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sábado, 21 de março de 2026

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo, indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada! - respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas,
que te espreitam,
à janela do casaco que vesti.

- Não me queiras sem Inverno. - prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me, aí fora!
No meu tempo,
chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.
Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Por todas as ruas

Nunca dediquei poemas a ninguém,
ao invés disso escrevi-os, 
de tal ordem que pedi que lhe cantassem a desordem
expressa naquela cadeira, onde me sento,
carpideira, desde o principio do mundo.

Às vezes, confesso, não tenho assunto
e ali fico, visita de Poeta moribundo
ignóbil, vil, asqueroso e sujo
como o Amor que nunca cantei.
Imaginei, porém, pura, digna, sobranceira e nobre,
sob o véu casto da Poesia que me cobre,
que percorria contigo todas as ruas do coração.

Pois não.
Nunca dediquei poemas a ninguém,
salvo a quem quero, de mão dada
e de soslaio, olhar embaraçada,
sob a vontade endiabrada
de lhe colher o sol do peito.
E se, por defeito, nenhum outro poema te for feito,
capaz de mim,
espero por ti aqui,
neste verso onde me deito
inábil, inútil, incapaz e sem jeito de te dizer:

Quero andar contigo de mão dada por todas as ruas.

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Trivial

Estamos todos abastecidos de solidão.
A trivialidade da morte
num jogo de sorte,
num golo de vida.
Subindo o presponto,
do indivíduo,
à bainha por fazer:
memórias.
O regresso à tardinha,
aos cheiros que a vida tinha
aos reencontros por fazer.
A rua a descer
direita ao bar
habitualmente vazio,
dois tostões na mão:
preço do coração que se traz.
No copo,
saudades de quem ainda não se conhece
e do lugar onde amanhece
sem nunca termos lá estado.
Distopicamente:
calado, o silêncio preenche
a casa inacabada que se traja.
Construção empírica e pilares de ferro
racionalmente fundido:
descrente ao nascer,
dogma defendido ao envelhecer.
Transcendente
autista
demente
alienado
estranho
fechado:
o Poeta permanece
sem nunca se concluir.
Paredes por subir,
telhado não tem,
às estrelas
é o chão que as sustém,
porque o céu nunca chega...
E quando chega é sempre cedo demais.

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Alma

Traz a alma na ponta dos dedos
e ao peito o mundo.
A nota que rasga a palavra,
entre os vagarosos silêncios
de uma guitarra
que, ao longe, toca baixinho.
Fluem cores no horizonte
e um cego vê para lá de um muro.
O ruído cessa
o mundo abranda
e a música abraça a esperança
que enlaça
o voo tingido de uma borboleta
a quebrar o casulo.
A vida
a viagem
a passagem
e o poente, de um sol dedilhado
que descai, persistente
sobre o regaço do mundo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

O Artesão de Poemas

O meu avô Alberto era artesão e poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Retirava da vida a inspiração e da Natureza, a matéria necessária a cada criação.

Era eu ainda criança quando o vi, pela primeira vez, abraçar um tronco de madeira trazido pelo senhor Carvalho, lenhador da nossa aldeia.

- Alberto, este é íntegro o suficiente para ti. Não merece a morte pelas cinzas. Dá-lhe vida, ancião.

E o meu avô segurou cuidadosamente nos braços aquilo que, para mim, não era mais do que um pedaço de madeira grande e pesado. Os seus olhos fixaram-no, ternurentos, como quando olhavam para mim. Tive a sensação de que embalava uma criança. C’os diabos, que imaginação a minha, aquilo era só um tronco morto e sem vida.

- Entenderás a seu tempo a poesia da vida, meu rapaz.

Pousou o tronco e afagou-lhe o dorso, suavemente, como quem desperta os sonhos das mãos.

-Não te sinto o coração, velho madeiro, mas dar-te-ei o meu.

E foi assim que vi nascer o que, na altura, não entendia, a Poesia, esculpida pelas mãos do meu avô.

-Clarice. Clarice, a tua avó meu rapaz.

O meu avô Alberto era artesão e poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Esculpiu os mais bonitos poemas, entre os quais a minha avó, que nunca cheguei a conhecer.

O meu avô Alberto não sabia ler, mas sentia. E sentir foi o que fez dele o maior Poeta da nossa aldeia e o maior mestre artesão da história daquele lugarejo.

- A poesia não são palavras que rimam, meu rapaz. São palavras que se sentem. Eu e a tua avó fomos poesia e os nossos nomes não rimavam.

