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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Herscht 07769: A sátira do presente e a fragilidade da civilização

Em Herscht 07769, Laszlo Krasznahorkai constrói muito mais do que uma distopia. O romance funciona como uma crítica intensa à desintegração moral e política das sociedades contemporâneas. Numa comunidade atravessada por ressentimento, paranoia e vazio espiritual, torna-se evidente como a fronteira entre a civilização e a barbárie é mais ténue do que a linguagem política tende a admitir.

O aspecto mais perturbador do livro é a sua proximidade com a actualidade. O nacionalismo surge não como ideologia consistente, mas como mecanismo de compensação numa sociedade em erosão. Perante a perda de estabilidade económica, a fragilidads dos vínculos sociais e a erosão da confiança nas instituições, a identidade colectiva endurece de forma defensiva. O “nós” deixa de ser um projecto partilhado e passa a ser linha de separação. Neste movimento, o inimigo externo não é um acidente político, mas uma construção funcional, dá forma ao medo e reorganiza a sensação de perda. Krasznahorkai sugere assim que certos contextos sociais não apenas produzem populismo, tornam-no quase inevitável como linguagem de sobrevivência.

O globalismo promete aproximar o mundo, mas muitas vezes deixa a sensação contrária. Tudo circula mais depressa, bens, informação, capital e, ainda assim, cresce a dificuldade em encontrar lugares de pertença, relações duradouras e referências comuns. Entre a escala global e a experiência individual abre-se um espaço onde a alienação encontra terreno fértil.

Entre esta abstracção global e a reactividade identitária do nacionalismo, as personagens vivem num estado de alienação contínua, sem forma estável de pertença.

Também o colapso ecológico atravessa a obra. A degradação da natureza acompanha a degradação da linguagem e da vida social, como se todas estas dimensões respondessem ao mesmo processo de esgotamento. O presente reflecte este quadro de forma inquietante: crises climáticas sucessivas são tratadas como episódios isolados, apesar de indicarem uma transformação estrutural mais profunda.

A ideia mais perturbadora de Herscht 07769 talvez seja a de que o colapso não ocorre como ruptura súbita, mas como normalização progressiva. A violência torna-se parte do quotidiano, o cinismo substitui a reflexão e a vida entre ruínas deixa de ser reconhecida como anomalia. É neste desfasamento entre deterioração e percepção que o romance encontra a sua actualidade mais desconfortável.

No fim, Krasznahorkai não oferece um cenário distante, mas um espelho crítico do presente. E é precisamente isso que faz de Herscht 07769 não apenas uma narrativa sobre a desintegração do mundo, mas uma forma de o tornar legível enquanto ainda insiste em manter-se de pé.

Talvez o desconforto provocado pelo romance nasça daí. Não da possibilidade de um colapso futuro, mas do reconhecimento de que muitos dos seus sinais já habitam o nosso quotidiano. 

O livro não nos confronta apenas com a possibilidade de um colapso futuro, obriga-nos a interrogar aquilo que, no presente, deixámos de estranhar.





domingo, 13 de julho de 2025

A guerra não cabe numa caixa de sapatos

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Nota prévia: Republicação de uma das crónicas que escrevi àcerca da Guerra Colonial Portuguesa. Baseadas em testemunhos reais, por mim recolhidos, com um toque de ficção que em nada fere o realismo da História.
De avô para neto, estas crónicas são cartas de vida deixadas para que a memória e o tempo - mas também os tempos - não nos atraiçoem. 

 

A guerra nunca foi restrita a quem nela combateu. Não foi, nem será, uma realidade menor, dobrável e condenada ao esquecimento, se arrumada numa caixa de sapatos antiga. Há, nos pés dos homens, sapatos cujo desgaste das solas é indissociável do desgaste da vida. 

Diz-me meu neto, quantos sapatos tens e quantos trilhos traçaste?
Não mo digas, acaso sejam mais os sapatos guardados do que os quilómetros de vida por ti percorridos.

Nunca o conforto dos pés – em caminhos que não são os nossos - deverá suplantar o conforto da vida. É no desgaste das solas que o Homem se vê.

Desde o começo que a guerra afetou a sociedade – mesmo que o sistema o negasse. Primeiro, com o sofrimento da despedida daqueles que, como eu, partiam para África. Depois, com as notícias das primeiras mortes e feridos, que foram uma constante durante os anos que se seguiram.

 Na frente de combate não era frequente privarem-nos de ração – que combinava com a nossa nova face primária - armas, munições e fardamento. Contudo, na retaguarda, subia o número de feridos, que se amontoavam nos pequenos hospitais militares, inadaptados e incapazes de suprir as necessidades e os cuidados de que os homens careciam.
Nascia assim, aquilo a que, no seio das Forças Armadas, se chamou Exército de Deficientes, que eu suavizo e apelido de cagulo bolorento do Exército.

Na verdade, esta linha do exército não parou de aumentar, eram cada vez mais os jovens soldados que, na flor da idade, ficavam cegos, contraíam doenças graves – algumas incuráveis - viam os seus membros amputados, ou desenvolviam distúrbios psicológicos. Jovens, cuja flor nem tempo teve para murchar, tamanha foi a violência com que viram as suas pétalas arrancadas. (Tu não sabes, não tens como saber o que é sofrer uma poda definitiva na vida, meu neto. Mas sabem-no eles, esses, aqueles para quem jamais a vida se renovou. Tão pouco com a chegada da primavera). 

Durante a guerra, foi notório o crescedum de caixões transladados. Privilégio daqueles cujas famílias podiam pagar, posto que os custos da morte não eram suportados pelo regime, nem pelas Forças Armadas Portuguesas. Os outros, sem posses, não podiam fazer face às despesas de transladação. Ou eram enterrados nas zonas de combate, (por falta de meios de transporte) ou, com maior sorte, viam a sua última morada gravada numa chapa, nos cemitérios erigidos pelas forças militares, junto às suas bases operacionais.
Sorte?  - Questionarás. -  Sim, essa força sem propósito, imprevisível e incontornável que desencadeia acontecimentos mais ou menos favoráveis para o indivíduo. Entre morrer vivo e assim continuar, apenas existindo, até ao derradeiro cair do pano, ou ser enterrado no mato, que se morra definitivamente - e de uma só vez - e se seja enterrado com dignidade.

Os deficientes da guerra, a face mais visível e transparente dos confrontos, aquela que, ainda hoje, a sociedade mais dificuldade tem em encarar, foram, na época, considerados “inválidos”. Homens que representavam um verdadeiro e pesado fardo para as famílias, que se viram, pelo Estado, obrigadas a esconde-los, como se de impostores se tratasse, caso não lhes fosse atribuída morada nos hospitais militares. Isto porque, oficialmente, Portugal não se encontrava em guerra e a aparição em praça pública de corpos amputados, homens em cadeiras de rodas, cegos ou transparecendo distúrbios vários, poderiam levantar interrogações incómodas para o regime, a respeito do que que era, afinal, a realidade vivida nas colónias de África. 

Um regime cujos passos eram incontestáveis, mas que não mostrava as solas. Um regime cujos sapatos, à medida que pisavam terreno pantanoso, eram de imediato substituídos. Um regime que fechava em caixas as vidas que, pela pátria, eram dadas. Muitas delas detonadas, por minas, num passo em frente – alguns dirão em falso - por aqueles que em nome de Portugal combateram.

Pensa agora meu neto, quantos são os sapatos que tens e quantos trilhos, com História, tens vindo a percorrer. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Claustrofobia Racional

 

"A minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro".

É cada vez mais frequente o ataque, a crítica infundada, o destilar ódio em todas as frentes, a retórica tantas vezes enfurecida com que se ataca uns e outros, no conforto das trincheiras, (atrás de um ecrã).

Num espaço sem rei nem lei (as redes sociais), onde a promoção da intolerância é gratuita e onde a supremacia às massas (nem sempre pensantes) pertence, o discurso incendiário a nada mais serve se não ao proveito político dos seus defensores, tanto em democracias liberais, como nos regimes autoritários.

Frequentemente confundida com liberdade de expressão, a maledicência padronizada e assente na desinformação e desrespeito pelos direitos e valores fundamentais, exacerba posições de resistência e/ou intolerância face ao "outro", sem que sobre espaço à reflexão sobre quem, afinal de contas, o é.

