segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Até pensei...

Junto à minha rua havia um bosque 
Que um muro alto proibia 
Lá todo balão caia 
Toda maçã nascia 
E o dono do bosque nem via 
Do lado de lá tanta aventura 
E eu a espreitar na noite escura 
A dedilhar essa modinha 
A felicidade 
Morava tão vizinha 
Que, de tolo 
Até pensei que fosse minha 
Junto a mim morava a minha amada 
Com olhos claros como o dia 
Lá o meu olhar vivia 
De sonho e fantasia 
E a dono dos olhos nem via 
Do lado de lá tanta ventura 
E eu a esperar pela ternura 
Que a a enganar nuca me via 
Eu andava pobre 
Tão pobre de carinho 
Que, de tolo 
Até pensei que fosse minha 
Toda a dor da vida 
Me ensinou essa modinha 
Que, de tolo 
Até pensei que fosse minha.


 


Chico Buarque


 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O arroz doce da vida

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Comi o amor e bebi a saudade, num prato de mar, em frente à vida...
Comi o amor.
Quente e intenso, como se quer o café da manhã. E único, como o teu coração quando, ao cheiro do pão, se derrete pelo queijo fundido da vida.
Comi o amor e lambuzei-me. Voltei a comer e a lambuzar-me outra vez.
Doce e com canela, na medida certa, como o arroz da tua alegria.


Porque o amor, afinal, também é fazer pão com queijo e café, e servir, na dose certa em pequenas taças de alma aberta, o arroz doce da vida.


 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Breve reflexão sobre solidão social

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.


Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.


Existem várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.


A modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.


No início, viajávamos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria vida.


A palavra “ler” vem do latim “legere” e queria dizer “escolher”. Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.


Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.


É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.


Mia Couto, in “E se Obama fosse africano” 

Ela

Nunca precisarás da cor dos seus olhos, se a olhares para além deles. Nunca precisarás do contorno do seu rosto, mas sim do esboçar do seu sorriso. Não te sentirás sozinho se não ouvires a sua voz, mas sentir-te-ás sim, se não lhe sentires o coração.
Nunca te sentirás perdido mesmo que a percas de vista, se for nela que te encontras. Nem nunca caminharás só, porque a terás sempre ao teu lado.
Por vezes o vento sopra, é verdade, aproveita-o, vê como lhe remexe os cabelos e lhe toca suave a pele. Por vezes chove, mas repara como ela dança na chuva.
Nunca sentirás a sua falta, poderás sim, sentir a falta do seu coração, porque é lá que irás morar. Irás sentir muitas vezes que o silêncio fala e ouvirás nele a voz doce dos seus sonhos. Da menina que a dormir ou acordada fecha por momentos os olhos e torna tudo real. Mas nunca irás sentir a sua falta, poderás sim, sentir a falta de quem ela te fazia sentir.
E um dia vais olhar para trás, não conseguirás ver mais do que meia dúzia de pegadas, mas ela será capaz de retirar de todas a melhor imagem, do caminho os melhores momentos, conseguirá escrever a plenitude da história na estrelas e pedirá ao Sol que se ponha, apenas para a deixar a vossa história brilhar. Pedirá ao mar que cante para ti se a voz lhe falhar, à Lua que te sorria caso ela esteja a chorar e ao mundo que te proteja, se algum dia ela falhar.
E como tudo na vida tem um lado bom, é para esse que ela te ensinará a olhar. E será, desse mesmo lado, que ela permanecerá.


 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Apatia

Incorro em pasmaceira de jumêncio
sempre que se abate o silêncio
para lá da chuva que cai.
Tudo padece,
nada apetece,
a apatia envaidece
e a tristeza agradece 
o trono
à alegria que se esvai.
Entrego ao sossego, o meu corpo,
e à elegância da chuva o quem em minh’alma vai.
Sentimento silvestre que em bailado agreste,
pinta áspera e rupestre,
a decadência que me trai.

Vestir-se-á somente de memórias
o frio que, em mim, a manhã sente?
Ou mente o sol quando espreita, longínquo
e da doce e sumarenta polpa da vida
me faz crente?
Com o arco íris me enganas...

domingo, 7 de janeiro de 2018

Solidão

A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável.


 


Eugenio de Andrade

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...