 

 

domingo, 10 de agosto de 2025

Mar nos olhos

 

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, o sol poente.
Escrever poemas na pele
e salgar as ondas
que te nascem no cabelo.
Olhar-te fim de dia
sobre o azul que trago
e estender o céu...
Fazer-te casa no peito,
de areia fina, o leito
(ainda horizonte)
onde te abraço.

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, um barco à vela.
Abrir sobre nós a janela
e viajar para além da vida.
Deitar-te em mim, sobre os sonhos
e adormecer,
sem ter que saber velejar.
Entrar-te a correr pelas mãos
e ficar
onde o acaso acontecer.

Ter nos olhos o infinito
e a ti também!

 

 

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Prosseguir

Corro.
Corro infindavelmente,
como quem persegue o infinito.
Corro. Cada vez mais e mais depressa.
Corro como ponte que o tempo atravessa
e cessa na margem que sou.
Corro. Mesmo que abrande e me faça grande
na procura do detalhe e da virtude,
Ou no sossego que me embala, me acalma
e me leva adiante.
Corro. Corro como quem procura
e não segura os pés no horizonte.
Corro. E cansada, descanso
perdendo o balanço com que avanço,
ainda antes de partir.
Corro. Corro. Corro.
E dou por mim a correr sem sair do lugar.
Devo estar a chegar!
Penso. Correndo de fora para dentro,
na esperança do momento
de um dia, a correr, me poder encontrar.


Corro. Procuro. Avanço. Descanso.
Caio e páro. Atinjo e finjo que cheguei.
Volto a correr e a procurar
sem nunca encontrar, sem nunca chegar
ao fim.
Corro.

terça-feira, 25 de junho de 2024

No Fim


Há, por certo, o tempo certo
e a certeza em cada fim.
Há no tempo menos certo
o coração dizer que sim.
Há estradas e desvios,
barcos, velas e navios,
mar e sonhos por navegar...
à proa de recomeços,
de vitórias e tropeços,
onde a arte é caminhar.
Há lonjuras e rotas certas,
há lugares por desvendar,
há luares que não se viram,
céus ainda por chegar.
E se lua sai à noite
no seu vestido comprido
são de estrelas os teus olhos
brilho raro, destemido.
Segues certo do teu tempo
e do sol por abraçar,
do presente que te cruza
do futuro por traçar.
Abres o teu peito ao mundo
e o sorriso a quem te dás
sendo a esperança, lá no fundo,
um amor que a vida traz.

Há por certo o tempo certo
e o bater certo, enfim!
Se não é certo o que bate,
certo é: não é o fim.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Quisessem os teus olhos

Quisessem os teus olhos nos meus
trazer o tempo que, por nós, nunca passava,
a ternura do olhar, que demorava,
alado, em sonhos, sobre mim.
Quisessem os teus olhos naufragar
sem pressa, nessa pressa em que te vais!
Ser porto, ancorar os teus sinais,
ser espera e a esperar dizer que sim.

Quisessem os meus olhos nos teus
plantar de amor eternas datas,
p'la luz da sombra em serenatas
de olhares futuros onde não viste
chegar, depois de um sonho triste,
a vida toda, entrelaçada!

Ai quem me dera assim,
Se assim fosse, quem te dera!

sexta-feira, 29 de março de 2024

Um alfaiate não cose vidas

 

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Ilustração de Flávio Horta 

Dormíamos, a maior parte das vezes, no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos qualquer coisa semelhante com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de um animal, durante o destacamento.

Embarquei, em Portugal, em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete de trinta mil toneladas, capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era a pele, parte fundamental do equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número, o nome do soldado e o tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra, para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a outra, a quem chamávamos "Fiel Companheira de Mato", a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, arma de grande porte por quem os guerrilheiros ganharam grande respeito.

Durante as patrulhas, as principais funções eram o reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio, transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão, podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos, por escassos minutos, para comer qualquer coisa ou aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha, muitas vezes, a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?

[Voltemos ao cais]
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

A última a morrer

Chego-te, através do horizonte
leve, ténue e casta brisa
névoa profetisa
que te toca sem tocar.
Em tudo me sentes
em nada me vês,
mas crês que existo!
E que de longe venho
contendo arte e engenho
(não olhas para trás).

Três passos mais perto
do fim do deserto
e miragem ainda sou!
Reflectindo a imagem
de sonho e coragem
que contigo acordou.
Não páras!
Sempre adiante,
filho de um acreditar constante.
Não há tempestade que te apague.

