Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização.
Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comentado, criticado
e debatido, mas deixa-se de agir sobre ele. É nesse momento que a normalização
deixa de ser um fenómeno psicológico para se tornar um fenómeno social,
político e moral.
Um dos exemplos mais evidentes do nosso tempo é a degradação
do discurso público.
A mentira deliberada, a agressividade permanente, a simplificação de problemas
complexos, a substituição do argumento pelo insulto ou a transformação do
adversário em inimigo. Nenhum destes fenómenos é novo. A novidade reside na sua
amplificação e na rapidez com que nos habituámos à sua presença.
Comportamentos que, há algumas décadas, teriam provocado
indignação prolongada, hoje cingem-se a curtos ciclos noticiosos. O escândalo é
substituído pelo escândalo seguinte, a transgressão pela transgressão seguinte,
o caso mediático de hoje pelo caso mediático do dia seguinte. Isto acontece não
porque a gravidade se extinga, mas porque a familiaridade atenua a reação
coletiva que anteriormente produziria consequências. E quando a indignação
desaparece, há um factor que desaparece com ela, a exigência.
Esta supressão da exigência está igualmente patente naquilo que a sociedade espera
dos seus representantes, dos meios de comunicação, das instituições e até daquilo
que os cidadãos esperam uns dos outros. Quando essas expectativas se degradam,
a democracia degrada-se com elas. Basta pensar que a democracia não assenta
apenas em eleições livres, instituições sólidas ou separação de poderes.
Assenta também nas expectativas colectivas que os cidadãos constroem acerca do
funcionamento dessas instituições.
Percebemos, pois, que o verdadeiro perigo da degradação do
discurso público não reside apenas na qualidade do debate. Reside no impacto
que essa degradação produz sobre as próprias democracias. Quando essas
fronteiras se tornam difusas, não desaparece apenas a qualidade do debate, diminui
a confiança, enfraquece o escrutínio, reduz-se a participação cívica e o espaço
público torna-se progressivamente mais vulnerável à manipulação emocional do
que à argumentação racional.
Esta preocupação não é meramente teórica. A própria OCDE tem
vindo a alertar para os riscos que a desinformação, a polarização e a
degradação da integridade do espaço informativo representam para as democracias
contemporâneas. No relatório Facts not Fakes, a organização identifica a
erosão da confiança nas instituições, a dificuldade crescente em construir
consensos sobre problemas colectivos e o enfraquecimento da capacidade das
sociedades responderem a desafios complexos, como algumas das consequências
associadas à degradação do ambiente informativo.
A questão é particularmente relevante na medida em que o
sistema democrático carece de uma realidade minimamente partilhada que permita
aos cidadãos discordar sobre soluções sem deixarem de concordar sobre os factos
fundamentais.
Nesta perspectiva, a capacidade de estranhar constitui uma forma de vigilância
democrática. Afinal, os padrões que uma sociedade normaliza acabam,
inevitavelmente, por se institucionalizar. Quando deixamos de esperar elevação
no debate, deixamos também de a procurar, adaptando-nos progressivamente à sua
erosão.
Em suma, uma sociedade que se limita a adaptar-se perde
gradualmente a capacidade de se transformar. É aqui que a normalização produz o
seu efeito mais profundo: alterar os horizontes do possível. Por outras
palavras, leva a sociedade a confundir aquilo que é frequente com aquilo que é
legítimo.
"Ver aquilo que está diante do nosso nariz exige uma luta
constante."
- George Orwell -