terça-feira, 31 de março de 2020

A Idade em Mim (aniversário)

Somos histórias, experiências, vivências, pessoas e lugares. Diáriamente nos somamos, mesmo quando subtraímos à vida alguma coisa (necessáriamente ou contra vontade, por imposição). A cada ano que passa, alguma coisa transformamos em nós, nos outros, ao redor... e mais temos para contar. 
No dia presente, dou início a mais um ano que será marcante, desdo o seu começo. Em isolamento social, com o país em estado de emergência e o mundo parado indefindamente, a gritar de dor e sofrimento. 
Não esquecerei! 
Longe de todos, mas com os certos no coração. E isto é mérito dos 31 que já passaram e me ensinaram a priorizar, a encontrar e saber manter por perto o que é mais certo e acrescenta.  
Posto isto, que apenas serve de introdução ao meu aniversário, o que queria mesmo dizer é aquilo que a baixo vos deixo. Prém, não sem antes vos pedir que desçam ao final do post, iniciem a música e a escutem silenciosamente. Sintam-na, deixem-na entrar em vós e viagem nela e com ela, antes de viajarem comigo entre palavras. Afinal, também nós somos pequenas folhas que o vento da vida leva, trás e deposita.  O dia, com alguma certeza, ficará melhor a seguir! 

Tenho a idade dos lugares que conheci, das etapas que vivi, das pessoas que encontrei...

Tenho a idade de tudo quanto senti, do que só com o coração vi e com os olhos imaginei.


Tenho a idade dos sonhos que não terminam, dos poemas que me fascinam, das conversas que não findam e permanecem... em mim.


Tenho a idade das quedas que dei, das lutas onde quebrei, dos mares salgados que chorei, dos abraços onde não fiquei e dos que ficaram por dar.
Tenho a idade de tudo quanto o fôlego me tira, da verdade e da mentira, do céu, do sol e do mistério da lua que me fascina a cada noite que cai.


Tenho a idade do sorriso que se abre, do poder da mente que se expande e reage, do coração e da coragem que não encolhem... apesar do caminho.


Tenho a idade de tudo quanto não fiz, das metas que não atingi, dos amores que não amei, dos desencontros em que tropecei e das palavras (beijos sábios) cujos lábios não encontrei.


Tenho a idade de um mundo que de mim se veste, envolto em manto celeste para que não se mostre demais.
Tenho a idade de quem fui, de quem sou, de quem serei. Tenho a idade de tudo quanto trouxe e do muito que deixei. Tenho a idade de tudo o que aprendi e do muito que não sei.


Não sou dos anos que por mim passam. Sou de tudo o que passa por mim.




Sou tudo aquilo que até hoje ainda não fiz . E tudo o que, até então, não finalizei.
Sou apenas e tão somente tudo aquilo que virá.
Sou tudo o que a meu respeito ainda não se escreveu, viu, sentiu, leu ou falou. Ainda sou só um rascunho!

Rita 



 


sábado, 28 de março de 2020

Antes de passarem todas as estações

Quando todas as estações passarem,
ainda estaremos sozinhos?


A terra chamar-nos-á os pés:
chão de pão onde luziam
marés tardias e trigais,
vestes douradas e pardais
voo de semente que ofereciam.
Pedir-nos-á, depois da guerra,
o mesmo chão, a mesma terra
que reguemo as fontes
mais secas de Esperança.
E, pela bonança, que nos atravessemos,
pontes de aliança, sobre a humanidade.


Cuidados nos exigirá
após eclosão universal da semente.
Fome de pão. Fome de gente.
Desabrochando lentamente
ante o passar de todas as estações.

Não ficaremos sós.


Plantado o chão, plantada a terra
e o coração dos homens a quem o ódio não ferra,
abrir-se-ão, novas, as fronteiras
e o Amor regressará
também ele devagar...
à terra onde há-de nascer:
Chão
Depois do vão, depois da guerra,
da volatilização humana da Terra,
para dormir na nossa cama
antes das estações passarem todas por nós.


Não. Não ficaremos sós.


 



 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Carlos Drummond de Andrade - Falta Pouco

Drummond, muito actual, mantendo-nos a esperança - "falta pouco" - num tempo onde o tempo perdeu a sua medida.


 


Falta pouco para acabar
o uso desta mesa pela manhã
o hábito de chegar à janela da esquerda
aberta sobre enxugadores de roupa.
Falta pouco para acabar
a própria obrigação de roupa
a obrigação de fazer barba
a consulta a dicionários
a conversa com amigos pelo telefone.

