Quando uma ave descobre que voa, vai ao encontro do céu. No momento em que a ave encontra o céu, descobre o motivo pelo qual tem asas para voar.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
Quando uma ave descobre que voa, vai ao encontro do céu. No momento em que a ave encontra o céu, descobre o motivo pelo qual tem asas para voar.
Sair do ninho
Um bater de asas
sozinho:
abrir o céu
anunciar os sonhos
pisar o chão,
beber no lago.
Pousar canção, no galho nú:
quebrar o tempo
despontar da noite
inclusa;
florescer por dentro
diminuir o domínio
e a punição.
Emergir do silêncio, hino:
Ode, Libertação!
E devagarinho
voltar para o ninho:
cumprir,
dormir,
sonhar,
e sair para voar
de manhã.
Agasalhados pela ditadura da vida frenética, enquanto o tempo nos engolia pouco a pouco, fomos acreditando que nada podia parar. Nem nós. A vida comia-se rapidamente, sem pensar muito nela, preferindo a trivialidade das conversas, o fast-food visual ou os empadões de ideias feitas – que os há para todos os gostos.
A realidade foi, por nós, sendo reduzida ao que há de mais concreto, elementar e absoluto, através da subtração da nossa capacidade de a interrogar e pensar além, renunciando à liberdade – enquanto seres pensantes - da contemplação, da expansão, da transformação e da inconformidade. Abolimos, a esta mesma realidade, a soberania para ser o que é, à medida que lhe condicionámos o âmago e a síntese primordial: a substância e a alma, a transcendência e o impacto, o espanto, o pasmo, a estranheza, a surpresa, a magia e o sobressalto. No seu lugar plantámos o concreto, o racional, o objecto, o inteligível e acessível, o óbvio, o concebível e decifrável.
Ao desconhecido, negámos a entrada nas rotinas, erguendo muros físicos, espirituais, sociais e políticos, distorcendo distâncias e negando toda e qualquer oportunidade de acesso ao exterior. Encurralámos-nos, num mundo global.
Das janelas várias, abertas num espaço comum, confortavelmente distante de nós, acompanhámos mais de perto o desenvolvimento da ciência, do marketing, da tecnologia, do virtual onde nos debruçamos, curiosos e iludidos, sem medo de cair. Mas fechámos a porta às artes e à filosofia, por já não sabermos andar descalços e sentir a vida com a sola dos pés.
Sem substracto, parámos de forma sagaz e abrupta o crescimento de um outro mundo - o interno - assente na busca e na escuta do que é maior e nos supera qualquer carência e necessidade de recompensa material.
Submissos ao despotismo do tempo, fomo-nos empurrando para o fim de semana, à vida para o mês seguinte, ao coração e à alma para outro século (contradizendo a urgência com que António Ramos Rosa escrevia “não posso adiar o amor para outro século/ não posso”).
A braços com a cegueira de uma crença absoluta - enquanto o outro mundo, por dentro, se desmoronava - detivemo-nos nos versos de Carlos Tê, tantas vezes rodados na interpretação de Veloso: “Houve um tempo em que julguei/ que o valor do que fazia/ era tal que se eu parasse/ o mundo à roda ruía”.
E agora, que parámos, é nossa a percepção de que nada ruiu, excepto nós próprios, à mercê de uma ameaça invisível. Ameaça essa, que exige que se ergam barreiras e fronteiras ao contacto humano, à realidade tangível e à vida rotineira, tal e qual a conhecíamos. Ameaça essa que, por oposição, nos exige que se destruam os limites por nós impostos à realidade incorpórea (enquanto dela quisemos fugir), sob pena de não haver bote que nos salve.
Não sei se algum dia, num outro dia, terão sido muitos os que, de forma regular, experimentaram a atitude contemplativa, numa projecção larga e transcendente, através de um outro olhar – silencioso – sobre a vida. Não sei se terão sido muitos os que souberam manter uma relação profunda - de interioridade - consigo e com o mundo, encontrando o silêncio e voltando o ouvido para dentro, para que num espaço mais íntimo se pudessem descobrir. Não sei se terão sido muitos os que não recearam os caminhos estreitos e a companhia da própria sombra. Os que se interrogaram, questionaram, escutaram, observaram, sentiram e viajaram além de si, além do ser, além do óbvio. Não sei se terão sido muitos os que descobriram o privilégio e a possibilidade de visionar, ignorando os telhados opacos das mentes catastroficamente fechadas, sobrevoando-os.