O "outro" somos nós, todos e cada um, numa ou em várias circunstâncias da vida. Com lugar atribuído, o "outro", que não é contrário à pluralidade humana, nem serve de base à violência irracional e defendida por quem se considera em patamar superior, vê-se estrangulado por críticas, ataques, ofensas directas, ameaças, suposições, boatos e inverdades lançadas à luz da nova Inquisição, num único propósito: o enfraquecimento, afastamento e silenciamento do "opositor" (enquanto o ruído mesquinho e crescente impede a voz da decência, da verdade e da informação).

O ódio sempre teve pressa e nunca soube respeitar lugares, tempos e espaços (à semelhança de alguns). Num atropelo voraz, avança sobre quem se lhe não agrada, diferencia, ou confronta, na ânsia de se lhe derrubar os pilares (falemos dos democráticos, familiares, profissionais ou outros).
É pois, óbvio, que em tempos que avançam, velozes, tecnológica e cientificamente, sem que acompanhá-los "em directo" seja possível, o Homem recue, numa irracionalidade gritante e preocupante, quantas vezes claustrofóbica e egocêntrica, corroendo os valores partilhados, a estabilidade e a dignidade humanas.

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terça-feira, 7 de maio de 2024

Saber Perder

Na sociedade actual a aceitação e a tolerância ao erro são cada vez menores. Saber lidar com a frustração da derrota tornou-se, por isso, uma das nossas maiores lacunas estando ela, no entanto, presente em múltiplas situações da nossa vida.

O “estar bem” deixou de ser um caminho pessoal para se tornar uma imposição social.

As fragilidades do ser humano deixaram de ter lugar, assim como a consciência de que somos falíveis, de que erramos, choramos, sofremos, passamos por dificuldades num ou noutro momento, de que a tristeza é tão válida quanto a alegria e não acordamos nem adormecemos perfeitos, tão pouco 100% realizados e sem quaisquer problemas na vida.

Nas redes sociais multiplicam-se os discursos e a montra das vaidades, e as livrarias estão repletas de livros que nos querem ensinar a ganhar, a ser melhores, a atingir um determinado patamar de vida e financeiro (quantas vezes utópico), a ser heróis, a formar a família perfeita ou a construir a relação ideal... por entre páginas e páginas de relatos e histórias de vida nem sempre reais.

É esta "falsa felicidade" que tantas vezes cria, em quem assiste, um sentimento de inadaptação ao meio, frustração por não conseguir atingir determinados patamares de plenitude, objectivos que parecem tão fáceis de serem alcançados, desalento por não se ser tão bem sucedido quanto outros, o sentimento de culpa pela falta de realização pessoal e por falhar no caminho para a aceitação, segundo parâmetros que a mim me parecem questionáveis.

De facto, são mais os livros que visam o ensinamento da vitória, do que aqueles que nos ensinam a lidar com a frustração da derrota ou insucesso, fazendo-nos pensar e motivando a acção (ao invés da pacividade de nada fazer perante exemplos pouco reais de vencedores que no fundo sabemos não poder igualar).

Realisticamente falando, durante a vida, são muito mais as vezes em que perdemos do que aquelas em que ganhamos, sendo que o primeiro passo para manutenção do equilíbrio, deverá passar pela aceitação da realidade dos factos. Só essa aceitação nos alimentará a paz interior.
Porque qualquer que seja o nosso insucesso, a lição passará sempre por aprender com ele, utilizando o acontecimento como oportunidade de melhorar em prol do crescimento pessoal. Nunca a falha deverá ser sinónimo de derrota, mas sim de transformação.

Porém, à velocidade estonteante a que a sociedade (sobre)vive, preferimos os "falsos" resultados a curto prazo (ou movediços), do que aprender a traçar metas reais e mais consistentes a longo prazo, sob a ameaça dos ventos contrários e percalços no caminho. Mas, trabalhar nessas metas, aprendendo a respeitar e a aceitar o tempo de cada etapa, assim como retirando dos tomboas a devida lição, vai ser o que nos permitirá saborear, algumas vezes, a leveza da realização.

Porque já dizia Lavoisier: "Na Natureza (tal como na vida) nada se perde, tudo se transforma."

 

sexta-feira, 29 de março de 2024

Um alfaiate não cose vidas

 

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Ilustração de Flávio Horta 

Dormíamos, a maior parte das vezes, no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos qualquer coisa semelhante com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de um animal, durante o destacamento.

Embarquei, em Portugal, em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete de trinta mil toneladas, capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era a pele, parte fundamental do equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número, o nome do soldado e o tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra, para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a outra, a quem chamávamos "Fiel Companheira de Mato", a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, arma de grande porte por quem os guerrilheiros ganharam grande respeito.

Durante as patrulhas, as principais funções eram o reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio, transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão, podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos, por escassos minutos, para comer qualquer coisa ou aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha, muitas vezes, a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?

[Voltemos ao cais]
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Saber dizer NÃO

É fulcral saber quem se é. Ter certezas a respeito das próprias convicções, valores, princípios e crenças. É preciso saber delimitar o próprio espaço, a própria liberdade sem interferir com a liberdade do outro, respeitar e respeitar-se, assumir actos e identidade, preservar a paz interior e ter perfeita consciência do caminho que se quer - assim como daquilo que não se quer - traçando o percurso nesse sentido.

Muitas são as vezes em que o ser humano se perde por não saber dizer NÃO no momento devido, sendo apanhado em situações que não deseja e se arrastam, sem que seja criada uma porta de saída. Por medo da reação do outro, por forma de compensação do outro, por receio de magoar o outro, por falta de auto-estima, de certeza, de convicção - o que evidência que evitar um NÃO significa, também, em determinadas circunstâncias, agir em função do outro e não do próprio.

O ser humano cede por facilitismo, dá e recebe em dose excessiva na ilusão de um preenchimento de vazios e/ou falhas pessoais, permite-se ficar onde não quer (ou deseja) estar, por incapacidade de ser honesto consigo e com os demais, por conformismo ou habituação. Age contra-vontade por não ser conciso a respeito da direcção do proóprio caminho. Aceita situações e condições por falta de imposição pessoal. Permite-se e vai-se permitindo até ao limite do desconforto, do vazio extremo, da infelicidade e do sofrimento.

Por outro lado, a arte de saber ouvir e aceitar os NÃOS da vida é aquilo impulsiona novas direcções, permite ser melhor e fazer melhor, procurar novos horizontes, interesses, pessoas, evoluir, crescer, reinventar-se e encontrar-se.

Saber olhar para as derrotas, retirar a lição devida, agradecer a aprendizagem e saber utilizá-la, será sempre meio caminho para atingir uma transformação interior positiva. Porque, em determinados momentos, aquilo de que se necessita é exatamente de que o NÃO aconteça.

Ser sábio é saber aceitar o que não pode ser alterado, saber esperar o tempo certo de e para cada situação, saber usar a disciplina como veículo de melhoria em tudo o quanto pode ser melhorado, retirar das lições os ensinamentos e aplicá-los construtivamente no futuro. É prestar atenção aos detalhes, ser respeitador e ter consciência de que um NÃO ouvido ou dito no momento exacto poderá ser a chave que futuramente abrirá a porta que realmente se quer. Lá dentro, paz de espírito, felicidade, realização e bem-estar.

 

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sábado, 5 de agosto de 2023

Cerca-te de pessoas que te inspiram

Pessoas. Terás sempre pessoas ao teu redor. As certas e as erradas.


Serás levado a aprender a escolher entre quem te vai influenciar positivamente e entre aqueles que pouco ou nada te acrescentarão. Serás, também, impelido a compreender quem são as pessoas que te elevam e quem são as te enfraquecem.


Chegará o dia em que sentirás necessidade de te rodear de pessoas mais inteligentes, sentir a atracção da energia positiva, motivadora e gratificante, capaz de acrescentar valor e transformar a forma como encaras a vida.


