quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Dos Nossos Pequenos Grandes Luxos

Temos vindo, enquanto sociedade evoluída, a perseguir aquilo que brilha, o que, por vezes, ofusca, a desejar a beleza e o que, por beleza, nos parece belo. Focamo-nos mais em possuir, arrebatar, alcançar e devorar do que em parar, pensar e mergulhar em nós próprios e naquilo que realmente tem significado na vida e para a vida. Preferimos trocar o que os nossos corações desejam, pelos deslumbres que nos encantam os olhos. Preferimos a aparência ao conteúdo.

Sem julgar quem abraça a dança da luxúria e a ela se entrega, como se do poder utópico para uma mudança de vida instantânea se tratasse... E sem julgar porque, no decorrer da vida, a grande maioria daqueles com quem nos cruzamos, apenas anseia fugir de si e dos seus vazios, na procura por um abrigo ou distração compensatórios, sem que possuam
a capacidade de perceber que essa é a sua maior falência.

Dessa necessidade, nasce uma outra, viciante e cíclica, a da procura constante da felicidade e plenitude no belo, na posse, no deslumbre, no valor da luxúria, no salto após salto e no devorar possessivamente tudo o quanto nunca lhes será suficiente, porque a desnutrição, essa, é profunda e prolifera do lado de dentro.
Porém, existe alimento em quem estiver disposto a fazer esse caminho. A olhar para si e por si. Existe alimento na honestidade, na nostalgia e nos sonhos, no crer e no querer, nas coisas mais pequeninas do dia-a-dia, na música que emociona ou arrebata, na viagem que preenche, no coração dos amigos que, apesar do caminho nem sempre ser o correcto, estão lá para dar mão. Existe alimento na essência, no amor, na partilha, na lágrima e na luz do olhar quando sorri, na gentileza, no abraço, no respeito e na partilha do pouco que tanto representa.

Na verdade, creio eu, a beleza mais bonita e intensa que podemos esperar da vida é a capacidade de nos conectarmos verdadeiramente com os outros e com o ambiente em redor. De nos sentarmos lado a lado ou frente a frente e, através da nossa energia e sensibilidade, conseguimos que o outro nos fale sobre os piores momentos da sua vida e o que sentiu, dos seus erros e acertos que cumpriu, do melhor e do pior de si, dos seus sonhos e ambições, assim como dos seus medos e anseios, escutando (não só ouvindo) a sua voz ora trémula, ora empolgada... ora o silêncio.

Na verdade, creio eu, a única luxúria que nos realiza é a que nos concerne a capacidade de olhar para os outros nos olhos, de sorrir com o seu sorriso, de partilhar a euforia das suas paixões e a tristeza das lágrimas, quando caem... É tomar atenção aos detalhes, tirar dos erros as aprendizagens, é ser-se integro e enriquecer por dentro todos os dias. É permitir que os outros nos toquem, não fisicamente mas mentalmente. É deixar que os outros nos tenham, e nós os possamos ter também, sem posse, mas numa outra dimensão à qual chamamos alma e coração.

E isto sim, são os pequenos grandes luxos desta nossa estranha forma de vida.

 

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Sobre o Amor...

... (nos dias de hoje)

Já quase ninguém quer amar. Quer-se apenas estar, conhecer melhor alguém ou conhecer alguém melhor; quer-se explorar algo que nos desperta interesse ou quer-se somente companhia; quer-se a aparência de não se estar só, alguma partilha (mas não uma partilha por inteiro) ; querem-se sorrisos, mas sem despertar sentimentos; quer-se conforto e segurança, mas sem se estar realmente lá. Querem-se domingos aconchegados, ou fins de semana bem passados, mas sem exceder o convívio semanal. Querem-se palavras de carinho por mensagem, mas nunca os telefonemas sem motivo a meio da noite, quando o pensamento desperta e não adormece sem matar a vontade de ouvir a voz do outro lado:
- Estavas a dormir?
- Estava...
- Liguei apenas para te deixar um beijo. Dorme bem.

Quer-se, mas não se quer... Porque amar se tornou um exercício demasiado complexo e rebuscado, exigente e sujeito a regras utópicas, regulamentado por um código de ética e etiqueta social que nem sempre se encontra ao nosso alcance.

Lê-se aqui e ali que o amor é cor-de-rosa, mágico e perfeito. Que os casais deverão comportar-se como principes e princesas, roçando a perfeição enquanto individualidades e enquanto casal.
Retratam-se as relações como tamanho brio, que qualquer discórdia de ideias deverá ser confitada para não azedar. O amor, nos dias que correm, transformou-se num prato gourmet (não sendo, por isso, servido em todas as mesas, tão pouco acessível a todos).