Falta pouco
para acabar o recebimento de cartas
as sempre adiadas respostas
o pagamento de impostos ao país, à cidade
as novidades sangrentas do mundo
a música dos intervalos.

Falta pouco para o mundo acabar
sem explosão
sem outro ruído
além do que escapa da garganta com falta de ar.

Agora que ele estava principiando
a confessar
na bruma seu semblante e melodia.

Carlos Drummond de Andrade

Persistirei

A rua desce
e eu permaneço parada.
Sobes. Persisto.
No mesmo lugar, desarmada, resisto
e insisto em não recuar.


Vil te sei. Cruel e bárbaro
menor que ácaro...
Persistirei.
Talvez mais só. Mais do que antes,
oculta em ecos distantes
fechados atrás de mim.


Persisto. No mesmo lugar.
E a rua desce.
É medo aquilo que cresce
contigo para me derrubar.
Persistirei.
De pé! E vencerei, sem te pisar.
Sei de cor o cheiro do horror,
a paleta do terror
e a vibração do temor
que já trouxeste.
Mas sei, também, a grandeza do amor
e brandura do calor
de um abraço celeste.
Verde esperança que disseste
que não teria.


Persistirei.
Talvez mais só. Mais do que antes.
Mas discreta. E abrirei,
nesta mesma rua, parada,
as minhas asas de fada
depois da tempestade suir.
E aos que hão-de vir,
com fome no coração,
dar-lhes-ei a mão
e o perdão que nunca lhes saberás pedir.
E hão-de vir...
Cegos, desnutridos, sedentos,
doentes e rasgados por dentro,
perdidos, sem títulos, nome ou religião;
a criança, o adulto e o ancião.
Hão-de vir...
Os loucos e os encantados,
os viris e os apaixonados, 
os sonhadores e os desacreditados. 
Hão-de vir...
Talvez mais sós. Mais do que antes.
Talvez mais unos. Mais tolerantes.
Hão-de vir.


Persistirei.



 

quinta-feira, 26 de março de 2020

"O Amor em Estado de Sítio"

Há dias escrevi aqui algumas (várias) linhas sobre a nova rotina de coabitação das famílias vs a rotina de há duas semanas atrás , onde abordei binómios relacionais como pais/filhos ; pai/mãe ; marido/esposa ; namorado/namorada, mas também relações individuais e a fórmula, muitas vezes no singular, de se viver a dois ou em família.


Sei que soaram campainhas e sei, também, que foram vários os agradecimentos pela coragem de trazer, nesta altura, uma realidade já anteriormente fraturada (agora mais sensível), que se tenta diariamente mascarar, por incapacidade de ser assumida, mas que, afinal, é mais comum do que julgamos ser. 


Isto deve-se não só ao factor filhos e insegurança, como ao factor medo (da solidão, do desconhecido, de falhar...), ao factor económico, ao factor social e ao muito comum factor aparência, a par da habituação. Não esquecendo todas as chamadas "desculpas" que o Ser Humano habilmente descobre não só para se justificar, mas também para se convencer,  e que são, habitualmente, baseadas em factores externos e não em si mesmo. Porém, creio ser hoje bem perceptível que são as rotinas individuais quem mantém a união em diversas relações.


Posto isto, e não deixando de referir que não tenho qualquer formação em psicologia, filosofia, fenómenos emocionais ou reaccionais, estudos de comportamento humano, etc... aquilo que interpreto para além do que vou lendo sobre o tema e que sempre me interessou, é apenas baseado na minha própria sensibilidade e percepção humana.


E, por isso, deixo-vos hoje a visão de alguém (mais) credível, capaz de trazer sempre consigo (e em si) uma forma bonita de dos falar das adversidades e do lado menos romântico das situações. Porque sim, é necessário e extramanete importante sermos capazes de falar sobre.


Da autoria do Professor Eduardo Sá, "O Amor em Estado de Sítio".


 

domingo, 22 de março de 2020

REFLECTINDO SOBRE: Hoje, a semana passada, quarentena, união, fracturação, famílias, individualidade, rotinas e outras coisas


Há uma semana atrás, era nossa a sensação de comando da vida. A sensação de que, se assim o entendêssemos, quase tudo seria alcançável e possível, mesmo quando nos desencontrávamos de nós próprios no meio da rotina, dos sonhos, da ambição ou o dia não nos corresse de feição.