Não sei. Mas se não outro dia, haverá sempre um dia em que nos veremos a tal obrigados: “só a alma convive com as paragens estranhas”. Há mundo para além do mundo.

Dói-me a manhã,
a tarde e o fim do dia...
Dói-me a ausência do caos em que emergia
a necessidade da hora de acalmar.
Dói-me a madrugada acordada
e a passagem inerte do tempo
pela vida adiada,
neste chão onde me sento.
Trago na mão o calendário
das vidas, outras, que vivi...
Do presente nem diário,
procurei o obituário...
por dilação, mas não morri.
Desfaz-se em domingo, o meu peito
e lá fora nada acontece.
Arrefece-me o pensar,
embrulho-me, retalhada, na manta recatada
onde padece o meu sonhar.
Dói-me a manhã,
a tarde e o fim incerto
do deserto humano na cidade.
Dói-me.
Dói-me toda a noite o país
e, ao sol posto, a delonga mundial...
Dói-me a Europa: folha, caule e raiz
ceifada à mão,
História Universal.
Dói-me.
Afirmei, no meu último poema "Tenho sempre tantas coisas dentro da cabeça". E tenho. Coisas demais. Tantas que, por vezes, nem me chegam, mas ocupam espaço. Transporto também as inúteis, assim me vou transportando, entre uma palavra e a seguinte, entre um verso e a ultima estrofe. Entre um artigo que passou de fugida pelos olhos de alguém e outro que não terá o nível esperado de interesse para ninguém.
Vou. Com tanta coisa dentro da cabeça. Mas sempre só. As coisas, essas tantas, foram sempre a minha melhor companhia e, por conseguinte, também eu - para mim - assim me fui sendo, ao construir-me lego do saber de outros.
Momentos tenho em que não me suporto. Tão pouco ao mundo. E fico, por ali, a um canto da vida, à espera que passe, aproveitando para colocar mais alguma coisa dentro da cabeça. Chegarei à loucura. Estou certa. Mas é-me abominavelmente assustador pensar na possibilidade de não pensar em coisa nenhuma, não ter nada para dizer, ou não saber tão pouco poemas de cor. De me arrastar vazia por aí a falar do tempo, e de como vai mal o país e a vida da gente, sempre contente por nada saber. Sentar-me numa mesa de um café vazio e pegar no jornal da terra, para ver a necrologia, lamentando quem já foi e ficando contente por não ser eu quem lá se apresenta. Mas... e o que ando eu por aqui a fazer? Sempre com tantas coisas dentro da cabeça que para nada me servem, a não ser para escrever aquilo que nunca será lido, para lá das casas onde vivo (que é como quem diz, para além de quem me aperfilhou p'lo coração. E que até nem gosta de ler).
Há dias assim, em que, com tantas coisas dentro da cabeça, não sei de mim e me perco num labirinto que eu própria desenhei. Expressar não me sei, e fiquei parada, suspensa, num poema que alguém escreveu por mim também.
Alexandre O'Neil brindou-nos com "Palavras que nos beijam" de todas as formas, afirmando que a seu favor tinha "o verde secreto dos teus olhos". E dos meus, terá certamente.
Hoje, O'Neil vem, por mim, expressar o que eu não sei. E é assim que "O poeta sai de chofre, por uns tempos desalmado..."

Era um dia igual a todos os outros. E todos os outros eram, agora, iguais a todos os dias. Passavam, como o tempo empoeirado, por vezes parado, pelos ponteiros descoordenados de um relógio velho, a caminho de um lugar comum.
E eu, que nunca soube a direcção da estrada, frequentemente me encontrava, díspar, em locais contrários e diferentes das gentes a quem agora me igualei. Inútil. Improfícua. Imprestável. Só.
Era um dia igual a todos os outros, cheio de números e tarot, que todos ouviam, à excepção dos outros que partiam, porque até nisso os dias eram todos iguais: levavam, levavam... e pouco traziam.