Ao longe, o horizonte
em ti, uma fonte
onde bebes de mim
crês-me sem fim
e chamas-me Esperança!

 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Asas

No ritual de quem parte,
rasgando, ao céu, o véu
com arte
de quem seduz a luz
e dança nas asas
dos recomeços.

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segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

É Preciso

Entre o que vem e o que vai, a vida acontece. Sem romantizar nem dramatizar, é-nos necessário enfrentar a imprevisibilidade do caminho.

Nem sempre a direcção é certeira ou linear ao nosso propósito, mas sair do lugar, criar movimento, ter atitude e determinação é fundamental quando se pretende mudança.

É essencial arriscar, vencer a dúvida, enfrentar o medo e explorar o desconhecido. É necessária coragem de viver, ousadia para tentar, determinação para acreditar e vontade para fazer. É necessário sair da zona de conforto e abraçar o desconforto da possibilidade da evolução, embora dolorosa. É preciso cair para aprender a erguer e voltar ao caminho. É preciso focar, não fugir do processo, não adiar, nem assumir o conformismo, a vitimização ou a derrota - ainda antes de começar. 

É imprescindível ser honesto consigo, traçar metas atingíveis, ultrapassar obstáculos, ser mais forte do que a desculpa, quantas vezes âncora das situações. 

É fundamental sonhar, criar compromissos, trabalhar o equilíbrio, encontrar a paz e olhar além. Aprender com as quedas, encarar os tropeços e utilizar a aprendizagem como veículo motor da transformação pessoal.

É crucial saber o que se quer, sendo tão ou mais importante ter perfeita consciência daquilo que não se quer - e atuar em conformidade.

É importante parar, tirar um tempo, fazer balanços e acertar a rota. Adiar as não urgências e focar no que é efetivamente importante.

Se, por vezes, existem períodos em que somos obrigados a adiar um dos lados da nossa existência (pessoal, emocional/sentimental ou profissional), por motivos diversos, outros há em que o tempo escasseia e a entrega e dedicação imperam.

Porque os timings são um axioma e a vida é quase nada, feita de fragmentos de quases, de pequenos muitos e de muitos nada; sendo nossa a responsabilidade do valor que atribuímos a cada um.

Tão importante quanto saber determinar a hora sair de cena é saber puxar da coragem na hora de abraçar o novo. 

 

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sábado, 2 de dezembro de 2023

Segreda-me um poema ao ouvido

Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. A vida e as estações
que por nós passam e os sonhos
que trazes em bolsos de amor.
Segreda-me a pressa dos relógios
e os dias agitados que nos engolem,
a solidão da cidade e a dor de não ver ninguém.
Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. A calma e a quietude
da loucura de ficar só mais um momento,
parada, em silêncio, a olhar para ti.

Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. Segreda-me a vida!

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Lugares sem Nome

Há um lugar sem nome
onde moramos reféns
de memória e lugares antigos,
que dilui, em si e no tempo,
as cores e sabores
de uma identidade vivida
em fotografias antigas,
agora esquecidas
entre o pó de objectos sem cheiro e amor.

Por temor de recuar no tempo
e bater à nossa própria porta,
sem ninguém para a abrir,
somos lugares comuns
a viver entre flashes,
presos por um fio
de redes sociais e memórias instantâneas
que depress se esvai,
p'lo buraco negro da solidão
que consome o sofá noturno.

Vagos que nos tornamos,
perdemos momentos,
ocultamos sentimentos,
desatentos à grandiosidade
do pequeno, à riqueza do detalhe
e à pureza do enamoramento da vida,
que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,
rodamos a chave,
abrimos a porta,
mas não estamos lá.
Em nós são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

 

 

 

 

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Sós

Todo o verso é profecia
e memória
história e espanto
encanto, retórica
eloquência ou demência
dos dedos fartos da pele
e das mãos
que se trazem e partem,
nessa viagem de espaço sem tempo;
momento de passagem por ti.


Todo o verso é um
e nós
uma vezes poema, outras, por vezes,
sós.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Desapressadamente

Na urgência dos dias, desenvolvemos métodos de afastamento do mundo, a que recorremos quando o equilíbrio tende a desiquilibrar e a paz se anula às mãos rotineiras da mecânica da vida. Apesar da velocidade com que o exterior avança e se adianta, é minha a certeza de que é na ausência da pressa que o real acontece, se vive, se faz , se sente e se cria. Na sua presença tudo é fugaz, sem raiz ou alicerce, revogando-se no instante preciso em que deixamos de prestar atenção.