Mas a magia não é nem está no amor. Está naquilo que se faz do amor, com o amor e pelo amor.
Porque o amor não está no que se mostra ou possui, no estatuto social, num acto de conveniência ou na necessidade momentânea. O amor está no que se sente e se faz sentir. O amor está em se acordar despenteado e não existir preocupação em que nos vejam ao natural, está nas olheiras das noites mal dormidas, está nas preocupações diárias, ou no beijo de bom dia antes de se lavar os dentes. Está no abrigo do abraço roubado. Está em não se ter vergonha do outro, nem de parecer tolo aos seus olhos... Está na indiferença após um dia conturbado, na discórdia e na discussão, em chorar ou chamar a atenção, em enraivecer ou pedir mimo, em conversar sobre tudo e nada, ou no acto de ficar em silêncio. Está no endoidecer, no entristecer, no desencanto e desalento, na desilusão... Em todas as cedências e pedidos de desculpa (com ou sem motivo ou razão). O amor está no café e no filme de sexta-feira à noite, no presente sem motivo, numa festa ou nas loucuras conjuntas de uma noite de copos entre amigos.

O amor está no olhar disfarçado, no sorriso rasgado, no beijo roubado, na presença que nos fascina ou incomoda. Está na falta de coragem para arriscar ou seguir em frente. Está no cheiro da almofada, na camisola emprestada, na carta rasgada... Está nos segredos da madrugada...
Está no negar que em nós ele existe... e no outro também.
Está na simplicidade e é imperfeito, chegando, quantas vezes, disfarçado e sem aviso:
- Quando chegares avisa-me.
- Vai com cuidado.
- Agasalha-te.
- Estás bem?
- Gosto de te ver sorrir.
- Lembrei-me de ti.
- Como correu o teu dia?

Hoje em dia temos à disposição uma multiplicidade de opções e tentações que nos conferem vastas experiências relacionais no curriculum. Tudo se tornou demasiado fácil, fútil, efémero e igual e, por isso, pouco interessante.
Mas, por maior e mais variada que seja a oferta que a vida nos apresenta, não sei se existirá algo melhor do que adormecer nos braços (figurados ou não) do amor. E com o amor a morar em nós...

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Por dentro

Vês-me, à porta de um lugar qualquer, de olhos fechados, sentado no prolongamento dos minutos que te separam do coração.
No silêncio das mãos, que evitas estender, guardas-me em memória, num abraço quente e tardio.
Faz frio, à tua porta... coração com passagem para lugar nenhum.
Vês-me, mas não me olhas.
Claro que ainda tens medo de que eu te entre pelos olhos!

sábado, 2 de novembro de 2019

Não há vagar

Não tenho vagar para te ler,
se teimares em aparecer
entre as letras do jornal.
Nem tenho vagar para ti,
se me vieres com parcas conversas
do dia em que eu te sorri
já com a vida às avessas.
Não tenho vagar para pensar
na tua amarga semântica,
tão pouco para me deixar levar
p’las leis da tua quântica.

Já te disse, não tenho vagar!
Não te atravesses pelo caminho.
A m’nha estrada eu faço-a sozinho
não te quero a acompanhar-me.
Não. Não tenho vagar
para te olhar ao espelho,
já dentro de mim.
Gritei-te: estou bem assim!
Abri a porta e pus-te a andar.
Porque é que voltas,
quando sabes que para ti não tenho vagar?
E aí ficas. À minha porta,
na ombreira de uma vida vã.
Na esperança destroçada
de quem espera sentada
pelo dia de amanhã. 

Hoje não tenho vagar
E amanhã também não o terei.
Sempre que estive contigo
Oh tristeza,
para mim foi tempo perdido,
uma história que eu mesmo findei

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A Fuga da Intimidade da Descoberta Lenta

Apressadamente, assim queremos que seja, assim vivemos, assim sentimentos, assim nos vamos sendo. 

Já nada em nós se demora, tão pouco nós nos demoramos lá fora, nos outros, em conversas, em almoços, em trocas de ideias ou em lugares por onde passamos tão rapidamente que se esgota a paisagem em segundos. É nossa a fugacidade. É nossa a efemeridade. É nossa a pressa de não chegar a lugar algum onde possamos parar, estar, sentir, usufruir, partilhar, encontrar, conhecer, amar, dividir, somar, sonhar, viver...
Tudo acontece demasiado rápido, sem tempo para ser ou cultivar recordações. Passa tudo por passar. Também nós assim passamos, sem que impere a necessidade de nos darmos a conhecer, de parar, de nos reconhermos a nós, de nos podermos encontrar sempre que, por um motivo ou por outro, nos distanciamos do caminho. Na ânsia pelo momento seguinte, quem somos agora?