Cheirava a café acabado de fazer e à tinta da caneta que chorava o desnorte. Doía-me a vida e sonhos de bolsos vazios.
Era um dia igual a todos os outros, em que já ninguém sorria, nem se devolvia o abraço. Restava o cansaço...
E eu, que nunca fui bússola para ninguem, nem soube caminhar de cor, era já, também, igual aos dias e a todos os outros. Permanecia... Sombra de esperança.

Pintura "Sombra de Esperança" da minha autoria
Tenho sempre tantas coisas dentro da cabeça...
a navegar, desiquilibradas, à proa
como quem voa com o mundo nos pés.
Tenho tantas coisas à rés
de um barco parado
que nunca as acabo.
Nem a mim...
que me comecei numa caneta
e nunca mais cheguei ao fim.
Tenho tantas coisas na minha cabeça
que acabei por comprar um pincel ensinado,
não seja caso de, acabado, o desenho voltar a fluir
e eu fugir atrás dele,
e ele de mim,
e eu dele e de mim, e de mim e dele
sem saber para onde ir.
Tenho tantas coisas na cabeça...
que é também minha a certeza
de que o silêncio povoaria bem melhor a noite.
Mas... há o Tom Waits e o Cohen,
o Dilan e o Paul Simon,
o Miles Davis,
o Chet Baker
e o Bill Whiters...
Os inúmeros King
e todos os Parker.
O Ray Charles,
a Etta James...
O Jazz, o Rock e o Blues!
Ahh!! Tirem-me tudo isto da cabeça
e levem de mim também os Poetas,
os Romancistas,
os Cronistas
e os Psicólogos.
Censurem o conhecimento e os Filósofos
e deixem-me só, mergulhada
na madrugada acordada,
entre pensamentos amorfos.
Ah! Tenho sempre tantas coisas...
Levem-me, por favor, a cabeça.

Pintura da minha autoria
Sou uma alentejana apaixonada pelo norte. Especialmente pelo Porto e toda a região vitivinícola demarcada do Douro. Poderia escrever sobre isso, talvez ainda o venha a fazer, mas o que hoje me faz reflectir aqui, neste espaço de partilha, prende-se com a reportagem transmitida ontem pela TVI que, espantosamente, concluiu que em termos epidemiológicos a pobreza e a educação são factores preponderantes de transmissão de Covid-19, ilustrando a questionável reportagem com uma imagem da cidade do Porto.
Após leitura do post do Dr. Rui Moreira, em resposta a esta reportagem, cuja leitura aconselho (aqui), dei por mim embrulhada numa análise reflexiva sobre o quanto a região Norte e o meu Alentejo são semelhantes nas suas diferenças. E escrevi o seguinte:
No meu tempo (e neste tempo à deriva que passa diante de si próprio e não sei a quem pertence), havia um país pequenino à beira-mar plantado. Um país tão pequenino, que era possível percorrê-lo de norte a sul em cinco horas. Mas, também, um país, por vezes, tão mais pequeno que era possível, pelo senso rudimentar de alguns dos seus habitantes, reduzi-lo a uma área não superior aos metros quadrados da sua própria habitação. Um país tão pequenino, que era possível, imagine-se, ao poder político esquecer algumas das suas regiõe, por tão diminutas, subtraindo mais um bocadinho de terra sistematicamente.
Um país tão pequenino, que a própria comunicação social ousava fragmentar ainda mais, em tempos onde o tempo já não pertence a ninguém.
No meu tempo havia um norte trabalhador, suado, historicamente abandonado, educado, resiliente, entregue a si próprio e sustentado pelo investimento privado, pela visão, persistência, insistência e acção de alguns. Existia um norte cuja história não foge à realidade da história do sul. Deste meu Alentejo à deriva e descurado, tão grande e quase invisível. De gentes que lavram o próprio pão, que trabalham o triplo para conseguir alguma coisa, de suor e lágrimas, de persistência e igual resiliência, de superação e reinvenção em circuito permanente, mas sem a sorte de igual sustento, numa escala equalitária, por parte do investimento privado. Um Alentejo onde também não falta educação, visão, nem exemplos de acção, de vontade, de revolta e superação. Um Alentejo onde o sonho é sempre maior do que a sorte.
