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sábado, 21 de março de 2026

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo, indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada! - respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas,
que te espreitam,
à janela do casaco que vesti.

- Não me queiras sem Inverno. - prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me, aí fora!
No meu tempo,
chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.
Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Aquieta-te

Remete-te ao silêncio,
se não são de paz, as palavras.
Subjuga-te, entrega-te, aquieta-te
se alumiar não consegues e prossegues
ultrajando razões de assim não ser.
Remete-te ao silêncio do pensamento,
sem insultos,
sem julgar ou apontar, das mãos,
os dedos infusos
sem noção ou condição de acurar
o chão presente.
Dorme sobre as trevas e limpa a vidraça.
Olha para dentro, para trás, para o espelho.
Aquieta-te!
No eco do ruído desmedido
o mundo estremece e tudo acontece,
ante o nada e o que parece ser.

Palavras e punhais,
quem salvais?
Remete-te ao silêncio!

domingo, 28 de dezembro de 2025

Trivial

Estamos todos abastecidos de solidão.
A trivialidade da morte
num jogo de sorte,
num golo de vida.
Subindo o presponto,
do indivíduo,
à bainha por fazer:
memórias.
O regresso à tardinha,
aos cheiros que a vida tinha
aos reencontros por fazer.
A rua a descer
direita ao bar
habitualmente vazio,
dois tostões na mão:
preço do coração que se traz.
No copo,
saudades de quem ainda não se conhece
e do lugar onde amanhece
sem nunca termos lá estado.
Distopicamente:
calado, o silêncio preenche
a casa inacabada que se traja.
Construção empírica e pilares de ferro
racionalmente fundido:
descrente ao nascer,
dogma defendido ao envelhecer.
Transcendente
autista
demente
alienado
estranho
fechado:
o Poeta permanece
sem nunca se concluir.
Paredes por subir,
telhado não tem,
às estrelas
é o chão que as sustém,
porque o céu nunca chega...
E quando chega é sempre cedo demais.

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Alma

Traz a alma na ponta dos dedos
e ao peito o mundo.
A nota que rasga a palavra,
entre os vagarosos silêncios
de uma guitarra
que, ao longe, toca baixinho.
Fluem cores no horizonte
e um cego vê para lá de um muro.
O ruído cessa
o mundo abranda
e a música abraça a esperança
que enlaça
o voo tingido de uma borboleta
a quebrar o casulo.
A vida
a viagem
a passagem
e o poente, de um sol dedilhado
que descai, persistente
sobre o regaço do mundo.

sábado, 15 de novembro de 2025

Há sempre


Há sempre outro sol, outra estrada,

Uma improvável flor na calçada,
um abraço onde falar de amor.
Há sempre outra hora marcada,
se a vida nos foi adiada,
bateu forte e despojada 
duvidou da sua cor.
Há sempre outro chão, outra foz,
um peito onde adormecer os sonhos!
Um cais que espera por nós,
depois do breu
dos tempos sós.

Há sempre verde uma esperança
em quem, por nós, fica e avança,
para que a lua nasça e nos fascine.
Há sempre, no sabor doce da lembrança,
uma eterna e cândida herança
que o amor nos concedeu.

E se incerta a hora tardar,
Há uma luz no teu olhar
que te indica a direção.
Nos tumultos desta vida,
não há sombra nem ferida
que perdurem…
à luz mais bela e antiga
do teu nobre coração.

domingo, 10 de agosto de 2025

Mar nos olhos

 

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, o sol poente.
Escrever poemas na pele
e salgar as ondas
que te nascem no cabelo.
Olhar-te fim de dia
sobre o azul que trago
e estender o céu...
Fazer-te casa no peito,
de areia fina, o leito
(ainda horizonte)
onde te abraço.

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, um barco à vela.
Abrir sobre nós a janela
e viajar para além da vida.
Deitar-te em mim, sobre os sonhos
e adormecer,
sem ter que saber velejar.
Entrar-te a correr pelas mãos
e ficar
onde o acaso acontecer.

Ter nos olhos o infinito
e a ti também!

 

 

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Prosseguir

Corro.
Corro infindavelmente,
como quem persegue o infinito.
Corro. Cada vez mais e mais depressa.
Corro como ponte que o tempo atravessa
e cessa na margem que sou.
Corro. Mesmo que abrande e me faça grande
na procura do detalhe e da virtude,
Ou no sossego que me embala, me acalma
e me leva adiante.
Corro. Corro como quem procura
e não segura os pés no horizonte.
Corro. E cansada, descanso
perdendo o balanço com que avanço,
ainda antes de partir.
Corro. Corro. Corro.
E dou por mim a correr sem sair do lugar.
Devo estar a chegar!
Penso. Correndo de fora para dentro,
na esperança do momento
de um dia, a correr, me poder encontrar.