Rapidamente: assim se definem as novas relações com os lugares e com os outros.

Perdemos a intimidade da descoberta lenta, da simplicidade, do arrebatar dos sentidos, da surpresa seguinte, da nudez do momento que, imóvel, nos desnuda também. Os corpos já não se conhecem, porque é preciso partir amanhã. A alma já não amanhece, porque à luz do dia o encanto é maior. As mãos já não se entrelaçam, porque distância é segurança e o acordo não é ficar. A vida já não surpreende... Queixamo-nos, mas somos nós quem não quer ser surpreendido. Queremos, apenas, em número e velocidade, as coisas a passar e a acontecer "ao longe".

Não temos casa, nem somos casa para ninguém. Fizemo-nos apenas muros, portões fechados e fortalezas.
Não somos felizes, nem aparentamos infelicidade. Na pressa do tempo que nos consome, não somos ninguém, nem para ninguém.

Sabemos que no fim, quando o tempo escassear, aquilo que nos resta será somente a capacidade de ter estado, estar e permanecer nu perante a vida, assim como o resultado da vida em nós. Porém, perdemos ou abdicamos do tal "qualquer coisa mais que nos acrescente", como seja a possibilidade da intimidade da descoberta, aquela que poderíamos ter desfrutado nela e com ela, calma e demoradamente...

sábado, 3 de agosto de 2019

Nas contas da vida

Ao início tudo se SOMA:
os amigos, os sonhos, as festas, as experiências, as emoções, as paixões, as ambições, os vícios do que, na altura, temos por prazeres, as celebrações, os amores e desamores, os lugares…

A vida celebra-se diariamente, assim como a idade, até ao momento em que preferimos trocar a intensidade do fôlego com que apagamos as velas a mais, pela intensidade do sabor da liberdade da SUBTRAÇÃO, da paz, da alegria e do bem-estar pessoal.

Diminui o tempo dedicado a situações que, outrora, nos pesavam e nos retiravam tempo, espaço e disponibilidade mental. No patamar do "já pouco importa", o grau de importância dos nossos interesses sofre metamorfoses e tudo o quanto não nos acresce começa a perder lugar. Ao invés, aumenta o valor que atribuímos à capacidade de apreciar, de forma mais selectiva e apurada, o que de melhor a vida tem para nos oferecer.

As pequenas coisas conquistam um espaço maior e um lugar especial em nós, sendo que, até nos dias mais pequenos, se começa abrir espaço para que caiba muito do pouco que realmente valorizamos: a partilha, as boas conversas, as pessoas certas, os verdadeiros amigos, a compreensão e aceitação da sinceridade das emoções e sentimentos, os passeios, os lugares que nos fazem, os afectos, os hobbies de que gostamos, os livros de que precisamos, as músicas onde viajamos, os filmes, os jantares ou almoços onde nos demoramos o tempo suficiente para degustar o que de mais simples e genuíno a vida tem para nos oferecer.

Porque no final, quando o tempo escassear, o que nos resta é a capacidade de poder ter estado (estar e ainda poder permanecer) nus, perante o lado mais puro da vida.

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O resultado da subtração tem agora, em nós, um valor superior ao da soma.

 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Reflexão - 23

Um passo, depois outro e outro ainda, continuamente. Começar e prosseguir: é isto que traça um caminho.

sábado, 27 de julho de 2019

Devagarinho

Aproxima-te, de mansinho,
suave e devagarinho,
descontraidamente, como quem mente
ao silêncio que me consome
a alma nua.
Desfolhada que a vida me fez...
rosada tez, pétalas de saudade
que um dia vã se fez,
na incerteza da hora.

Aproxima-te, de mansinho.
Traz o dia, o sol e as manhãs risonhas.
O chilrear das aves lá fora
e o som do mundo.
A junção de todas as notas da vida
a bater na vidraça.
Aproxima-te, devagarinho
para que eu não te veja chegar
e ocupar o lugar vago, inabitado...
onde o meu peito faz leito,
e por esperança, a seu jeito,
não renúncia sonhar.

Suave e de mansinho.
Devagar, devagarinho...
Para que o soalho de sonhos não ranja
e constranja - sem querer -
as notas vivas do choro de uma criança
que compõem o amor, ao nascer.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Sou

Sou um corpo de emoções 
Desenhado por tudo o que sinto,
Limitado pelas tentações
A que não cedo, mas que pressinto.