Não será sensato nem ajustado acompanhar a velocidade envolvente. Devemo-nos sim, saber segurar e acompanhar o movimento natural definido pelo nosso próprio (com)passo, respeitando as paragens necessárias, sem perder a noção daquilo que nos rodeia.


A vida é um combóio atrasado que anuncia chegar ainda antes de partir.


Até a Lua e a Terra assumem velocidades distintas no seu movimento, sem que se desconectem ou atrasem. E é assim, a diferentes velocidades, que se seguram.


 


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sábado, 5 de agosto de 2023

Cerca-te de pessoas que te inspiram

Pessoas. Terás sempre pessoas ao teu redor. As certas e as erradas.


Serás levado a aprender a escolher entre quem te vai influenciar positivamente e entre aqueles que pouco ou nada te acrescentarão. Serás, também, impelido a compreender quem são as pessoas que te elevam e quem são as te enfraquecem.


Chegará o dia em que sentirás necessidade de te rodear de pessoas mais inteligentes, sentir a atracção da energia positiva, motivadora e gratificante, capaz de acrescentar valor e transformar a forma como encaras a vida.


Pessoas que te elevam, te desafiam e estimulam, pessoas que te aguçam o pensamento e a sede de conhecimento, gente que te cativa, motiva e se constata  lufada de ar fresco. Pessoas com a capacidade de te fazer olhar para o mundo de forma diferente, idóneas e de bom caráter. Pessoas cuja presença é um contributo para que te possas tornar, a cada novo dia, alguém melhor.


Pessoas que sabem utilizar tão bem o cérebro, quanto o coração. E estão contigo, e por ti, sem qualquer obrigação!


Estas são as tuas pessoas. Fundamentais para o teu crescimento e desenvolvimento pessoal. Para que a tua inquietude seja uma característica construtiva e jamais te impeça de respirar fundo e enfrentar os desafios naturais da vida.


São, também, quem te fará aprender que aquilo que recebes não será mais do que o eco daquilo que emites. E que os locais que frequentas e o teu ciclo de influências interferem directamente com o teu astral.


Quem queres ser? Quais são os teus sonhos e metas?
Quem são aqueles que contribuem - sempre! - para lá chegares e quem são os outros, aqueles que te desviam do caminho, ou se ausentam nos momentos mais críticos?


Cabe-te a ti escolher as pessoas com quem te relacionas e saber atribuir-lhe o grau certo de importância e influência na tua vida.


Cabe-te a ti saber escutar o coração, mas é também teu dever saber ouvir as vozes certas. As que te dizem o que precisas de ouvir e não aquilo que gostavas que te dissessem.


Porque há quem por ti passe, tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.


Post para Instagram frase motivacional citação _


 


 


 


 

domingo, 9 de julho de 2023

A memória das mãos nunca esquece a paixão

Cansadas, as mãos ainda acenavam acolhedoramente às gentes que passavam. Secas, como as folhas que o Outono escurecia e que, levemente esvoaçantes, lhe acompanhavam os acenos, ao quilometro trinta e sete daquela estrada.


- Sento-me aqui a assistir aos que passam velozmente por mim. Nunca lhes entendi a pressa, não sei pelo que correm – se é que eles o saberão - tão pouco que destino os espera. Toda a vida vivi intensamente cada vida que por mim passou. Demorava-me nelas o tempo suficiente para que as minhas mãos lhes guardassem a memória. E sou feliz, pela virtude de ainda hoje, já calejado da vida, me ser possível desenhar-lhes o rosto e as curvas do corpo, a carne dos lábios, de olhos fechados.


Eurico rodou o banco de lona verde escura ligeiramente para a esquerda, dobrou os antebraços e pouso-os no colo, as palmas das mãos na direção do céu e o olhar, demorado, em mim. Pediu-me que seguisse cada uma das linhas inscritas na sua pele, com a ponta do meu indicador, e lhe medisse a profundidade.