Há uma semana atrás, também nos zangávamos, entristecíamos e gritávamos... mas sabíamos que também isso iria passar.
Há uma semana atrás, tínhamos inúmeros lugares para onde "fugir" de nós, dos outros e dos nossos. Era nossa a certeza de sermos donos do tempo. Era nossa a liberdade da fuga, com que enganávamos as contradições ou a infelicidade que nem sempre se querem combater, enfrentando-as, com tomadas de decisões, quantas vezes difíceis.


Há uma semana atrás, era nossa a certeza de um amanhã à nossa maneira, e de "um destes dias" fazer apenas o que apetece, de ter o tempo e o espaço individual necessário ao bem estar emocional ali à mão, o de saber que na nossa ausência alguém protegia e ensinava as crianças, lhes aturava as birras, lhes dava de comer, para que no final do dia fossem apenas nossos os melhores momentos, brincadeiras e abraços.


Há uma semana atrás, tínhamos a certeza de que as relações implicam cedências, respeito, partilha, adaptação, cumplicidade, amizade, concordância no direito de discordar, capacidade para enfrentar adversidades e o desconhecido. Mas, há uma semana atrás, também conhecíamos o sabor do desalento, do desencanto, do cansaço, da dúvida e da saturação...
Porém, mantínhamos activas as escapatórias possíveis. Afinal, a semana passada, era nossa a convicção da omnipotência.


E eis que, de súbito, sem que os pré-avisos vindos do Globo nos alertassem eficazmente para outro cenário, é nossa a incerteza, o medo, o desconhecido, a instabilidade, a zanga, a tristeza, a inquietação e a insegurança... mesmo dentro da nossa própria casa.


A imposição de uma quarentena trouxe-nos como novidade a necessidade absoluta de recolhimento em família, sem que outra escolha nos fosse apresentada. Sem que a rotina nos alimentasse a vida e nos desculpasse as faltas...


Hoje, é necessário satisfazer todas as necessidades básicas, emocionais e pedagógicas dos filhos, é necessário conhecê-los para além das actividades de fins-de-dia, das birras de supermercado, da sopa que não termina, dos heróis dos desenhos animados, da história antes de adormecer. É necessário suprir-lhes todas as ausências que também se lhes impuseram, controlar os medos, mantê-los saudáveis entre quatro paredes, sendo, para isso, também necessário dispor de doses extra de atenção, dedicação e amor.


Se já são adolescentes, é preciso, de rompante, saber entrar, compreender e viver com o mundo dos filhos, assim como ter estofo para lidar com todas as suas privações, frustrações, opiniões, conflitos, tentando impor-lhes convivência, rotina e hábitos caseiros a que nenhuma das partes estava habituada.


E, a par, vemo-nos a braços com uma relação confinada a um espaço reduzido, onde, se por um lado existe a oportunidade de a reinventar, mediante a descoberta no e do outro, da partilha do tempo outrora ausente, de momentos a dois, da divisão de tarefas, de aprendizagens conjuntas, do olhar mais demorado, da cumplicidade agora mais viva, da presença e das conversas adiadas ao longo dos tempos, é também verdade que o momento que se atravessa é propício a discórdias profundas sem fugas possíveis.


Desde logo a educação dos miúdos, passando pelos hábitos e pelo desmazelo de cada um, da culpabilização do outro, da gestão do tempo e dos recursos, do stress, da incerteza, do medo, da condição, do afastamento que mantinha a união... sem esquecer as fragilidades anteriores da relação, assim como (alguma) possibilidade de descontentamento, desalento, de dúvida, de infelicidade ou aparência...


Mas, pensamos, ainda a semana passada existíamos nós (o nosso eu) ... e o nosso tempo.
________________________


Quero com isto alertar para a necessidade, enquanto seres humanos e, por isso, racionais, de não se romancear demasiado o momento e ter em mente que a realidade de uma imposição abrupta de união poderá, em certos casos, revelar-se fracturante. Isto fará com que estejamos abertos e disponíveis para ajudar, se necessário.


Quero com isto alertar, para que se aprenda com os exemplos dos outros, desde logo com o aumento exponencial dos divórcios na China, assim como dos números da violência doméstica, para que possamos criar as nossas próprias defesas, a fim de evitar o que depender de nós poder ser evitado.