Pessoas que te elevam, te desafiam e estimulam, pessoas que te aguçam o pensamento e a sede de conhecimento, gente que te cativa, motiva e se constata  lufada de ar fresco. Pessoas com a capacidade de te fazer olhar para o mundo de forma diferente, idóneas e de bom caráter. Pessoas cuja presença é um contributo para que te possas tornar, a cada novo dia, alguém melhor.


Pessoas que sabem utilizar tão bem o cérebro, quanto o coração. E estão contigo, e por ti, sem qualquer obrigação!


Estas são as tuas pessoas. Fundamentais para o teu crescimento e desenvolvimento pessoal. Para que a tua inquietude seja uma característica construtiva e jamais te impeça de respirar fundo e enfrentar os desafios naturais da vida.


São, também, quem te fará aprender que aquilo que recebes não será mais do que o eco daquilo que emites. E que os locais que frequentas e o teu ciclo de influências interferem directamente com o teu astral.


Quem queres ser? Quais são os teus sonhos e metas?
Quem são aqueles que contribuem - sempre! - para lá chegares e quem são os outros, aqueles que te desviam do caminho, ou se ausentam nos momentos mais críticos?


Cabe-te a ti escolher as pessoas com quem te relacionas e saber atribuir-lhe o grau certo de importância e influência na tua vida.


Cabe-te a ti saber escutar o coração, mas é também teu dever saber ouvir as vozes certas. As que te dizem o que precisas de ouvir e não aquilo que gostavas que te dissessem.


Porque há quem por ti passe, tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.


Post para Instagram frase motivacional citação _


 


 


 


 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

O Papel da Arte e do Artista na vida e construção de uma cidade

Republico hoje uma das minhas crónicas n' O ATUAL . 


 


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A arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. É parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitando o diálogo entre os indivíduos, desde cedo, através da representação de figuras rupestres nas paredes das cavernas. Tem vindo a mutar-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a arte sempre possibilitou a aproximação entre indivíduos, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro. Mais do que isso, a arte opera a capacitação de lidar com o mundo, com o confronto e com a diferença.


Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a arte humaniza.


Limitar a arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção que nem sempre é proporcional ao talento) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, preferência, protecção, interesse ou perfilhamento é errado. Tal como é errado limitar e reduzir a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 


Do que estarei eu a falar? Difícil de entender? Talvez, para alguns.


Em primeiro lugar, a falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de uns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. Não é isso que está em causa) em detrimento de outros, persistindo as assimetrias na representação artística da região. Neste ponto, será necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.


Em segundo lugar, impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista e fechada em si própria tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não é de interesse ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte e Cultura têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


E se “sair da ilha para ver a ilha” é necessário, parafraseando Saramago, “sair da ilha para VER” é ainda mais necessário. Olhar para fora e por fora, sair, ir, vivenciar e entender a realidade externa como uma dimensão da experiência humana. Captar o que de que bom se faz noutros locais, procurar conhecer e ter contacto com iniciativas e artistas diferentes, imaginar e inovar, ousar o diferente e o novo, criar movimento e ser motor de inspiração, em nome da vida urbana, transformada e renovada, onde todos possam exercer e beneficiar do seu direito à atividade participante e à cidade, aos locais de encontro e de partilha, à diversidade cultural.


O exercício da cidadania passa pelo reconhecimento recíproco, pela afirmação e reconhecimento de grupos que ainda se mantém à margem, mesmo pertencendo à cidade, seja na procura de oportunidades para trabalhar e viver, como para conviver, disfrutar, alargar horizontes, ter acesso a programação cultural do seu interesse, mais abrangente e diversificada. A cidade deve ser capaz de garantir a liberdade de escolha, sem que isso se afigure como um factor de exclusão, e  deverá converte-se num espaço de circulação pluricultural e atrativo, onde os seus agentes, grupos, indivíduos (residentes ou visitantes) possam produzir, assistir, disfrutar, encontrar-se e usufruir das mais diversas e diversificadas áreas culturais e artísticas.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada e é dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.


A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Diferentes Pesos, Diferentes Medidas

Visto, sobretudo, como um país de emigração, Portugal tem vindo, nos últimos anos, a contrariar a tendência, assumindo-se, cada vez mais, como país de destino. O saldo migratório foi, pela primeira vez, positivo em 2017 e são cada vez mais os cidadãos estrangeiros a escolher e/ou procurar Portugal para trabalhar, estudar ou viver. Mas o país pacato e aberto, à beira-mar plantado é, por vezes, traiçoeiro para aqueles que de longe nos olham e cujo sonho parece chamar.


Numa tendência generalizada, é crescente o número de cidadãos estrangeiros residentes em Portugal (superior a 555 mil), calculando-se um acréscimo de 40% nos últimos 10 anos, embora com alterações no perfil de entrada. Segundo o Relatório Estatístico Anual sobre Indicadores de Integração de Migrantes 2021, publicado pelo Alto Comissariado para as Migrações, até ao início do século XXI a maior percentagem de solicitações de entrada seriam de natureza laboral, tendo, daí em diante, e por decréscimo das oportunidades de trabalho, sido associadas à necessidade de reagrupamento familiar e ao estudo, pese embora a realidade possa diferir entre regiões. Diferente será, também, a distribuição demográfica e geográfica das comunidades migrantes, sendo certo que, as nacionalidades com maior expressividade em Portugal são a Brasileira (27.8%), Reino Unido (7%), Cabo Verde (5.5%), Roménia (4.5%) e Ucrânia (4.3%).
Segundo dados do INE, sabemos, também, que existe uma tendência crescente das entradas de cidadãos oriundos de países asiáticos, sobretudo nos concelhos onde o trabalho provém, maioritariamente, de explorações agrícolas. No caso do concelho Beja estão identificadas 17 nacionalidades, lideradas pela Índia, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil e Angola, onde se incluem estudantes, cidadão activos e não activos.
Sabe-se, também, que a maior concentração de migrantes acontece na área metropolitana de Lisboa e que 60.5% do total de cidadãos estrangeiros a residir no país são “economicamente activos”, sobretudo em áreas como o comércio, construção civil, limpeza, restauração, distribuição e sector agrícola, em actividades que, assume o país, de outra forma “não sobreviveriam ou entrariam em colapso”.
As habilitações e remunerações verificam-se mais elevadas, em comparação com as dos portugueses, para cidadãos oriundos da EU e EUA, por oposição às remunerações dos trabalhadores oriundos da Tailândia, Bangladesh, Nepal ou Guiné. E destes, 67.7% tem vínculo laboral precário.
Segundo o INE 14.3% dos cidadãos estrangeiros serão patrões e/ou empregadores.


Situando-se a média de idades nos 37.3 anos, abaixo da média da população portuguesas, assumem, não só, estes cidadãos, um papel fundamental na eficiência do mercado de trabalho, como no atenuar dos efeitos do envelhecimento crónico da população, que se verifica há anos, a que soma o contributo para a natalidade (13.5% do total de nascimentos em 2020).
Posto isto, e à margem do populismo das medidas propostas por uns, da falsa “dignidade” defendida por outros, do sacudir ou não “a água do capote” inerente a vários ou mesmo da necessidade de se “escolher que tipo de imigrantes queremos para serem os colabores do nosso desenvolvimento”, citando o líder do PSD, importa, fundamentalmente, discutir com urgência e seriedade as políticas de imigração. Porque sim, evidentemente, Portugal precisa de imigrantes.
E não há dúvidas, segundo o Relatório Estatístico Anual 2022 “os estrangeiros assumem maior capacidade contributiva e são necessários para apoiar a sustentabilidade do Sistema de Segurança Social”, tendo contribuído, em 2021, com 1.293,2 milhões de euros, representando 10% dos contribuintes do país. E se dúvidas houvesse, no balanço entre prestações sociais e contribuições, são as segundas quem mais pesa. É, então, factual a importância do contributo estrangeiro para o “alívio do sistema e para a sua sustentabilidade”.
Por outro lado, no reverso da medalha, existe à luz da legislação portuguesa permissão para a estadia em Portugal de milhares de seres humanos incapazes de garantir o seu sustento, a viver em condições indignas e incapazes de escapar à violência da exploração laboral e humana, por ineficácia do controlo e fiscalização de entradas e das condições de vida e laborais. Vítimas das redes oportunistas, que têm nas lacunas legais a sua oportunidade de negócio, chegam-nos, todos os meses, seres humanos cujo peso da dívida, no país de origem, transcende a dureza da vida. Porque sabemos, as redes de tráfico humano são uma realidade, assim como a fragilidade destas pessoas, expostas a abusos e excessos por parte de patrões, mediadores e dos modelos de trabalho das novas plataformas de distribuição, onde o contrato de trabalho é inexistente e onde todas as responsabilidades inerentes à actividade são afectas aos parceiros, entenda-se distribuidores.



