homens
que em jejum, renunciaram à aceitação
do afeto.


Em frente.


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não basta chorar as cinzas de um país ardido

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São já 61 as vítimas do incêndio que deflagrou ontem em Pedrógão Grande, um número que tende a aumentar à medida que é feito o reconhecimento de toda a área ardida. O número de feridos mantinha-se em 59, às 10:00 da manhã.
Segundo a Proteção Civil, foram mobilizados 692 bombeiros, apoiados por 215 viaturas e aguarda-se a chegada de meios aéreos espanhóis e franceses para ajudar no combate às chamas, que lavram em quatro frentes.


Num país anualmente devastado por incêndios, sejam eles consequência de causas naturais ou mão criminosa, continuamos a assistir a uma extrema dificuldade, por parte dos sucessivos governos, de tomar medidas efetivas que permitam prever, atuar e minimizar o número de catástrofes incendiárias anuais.


 



O ordenamento do território é um dossier que continua a ser descurado, não só no que à desertificação do interior diz respeito, mas também no que toca à má qualidade das acessibilidades, que tantas vezes condicionam o acesso rápido ao local. Também a distância entre as árvores e as estradas é hoje, por infelicidade daqueles que no IC8 circulavam à hora errada no local errado, um exemplo simples, mas mortífero da falta de planeamento e ordenamento do território adjacente às rodovias, sem qualquer faixa/área de segurança ou corta-fogo. Os projectos - de há anos - de limpeza e vigilância florestal continuam na gaveta e a criação de um plano cívico de mobilização para ajudar nessa tarefa também não é horizonte, até porque somos nós cidadãos, membros da sociedade civil, os primeiros a desresponsabilizarmo-nos perante essa actividade considerada serviço cívico.
Porém, pedimos continuamente que sejam apuradas responsabilidades e punidos os culpados. Culpas e responsabilidades essas, que todos os anos morrem solteiras, mas que também nos pertencem, em parte.




 


(Na verdade, em que é que cada um de nós contribuí para que esta realidade se altere?)


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Não basta lamentar, tão pouco criticar, quando a responsabilidade é todos. Não basta prestar apoio e solidariedade emocional, homenagear as vítimas e os Heróis Nacionais que corpo a corpo, na sua frágil figura humana, enfrentam o inferno das chamas nas florestas portuguesas e lutam contra elas, numa tentativa de salvamento de vidas (humanas, fauna e flora) e infraestruturas.



Não adianta chorar sobre as cinzas de um país ardido e destruído anualmente, ficar em choque e cair hoje na real, para amanhã esquecer. É preciso atuar e sermos Unos, em prol de um país que é o nosso, protegendo territórios naturais que têm tanto de nossos quanto as nossas próprias casas.



Porque bem vistas as coisas, a Natureza é tanto património quanto pulmão de todos os portugueses (não somente das gentes do norte, como também do centro e do sul).


 


Hoje eles, amanhã nós ou os nossos. Porque não, não acontece apenas aos outros e é preciso atuar.


Por atentados desta natureza, será caso para usar a tag #prayforportugal


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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Um comboio, três malas, eu e vinte e oito degraus descendentes

Fechei com cuidado a última mala, lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias, por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço recentemente desguarnecido de qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Vinte e oito degraus descendentes e um comboio para apanhar.
Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém deixara aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem, pensei.



«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»
Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela mesma porta. Pousei no chão as malas, mais leves do que eu me sentia e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.

«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»
Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas nos levarem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo comboio.



«Também os comboios são uma constante da vida.»

Um comboio, três malas e eu, após vinte e oito degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.



«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»



Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, vinte e oito degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Àquele lugar...

Quero querer, ou será que queria
um dia esquecer a lembrança

que recordo quando adormeço?

A que levaste contigo para onde nunca partiste,

lugar sem nome onde presente estás

e de onde voltas,

quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.

Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,

te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.

Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência

em que a distância é lugar onde habito.

 

Fechada no baú de recordações de tecidos antigos

com que o coração se vestiu

e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.