Quero com isto alertar para que o amor, a felicidade e o bem-estar interior são o nosso maior tesouro e que há que ter bem firmes as certezas quanto ao lugar onde queremos realmente estar e com quem. Assim como ser verdadeiros no que à aceitação de factos e acontecimentos reais e diários diz respeito.


Se ainda a semana passada não existia espaço nem tempo para a reflexão, hoje temos todos uma excelente oportunidade de pensar construtivamente na mudança que temos vindo a adiar, na vida e no nosso futuro, para que o possamos criar da forma mais forte, sustentável, unida e feliz possível.
Sendo, também, nosso o tempo de entender que a sorte dá (muito) trabalho e que felicidade está na simplicidade das mais pequenas coisas da vida, quantas vezes à vista, enquanto nos cegamos para elas.


Tenhamos a ousadia de arriscar sermos felizes, porque ainda estamos aqui.


 

sábado, 21 de março de 2020

Aos Poetas, neste Dia Mundial da Poesia

 


Poetas.
Seres que só sonham. Seres que só sentem. Essa sede que têm de amar a tudo e a todos. Até a vida.


Poetas.
Esses seres que vivem do avesso, com o coração de fora. Que estranha forma de vida...
Os Poetas nada sabem, senão da vida. E tudo o que sabem já é demais.
Os Poetas usam-te. Usam-te os olhos, o nariz, os lábios, cada fio de cabelo, até a sola dos pés. Descrevem-te os contornos e embelezam-te a alma, mesmo quando negra.
Já os vi usar paisagens, cidades, edificios inteiros, recantos escondidos, a terra e o mar, o céu, a lua, o grito e o silêncio, o Mundo. A guerra e a paz, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o amor e o ódio.
Os Poetas são especialistas em sentir. Experimentam as suas mais diversas formas. Seres insaciados. Por isso morrem, tantas vezes, novos. Overdose de sentidos.


Poetas.
Seres obcecados com a musicalidade daquilo que dizem, de tudo o que vêm, até do que escrevem.
E a teimosia que encerram em querer pintar a vida? Acham-se donos das cores do arco-íris. E são.


Poetas.
Seres capazes de transformar o que dói num sorriso, o que fere em amor, o que mata em vida, a escuridão em luz.
Nunca vi ninguém venerar tanto um sentimento agreste como a saudade, quanto um poeta. Desconfio até que estes seres transformam qualquer presença em ausência, apenas para que possam ter mais meia dúzia de versos para escrever.
A verdade é que vivem com as entranhas de fora e, mesmo assim, passam despercebidos. Não se fazem notar, nem sabem, eles próprios, se são bonitos ou feios. Repugnam o supérfulo, admiram o detalhe. Parecem alienados do mundo. Transmitem serenidade mas, se lhes abrires a cabeça, protege-te do furacão de ideias e conhecimentos. Da inteligência.


Os Poetas estão-se nas tintas para o paleio e conversa fiada. Só querem escrever. Só querem sentir.
Alimentam-se sobretudo de amor e, quando este lhes falta, morrem devagarinho e gritam, gritam tanto que o silêncio ensurdece. E nascem poemas.


Poetas.
Ninguém se torna poeta. Ninguém idealiza ser poeta. Alguns nascem poetas e só esses morrem poetas, porque foram poetas da vida.


E eu, que não sou poeta, tao pouco poetisa, estou certa que, no dia em que morrer, alguns irão perguntar:
-Morreu? Morreu de quê?
E alguém lhes responderá:
-Coitada. Nasceu poeta.


 

sexta-feira, 20 de março de 2020

Página em branco

No branco da página
que agora nos olha,
são as cores do presente
quem nos tolha e devora
o possível.
P'la brancura estridente
do nada que nos assola,
será negro o risco de paz
que nos consola
a ponta do nada, numa caneta
carregada de tudo.
São tantas as cores do vazio...


 

quinta-feira, 19 de março de 2020

Quando os filhos não têm um super-herói, mas sim uma super-guerreira

[ Feliz dia do pai, mãe!] 


Elas são mães e pais, não necessariamente por esta ordem, mas em simultâneo. Super Guerreiras sempre com a espada numa mão e o coração como escudo na outra.



Esse é o seu papel principal, embora se desdobrem em tantos outros, num curto espaço de 24 horas. Não têm tempo para ler o guião, por isso improvisam. A intuição de que são dotadas raramente as deixa ficar mal e, quando se trata dos filhos, nem o cansaço as vence.