Já não fechamos os olhos, nem permitimos à classe política que os feche, às condições de habitabilidade de 37.7% da população migrante que, segundo o resultado do CENCUS, assume viver em alojamentos sobrelotados. Sobretudo desde que Odemira e Beja passaram a ser uma realidade das ruas lisboetas e que o poder governativo passou a ser confrontado com aquilo que parecia, até então, apenas ao poder local dizer respeito – quando dizia, pois, nem sempre.
O que à distância acontecia está agora demasiado perto.
Em boa verdade, e à boa vontade, é necessário que se juntem as políticas públicas de apoio, ao trabalho incansável das IPSS e às iniciativas privadas e de cidadãos singulares já existentes, criando uma estratégia concertada que permita dar melhor resposta a quem nos chega, vindo de um país diferente, de uma cultura diferente e em situações, quantas vezes, delicadas.
A responsabilidade de acolher e integrar é, também, dos organismos públicos. Assim como é sua a responsabilidade de perceber, com abertura, olhando para fora, quais as necessidades prementes e de que forma podem, estes organismos, ajudar a supri-las.



Curiosa será, no entanto, a aproximação do risco de pobreza entre cidadãos migrantes e portugueses; 20.2% para os primeiros e 19.3% para os segundos. Revelador da ineficácia das actuais políticas estruturais e sociais e da urgência em discuti-las e trabalhá-las.
E se a discussão do momento é sobre se Portugal deve ou não continuar aberto a imigrantes, sim. Mas garantindo o apoio real e necessários às IPSS, garantindo ética social, transparência na atribuição de vistos e autorizações de residência, combatendo a exploração e o trabalho clandestino e tornado (mais) dignas as condições de vida das pessoas. Porque são diferentes os pesos e as medidas quando se fala em imigração comunitária e extracomunitária, mas também sobre elites privilegiadas - reformados, investidores, trabalhadores altamente qualificados e nómadas digitais – e os demais trabalhadores de base. É necessária a discussão: como viver em Portugal, como habitar Portugal e como ser casa em Portugal?
Não somos ilhas. Somos humanos e devemos pensar como tal: global.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

"Arte, Cidades, Alma - A Conexão como Alavanca"

“Onde nos ouvimos por dentro é casa também.” – As palavras de Pedro Abrunhosa que deram início à conferência Arte, Cidades, Alma – A Conexão como Alavanca.


Por ser urgente pensar as cidades, a arte, a alma, o património e as gentes, assim como perceber e debater a sua conexão e interligação, enquanto contributo para a alavancagem e construção do novo - entenda-se, futuro – sem evitar  questionar o modo como poderemos avançar, mudar paradigmas e corrigir lacunas, sem que se coloque em causa a herança que nos foi sendo doada ao longo dos tempos, a Hall Paxis convidou, a 31 de Outubro de 2020, o músico Pedro Abrunhosa, o actor Bruno Ferreira e o jornalista Paulo Barriga para uma tarde de reflexão conjunta no auditório do Centro Unesco, em Beja.

Desafiado a conceber um paralelismo entre versos de Mário Beirão e a presente realidade, Pedro Abrunhosa colocou-nos perante aquilo que, no seu entender, nos resta depois de tudo, o futuro e a luta permanente para que a existência encontre o seu sentido. “A Liberdade, o livre arbítrio, a construção do presente rumo ao futuro”, no sentido em que a estruturação de qualquer sociedade se iniciará sempre no presente, numa óptica de continuidade, resiliência e concepção de um tempo futuro, no qual o homem de hoje já não viverá.


Por esse motivo, afirmou Paulo Barriga, que uma cidade é composta por finas camadas históricas sobrepostas, “uma caixa de ressonância dos tempos passados”, onde a “impossibilidade material da cidade” converge no encontro do património edificado “com o acto cultural e a vivência”.  Desta forma, será “a ligação entre as pessoas, as políticas culturais, o passado de mil folhas sobrepostas (passado arquitectónico, urbanístico e arqueológico) quem transforma a cultura numa Obra”, a qual se designa cidade.


No entendimento de Bruno Ferreira, “o indivíduo, enquanto ser único, desenvolve-se num ambiente multicultural, com regras, padrões, crenças, o que transforma a cultura num processo de intercâmbio entre diversos indivíduos e comunidades, formando assim uma sociedade. A cidade é um jardim, cujas flores somos nós próprios, os cidadãos” e nessa perspetiva, será sempre necessária a existência de um “jardineiro dedicado” – referindo-se ao poder local - e artistas “que não sendo flores, são as abelhas que as polinizam, permitindo que sorriam”.


Num encadeamento de ideias, Pedro Abrunhosa propôs-nos reflectir sobre a visão de Platão, “nenhum homem se basta a si mesmo”, mas também sobre a possibilidade de “duas pessoas formarem uma cidade. Onde existem dois, existe uma relação de reciprocidade e a possibilidade do acto de um interferir na liberdade do outro”- abordando com clareza a ideia Platónica da construção da cidade justa, uma Cidade-Estado que assumiria todos os valores morais, erguendo-se como a única forma de sociedade possível, segundo uma política que o filósofo definia como “arte que cura a alma e a torna o mais virtuosa possível”.


Pedro Abrunhosa desenvolve a temática: “Alma não é um conceito religioso. É um conceito orgânico. Fazem parte do homem o corpo e a alma que o habita. A cidade tem alma, porque é animada pelas pessoas, muito mais do que pela arquitectura. É a alma que caracteriza o local e o torna identitário. E a política é a arte do possível, a arte de gerir as vontades de toda a gente”. E sobre arte, “é tudo o que nos retira de um local, para nos levar para outro local diferente, que não tem que ser bonito. A arte não tem que ser bonita. Tem que nos transportar de um tempo para outro. É, talvez a par do conceito de Deus, a maior criação da humanidade”.


Já a “política é a gestão do dia a dia” e “aquilo a que hoje se assiste um pouco por toda a Europa é ao desaparecimento de cidades que, outrora, já se assumiram como grandes potências históricas, Beja é uma delas”. “As cidades perdem habitantes, massa crítica, artistas, perdem o público desses artistas, perdem quem ensina e quem aprende”, continuou Bruno Ferreira, frisando o quão importante é o papel dos cidadãos na manutenção das suas cidades e no grau de exigência para com os poderes executivos. “Seria interessante retornar ao Ágora, enquanto espaço livre de encontro e discussão” entre cultura e política, expressão máxima da esfera pública.


Concordando com a observação, Pedro Abrunhosa abordou o fenómeno das redes sociais que “fomentam o afastamento social e não a agregação social”, estabelecendo uma analogia com as palavras de Paulo Barriga, ao constatar que se assiste a uma (re)tribalização - um afastamento social premeditado, como se de tribos se tratasse, no maior retrocesso humano possível, em que os elementos de um mesmo grupo se reconhecem por características, ideias e ideais comuns, excluindo ou mantando os seus dissemelhantes. Segundo Pedro Abrunhosa, “as redes sociais só servem para gostar daquilo que já gostávamos, porque o algoritmo nos mostra aquilo que já conhecemos. A muralha à nossa volta revela-se ainda maior, porque deixamos de ter a percepção de que o outro existe. A incompreensão e a intolerância polarizam as pessoas, afastando-as cada vez mais”.


Já na recta final, e em opinião unânime, os elementos do painel defenderam que “é na cultura que os portugueses encontram razão para sustentar a sua autoestima”, tendo Pedro Abrunhosa definindo cultura como “tudo aquilo que necessita da mão do homem para existir. É o grande suporte do combate à ignorância”. E define-nos, tal como “o plástico define o século XX, porque isso também é cultura”.