O que foi que deixaste quando partiste?

Ou será que não foste?

Levaste o corpo livre. Deixaste em mim a alma?

Viva.

Deambulas tu pelos dias, vazio de mim.

Nascendo de novo.

Morro eu por transbordar de ti.

Quero querer, ou será que queria

um dia...

devolver-te o tempo em que te vivi demais?

Quero querer, ou será que queria?

Antes que morra e te leve comigo, quero!

terça-feira, 6 de junho de 2017

Para lá da Primavera

Rodou lentamente a chave, deu três voltas e soltou o trinco da porta que abria passagem à sala das lembranças. No chão, a carpete cobria-se de pó com a exata tonalidade daquele que, ao amanhecer, ela passava delicadamente a pincel pelo rosto. No tecto, o candelabro ainda a iluminava, suspensa pelo pescoço de um prego vestido de luto e guardada pela moldura de um quadro de memórias, cuja tinta escorria já pelas paredes.
Às voltas pela sala e a caminhar para dentro, com o peso dos anos a rasgarem-lhe os bolsos, sentia-se como se a dor furasse, sem piedade, o tecido frágil de que era feito, para mais facilmente escapar, abrindo um buraco por onde a própria existência se esvaia. 
Julgara-se de aço. Por toda a sua vida. Julgara-se de aço enquanto as lágrimas não lhe oxidaram o rosto e a fragilidade das rugas das papoilas breves não a levaram, a ela, no seu ameno vestido vermelho, para lá da Primavera.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Enamorados




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Porque hoje é dia Mundial da Criaça, convido-vos a vestir o coração de uma criança e a embarcar na doce viagem deste carrossel


 


Menina dos olhos de mel
e rosto a pincel desenhado
sorri ao passar por mim
no seu jeito envergonhado.
Tão pura de si, lá vai
descendo a rua de encantos
cabelos soltos ao vento
coração com seus recantos.
Atento à tez rosada
e aos lábios que guardam segredos
Imagino-a apaixonada
mãe dos nossos rebentos.
Menina dos olhos meus
de vestido à mão bordado
quem te assiste ao passar faz adeus,
sonhando-te eu acordado.



Menina dos olhos de mel
quero ser teu príncipe encantado
Chegar-te-ei no meu corcel,
nas voltas do carrossel
de um coração apaixonado.

terça-feira, 30 de maio de 2017

A entrega de prémios da 1ª Edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra

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Decorreu no dia 27 de Maio, em pleno Alentejo, na Herdade do Monte Novo e Figueirinha a entrega de prémios referentes à 1ª edição do Prémio Literário Do Mosto à Palavra.


Num evento improvável, resultante da parceria entre uma Editora, uma Imobiliária e uma Adega, que reuniu participantes oriundos de todo o país, celebrou-se à boa maneira alentejana a Palavra escrita, falada, cantada e bem regada.

Numa visita guiada à adega, falou-se sobre o processo para a elaboração de um bom vinho, tantas vezes o melhor aliado da inspiração literária. A mesa de tertúlia ficou a cargo do actor, humorista, escritor, cronista e dobrador Bruno Ferreira; do compositor, escritor e músico Luís Espinho e do reconhecido compositor, músico, escritor e desenhador  Paulo Abreu Lima. O Eduardo Espinho e a Sandra Martins (vencedora do programa Ídolos em 2010) brindaram os presentes com deliciosos momentos musicais, estando a música ambiente a cargo do DJ Goove (Pedro Palma Nascimento).

Os prémios foram entregues pela mão do Gonçalo Martins, CEO da Chiado Editora; da Maria Helena Palma, directora da agência imobiliária Hall Paxis e da Dra. Cristina Cameirinha, que representou a Adega em nome do proprietário Filipe Cameirinha Ramos.

No final, degustou-se o sabor do Alentejo, num casamento perfeito entre os vinhos da casa e os famosos petiscos da região.

A lista de premiados pode ser consultada aqui e o álbum de fotografias encontra-se disponível aqui.