No meu tempo havia um país onde se tiravam conclusões epidemiológicas baseadas em premissas como educação e pobreza, transmitidas na televisão.
Um país onde, quantas vezes, é a pobreza, também ela, vítima de centralização. Sim, a pobreza de espírito. Um país onde a educação seja ela cultural, política, científica, emocional, educativa ou social (baseada nos princípios que defendem os Direitos Humanos e nos pressupostos da vivência numa sociedade democrática) deverá ser acessível a todos, de igual forma de norte a sul. Sob pena de se disseminarem, por falta dela, outras epidemias sociais e cívicas, quiçá, mais perigosamente atacantes e nacionalmente contagiosas.
Porque, não nos esqueçamos, num país tão pequenino, contempla-se o umbigo em Lisboa, põem-se os olhos a norte e as costas permanecem voltadas a sul.
Não. Não é a educação, nem a pobreza.
É a pequenez cada vez mais pequenina e poderosamente centralizada, em Portugal.
É preciso escrever baixinho
e tecer devagarinho
as palavras, Ode de linho,
no tear verde de esperança.

Soleil Levant, de Claude Monet
Escrito na carne
um verso de amor e pó.
Quietas, as mãos
paralelas ao céu,
sob o ímpio véu
de um deus qualquer.
Suportável, a dor e o dó
daquela janela...
Alguém abriu a alma
sobre a rua,
com a mesma calma
com que nascem frutas fora de época.
- "É preciso que esteja perto, para que o sinta realmente longe."
Um pássaro canta
uma flor floresce
uma criança nasce
e um poema desce apressado,
salgado pelo rosto.
Alguém abriu a janela
e chora o desgosto
que trás na pele.
O sol brilhou
e aqueceu a semente
que a terra guardou,
germinando, de repente,
a saudade de quem sente
um amor que não ficou.
Pó.
Escrito na carne
de alguém
que fecha em verso aquela janela.
A Arte é múltipla. A Arte são rostos e corpos,quantas vezes anónimos. A Arte é, mas a arte faz-se. A Arte precisa de outros, que Arte não fazem, para se mostrar. E a esses, poucos lembram a existência, sempre na sombra. Vivem do trabalho que dedicam, por sinal, à Arte que não sabem fazer e são, também eles vidas, tão adiadas quanto as restantes. E os outros, que sendo Artistas não lhes é visto o rosto na televisão? Actuam em praças e para plateias de rua, em Teatros, escolas, e palcos de lua...
E ainda há outros, ditos pequeninos, que fazem os grandes parecerem maiores.
A Arte é Arte, não entretenimento. A Arte são pessoas, não egos. Arte são todos, à sua escala e dimensão. Arte não é descriminação. A Arte faz rir, faz chorar, faz pensar, faz dançar e encenar, faz gritar, faz nascer e crescer, mas também pode matar. A Arte captura e mostra, canta, mas também toca... sobretudo a alma. A Arte pinta, a Arte escreve, desenha e é ilustração. A Arte tece, a Arte cose, a Arte veste. A Arte move-se, a Arte expressa-se, molda-se, cria-se, é reinvenção. A Arte fala em silêncio, por gestos, imagens ou em todas as línguas, de formas distintas mas universais.
A Arte é, mas a Arte faz-se.
Até mesmo essa Arte dita pequenina que não escolhe onde nasce...
Desculpem-me alguns... com todo o meu respeito, mas hoje estou profundamente aborrecida.
No meu tempo havia um mundo
em tempos de outrora sonhado.
No meu tempo eu via ao fundo
o teu tempo, imaginado.
No meu tempo outro já fora,
para mim escrito passado;
no teu tempo já o meu ide
História antiga, inveterado.
No meu tempo há o teu tempo
e outro que por mim passou...
O meu tempo tem futuro
no passado que não voltou.
No tempo deles, o meu não foi
senão simples criação romancista.
Estudo de Arte, Filosofia,
quiçá doutrina Existencialista.
O teu no meu, sei lá! Não sei.
Ruas por onde nunca passei...