Por seu lado, a arte acontece “quando pensamos em coisas que já não conseguimos colocar por palavras e nos silenciamos. Um silêncio de espanto perante uma Obra. Nenhuma língua traduz ou reproduz a emoção sentida, nem nunca será capaz de a explicar. Só explicam a arte, o silêncio e o espanto, sendo a arte o sítio para onde a linguagem escoa através do pensamento, do acto e da produção”.


Arte, Cidades, Alma – Aquilo que nos conecta.


 


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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Pequenos Artistas e os Ciclos de Invisibilidade

A Arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A Arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. Parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitou o diálogo entre os indivíduos, a começar pelas figuras rupestres presentes nas paredes das cavernas. Mutou-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística, impacto esse que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a Arte sempre possibilitou a aproximação entre o criador e o observador, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro.
Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a Arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a Arte humaniza.


Limitar a Arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, protecção, interesse ou perfilhamento, é errado. Tal como é errado limitar a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 
Difícil de entender? A falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de alguns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. E não é isso que está em causa, tão pouco o valor do seu trabalho). Persistem as assimetrias na representação artística da região, é inquestionável. Sendo necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.
Impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não interessa ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada. É dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.
A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.


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quinta-feira, 17 de junho de 2021

Sobre crise e liderança

Temos vindo, ao longo dos tempos, a adoptar um sentido de progresso linear, onde se crê que o futuro será sempre melhor do que o passado. Contudo, a nossa racionalidade permite-nos ter presente que a vida humana sempre se revelou cíclica e que, embora os progressos em diversas áreas sejam evidentes, também eles poderão ser suspensos, de tempos a tempos, como acontece em períodos de crise.


O mundo dos negócios não é absolutamente controlável. É composto por factores internos, externos e variáveis, algumas aleatórias e imprevisíveis, requerendo mentalidade e visão infinitas, por parte da liderança, assim como humildade e aceitação face à veracidade da necessidade de alteração de regras durante o jogo, consoante o seu decurso.
A capacidade de reacção às adversidades, a visão da oportunidade, o tempo de resposta, assim como a sabedoria da aprendizagem com os erros, são competências fundamentais para enfrentar a crise, contudo os resultados das organizações - em períodos de crise ou não crise - são o resultado dos contributos dos seus líderes, mas também do seus liderados. Sempre. 


Frequentemente, em alturas controversas, tentam encontrar-se bodes expiatórios a quem se possa imputar responsabilidades. Sejam eles quais forem. No limite, serão os próprios clientes um incómodo, residindo neles a "culpa" dos resultados. Isto acontece por falta de preparação para os cargos de liderança, excesso de ego, desenquadramento, falta de acompanhamento no terreno, resistência à mudança e desvalorização de sinais pré-existentes. (As crises antes de emergirem já criaram raízes).


Assumir a solidão do poder, inequivocamente, impede o contacto directo entre líder e liderados, assim como bloqueia a interacção e a percepção da realidade que se atravessa, abrindo espaço a um canal de informações, nem sempre objectivas e fidedignas, capaz de alimentar rumores e falsas permissas.


Do lado oposto, assumir a frente da batalha e dar o corpo às balas, na consciência de que é a dedicação, a vontade, o esforço e o empenho que fazem os resultados, e que trabalho é missão (mais do que o sucesso), permite uma maior consciência do estado terreno, do quadro de operações e das suas necessidades, facilitando a actuação e o rigor das medidas a serem tomadas e impostas.
Assumir que não se tem respostas para tudo, que os erros são humanos e que a ajuda das equipas é crucial para vencer tempestades, ser transparente a respeito da situação das organizações e apoiar situações de fragilidade, resultará num elo de ligação e fortificação. Porque as organizações são edificações colectivas, no melhor e no pior e, quando se é parte integrante de uma cadeia de valor, todos são responsáveis pela rapidez da sua recuperação.


Também a adopção de uma postura de protecção dos colaboradores desenvolve o respeito e a lealdade, o compromisso, o sentido de gratidão e a motivação dos operacionais em tempos adversos. Porque liderar nunca foi chefiar ou ordenar, liderar sempre consistiu em conduzir e desenvolver pessoas no presente rumo ao futuro, através do exemplo, tornando-as parte da solução e da construção do novo.
Ninguém é sozinho.


"Liderança não é sobre títulos, cargos ou hierarquias. Trata-se de uma vida que influencia outra” – John C. Maxwell.


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sábado, 27 de março de 2021

A política, o indivíduo e a sociedade

Ainda me dizem: "Vem por aqui"


Não raras vezes me advertem "não te metas na política".
Pergunto: será isso possível?
Ou até: estarão mesmo a aconselhar-me a não participar da construção social?
"Não, não vou por aí" (Referência de ao poema Cântico Negro de José Régio).


A política, quer se queira e se aceite, ou não, é parte daquilo que somos, de quem somos, estando presente de forma informal e natural nas mais diversas actividades e acções humanas do dia-a-dia.
Senão vejamos, as tomadas de decisão diárias, a definição de regras e formas de gestão da vida familiar, decisões sobre onde incidirão as reduções de custos. Mas, também, a forma como os interesses individuais, os gostos, os princípios, os valores, as opiniões e as vontades têm impacto nas relações com os outros e na comunidade onde nos inserimos.
Dito de outra forma, a política é necessária e inevitável e está presente em casa, na escola, no trabalho, na associação desportiva, na associação de moradores, no indivíduo, no Estado e na Nação.


Não será, por isso, de estranhar que, ao chamamento dos descrentes, questione: "Como, pois, sereis vós/ Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem/Para eu derrubar os meus obstáculos?"


"E nunca vou por ali"...


Já na Grécia antiga, crê-se que oito milénios antes de Cristo, aquando da formação das primeiras cidades-estado (Pólis), tenha surgido uma palavra (muito semelhante a uma outra que vulgarmente utilizamos) para designar aqueles que podendo participar activamente na vida da comunidade, se demitiam dessa participação, recusando-a: os idiotés.
Pois bem, sabendo, então, que a política é o instrumento de ação de transformação da sociedade e que é da natureza humana viver nela, não será minha pretensão ser uma idioté e negar-me a busca e pelo bem comum (dentro daquilo que considerar ser minha missão).


Sei que a política me dá (nós dá) um propósito e direcção, consoante as nossas ideias e valores, sei que, por natureza, "o homem é um animal político", nas palavras de Sócrates (o filósofo, para que não restem dúvidas) e sei-o, porque há milhares de anos que participa da vida da cidade/sociedade e se preocupa com o colectivo. Mas sei-o, sobretudo, porque desde cedo que me interessei em perceber qual seria, e como seria, o meu papel nessa mesma sociedade. Todos somos agentes de mudança, por mais pequena que ela seja, se assim quisermos.


A simples tomada de decisão de querer ser independente foi, na altura, um acto político. Arrendar uma casa, trabalhar, pagar as contas, decidir sobre quantas horas podia ter o aquecedor ligado no inverno (sendo que, na maioria dos dias não dispunha de possibilidades para o fazer), decidir sobre se bebia um café ou se comprava pão no dia seguinte, se trabalhava mais horas para conseguir mais uns trocos, ou se ia a uma festa com amigos, decidir sobre onde poderia cortar, ainda mais, para fazer face às despesas ditas essenciais como saúde e alimentação.
Da mesma forma, assumir o retrocesso e incapacidade de fazer face aos custos da independência, na situação actual em que vivemos, tendo que regressar a casa da mãe, foi igualmente uma decisão política.


O facto de ter começado a trabalhar há 12 anos, na última crise económica, e de ter vivido nela e com ela, obrigou-me sempre a esfolar os joelhos, a reinvenções constantes e, também por isso, a uma vontade crescente e incansável de ajudar e participar na mudança de paradigma, ou no melhoramento das condições de vida dos jovens (já, por diversas vezes, me ouviram o "grito"). E, de facto, gostaria de os ver mais activos e participativos, aos jovens, nas questões da nossa cidade/sociedade, que é como quem diz, não se demitindo do seu papel de cidadãos, de indivíduos políticos e do ser social.


Quanto a mim, "não vou por aí", quando me dizem "alguns com olhos doces,/Estendendo-me os braços, e seguros/De que seria bom que eu os ouvisse/ Quando me dizem: “vem por aqui”!".