O meu sincero obrigado a todos quantos participaram e tornaram possível a realização deste evento. Espero por vós em breve, aquando do lançamento da Antologia Do Mosto à Palavra, livro que irá reunir as quase 400 participações recebidas.




NOTA: Ao clicar sobre o nome dos intervenientes, é possível ler as entrevistas dadas no âmbito deste evento. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Ao balcão

[Ao balcão]



- Bom dia. Posso ajudá-la?
- Bom dia. Pode sim. Amor.
- Peço desculpa, amor?
- Sim. Sirva-me um amor cheio, bem forte e puro por favor.


(intrigado, o empregado observa-a e nada diz)



- Compreendo que também não saiba o que é. Lamento por isso. Traga-me então um café na mesma proporção.


Obrigada.


 


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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Atração fatal

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Há sempre um momento que nos separa. O momento em que tu morres e em que eu assisto, impávido, ao teu desaparecimento. À beira do abismo. Na fragilidade visceral a que me condenas, não pela tua ausência física, mas pela constante presença emocional com que me manipulas os dias.
O nosso amor foi sempre a minha melhor criação, alimentada pelos meus pensamentos doentes e pelos fugazes encontros a que cedemos. Uma obra cuja temporalidade e materialidade suspeitas, me fazem agora crer, na possibilidade da sua não existência, sempre que te vejo morrer para o amor. Para o nosso amor.
Sou confrontado com a necessidade que as coisas e os acontecimentos têm, de ser apagados. É por isso que te matas, não é? Diz-me. É por isso que te matas? Queres apagar-te de mim, mas as marcas invisíveis não te deixam sair-me da pele.
Contigo, vivo constantemente à beira do abismo. Há sempre um momento que nos separa. O momento em que o amor vaza, escorre e cai morto, depois da despedida do teu corpo inerte. Sempre precisaste de sangue para que o teu nome ficasse gravado no meu coração.
Diz-me. Diz-me com clareza. No amor, qual é a vantagem de ser ferido, quando é por medo que morremos?


(Um texto escrito para a página 7HINK, no facebook.)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Reflexões - 15


A escrita é uma reta que me toca na curva, sem me cortar e com a qual partilho todo o universo de um ponto em comum.
A escrita é uma tangente de mim.

                                                                                                                                                 Rita


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Nas letras dos meus sonhos

 Hoje levo-vos novamente ao baú. Recuemos aos meus 15 anos... Sonhar, sonhar, Sonhar!


Não sei porque escrevo,


porque sonho as letras,
porque canto as vírgulas,
ou porque ondulo nas frases
sem nunca chegar a um ponto.
Não sei porque vivo um texto,
nem porque desejo um conto
que nunca começa nos Às,
tão pouco termina nos Zês.
Não. Não quero parar!
Quero continuar a saltar
barreiras de capítulos;
escalar páginas sem cume,
remar ao sabor das sílabas
que ardem no meio do lume.
Quero partir das reticências,
sem nunca alcançar os dois pontos.
Trepar interrogações,
abraçar as exclamações…
e sem perder o ritmo,
escrever milhares de contos.


 


Quero casar com os nomes,
e ser íntima dos verbos,
quero namorar os pronomes
e fazer dos determinantes meus servos.
Quero ser chefe de imprensa
e quero, para sempre, sucumbir ao Poeta.
Quero uma prosa imensa,
não quero um ponto na meta!


 


Já li toda a Epopeia
e escreverei duas ou três,
sem perder a consciência
que no meu sonho de menina
era tudo "Uma Vez"!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Silêncios

Há nos meus lábios cansaços 
do parco significado das palavras
ditas a vermelho
em frente ao espelho,
já sem reflexo e vazio de mim.
Não me é o bastante, a cegueira.
É-me mais que precisa a surdez
e a total insensatez, para as tomar de vil maneira
que não me assalte a memória
o tom sangrento dos teus lençóis de cetim.
Foi neles que sucumbi
refreada pelo batom carmim
que degustavas, mas não sentias,
com que eu falava e tu não ouvias,
morrendo o sonho entalado
entre os lábios que mordias.