Enquanto são mãe e pai são também cozinheiras, lavadeiras, faxineiras, professoras, educadoras, amigas e companheiras, conselheiras, organizadoras, trabalhadoras num qualquer departamento, entidade, empresárias ou negociantes, são filhas, são amigas, vizinhas, enfermeiras particulares e médicas sempre que necessário, motoristas, jardineiras, anjos da guarda ou polícias, por vezes até cientistas, pagam contas, esticam dinheiro e inventam tempo para serem um bocadinho elas próprias, também.Tudo isto sem perder a pose de senhoras, num corpo feminino que aconchega os filhos no colo,  se moldam às cabeças no ombro, sem se esquecer que um dia já lhes deu de mamar.


São donas de um corpo e de uma mente com a flexibilidade necessária a cada nova situação e dsafio. A voz doce e meiga que os protege, com a necessidade pontual da autoridade e severidade que os alerta e coloca em sentido.

Super Guerreiras. Para elas não existem dias de folga, não existe um "toma agora tu conta deles para eu descansar". Tudo para não falar da necessidade quantas vezes adiada de privar consigo mesmas, privilegiarndo de alguns momentos sozinhos ou junto de quem lhes quer bem. 

São a presença feminina assídua, perante uma ausência vitalícia e premeditada da figura masculina. 

Aos filhos preenchem silêncios, para que estes não falem tão alto. Ocupam-lhe os momentos mortos para que eles não tenham tempo para sentir a falta de um pai ausente, mas também lhes ensinam que, para quem realmente importa, não existe ausência nem falta de tempo, que lembrar não é estar presente, que pai não é só um nome comum, nem um estatuto adquirido, mas sim um adjetivo caracterizador e complexo. Que os direitos são para quem assume os deveres e que uma pensão de alimentos não serve para uma mãe se governar, mas sim para ajudar a suprir as necessidades essênciais e educacionais de um filho. Ensinam-lhes que o dinheiro compra bens materiais, brinquedos e objetos supérfluos, mas não compra amor, carinho, amizade e atenção. Ensinam-lhes que, sempre que o telefone não toca, nem a campainha da porta se faz ouvir, existe uma outra porta na vida que, apesar de tudo, não se deverá ser fechada. Mas que só a atravessa quem realmente quer, sem necessidade de ser convidado a fazê-lo.

Acima de tudo e de qualquer outra coisa, ensinam e demonstram todos os dias úteis, feriados e fins de semana, a tempo e horas ou fora delas, que um coração de mãe é infinito.

domingo, 15 de março de 2020

Quanto valemos?

Quanto valemos, enquanto corremos,
sem dias nem tempo
para enfrentar
um presente sem nome,
utopia e viagem,
em permanente contagem
para regressar
à ilusão de outro dia,
luz, paz e magia
lugar encantado
pelo consumo criado
na sociedade ausente
que crente se fez
num presente comprado?

ir…
sem nunca chegar.

Quanto valemos, cansados, esgotados
à noite prostrados
em camas incógnitas?
Por laços desfeitos
sem abraços, nem leitos
corações por salvar?

Quanto valemos no avesso da vida?
História interdita
que evitamos contar…
Somos gestos distantes,
palavras vazias e egos gritantes
Era virtual…
Numa proximidade ilusória
enganamos o tempo
que nos resta passar.

E agora, na realidade da ausência da mão
que nos agarra, toca, segura e não larga
Quanto valemos?

Abraços no olhar
virão para nos levantar
do chão feito de nada onde corremos
sem nunca alcançar o Éden.

Quanto valemos?


sábado, 14 de março de 2020

E se...

[Em tempo de dúvidas e incertezas, mantenhamos a esperança na certeza de um depois de amanhã...] 💛


 


E se tudo o que existe,
persiste ou resiste
um dia deixasse de ser?


Num abraço suspenso
contamos o tempo
para regressar
ao lugar de outro dia,
onde o medo dormia
sem hora de acordar.


Num beijo adiado
estancou o mundo apressado,
arrancado o véu do espaço
vazio que há entre nós.
E sós, sem o molde da rotina,
não encaixamos na sina
que o passado nos leu.


E se tudo o que existe,
persiste ou resiste
um dia deixasse de ser?


Não se apertam as mãos
E o mundo deixou de girar...
Afundam-se laços e impérios,
dominam-nos dúvidas e mistérios
e o amanhã parece tardar.