Não, não está só nas mãos das novas gerações, admiti-lo é sinónimo de demissão de funções sociais, é anular o indivíduo político em direitos e deveres e, enquanto cidadãos, é aceitar a submissão às escolhas e decisões de terceiros (talvez seja mais fácil). Mas é também desistir, no presente, de lutar pelo futuro de filhos e netos (e o exemplo é contagioso).
A política tráz o futuro por dentro e está sempre ao virar da esquina, nos transportes públicos, no acesso aos cuidados de saúde, no acesso ao ensino, no direito à reforma, no direito à habitação, no direito ao trabalho, no valor do salário e nas políticas laborais, nas tomadas de decisão diárias, nos impostos e no desenvolvimento, ou não desenvolvimento, da comunidade onde nos inserimos. Está em tudo e em todos e, por isso, não só nas mãos de alguns. Tão pouco dizendo respeito apenas a outros.
Não sejamos ideotés e façamos, cada um, a nossa parte.


O perigo de não querer saber, de não se querer envolver, de não se ter interesse em participar é, sobretudo, o alheamento e a falta de conhecimento e de capacidade para discernir sobre assuntos de peso considerável nas actividades diárias do cidadão, tomando, muitas vezes, como verdadeiras realidades distorcidas, afirmações sectárias e crenças limitantes que culminam, em última instância, no embarque em fake news.


Jamais me digam para não seguir os meus próprios passos.


 

terça-feira, 9 de março de 2021

As Valas

 


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(Escrito em 2017 e republicado hoje, porque a História não se apaga nem se reescreve, de acordo com aquilo que se pretende - à data, por conveniência - que ela seja ou tenha sido. A História é o que é, é o que foi, é o que somos). 



Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da Companhia que vinha ao nosso encontro solicitava ajuda à aviação. Haviam caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo inimigo.
Foi o apelo mais dramático de que me recordo, durante toda a Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação: que se bombardeasse tudo. Incluindo a Companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável e o inimigo avançava em número bastante superior.

Quis Deus, que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de tantos outros obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não passaria de miragem. Mas seguimos. Quem a bordo das viaturas se encontrava, saltou para o chão e a coluna avançou a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.


Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos às dezenas. Menos trinta e uma vidas, das nossas.


À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos. Tantos!! Mas estes de alegria. Disseram-me, porque já não os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia.
Ali, o sangue era outro. Sangravam as nossas Colónias e cheirava a perecimento e as lágrimas, mais pesadas que todo o armamento. Lágrimas que sabiam a luto, ódio e potrefação.


Com a noite descemos às valas, que era onde se dormia, em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem, quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.


Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

(Baseado em 3 testemunhos reais, relatados na primeira pessoa).


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Aqui chegados, extraditemo-nos!

 


A propósito de um tema inflamável, e em debate público nos últimos dias, dizia Luís Pedro Nunes, no Eixo do Mal, que vivemos tempos onde o "ódio de trincheiras" é alimento das redes sociais.


E se, por um lado, é verdade que confinados a quatro paredes, com demasiado tempo livre, nos é praticamente impossível ficar indiferente aos acontecimentos que marcam a agenda mediática nacional, também é verdade que nos remetemos, nós próprios, à condição limite de permanecermos "fechados em casa a olhar para o Facebook a destilar ódio de pouca razoabilidade".
Chegados a este ponto, talvez importe questionar e/ou reflectir sobre que sociedade e cidadania queremos ter e sobre aquela que efectivamente se nos apresenta (e que integramos).


Um dos pontos críticos da democracia portuguesa, sabemos, é a falta de sociedade civil ou, mais recentemente, da sua aparição (ou deverei dizer destruição?) nos espaços "livres" de discussão, como o são as redes sociais, elevando-as a um falso estatuto de espaço de intervenção social e político.


Numa esfera impessoal, será, todavia, mais fácil dizer-se qualquer coisa, inclusivamente "coisas" que jamais se diriam noutras circunstâncias, ou no exercício de uma cidadania activa, em verdadeiro espaço público de discussão e de intervenção para o efeito. Isto acontece porque, o que realmente ali se passa, não é um diálogo presencial entre dois ou mais seres humanos, não são pessoas quem ali se apresenta, não verdadeiramente. Na realidade, há também lugar a falsas identidades.


Nesta perspectiva, engane-se quem, adoptando semelhantes posturas, considera ser um cidadão activo no exercício dos seus direitos.
Nunca as redes trouxeram à tona o melhor das pessoas, mas sim o seu pior, sem que as próprias tenham a capacidade de o avaliar e perceber. Falta empatia, igualmente necessária à democracia.


Sob o olhar atento das "almas vigilantes", rara será a notícia ou a partilha noticiosa, onde não se encontre desde o mais estapafúrdio comentário, à ofença gratuita, à difusão do ódio, passando pela mais orgulhosa opinião descabida de razão ou conhecimento (não contendo, por isso, nada de construtivo, tão pouco uma aparente solução). O ataque a tudo e a todos ganhou terreno e claro, sabemos todos, onde isto irá parar.
Certo é que quanto mais tensão ideológoca se propaga nas redes, mais pessoas nelas circulam. Assiste-se, portanto, a uma polarização da sociedade, à produção e imposição de visões vada vez mais extremistas e à difusão de fake news, bastante convenientes àqueles que têm neste campo de batalha o seu espaço e voz política.


Mas o que mais me intriga, porque me é impossível passar ao lado de um fenómeno que a todos nos arrasta para onde, na verdade, não queremos assim tanto ir, não é constatar que quem mais dispara são aqueles que mais se rebelam contra as políticas de cancelamento que lhes possam limitar a liberdade de expressão, o chamado políticamente correcto que, tantas vezes, impede que se diga tudo aquilo que se pensa (ou que nem se pensa), e ainda bem. O que mais me intriga é assistir à contradição de posturas, conforme o tema ou situação, mais ou menos favorável aos ideais com que os atacantes se apresentam em palco público. Se por um lado se defende de forma acérrima a liberdade de expressão, por outro (e não quero aqui entrar em debate sobre o tema nem o vou alimentar) condena-se à extradição um cidadão português que ousa dizer aquilo que pensa, independentemente de qual seja a sua visão/posição/razão/opinião. Não estaremos nós a fazer o mesmo? Que coerência?


Ouso dizer que, quando só se vê bem ao perto, se perdem as perspectivas e a capacidade de ampliar o campo de visão. Não se sai da ilha para que a ilha se veja, como diria Saramago. Ao invés, segue-se a direito, contra tudo e todos, incluindo o próprio, sem que seja sua a verdadeira noção de assim o ser, de assim proceder.


Citando o jornalista Daniel Olivera numa frase que muito gostei, "Liberdade sem solidariedade é egoísmo".

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Sobre Arte, Palavras, Comunicação e Relações Interpessoais e Humanas

Numa Era onde o excesso de informação tem por consequência a banalização das diferentes formas de comunicar, é importante parar e pensar na importância da comunicação (verbal e não verbal), assim como na utilidade das diferentes formas de expressão, no poder da mensagem e na sua clareza.


Assistimos, diariamente, à degradação e distanciamento de relações interpessoais e humanas, fruto da dificuldade em dialogar, interagir e criar sincronizações claras de emissão e recepção de mensagens. A capacidade de compreender, não será, nunca, menos importante do que a predesposição para uma transmissão límpida da informação, assim como a sensibilidade nunca nos tornará frágeis, se é através dela que a Arte nos chega e nasce, como forma de expressão.


Ter a capacidade de empatizar é, também, em meu entender, possuir destreza comunicativa, uma vez que, só através dela, é possível chegar ao outro, recebendo dele também.


Se é verdade, como Eugénio de Andrade tão bem escreveu, que "São como um cristal,
as palavras./Algumas, um punhal,/um incêndio./Outras,/orvalho apenas.", quererá isto então dizer que a palavra tanto ama como mata, sendo detentora de um poder transcendental. E aqui depende somente de nós saber utilizá-la.