 


Desgastada, ganhei nos lábios cansaços 
enjoados do cheiro das palavras moribundas
que enterrei no teu jardim
prevendo o fim, de uma semente que não germinou
e se calou, rendida ao silêncio que se ajustou
e se moldou perfeitamente a cada quadrante de mim,
trazendo-me a liberdade para ser quem realmente sou.

(Só o silêncio se ajusta perfeitamente a cada coisa).

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Retrato de uma vida

Fui ao baú para vos deixar um poema escrito aos 14 anos de idade.


 


Na escuridão negra e profunda


dos dias longos que se vão arrastando,


por entre espinhos e aguçados caminhos


dos anos tristes que foram passando,


sempre existirão momentos iluminados,


pequenos diamantes no céu, luzindo


que num manto tão negro, tão escuro,


não passam de pirilampos fugindo.


 


Nas trevas da escuridão fechada,


há uma porta estreita, abrindo


caminho ao passar do cinzento


de um ano que ainda vem vindo.


Atravessam-na fantasmas,


homens de branco e distantes,


espreitam por ela soldados,


homens de verde e perturbantes.


Avançam sem permissão,


disparando, ferindo, amarrando…


Pensando que, pois então,


só assim conseguirão


a paz dentro do meu coração.


 


Enganados pelo instinto recuam


Com calma.


- DEIXEM DERRETER A DOR!


Sarar as feridas, as marcas das balas;


os vergões inchados do coração sem amor


que ainda é noite! 
E o mundo dorme. 
E dorme a alma.


E tudo dorme, até a vida,


Na agitação da noite calma


( shh, não acordes vivalma)


espera p'lo nascer verde do dia.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Reflexão - 14


O final é apenas isso, a ausência de sentidos.
Já não se vê, já não se ouve, já não se toca nem se sente o sabor, já não cheira... ao que foi. Já não é.
O esquecimento é simples. E ocupa tão pouco espaço. Cabe no intervalo entre deixar de sentir para não voltar a lembrar.
Se temo que me esqueçam? Não. Temo que não me saibam sentir.

Rita


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Beja Merece!

 


 


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Fomos centenas, os cidadãos que silenciosa, ordeira e respeitosamente, acolhemos o Sr. Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, na sua visita oficial à trigésima quarta Ovibeja.
Unidos por uma causa comum, em prol do desenvolvimento da cidade e respectiva região.

+Acessibilidades
+Desenvolvimento
+Aeroporto
+Comboio
+Saúde


Obrigada a todos os que se mobilizaram, porque #BEJAMERECE+


De seguida, deixo-vos as causas e os fundamentos que, ao longo dos anos, têm desencadeado as nossas mais diversas reivindicações. 



  • Comboios e eletrificação da linha férrea:

    O comboio chegou a Beja no ano de 1864, desde aí e até ao ano de 2004, a ligação a Lisboa era feita de forma indireta. A linha terminava no Barreiro, onde era feito o transbordo de barco até à capital.
    A partir desse ano e após a entrada em funcionamento da linha ferroviária na Ponte 25 de Abril, tiveram início as ligações diretas ente Beja e Lisboa, confortavelmente a bordo dos comboios intercidades. Uma viagem rápida e agradável, sem o constrangimento e a demora do transbordo. Esta nova ligação não só beneficiava os habitantes da capital do Baixo Alentejo, como também dos concelhos vizinhos, caso de Cuba, Alvito e Viana do Alentejo.

    Estudava em Lisboa nessa altura e recordo a lotação do comboio tantas vezes esgotada. Meio de transporte de eleição para jovens estudantes, empresários, famílias, doentes a carecer de cuidados de saúde apenas existentes na capital ou para um simples passeio.

