domingo, 29 de outubro de 2023

Nos Olhos do Coração

Olhei. Olhei como se olha, vulgarmente 
ao passar por gente que nos olha, também.
Olhei e passei. Passei e voltei a olhar.
Parei. Olhei e não passei
a estrada daqueles olhos para os meus.
Fiquei. Como se fica, fortuitamente,
diante de quem por nós passa,
nos olha, nos estranha e repara
que talvez fique, também.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Raras

As pessoas distribuem-se, instantaneamente, por diversos lugares. Encontramo-las por toda a parte, mas permanecem tão raras quanto as estrelas da manhã! Raras para pessoas como eu que, no fim do dia, enquanto o mundo se agita nas suas rotinas e hábitos banais, me recolho na concha e me deixo ficar. Raras para pessoas como eu que, bivalve, me divido entre a sede do que ainda está por fazer e o desejo de me ocultar, confortavelmente, na segurança do infinito que abarco em mim. Raras...


 


Inusitada e espaçadamente no tempo, passa ligeiro e de perto alguém que me escuta, me vê, me sente e repara no que, de menos óbvio, trago em mim. Assim, levemente, sem invasão de espaço, ou intensão de que a concha se abra e se mostre nua. Retraio-me e permaneço fechada, porque são tão raras as pessoas que param e atentam.


Enraizar-me em determinado lugar, temporariamente, possa esse lugar não ser mais do que um recanto meu, é uma estrada livre para o auto-conhecimento. Porque é preciso. É preciso saber que existem lugares bonitos em nós, onde podemos e devemos parar e descansar, na nossa solidão. Porque as pessoas estão em qualquer lugar, a todo o momento, cruzando diariamente o nosso caminho e emitindo demasiado ruído.


Mas são tão raras, as outras. Essas que param, atentam, sentem e reparam que nos entendem, por lhes sermos raros, também.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Desapressadamente

Na urgência dos dias, desenvolvemos métodos de afastamento do mundo, a que recorremos quando o equilíbrio tende a desiquilibrar e a paz se anula às mãos rotineiras da mecânica da vida. Apesar da velocidade com que o exterior avança e se adianta, é minha a certeza de que é na ausência da pressa que o real acontece, se vive, se faz , se sente e se cria. Na sua presença tudo é fugaz, sem raiz ou alicerce, revogando-se no instante preciso em que deixamos de prestar atenção.


Não será sensato nem ajustado acompanhar a velocidade envolvente. Devemo-nos sim, saber segurar e acompanhar o movimento natural definido pelo nosso próprio (com)passo, respeitando as paragens necessárias, sem perder a noção daquilo que nos rodeia.


A vida é um combóio atrasado que anuncia chegar ainda antes de partir.


Até a Lua e a Terra assumem velocidades distintas no seu movimento, sem que se desconectem ou atrasem. E é assim, a diferentes velocidades, que se seguram.


 


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A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...