Ter o dom da palavra, não sendo arte comum a todos, é ter em si um talento capaz de fazer passar o que tantas vezes se perde, mudo... É ter ferramentas para chegar ao outro, é ter habilidade para desmistificar, clarificar, transformar e criar ligações e conexões, mais ou menos emocionais, consoante os casos.
O mesmo acontece com outras formas de Arte, sejam elas a dança, a música, a pintura, a fotografia, a escultura...


Porque isto, de comunicar e ensinar a fazê-lo, é também uma função do Artista.
Recordo um excerto de Afonso Cruz onde escreve "Para que servem? Os artistas? Sim. Para nada. São inutilistas. E o que é que este poeta faz? Poemas, respondi eu. Para que servem? Para muitas coisas. Há poemas que servem para ver o mar.". E é exatamente para isto que servem os Artistas, não só os Poetas, para fazer ver o que tende a não ser visto. Ou, para nos levar a olhar de outra forma para aquilo que em nós, na rotina e no mundo se tornou um lugar comum.


Certo é que sem interação não existe comunicação. E esta será tão ou mais eficiente quanto mais clara e humana for.


O poder da palavra é inequívoco, mas é-o também o da Arte, na transmissão da mensagem.


Invistam mais um minuto e assistam.



 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A crise e os Millennials: Não somos os filhos do azar

[Republicação]


Muito tem sido falado e discutido, nos últimos anos, sobre os Millennials (ou geração Y), nascidos nos anos 80 e 90. Uma geração que veio ao mundo já com a tecnologia no terreno, embora incipiente - e que cresceu de mãos dadas com o seu boom de desenvolvimento. A Internet permitiu-lhes a globalização, sendo - os Y - caracterizados por ela. Muito mais abertos à aquisição de conhecimentos e partilha de experiências, foram os impulsionadores de diversas mudanças de paradigma, desde logo ao nível da consciência social e do desenvolvimento de relações, ao nível comportamental, passando pelas causas ambientais e entrando em campos como  o consumo e a forma de consumir, a visão empresarial, o mercado de emprego, o turismo, a habitação e a aprendizagem.


São uma geração, na sua maioria, muito mais capacitada e qualificada do que a anterior, com um sem fim de possibilidades e oportunidades para vingar, mas que "por azar" - como tem sido escrito em variadíssimos artigos - enfrenta agora uma segunda crise económica no espaço de doze anos. "É inédito" - outra das expressões que muito se encontra -. É, de facto, inédito, mas também comprometedor. É inédito e desolador. É inédito e, "por azar" apanhou os mesmos, quando finalmente estavam a conseguir equilibrar-se num casco desgastado e fino, depois do confronto com uma longa tempestade que lhe toldou sonhos, metas e projectos de vida.


[A nossa voz]


2008 não ficou para a história. 2008 imortalizou-se na identidade de cada um de nós, nas nossas feridas e desesperos, na amputação do futuro, na reinvenção constante que nos foi sendo imposta e dal que fomos capazes, nas lágrimas dos nossos pais (ao verem cair por terra muito do que haviam ambicionado e construído para nós, através dos seus esforços e lutas).


Nós, os Millennials, somos uma geração fadada para a reinvenção, para os desafios e para a inovação, graças ao engenho e à arte de nos desdobrarmos sistemáticamente. Porém, é nosso o fado da "geração à rasca" - ou "rasca" como também nos designaram - que se viu a braços com a era dos recibos verdes, do desemprego jovem, da precariedade de trabalho, auferindo salários substancialmente mais baixos do que a anterior geração (para as mesmas funções). Uma geração sem horários e escrava do medo de não corresponder ao que é esperado por parte do empregador, embora consciente de que 6 meses de vínculo não lhe garantem fixação. Uma geração que conhece o sabor amargo da falsa independência e dos obstáculos, quantas vezes intransponíveis, que se lhes colocam a cada nova tentativa de conquista da independência, por exemplo, na aquisição de habitação. (Se há os acomodados, há os que aos 30 anos ainda não reunem garantias essênciais para abandonar a casa dos pais, seja por falta de condições económicas e profissionais para contrair crédito, seja pelo preço crescente da habitação, ou pelos valores praticados no mercado de arrendamento).
Diz-se, frequentemente, que não colocam alma e risco naquilo que fazem e que se propõem fazer, sendo esquecidas todas as marcas que trazem, todos os tombos, todas as nódoas negras ainda visíveis e todo o receio que os domina, fruto de vivências dolorosas. Diz-se que planeiam demasiado, que não arriscam sem ponderar excessivamente, que vivem o seu presente com restrições que lhes impedem o salto... mas, e todas as quedas, faltas, carências, dificuldades vividas, cujas marcas permanecem?


Foi violento o nosso começo de vida e violento serão os próximos tempos. Se há estudos que afirmam que são precisos dez anos para superar os efeitos nefastos de uma crise, "por azar" iremos precisar de vinte, ou não estejamos a falar de duas crises extremamente violentas num curto espaço de tempo. Vinte anos de uma guerra interior e sofrida, de aflição e momentos de dúvida e privação, vinte anos de dependência de outros (hajam pais), vinte anos de incerteza, de quedas consecutivas, de precariedade, desemprego, fome, de vida adiada de futuro hipotecado. Vinte anos...


"É inédito" e não somos "rascas", tão pouco filhos do "azar". Somos a geração que nasceu da mudança e para a mudança, onde habitam sonhos, horizontes, desejos e metas... novamente comprometidos.


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domingo, 3 de janeiro de 2021

(A)final o Alentejo

 


A final do talent show português The Voice Portugal que, semanalmente, ao domingo, entra em nossas casas e nos tolhe as mais variadas emoções, acontecerá hoje, dia 3 de Janeiro de 2021. A edição do corrente ano tem surpreendido pela elevada qualidade dos participantes, mas também pelos diferentes registos que se apresentaram a concurso. E se é verdade que as interpretações na Língua de Camões não deixam ninguém indiferente, importa realçar a capacidade emotiva e de entrega dos nossos três alentejanos, Luís Trigacheiro , Miguel Costa e João Maria Freixial Baião, todos finalitas desta edição.


Carregando o Alentejo na voz e ao peito o fado, sentimento transversal a um país, o Luís tem arrebatado com a sua simplicidade e humildade, genuinamente alentejanas e carismáticas, cantando a força da identidade de um povo e das suas raízes, de forma casta, mas fulgurosa. Uma alma intensa e imensa, que já atravessou oceanos e mares, à proa das emoções com que desbrava corações, sem conhecer limites fronteiras ou divisas. Há nele o encarnar de uma vida inteira - das vozes de outrora - da Ceifeira à Mondadeira, despontadas da paixão de um peito jovem, onde luz o sonho, a palavra e o Cante.


Há no Luís um "não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como" e encanta sem necessitar de um porquê. Um brilho subtil e sincero, de luz elegante e gentil, que se entranha e arrepia, sempre que nos encanta com o respeito com que trata a Poesia de um país.


Delicias que nos chegam, também, através da cumplicidade e harmonia no jogo de vozes do Miguel e do João. Uma irmandade poética, um cordão umbilicalmente musical e emocional. Uma presença de dois, que num só se fundem no sentimento do que fazem. Uma conjugação de factores de peso, desde o chão Alentejano ao sol do Brasil, passando pelas suas (e grandes) referências nacionais e pela forma peculiar de sentir e estar em cada actuação. Tal como na vida. Melodicamente envolventes, num toque de ternura irreverente, cantam e encantam (quase) toda a gente.


Posto isto, atrevo-me a dizer que na final que se avizinha não se tratará apenas de talento, mas da tremenda ascensão do Baixo Alentejo enquanto território identitário, assim como de tudo o quanto ele encerra. As suas gentes, a sua História, o Cante, as vivências, costumes e tradições, a essência, as raízes, a humildade e humanidade, os campos, a calma, o sol e os corpos de trabalho, o pão, o azeite, o vinho e a semente da terra.


De pouca sorte, o Baixo Alentejo tem sido, ao longo dos tempos, deixado para trás, à boleia da cauda de um país. Embora valorizado pela sua pacatez, paisagens e gastronomia, os olhares descrentes nunca o souberam sentir verdadeiramente. Sementeira de sonhos e talentos únicos, a região detém um património de valor incalculável. Ou não fosse nossa aquela manifestação popular de expressão musical genuína e única no mundo, que dá por nome Cante Alentejano, reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2014.