Sou menina na minha aparência
Sou um sonho por alcançar
Sou mulher no meu viver
Sou o mistério por desvendar.


Sou frágil na minha figura
E leve se o medo perder
De assim me entregar,
Às asas do que posso viver.

Na nudez do meu silêncio,
Sou tudo o que em mim desenhei
Tudo aquilo que sinto,
Muito do que nunca direi.


Vestida nas minhas palavras
Surjo aos olhos de quem me lê,
Na transparência de uma imagem
Sou aquilo que se vê.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Levou-a o vento

Ao nascer dos primeiros raios de sol, na demora dos primeiros minutos após o toque sonolento do despertador, levantava suavemente a cabeça, levava o braço direito adiante e pressionava, de mão firme, o colchão. Rodava o rosto e comptemplava-a, timidamente, enquanto dormia.
Lentamente, fletia as pernas que arrastava até à extremidade da cama e voltava a demorar-se nela. Os olhos enamorados na pele clara de um rosto delicado, uma rosa nos lábios e o perfume que descaia, pétala a pétala, prolongadamente entre o pescoço e o peito indefeso.

Cruzaram-se a primeira vez entre as estantes de livros de uma biblioteca. Ela equilibrada num só pé, florindo num vestido azul, tentando alcançar um romance meticulosamente arrumado na última prateleira da secção de Clássicos. Ele de poesia nas mãos e tropelias no coração.

("E o Vento Levou", de Margaret Mitchell)

Ficou a vê-la sentar-se, pousando a mão no colo e fechando lenta e graciosamente o ângulo entre as pernas cruzadas. Os sapatos descairam para a esquerda e a mão subiu, abrindo o livro. O indicador flutuou linha a linha, sem que Clara levantasse o olhar. 

- Não é mulher, é poesia!  - deixou escapar - poema não escrito, versos interditos, estrofes que não serão para todas as mãos...
- Trovador? – interpelou-o Clara, sem o fitar.
- Escritor de sonetos. - Respondeu Raul.
- Sonetos são viagens ao coração. Só com ele sei ver.

(Um livro em braille).

Vinte anos se passaram e ao nascer de cada dia, Raul levanta suavemente a cabeça, leva o braço direito adiante e pressiona, de mão firme, o colchão. Roda o rosto e comptempla-a, timidamente, enquanto ela ainda dorme, clara e a seu lado, naquela fotografia:
-Foste tu quem me ensinou a ver com o coração.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Das relações humanas


Das relações humanas...

... e da sua complexidade.
Vivemos hoje num mundo veloz, absorbidos por rotinas alucinantes e sem tempo para o tempo que nos é necessário (e pedido) . À mercê de um mar de informação instantâneo e entregues à facilidade das oportunidades multiplas, assim como das ofertas diversificadas, giramos cada vez mais em torno do "eu", prosseguindo na utópica e inflexível procura daquilo que apenas possa funcionar à nossa maneira, satisfazendo-nos.
Não é por isso de estranhar que, cada vez mais, tenhamos dificuldade em nos alinhar com os demais, em encontrar pontos de convergência, em experienciar a empatia e em vivenciar a possibilidade de nos identificarmos com alguém, de sentir o conforto da verdadeira partilha (de ideias, de momentos, de vida, de paz, de bem-estar físico e emocional, dos dias curtos e dos mais longos, da gargalhada, do sorriso, das lágrimas ou de um abraço sincero, de uma conversa banal ou do mistério dos sonhos...) - nós nos outros e os outros em nós.

Perdemos a capacidade de saber esperar o tempo devido, de ser tolerantes, compreensivos, altruistas e de nos saber colocar no lugar do outro. Caímos na armadilha e somos, nós próprios, animais de apetites, gostos, quereres, prazeres, vontades, ideias, momentos, relações e emoções instanteneas. Banais, diria. Desistentes, afirmo. Apaixonados pelo facilitismo do agora.

Sem espaço para o diálogo, perde-se a capacidade de se ser humano e, por consequência, de dar a oportunidade ao outro (de ser, de se expressar, de se justificar, de pedir desculpa, de errar, de chorar, de sorrir, de sentir, de chegar a nós...). É mais fácil, e quantas são as vezes em que esta é a escolha, terminar a viagem e sair na paragem seguinte, porque, afinal, há sempre um próximo combóio.

Ou então, permanecemos sozinhos (uns sós, outros plenos) ... pela incompatibilidade social, comportamental, sentimental e ideológica; de valores e princípios.

Certo é que o relacionamento humano exige maturidade, tolerância, altruismo e respeito, tornando-se um dos exercícios mais difíceis e desafiantes da vida. Todavia, é tão certo, também, que são os caminhos mais sinuosos que nos levam aos melhores lugares.