- É preciso que aprendas que nas linhas superficiais depressa te perdes. Depressa se esvaem, por nada existir. Incapazes de te despertar os sentidos, nada te farão sentir... somente um vazio que não poderão preencher. Não têm traçado, não fazem história. Assim o é também com as pessoas. Perder-te-ás várias vezes, assim como eu me perdi. Mas encontrarás quem te arrebate os sentidos, te remexa as entranhas, te exalte o desejo, a vontade e a loucura… ao mesmo tempo que a ternura e o amor despertam. A memória das mãos nunca esquece a paixão, rapaz. Certificar-te-ás de tal sempre que, na demora da ausência, recordares uma mulher e, de olhos fechados, lhe percorreres com total precisão os contornos, sentindo-os teus. Agora não, ainda és novo e a tua preocupação é outra, que não cultivar, cuidar, amar e preservar. Sei-o bem. Dar-me-ás razão, um dia.


Levantou o braço para acenar a dois veículos que passavam.


- Sempre fui um bom vivant, pelas minhas mãos já muitas vidas passaram. Umas ficaram, outras partiram ao nascer do sol. Mas estas, que diante de nós passam velozes, não sei para onde vão! Aceno-lhes, por ser o único gesto que levam de mim.
Aqui sentado, o tempo passa mais devagar. Como por mim e pela Luísa, desde que a conheci.
Os relógios sempre se apressaram na sua presença, mas nós não. Nunca tivemos pressa. Ali ficávamos num lugar sem nome e sem tempo, que só a nós pertencia. Foi ela a razão pela qual deixei de amar todos os outros corpos. Depois dela não houve outra. Nem nenhuma das anteriores. Passaram trinta e sete anos e ainda ali está, em casa, a tratar do nosso jardim.
Agora estou velho, as rugas e a pele áspera já não permitem que o presente se entranhe. Por isso aceno a quem passa. É o único gesto que levam de mim.


Pesada e morosamente, apoiou a mão esquerda no banco, estendeu-me a outra e pôs-se de pé. Olhou para o sol que se punha no horizonte e finalizou, pensando em voz alta:


- Como é bonito vê-lo descer, calma e lentamente, ardente de paixão rumo ao leito onde se deita, para amar sabe-se lá a quem!


 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

A Possibilidade dos Recomeços

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Na vida existem - e sempre existirão - períodos de mudança e transformação. À semelhança da transição entre estações do ano, também as etapas do nosso caminho são varridas por tempestades de inverno, ou abençoadas pelo florescer da beleza tranquila da primavera. O vento leva o que já não não acresce ou não nos serve a partir daí, e a chuva lava e purifica o que fica, preparando-nos para o período fértil dos recomeços. Das sementes que à terra deitarmos, nascerão as flores que nos acompanharão no caminho. E os sonhos, alimentados pelos nossos pés, beberão da leveza e da certeza que é por ali a estrada.


Cada um de nós é uno, mas os ciclos da existência individual não são tão díspares quanto possamos imaginar. Só a postura perante os factos e a inteligência emocional diferem, determinando tempos e modos de atuação, naturalmente diferentes.


Adiar mudanças, por um ou outro motivo, é comum. Mas existem aquelas que são necessárias, que sabemos serem a base para a nossa estabilidade, felicidade, bem estar. Estas, quando adiadas, vão abrindo espaço ao vazio, à tristeza, à ausência de realização pessoal, conduzem a perdas diversas no caminho e vão-nos consumindo até deixarmos de ser quem somos... no limite.


Não é fraqueza. É a vida a obrigar-nos a mudar.


Frequentemente, ao longo de um período demasiado extenso, afirmamos que o lugar onde nos encontramos não é o nosso lugar. Ajustamos as velas, mas não alteramos a rota. Até ao dia em que o casco onde navegavamos - e que nos faz - não suporta a última tempestade e afunda. Naufragada a vida, ficamos nós e o pouco que resta, à deriva, até que o mar nos devolva à terra.


Exaustos, paramos, pensamos e alguns agem.
É tempo de se ser criador de si mesmo. É tempo de efetivar mudanças. É tempo de retomar rotas anteriores e certas ou de iniciar novas estradas. É tempo de aceitar os lugares onde somos felizes, mesmo que a quilómetros de distância daquilo que pensámos ser. É tempo de procurar a leveza e o sorriso, abrir janelas ao sol e voltar a ser quem se é. Tudo o mais, o tempo e a verdade farão, garantidamente. Porque ela, a verdade, não poderá ocultar-se longamente.


Em  nós, ficará tudo o quanto for leve, simples e verdadeiro (mesmo que mais adiante, porque é sempre necessário reflorescer).
O lugar onde me encaixarei não é, de todo,  aquele onde presentemente me encontro. Mas sei-o adiante. E é para lá que me dirijo.
Por vezes, deixar capítulos para trás é o caminho certo.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...