    Julgámos que o progresso havia finalmente chegado, não fosse esta mesma ligação ter sido suspensa no decorrer de maio de 2010, para não mais ser reativada.
    Desde essa data até ao presente, sete são os anos em que a deslocação se faz a bordo do desconforto (e constantes avarias) de uma automotora com mais de 50 anos, até Casa Branca, onde é feito o transbordo para o intercidades da linha de Évora.
    Mas o desinteresse e desvalorização da linha férrea do sul não se restringe às ligações à capital, também o ramal de Moura, que servia tanto os habitantes deste concelho, como os do concelho de Serpa, foi desactivado no final do ano de 1989. Seguiu-se, em 2011, a ligação entre Beja e a Funcheira, que pôs fim à ligação férrea ao Algarve. Ligação esta que servia diversas localidades do sul do distrito.
    É necessário avançar com a eletrificação da linha e retomar as ligações diretas a Lisboa, porque #BEJAMERECE+



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  • A26 e outras acessibilidades rodoviárias:

    A A26 é outra das causas pelas quais o movimento #BejaMerece+ se debate. Uma autoestrada que deveria ligar Beja e Sines e que viu as obras paradas durante vários anos, depois das expropriações, das terraplanagens, dos viadutos e dos quilómetros já concluídos, tendo sido retomadas, de há alguns meses a esta parte, com 12 (doze) quilómetros de um troço não em autoestrada, mas em via rápida de quatro faixas sem portagens.
    Segundo António Ramalho, antigo presidente das Infraestruturas de Portugal, em 2015 justificava-se a suspensão das obras, uma vez que o tráfego seria inferior a “dez mil carros por dia”.
    É oportuno colocar a questão: “que tráfego justificou a construção de autoestradas como a A10, a A17 ou até mesmo a A13? E, comparativamente com 1 (um) quilómetro do Túnel do Marão, quanto custarão estes 40 (quarenta) quilómetros, em terreno claramente favorável a uma obra deste tipo?” - palavras de José Filipe Murteira, cidadão bejense e uma da vozes que integra o movimento #BEJAMERECE+ .

    A degradação do IP8 que liga Beja, Ferreira do Alentejo e a A2 é notória a quem por lá circula. O número acidentes de viação aumenta, assim como tem vindo a aumentar o número de mortes neste troço.
    Porque é necessário e temos direito a uma infraestrutura rodoviária segura e eficiente, é crucial concluir os 40 (quarenta) quilómetros da A26, que farão a ligação entre Beja e a A2.



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    IC27
    Ainda segundo José Filipe Murteira, “em 2005 foi concluído o plano de impacto ambiental da ligação do IC 27 entre Alcoutim e o IP2, próximo da Trindade, documento que custou mais de 400 mil euros. São cerca de 60 (sessenta) quilómetros que faltam concluir, ligando assim os concelhos de Beja e Mértola a Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António e melhorando também as ligações entre Évora e todo o interior a essa zona do Algarve.
    De acordo com o plano, o objectivo principal para a conclusão dessa via é o «aumento das condições de segurança e a diminuição do grau de sinistralidade», tendo em conta as caraterísticas da actual ligação, a EN 122.
    Os anos passaram e a obra não avançou, até que, em junho de 2012, uma fonte do governo de então, anunciou a sua suspensão definitiva, dado que o troço que falta ao IC27 se encontra «assegurado pela EN 122 e que, face à reduzida procura, essa estrada responde às necessidades existentes».
    Os vários acidentes, os mortos e feridos provam que afinal, isto não é verdade e que é necessário concluir o IC 27.”


 


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  • A população jovem no Concelho e Distrito de Beja

    No seguimento de um apelo ao jovens, feito através do meu perfil de facebook, tomei a liberdade de recorrer às estatisticas dos Census 2011 e divulgar os dados que considero de extrema importância:

    Em 1900 (há 117 anos) eram 4982 (quatro mil novecentos e oitenta e dois) os jovens com idade superior a 15 anos a residir no Concelho de Beja, sendo 30945 (trinta mil novecentos e quarenta e cinco) em todo o distrito.