Porque no fundo, e no final de cada dia, aquilo que todos queremos é sentir felicidade, ter por perto quem nos eleve, nos acrescente, nos inquiete e nos remexa as entranhas, nos acarinhe, proteja, faça um esforço por nos compreender, nos abrace, nos surpreenda, quem permaneça nos momentos mais difíceis e construa connosco dias inesquecíveis. Quem nos faça. Quem possamos fazer. (ou não sejamos nós a soma de tudo o quanto nos rodeia).

As relações humanas saudáveis são, muito provavelmente, a maior e mais bonita magia da vida.

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Há quem por ti passe, tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O que resta dos dias

Desaguando em silêncio,
não sou senão o que resta dos dias... 
Poeira do tempo decomposto que se devolve à terra
e me retorna,
nos incertos instantes de um poema de amor inabitado ...
Promete-me que continuarás a trazer a Primavera no peito,
para lá do sol poente
e das estradas cansadas de seguirem para lugar nenhum.
Promete-me que o absoluto dos versos que trago,
não se desviarão de ti...
Porque o caminho, esse, raramente me leva de volta a casa.

domingo, 26 de maio de 2019

Entre um instante e o adiante


Parar o tempo ou inverter as cores do céu?
Entre um instante e o adiante, ficar!
Permanecer e, por descuido, viver...
Ou direi, sonhar?
Sem demorar, estender as asas e voar
dentro do peito...
Planar.
Pousar levemente no enlace infinito do olhar...
E regressar à realidade da pressa do relógio 
que avança sem chegar... 
"a casa".


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ser

Esta manhã despertei com a voz do silêncio a segredar-me ao ouvido, numa melodia doce e calma, o significado de tudo quanto o ruído não diz. 

Pelo vidro fechado, espreitavam, suspensos pela ousadia muda em que eu lhes sorria, os sons do quotidiano adiado, da vida sem tempo que não pára, tão pouco para que seja vivida.

Esta manhã despertei e o silêncio abraçou-me, como por vezes se abraça o que se sente e não se diz. Contra o peito, onde o sonho faz leito e o coração imperfeito ressoa…

Esta manhã deixei que os meus olhos pousassem noutros olhos sem cor, lentamente e devagar, como quem lhe lê a História.
-A menina não sabe para onde ir…
-Queira aceitar as minhas desculpas, não era minha intenção transtorná-lo.
- Não sabe se caminhe para dentro e me leia o passado, ou se se mantenha parada e me observe o presente.

(sorri)

- Tráz realismo nos olhos.
- E a menina tráz sonhos. Tantos quantos as histórias que lhe poderia contar sobre lugares inquietos onde não chega ninguém.
- Talvez o senhor seja um deles…

Falou-me de si, não mais do que a duração do silêncio que trazia no bolso.
E falou-me de mim, no prazer incomum de uma conversa muda, ao jeito simples do olhar de um estranho que não julga nem se importa com o que visita em nós:
- … dos lugares misteriosos onde não chega ninguém.

(Porque por vezes sou apenas silêncio…)

 

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Ficar

Vinha do sul ou de um verso imperfeito,
da estrada que nasce para além do olhar,
da vontade silvestre, do terno desejo:
O abraço sem pressa, onde se quer ficar.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Não estou senão comigo

Substituam o Homem por poemas!
Substituam o Homem por flores e pássaros,
por sílabas doces e estrelas acesas.
Substituam o Homem…

Caminho na ponta lancinante do silêncio,
que, na companhia do conforto que o abismo oferece,
tece o gosto da noite,
à simplicidade entregue...
e segue sem perguntar se demora.
Prolonga-se branco, como o lençol que me cobre a pureza
dos sonhos descontentes onde pernoito,
afoito o medo de adormecer e não ver
a vida.

Substituam o Homem pelo vento!
Substituam o Homem pelo mar e pela lua,
por melodias e pela rua
onde, juntas, as esquinas adormecem
e despertam para sonhar.

Por vezes ouço-a, à perturbação do tempo,
cada dia mais insonora e volto a deitar-me
do lado certo do meu coração.
Aqui não estou só.
Não estou senão comigo.

Tudo ao chamamento vem:
o sol, o riso, o céu e o sabor indeciso
da viagem num olhar azul.
A semente, a ave solta, a Primavera
e a manhã revolta na janela
da simplicidade.

Substituam o Homem pelo amor!
Substituam o Homem pelo calor de um abraço,
pela pintura sem traço,
pelo afecto.
Substituam o Homem…

A mim, basta-me o espanto da flor”.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...