Corro. Procuro. Avanço. Descanso.
Caio e páro. Atinjo e finjo que cheguei.
Volto a correr e a procurar
sem nunca encontrar, sem nunca chegar
ao fim.
Corro.

sábado, 1 de março de 2025

Consagração

Posso sentir correr os rios como um poema
enquanto explico o voo aos pássaros pensantes:
Há um céu para lá do azul
e um veleiro vazio
que aporta na etérea dor de um piano.
P'las asas sobrepostas ao perfeito,
duas mãos de artíficealagam o vento
a poucos metros de mim.
Levitam lugares por descobrir
e há uma espécie de pacto
entre o degelo e o equinócio melódico da primavera.
Debruçada sobre o monge,
a solidão arranca, às palavras, as vestes
atirando os sentidos contra o possível
enquanto, peregrino, o piano permanece no ar
imóvel...
a olhar a noite nos olhos,
ante o sossego dos Deuses.
Há um poema a nascer
e uma melodia a cortar-lhe o cordão.
A Obra é umbilical.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Quisessem os teus olhos

Quisessem os teus olhos nos meus
trazer o tempo que, por nós, nunca passava,
a ternura do olhar, que demorava,
alado, em sonhos, sobre mim.
Quisessem os teus olhos naufragar
sem pressa, nessa pressa em que te vais!
Ser porto, ancorar os teus sinais,
ser espera e a esperar dizer que sim.

Quisessem os meus olhos nos teus
plantar de amor eternas datas,
p'la luz da sombra em serenatas
de olhares futuros onde não viste
chegar, depois de um sonho triste,
a vida toda, entrelaçada!

Ai quem me dera assim,
Se assim fosse, quem te dera!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Hei-de beber do amor

Hei-de beber, da taça dos teus lábios,
o amor, ao entardecer.
E hei-de o saber, anunciado
pelo ruído de curiosidade da vizinha,
sem cuidado, ao ver-te descer a rua, a correr
e cair-me nos braços
por mil embaraços no coração.

Hei-de te ter,
visão dos meus olhos ao anoitecer,
estrelas de um céu onde sonho
e acordo, para continuar a beber
da taça do amor que os teus lábios
me servem, quando, pela manhã,
raiarem os teus cabelos de sol
na minha almofada.

Hei-de escrever,
pelas ruas da saudade,
sobre a calçada do eco dos passos,
quando saíres, pela manhã,
e abrir, amarela, a vista da janela
do campo de girassóis
dos teus caracóis na minha lembrança.

Hei-de fazer correr tinta
por versos imersos na ausência
dos teus dedos nos meus.
Porque será a distância
a única coisa em que tocam,
para além da elegância desta caneta
que te fez:
Criação da minha mente.

Hei-de beber do amor!

 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

A última a morrer

Chego-te, através do horizonte
leve, ténue e casta brisa
névoa profetisa
que te toca sem tocar.
Em tudo me sentes
em nada me vês,
mas crês que existo!
E que de longe venho
contendo arte e engenho
(não olhas para trás).

Três passos mais perto
do fim do deserto
e miragem ainda sou!
Reflectindo a imagem
de sonho e coragem
que contigo acordou.
Não páras!
Sempre adiante,
filho de um acreditar constante.
Não há tempestade que te apague.

Ao longe, o horizonte
em ti, uma fonte
onde bebes de mim
crês-me sem fim
e chamas-me Esperança!

 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Asas

No ritual de quem parte,
rasgando, ao céu, o véu
com arte
de quem seduz a luz
e dança nas asas
dos recomeços.

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sábado, 2 de dezembro de 2023

Segreda-me um poema ao ouvido

Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. A vida e as estações
que por nós passam e os sonhos
que trazes em bolsos de amor.
Segreda-me a pressa dos relógios
e os dias agitados que nos engolem,
a solidão da cidade e a dor de não ver ninguém.
Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. A calma e a quietude
da loucura de ficar só mais um momento,
parada, em silêncio, a olhar para ti.

Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. Segreda-me a vida!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Ficar

Não me mostres o sul do olhar,
nem o caminho para lá voltar
ao entardecer.
Não me mostres o abraço da brisa
quando desliza
para lá do sonho
risonho que se guarda,
nem me mostres lugar algum
onde, em paz, não possa ficar
e sentir
sem partir a seguir,
sem que possamos chegar
à morada das coisas pequenas
que se degustam
calma e docemente,
que se vivem e entranham devagar.

Não me leves onde não possa perdurar.