Agora, na ausência da pressa
que a vida arremessa a cada manhã,
não sei se nos saberemos olhar...
Como d'antes...
Em momentos marcantes da História
que aconteceu para nos juntar.


Vejo-te. Vejo-te sempre.
Tomara que seja depois de amanhã.


 

quinta-feira, 12 de março de 2020

Sobre liberdade e responsabilidade, mas também sobre quarentena, arte e reinvenção

Nós, os humanos, não vivemos sozinhos. Estabelecemos relações diariamente, vivendo em sociedade com normas estabelecidas.
Entre moral, ética, responsabilidade e liberdade importa reter a relação de complementaridade que existe entre elas. Desta forma, o Homem será sempre responsável pelos actos que pratica, com e em liberdade.
E se a liberdade pressupõe capacidade de escolha, pressupõe igualmente ponderação de riscos e competência para os assumir. O acto livre é, e continuará a ser, um acto pelo qual devemos responder e responsabilizar-nos, mas, para tal, é necessário maturidade.

Quando vivemos sobre a autoridade de um país é fácil apontar o dedo e lamentarmos as medidas mais ou menos rígidas que nos são impostas, mesmo perante um surto epidémico, onde a palavra de ordem é agir no sentido da redução da propagação descontrolada do vírus, através da aplicação de métodos de controlo.
Embora impopulares, medidas como a quarentena são necessárias e de eficácia comprovada em momentos anteriores da nossa História. E como tal, devemos respeitá-las.
Com eventos cancelados, viagens suspensas, edifícios fechados, o crescimento diário de casos de isolamento, a vida fica mais chata… mas aglomerações humanas na praia, shopping’s ou jardins também não são opção. Sim, é necessário evitar temporariamente o contacto humano, embora sejamos animais de relações.
E é aqui que recai a nossa liberdade de escolha em se ser ou não responsável, em dar ou não ouvidos à persuasão do facilitismo e em continuarmos ou não a ser hospedeiros de um outro vírus, o do egoísmo e egocentrismo, que raras vezes tememos. Não seria agora diferente. Pensar que somos, nós próprios, um risco para os demais, obriga-nos a olhar para o mundo e para os outros, ao invés de estarmos e continuarmos aqui apenas como passageiros na nossa bolha. Afinal servimo-nos dos olhos e do entendimento, assim como das situações, na óptica do favorecimento pessoal e, por isso, permaneceremos reclusos dos actos que em liberdade praticamos. Queremos ser livres, mas não sabemos sê-lo.

Por outro lado, e por oposição ao desinteresse existe o medo, que não será um comportamento tido como de menor risco. É certo que o nosso cérebro está programado para reagir de uma determinada maneira quando vivenciamos situações de grande incerteza ou stress. O lado emocional facilmente se sobrepõe ao racional, resultando, muitas vezes, em comportamentos irracionais: luta, bloqueio ou fuga. Em alerta constante, num instinto de sobrevivência, tornamo-nos igualmente egoístas, e as corridas aos supermercados enchendo carrinhos são reflexo disso mesmo. Ganha a inconsciência e o maior poder de compra... sim, não chegará para todos. Quer-se bom senso e consciência, respeito, equilíbrio e mais uma vez responsabilidade na liberdade individual.

Apedrejar autocarros com pessoas suspeitas de infecção como ocorreu na Ucrânia, ou discriminar cidadãos chineses e italianos também não será um acto responsável. Porém, vale-nos um outro lado, o da entreajuda, o da união, o da consciencialização que muitas vezes nos chega através do meio artístico, o da vontade de vencer as vicissitudes tendo por base a magia humana (que, espantem-se, existe), a bondade, o amor e o altruísmo.

Em período de quarentena, sejamos criadores e não destruidores, porque necessitaremos dessa nossa capacidade de reinvenção quando tudo isto findar. Aproveitemos o tempo para pensar, para ler, para descansar, para criar (seja qual for a nossa arte ou dom), para transformar positivamente os tempos difíceis que se atravessam, porque o mundo estagna, a normalidade tarda em retornar, mas as pausas da vida apenas nos ensinam a encará-las como oportunidades de preparação para um futuro incerto.

Encontramo-nos por aí, na esquina de um abraço musical, de um olhar poético, de um beijo fotográfico, do êxtase de uma pintura… do amor resultante do encontro entre as mãos e alma.


 


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A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...