Um passo, depois outro e outro ainda, continuamente. Começar e prosseguir: é isto que traça um caminho.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Reflexão - 23
sábado, 27 de julho de 2019
Devagarinho
Aproxima-te, de mansinho,
suave e devagarinho,
descontraidamente, como quem mente
ao silêncio que me consome
a alma nua.
Desfolhada que a vida me fez...
rosada tez, pétalas de saudade
que um dia vã se fez,
na incerteza da hora.
Aproxima-te, de mansinho.
Traz o dia, o sol e as manhãs risonhas.
O chilrear das aves lá fora
e o som do mundo.
A junção de todas as notas da vida
a bater na vidraça.
Aproxima-te, devagarinho
para que eu não te veja chegar
e ocupar o lugar vago, inabitado...
onde o meu peito faz leito,
e por esperança, a seu jeito,
não renúncia sonhar.
Suave e de mansinho.
Devagar, devagarinho...
Para que o soalho de sonhos não ranja
e constranja - sem querer -
as notas vivas do choro de uma criança
que compõem o amor, ao nascer.
segunda-feira, 8 de julho de 2019
Sou
Sou um corpo de emoções
Desenhado por tudo o que sinto,
Limitado pelas tentações
A que não cedo, mas que pressinto.
Sou menina na minha aparência
Sou um sonho por alcançar
Sou mulher no meu viver
Sou o mistério por desvendar.
Sou frágil na minha figura
E leve se o medo perder
De assim me entregar,
Às asas do que posso viver.
Na nudez do meu silêncio,
Sou tudo o que em mim desenhei
Tudo aquilo que sinto,
Muito do que nunca direi.
Vestida nas minhas palavras
Surjo aos olhos de quem me lê,
Na transparência de uma imagem
Sou aquilo que se vê.
sexta-feira, 5 de julho de 2019
Levou-a o vento
Ao nascer dos primeiros raios de sol, na demora dos primeiros minutos após o toque sonolento do despertador, levantava suavemente a cabeça, levava o braço direito adiante e pressionava, de mão firme, o colchão. Rodava o rosto e comptemplava-a, timidamente, enquanto dormia.
Lentamente, fletia as pernas que arrastava até à extremidade da cama e voltava a demorar-se nela. Os olhos enamorados na pele clara de um rosto delicado, uma rosa nos lábios e o perfume que descaia, pétala a pétala, prolongadamente entre o pescoço e o peito indefeso.
Cruzaram-se a primeira vez entre as estantes de livros de uma biblioteca. Ela equilibrada num só pé, florindo num vestido azul, tentando alcançar um romance meticulosamente arrumado na última prateleira da secção de Clássicos. Ele de poesia nas mãos e tropelias no coração.
("E o Vento Levou", de Margaret Mitchell)
Ficou a vê-la sentar-se, pousando a mão no colo e fechando lenta e graciosamente o ângulo entre as pernas cruzadas. Os sapatos descairam para a esquerda e a mão subiu, abrindo o livro. O indicador flutuou linha a linha, sem que Clara levantasse o olhar.
- Não é mulher, é poesia! - deixou escapar - poema não escrito, versos interditos, estrofes que não serão para todas as mãos...
- Trovador? – interpelou-o Clara, sem o fitar.
- Escritor de sonetos. - Respondeu Raul.
- Sonetos são viagens ao coração. Só com ele sei ver.
(Um livro em braille).
Vinte anos se passaram e ao nascer de cada dia, Raul levanta suavemente a cabeça, leva o braço direito adiante e pressiona, de mão firme, o colchão. Roda o rosto e comptempla-a, timidamente, enquanto ela ainda dorme, clara e a seu lado, naquela fotografia:
-Foste tu quem me ensinou a ver com o coração.
A normalização como absolvição colectiva
Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...