Hoje, no palco do The Voice, vencerá, pelas vozes do Luís, do Miguel e do João, sem que para tal se tenha assumido a concurso, um sentimento que a muitos transcende, edificado por diferentes gerações ao longo dos tempos: O Alentejo.


 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Há mundo para além do mundo

Agasalhados pela ditadura da vida frenética, enquanto o tempo nos engolia pouco a pouco, fomos acreditando que nada podia parar. Nem nós. A vida comia-se rapidamente, sem pensar muito nela, preferindo a trivialidade das conversas, o fast-food visual ou os empadões de ideias feitas – que os há para todos os gostos.


A realidade foi, por nós, sendo reduzida ao que há de mais concreto, elementar e absoluto, através da subtração da nossa capacidade de a interrogar e pensar além, renunciando à liberdade – enquanto seres pensantes - da contemplação, da expansão, da transformação e da inconformidade. Abolimos, a esta mesma realidade, a soberania para ser o que é, à medida que lhe condicionámos o âmago e a síntese primordial: a substância e a alma, a transcendência e o impacto, o espanto, o pasmo, a estranheza, a surpresa, a magia e o sobressalto. No seu lugar plantámos o concreto, o racional, o objecto, o inteligível e acessível, o óbvio, o concebível e decifrável.


Ao desconhecido, negámos a entrada nas rotinas, erguendo muros físicos, espirituais, sociais e políticos, distorcendo distâncias e negando toda e qualquer oportunidade de acesso ao exterior. Encurralámos-nos, num mundo global.
Das janelas várias, abertas num espaço comum, confortavelmente distante de nós, acompanhámos mais de perto o desenvolvimento da ciência, do marketing, da tecnologia, do virtual onde nos debruçamos, curiosos e iludidos, sem medo de cair. Mas fechámos a porta às artes e à filosofia, por já não sabermos andar descalços e sentir a vida com a sola dos pés.
Sem substracto, parámos de forma sagaz e abrupta o crescimento de um outro mundo - o interno - assente na busca e na escuta do que é maior e nos supera qualquer carência e necessidade de recompensa material.


Submissos ao despotismo do tempo, fomo-nos empurrando para o fim de semana, à vida para o mês seguinte, ao coração e à alma para outro século (contradizendo a urgência com que António Ramos Rosa escrevia “não posso adiar o amor para outro século/ não posso”).
A braços com a cegueira de uma crença absoluta - enquanto o outro mundo, por dentro, se desmoronava - detivemo-nos nos versos de Carlos Tê, tantas vezes rodados na interpretação de Veloso: “Houve um tempo em que julguei/ que o valor do que fazia/ era tal que se eu parasse/ o mundo à roda ruía”.


E agora, que parámos, é nossa a percepção de que nada ruiu, excepto nós próprios, à mercê de uma ameaça invisível. Ameaça essa, que exige que se ergam barreiras e fronteiras ao contacto humano, à realidade tangível e à vida rotineira, tal e qual a conhecíamos. Ameaça essa que, por oposição, nos exige que se destruam os limites por nós impostos à realidade incorpórea (enquanto dela quisemos fugir), sob pena de não haver bote que nos salve.


Não sei se algum dia, num outro dia, terão sido muitos os que, de forma regular, experimentaram a atitude contemplativa, numa projecção larga e transcendente, através de um outro olhar – silencioso – sobre a vida. Não sei se terão sido muitos os que souberam manter uma relação profunda - de interioridade - consigo e com o mundo, encontrando o silêncio e voltando o ouvido para dentro, para que num espaço mais íntimo se pudessem descobrir. Não sei se terão sido muitos os que não recearam os caminhos estreitos e a companhia da própria sombra. Os que se interrogaram, questionaram, escutaram, observaram, sentiram e viajaram além de si, além do ser, além do óbvio. Não sei se terão sido muitos os que descobriram o privilégio e a possibilidade de visionar, ignorando os telhados opacos das mentes catastroficamente fechadas, sobrevoando-os.


Não sei. Mas se não outro dia, haverá sempre um dia em que nos veremos a tal obrigados: “só a alma convive com as paragens estranhas”. Há mundo para além do mundo.


 


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quinta-feira, 12 de março de 2020

Sobre liberdade e responsabilidade, mas também sobre quarentena, arte e reinvenção

Nós, os humanos, não vivemos sozinhos. Estabelecemos relações diariamente, vivendo em sociedade com normas estabelecidas.
Entre moral, ética, responsabilidade e liberdade importa reter a relação de complementaridade que existe entre elas. Desta forma, o Homem será sempre responsável pelos actos que pratica, com e em liberdade.
E se a liberdade pressupõe capacidade de escolha, pressupõe igualmente ponderação de riscos e competência para os assumir. O acto livre é, e continuará a ser, um acto pelo qual devemos responder e responsabilizar-nos, mas, para tal, é necessário maturidade.

Quando vivemos sobre a autoridade de um país é fácil apontar o dedo e lamentarmos as medidas mais ou menos rígidas que nos são impostas, mesmo perante um surto epidémico, onde a palavra de ordem é agir no sentido da redução da propagação descontrolada do vírus, através da aplicação de métodos de controlo.
Embora impopulares, medidas como a quarentena são necessárias e de eficácia comprovada em momentos anteriores da nossa História. E como tal, devemos respeitá-las.
Com eventos cancelados, viagens suspensas, edifícios fechados, o crescimento diário de casos de isolamento, a vida fica mais chata… mas aglomerações humanas na praia, shopping’s ou jardins também não são opção. Sim, é necessário evitar temporariamente o contacto humano, embora sejamos animais de relações.
E é aqui que recai a nossa liberdade de escolha em se ser ou não responsável, em dar ou não ouvidos à persuasão do facilitismo e em continuarmos ou não a ser hospedeiros de um outro vírus, o do egoísmo e egocentrismo, que raras vezes tememos. Não seria agora diferente. Pensar que somos, nós próprios, um risco para os demais, obriga-nos a olhar para o mundo e para os outros, ao invés de estarmos e continuarmos aqui apenas como passageiros na nossa bolha. Afinal servimo-nos dos olhos e do entendimento, assim como das situações, na óptica do favorecimento pessoal e, por isso, permaneceremos reclusos dos actos que em liberdade praticamos. Queremos ser livres, mas não sabemos sê-lo.

Por outro lado, e por oposição ao desinteresse existe o medo, que não será um comportamento tido como de menor risco. É certo que o nosso cérebro está programado para reagir de uma determinada maneira quando vivenciamos situações de grande incerteza ou stress. O lado emocional facilmente se sobrepõe ao racional, resultando, muitas vezes, em comportamentos irracionais: luta, bloqueio ou fuga. Em alerta constante, num instinto de sobrevivência, tornamo-nos igualmente egoístas, e as corridas aos supermercados enchendo carrinhos são reflexo disso mesmo. Ganha a inconsciência e o maior poder de compra... sim, não chegará para todos. Quer-se bom senso e consciência, respeito, equilíbrio e mais uma vez responsabilidade na liberdade individual.

Apedrejar autocarros com pessoas suspeitas de infecção como ocorreu na Ucrânia, ou discriminar cidadãos chineses e italianos também não será um acto responsável. Porém, vale-nos um outro lado, o da entreajuda, o da união, o da consciencialização que muitas vezes nos chega através do meio artístico, o da vontade de vencer as vicissitudes tendo por base a magia humana (que, espantem-se, existe), a bondade, o amor e o altruísmo.

Em período de quarentena, sejamos criadores e não destruidores, porque necessitaremos dessa nossa capacidade de reinvenção quando tudo isto findar. Aproveitemos o tempo para pensar, para ler, para descansar, para criar (seja qual for a nossa arte ou dom), para transformar positivamente os tempos difíceis que se atravessam, porque o mundo estagna, a normalidade tarda em retornar, mas as pausas da vida apenas nos ensinam a encará-las como oportunidades de preparação para um futuro incerto.

Encontramo-nos por aí, na esquina de um abraço musical, de um olhar poético, de um beijo fotográfico, do êxtase de uma pintura… do amor resultante do encontro entre as mãos e alma.


 


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A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...