    Em 1950 o número tinha duplicado e eram já 8454 (oito mil quatrocentos e cinquenta e quatro) no concelho e 53810 (cinquenta e três mil oitocentos e dez) no distrito. 

    Segundo este estudo, em 2011 o número de jovens a residir no Concelho de Beja caiu drasticamente para 3571 (três mil quinhentos e setenta e um) e para 15086 (quinze mil e oitenta e seis) no distrito.

    Decorrido um século, a população jovem no concelho regista mínimos nunca antes vistos o que, para mim, é deveras preocupante. Muito se deve à emigração, à procura de melhores condições de vida, à falta de emprego, à reduzida oferta educativa, à pouca estabilidade para que aqui nos fixemos e possamos construir uma vida mais digna, que nos permita realizações pessoais e profissionais e futuros mais promissores.


 



  • Aeroporto

    Sobre este tema já muito se falou. Não me vou alongar, deixo-vos um pouco da minha visão, aqui.


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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Rosas de sonhos do vento

Vestiu a capa negra da noite
que julgou, outrora ver esquecida
no jazigo das recordações inférteis
das intempéries d'outra idade vivida. 
Olhou-se ao espelho, 
reflexo baço, vazio e semblante sombrio
de quem afastou de si o sol.
Reconheceu-se a ela, mas não a mim;
(menina que roubava flores no jardim)
vestia farrapos de sonhos
e tinha o passar dos anos emaranhado nos cabelos. 
Sem nexo. 
Apenas enleio
numa história que releio 
e cujas páginas se desfolham, 
como rosas
a quem não deram prosas
nem versos d'amor, com o mesmo calor
da verde esperança
com que a mão do meu coração as roubou
esta manhã no jardim.

Dispostas agora diante de mim,
cinco rosáceas de sonhos
nítidos (no mesmo baço espelho vazio),
refletem assim, ainda tenras,
as pétalas rosadas da face miúda
de quem seduziu
a espera, fantasiando possibilidades
e probabilidades
e que por isso viu,
na mesa das agulhas de marear do navio,
o ponteiro girar aos sete ventos,
entre os cardeais pontos perdidos
… e parar a nordeste.

(Era uma vez uma menina que roubava rosas de sonhos ao vento).

terça-feira, 25 de abril de 2017

Amor à Liberdade

 


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-Aqui, somos todos loucos!


Dizem eles armados; versos na mão
punhais cravados,
amores baleados
por sentimentos minados
de pura ilusão.
Ardem-lhes as dores e as sombras do passado
secaram os jardins, anteriormente atravessados
por beijos molhados e olhares cúmplices
de um crime que só um louco viria a cometer – AMAR!
Só o rasto de pólvora da paixão e a putrefação das memórias ficou.
Cheiram a amoníaco as rosas da face, agora murchas,
e sangram os espinhos
outrora macios, se mordidos nos lábios
por desejos sábios, doravante enjeitados
pela morbidez lânguida da pele.
- Aqui somos todos loucos!
Gritam eles de armas na mão.
Assassinatos, extermínios, massacres, campos de concentração
de versos conjugados, em mares antes navegados
por sentimentos aguçados (agora renegados) e exulceração.

A última vítima do amor pela liberdade foi encontrada hoje, irreconhecível...
...Tinha um poema cravado no coração.


 

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro

 


 O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.


- Padre António Vieira -


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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Espero por ti ao pé da ponte

Esperei por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos,
te visse vinte e oito passos apressada.
Chegavas-te a mim com três laranjas no regaço
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar 
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá (quem)barcar.
Aqui, deste lado da ponte, não há quem sou.
Mas acolá, onde os pássaros cantam, 
onde as flores encantam 
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim, 
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
- enquanto te esperava do lado de cá -
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter. 
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer. 
Vem sentar-te nas minhas costas 
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...
(não é desleixo) e lá em baixo,
no lazarento jardim dos meus sonhos,
será fértil tudo o quanto dele beber.
Vem, que por ti ainda espero ao pé da ponte.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...