 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Lugares sem Nome

Há um lugar sem nome
onde moramos reféns
de memória e lugares antigos,
que dilui, em si e no tempo,
as cores e sabores
de uma identidade vivida
em fotografias antigas,
agora esquecidas
entre o pó de objectos sem cheiro e amor.

Por temor de recuar no tempo
e bater à nossa própria porta,
sem ninguém para a abrir,
somos lugares comuns
a viver entre flashes,
presos por um fio
de redes sociais e memórias instantâneas
que depress se esvai,
p'lo buraco negro da solidão
que consome o sofá noturno.

Vagos que nos tornamos,
perdemos momentos,
ocultamos sentimentos,
desatentos à grandiosidade
do pequeno, à riqueza do detalhe
e à pureza do enamoramento da vida,
que espreita à janela do coração.

Estendemos a mão,
rodamos a chave,
abrimos a porta,
mas não estamos lá.
Em nós são tantas as ruas sem nome que levam os outros a lugar nenhum!

 

 

 

 

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Sós

Todo o verso é profecia
e memória
história e espanto
encanto, retórica
eloquência ou demência
dos dedos fartos da pele
e das mãos
que se trazem e partem,
nessa viagem de espaço sem tempo;
momento de passagem por ti.


Todo o verso é um
e nós
uma vezes poema, outras, por vezes,
sós.

domingo, 29 de outubro de 2023

Nos Olhos do Coração

Olhei. Olhei como se olha, vulgarmente 
ao passar por gente que nos olha, também.
Olhei e passei. Passei e voltei a olhar.
Parei. Olhei e não passei
a estrada daqueles olhos para os meus.
Fiquei. Como se fica, fortuitamente,
diante de quem por nós passa,
nos olha, nos estranha e repara
que talvez fique, também.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Excesso

Completo, o dia abre espaço à noite,
à lotação das sombras
ao cheiro das estrelas
aos repetidos caminhos do regresso,
entre filas e faróis fatigados.
Ao longe,
o silêncio:
rasgado pelo uivo dos cães tardios.


Toma a dianteira, o desconhecido,
desafiando-o:
rotineiro
habitual
automático
mecânico.
Para onde nos dirigimos?


Há um excesso que nos empurra e atropela:
emoções
informações
expectativas
ambições
e pressa. Muita, muita pressa
de chegar e não parar
até que se chegue
[sem lá se estar]
ao lugar de onde, ainda agora, se partiu.

Corpos de cansaço e fadiga
abandonados à força dos dedos
sustendo a fronte, à vida
e às ideias inacabadas,
onde se adormece e habita.


Há um excesso que nos devora, conduz e domina.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

De se ser

No decote da noite emaranhada,
Num fio de cabelo que ficou
Pousado na memória enevoada
Dos traços que o destino não juntou

Desceu às estrelas, a correr
Como quem quer delas apagada
a luz no peito ao adormecer
em braços nus de lua, enamorada.

Foi Deus chamado e não ouviu,
nos olhos, tom de sonhos adiados,
a valsa da paixão que não seguiu
dos astros, os acordes alinhados.

Se era tempo amarrotado ou o segredo,
de se ser mais caminho do que chão,
de se ser mais fissura que romance,
de se ser mais no remendo, o coração.


 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Húmus

As minhas janelas não dão para lado nenhum.
Não há nada que se me mostre através delas.
As estradas e figuras que entrevejo
não me levam a lugar algum;
perdeu-se o Homem e o ensejo
Lá no alto, pelo asfalto.



Há nos meus olhos cansaços vários
decorrentes do esforço exabundante
de sonhar desejos deficitários
p’la mão de Virgílio,
nas margens do Letes de Dante.


Constantemente me adio os escombros,
inevitáveis, quando à meia, a noite cair
e o céu me esborrachar de vez a cabeça.
No inferno, todos se vão rir
e na terra não há quem não me agradeça a retirada.
Que maçada…
todos escolheram o domingo para morrer
e até nisso eu saí controversa.
Nem no princípio nem no fim. Exatamente a meio
onde a semana dispersa.
Avessa, pedi para assistir ao meu funeral,
enterraram-me, por isso, primeiro o caixão
(que dele quero morrer longe).
Queriam-me os sonhos em valas comuns?
Não.
Sequem as lágrimas choradas
e desacreditadas de religião.
A minha única fé é sonhar!
E quem sonha, nunca sonha em vão.


Alimentar-vos-á o húmus
da minha ressurreição
porque se morro, não morro toda de uma só vez
e o que por terra cai,
levantar-se-á outra vez
sem que vós me entendeis a mão.


Querem graça?
Peçam o óbulo à porta da igreja
que a vida não vai de bandeja
e eu 'inda estou no meu funeral.


As minhas janelas não dão para lugar nenhum.


A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...