Poemas lidos, discos ouvidos,
comigo só, eu me cruzei.
Se no meu tempo espero o teu,
depois de outro já ter passado,
"Quem és, oh tempo?" - pergunto eu -
em horas certas, adiantado.
No meu tempo havia um mundo
que o teu mundo já não viu,
depois desse virá a História
que alguém no teu previu.
E a estes tempos e mundos
que passam, que são e virão...
une-os um só coração!
Num espaço curto de tempo,
num curto espaço de vida:
São.
AVISO: Leitura potencialmente perigosa, pela complexidade da mensagem reflexiva que se impõe.
Não aconselhável em caso de incompreensão da mensagem, via poética, que habitualmente trago.
Nodecorrer dos dias, e ao longo dos tempos, mantivemos com o “material” uma relação de dependência que, equivocamente, nos concedeu uma falsa sensação de poder, de posse ou de superioridade, como forma compensatória.
Vivendo exteriormente, para a imagem, para as rotinas e consequente recompensação, fomo-nos afastando de nós, dos nossos propósitos, daquilo que somos, do que gostamos, do que nos mantém unos, de tudo o que verdadeiramente nos impulsiona, acrescenta e atribui sentido à existência. Passámos a ser (porque também assim nos apresentamos) um determinado título, uma profissão, o vizinho do carro vermelho, o dono da empresa X, a mulher/marido de Y, o indivíduo que veste fato... mas quem somos, por trás do acessório?
A realidade que à data vivemos, entre outras premissas, veio mostrar-nos o quão frágeis e vulneráveis somos face a acontecimentos extrínsecos, incontroláveis e imprevisíveis. Veio fazer-nos pensar na insignificância do valor “material”, que em nada nos diferencia, diante de um cenário de pandemia que se abate e que a todos nos designou como alvo. Veio lembrar-nos da importância de nos questionarmos sobre três do mais importantes lugares da vida:
1 - Para onde nos dirigíamos?
2- Onde ficámos? Ou onde estamos?
3- Para onde queremos ir?
Veio fazer-nos sentir que o conforto se adquire materialmente, mas que, em confinamento, só nos confortará o que espiritualmente formos capazes de atingir (não por via religiosa), na procura pelo equilíbrio emocional. E isso não se compra.
Presentemente, desprotegidos, diante de uma ameaça invisível capaz de nos levar a nós e aos nossos, sem que exista um critério de escolha, fica o sabor amargo da impotência, perante o choque frontal com a constatação do quão verdadeiramente finitos e pequenos somos.
Resta-nos observar o mundo e observar-nos a nós. Caminhar para dentro e ser capazes de nos encontrarmos connosco, de nos conhecermos no escuro, como à semente que germina no interior da terra, em silêncio, antes de se mostrar planta à luz do dia.
Resta-nos saber olhar para o espelho e ver através dele. Não só o reflexo do presente, mas também o caminho já percorrido, para que, com firmeza, nos possamos questionar sobre o depois.
Resta-nos a esperança, feita de indignação e coragem. Indignação para que sejamos capazes de apreender o que não está bem e a coragem para que o possamos mudar o possível.
Resta-nos a criatividade e a arte da reinvenção.
Resta-nos a observação, sem somatizar a realidade circundante, uma vez que, só dessa forma, será possível reunir a energia (positiva) necessária à transformação do velho em novo.
Resta-nos a iluminação interior, conseguida através da consciência e clareza a respeito da nossa missão, assim como da conservação da vontade e honestidade do seu cumprimento.
Resta-nos ser, apenas, sem acessórios, para conseguir encontrar o caminho da superação, da libertação, do distanciamento a causas externas, mas também o rumo mais certo após a tempestade.
Porque o mundo, esse, continuará no mesmo lugar, mas a vida não.
O que ontem tínhamos por garantido (erroneamente), poderemos já não ter, e aquilo que pretendíamos alcançar poderá já não ser atingível ou real. A sociedade não será a mesma e a crise não será apenas económica, será sectorial e social, com toda a devastação e mudança que isso implica.
E se agora não é altura para nos dividirmos entre fortes e fracos, doravante prevalecerá a força interior. Essa força que vem de dentro e só cresce se ousarmos praticar o auto-conhecimento (por mais que nos assuste conhecermo-nos) . Essa força que só se revela se soubermos para onde vamos e por que vamos. Essa força quantas vezes desnutrida e enfraquecida, camuflada por aquilo que mostramos e/ou gostamos de parecer ser.
Essa força que é preciso alimentar. Essa força que não derruba ninguém, mas ajuda a levantar.
Essa força espiritual não assente no “material” nem na religião. Essa força. A força de cada um. A força de quem se é verdadeiramente.
A luz!
Espero pelo amanhã
como quem espera por outra vida,
deixando que sobre.
Espero pela manhã
como pela a aceitação da escuridão,
pela semente
que com ela se cobre,
para que brote, à luz do dia,
a magia que há-de surgir.
Espero pela hora de olhar o mundo
como se fosse a primeira vez.
Sentir que sou feita da mesma matéria
profana e prosaica
de quem nos fez,
e que a espera que desespera
se desfez... em pó de livros,
cujos versos me ensinam a cair,
enquanto espero pela hora de me levantar
e seguir caminho, sem tempo para regressar
a casa.
Espero pela vida,
como pela pressa de me levantar de manhã
e correr... correr... sem saber pelo que corro,
enquanto não morro,
enquanto só espero que o mundo se mostre
depois da má sorte a que fomos votados.
Espero pelo amanhã
como quem espera que lhe nasça um filho.
Poema reeditado, do qual me recordei após a leitura do artigo de Maria Clara Sottomayor sobre a dedigualdade social em tempos de pandemia. Um artigo cuja leitura aconselho, aqui.
Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco, que exista alguém que a mais se eleve,
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida.
Envolto no sopro de um cobertor de memórias,
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias,
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa de papel onde o coração dormita.
Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo quanto por ela passa,
por ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça,
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem senãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita.
Frequentemente largo,
o amargo cheiro das pregas vazias:
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadamos os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.
Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu, mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
e os que muito sentem vivem às portas do céu.
- Centésimo andar a contar do vale dos mortos -
Não creio que tenhamos nós mais do quele eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir,
sem sentir que, todos nós temos alguma coisa,
entre nascer e morrer, esse espaço que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos,
mas temos.
-Aqui, somos todos loucos!
Dizem eles armados; versos na mão
punhais cravados,
amores baleados
por sentimentos minados
de pura ilusão.
Ardem-lhes as dores e as sombras do passado,
secaram os jardins, anteriormente atravessados
por beijos molhados e olhares cúmplices
de um crime que só um louco viria a cometer – AMAR!
Só o rasto de pólvora da paixão e a putrefação das memórias ficou.
Cheiram a amoníaco as rosas da face, agora murchas,
e sangram os espinhos
outrora macios, se mordidos nos lábios
por desejos sábios, doravante enjeitados
pela morbidez lânguida da pele.
- Aqui somos todos loucos!
Gritam eles de armas na mão.
Assassinatos, extermínios, massacres, campos de concentração
de versos conjugados, em mares antes navegados
por sentimentos aguçados (agora renegados) e exulceração.
A última vítima do amor pela liberdade foi encontrada hoje, irreconhecível...
...Tinha um poema cravado no coração

Podemos não saber
que o vento sem idade
sopra histórias de outros tempos
para que estejamos atentos
ao que ainda nem chegou!
Podemos não saber
que Primavera só começa,
quando o Amor se atravessa,
de fronte, na ponte
em iminência de ruir...
E o que o sentir
tudo remenda,
na ordem inversa à das estações.
Podemos não saber
que o mar nos espera antes da foz,
p'las margens paradas d'encato
à voz suave do canto
da ave da manhã...
sem permanecermos sós,
nas encostas de âmbar e avelã
ao entardecer.
Podemos não saber
se é azul a cor do céu
que se anula do lado de lá d
a campânula onde existimos,
sem seguirmos para lado nenhum.
Podemos não saber
que o mundo se reveste de magia
e nos espera em harmonia
na nitidez dos sentidos
contidos, doridos, perdidos...
pelo medo de não saber
que, quando o rio abraça o mar,
aí nasce o segredo.
Podemos nunca saber.
Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...