Vestiu a capa negra da noite
que julgou, outrora ver esquecida
no jazigo das recordações inférteis
das intempéries d'outra idade vivida.
Olhou-se ao espelho,
reflexo baço, vazio e semblante sombrio
de quem afastou de si o sol.
Reconheceu-se a ela, mas não a mim;
(menina que roubava flores no jardim)
vestia farrapos de sonhos
e tinha o passar dos anos emaranhado nos cabelos.
Sem nexo.
Apenas enleio
numa história que releio
e cujas páginas se desfolham,
como rosas
a quem não deram prosas
nem versos d'amor, com o mesmo calor
da verde esperança
com que a mão do meu coração as roubou
esta manhã no jardim.
Dispostas agora diante de mim,
cinco rosáceas de sonhos
nítidos (no mesmo baço espelho vazio),
refletem assim, ainda tenras,
as pétalas rosadas da face miúda
de quem seduziu
a espera, fantasiando possibilidades
e probabilidades
e que por isso viu,
na mesa das agulhas de marear do navio,
o ponteiro girar aos sete ventos,
entre os cardeais pontos perdidos
… e parar a nordeste.
(Era uma vez uma menina que roubava rosas de sonhos ao vento).
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
sexta-feira, 28 de abril de 2017
Rosas de sonhos do vento
terça-feira, 25 de abril de 2017
Amor à Liberdade

-Aqui, somos todos loucos!
Dizem eles armados; versos na mão
punhais cravados,
amores baleados
por sentimentos minados
de pura ilusão.
Ardem-lhes as dores e as sombras do passado
secaram os jardins, anteriormente atravessados
por beijos molhados e olhares cúmplices
de um crime que só um louco viria a cometer – AMAR!
Só o rasto de pólvora da paixão e a putrefação das memórias ficou.
Cheiram a amoníaco as rosas da face, agora murchas,
e sangram os espinhos
outrora macios, se mordidos nos lábios
por desejos sábios, doravante enjeitados
pela morbidez lânguida da pele.
- Aqui somos todos loucos!
Gritam eles de armas na mão.
Assassinatos, extermínios, massacres, campos de concentração
de versos conjugados, em mares antes navegados
por sentimentos aguçados (agora renegados) e exulceração.
A última vítima do amor pela liberdade foi encontrada hoje, irreconhecível...
...Tinha um poema cravado no coração.
segunda-feira, 24 de abril de 2017
domingo, 23 de abril de 2017
Dia Mundial do Livro
O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.
- Padre António Vieira -

sexta-feira, 21 de abril de 2017
Espero por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos,
te visse vinte e oito passos apressada.
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá (quem)barcar.
Mas acolá, onde os pássaros cantam,
onde as flores encantam
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim,
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
- enquanto te esperava do lado de cá -
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter.
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer.
Vem sentar-te nas minhas costas
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...
será fértil tudo o quanto dele beber.
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Vem Sentar-te Comigo à Beira Tejo
futuro, que se faz tarde;
e o por do sol anoitece
no limiar de um peito que arrefece
às mãos do solstício da saudade.
Vem sentar-te comigo à beira Tejo
Vem sentar-te comigo à beira Tejo,
futuro, que se faz tarde;
e o por do sol anoitece
no limiar de um peito que arrefece
às mãos do solstício da saudade.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
(...)
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(...)
Álvaro de Campos, in "Poemas"
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Apatia
sempre que se abate o silêncio
para lá da chuva que cai.
Tudo padece,
nada apetece,
a apatia envaidece
e a tristeza agradece
(o trono)
à alegria que se esvai.
Entrego ao sossego o meu corpo
e à elegância da chuva o quem em minh’alma vai.
Sentimento silvestre que em bailado agreste,
pinta áspera e rupestre,
a decadência que me trai.
o frio que (em mim) a manhã sente?
Ou mente
o sol quando espreita, longínquo
e da doce e sumarenta polpa da vida
me faz crente?
Reino de Hades
sudoríparas águas do Tejo.
Fundem-se Tágides e humanos
sem pudor, no calor do inferno.
Corpos e ninfas, mortais mitológicos
que no fulgor da carne humana,
derretem vorazmente e à viva chama
o primórdio cântico de Camões
em "fúria grande e sonorosa",
numa cama condenada ao deserto.
E o incerto.
terça-feira, 11 de abril de 2017
Reino de Hades
Letárgico olhar citadino;
sudoríparas águas do Tejo.
Fundem-se Tágides e humanos
sem pudor, no calor do inferno.
Corpos e ninfas, mortais mitológicos
que no fulgor da carne humana,
derretem vorazmente e à viva chama
o primórdio cântico de Camões
em "fúria grande e sonorosa",
numa cama condenada ao deserto.
Depois do fogo, só as cinzas.
E o incerto.
segunda-feira, 10 de abril de 2017
Passam todos por passar
Já não conheço ninguém
no entanto, a todos vejo e oiço a voz da indiferença,
quando passam. Passam todos por passar
sem olhar para quem fica,
para quem não foi,
para quem não seguiu
num passo cheio de falsa pressa
que sem entrega,
alcança lugar nenhum.
Passam todos por passar,
como as sombras com que lavaram o rosto de manhã
passaram-nas uma, duas, três vezes – ensaboadas -
na esperança vã de – destronadas - as nódoas da vida
ensanguentadas não lhes mancharem o amanhã.
Passam em linha reta, como se eu não estivesse aqui.
De mim, apenas os seus olhos se desviam;
estou roto, sujo e cansado - mesmo assim eles não viam.
Que ignorância trazem no olhar...
Luzisse eu e ofuscaria.
Mas não. Não quero que me conheçam pela luz.
Se me querem conhecer, mergulhem na mais profunda escuridão,
no lamaçal das incertezas, no pântano que me engoliu os sonhos,
no deserto onde fui abandonado e onde fuzilado,
o meu passado morreu.
Desçam à caverna e aprendam a ver no escuro.
Tropecem na lâmina afiada que vos corta e arranca – sem dó -
um bocado de carne.
(ó que imperfeito estou! A cicatriz que ficou não condiz com a beleza.)
Bem sei. São marcas de guerra.
- Mas a estética… é isso que vos causa dor? -
Cortem-se e chorem. Derramem lágrimas de dor. Sentida!
Conheçam o ardor de um peito que sufoca sem amor
e depois, renasçam.
Sentem-se aqui comigo nas escadas do metro
rotos e sujos, a descansar do peso dos sonhos que ainda carregam.
Ou será que não os trouxeram?
É isso que aqui estou a fazer, a descansar e a ver-vos passar
todos iguais uns aos outros. E vazios.
Desenganem-se. Não quero esmola.
Não sou mendigo, nem pedinte.
Sou ouvinte do amanhã.
Como me achais igual a vós?
Vós que o sois, pedintes. Precisais de sonhos, mortais!
Vinde! Sentai-vos aqui, é este o vosso o trono.
Ficai.
Eu vou fazer-me ao caminho.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
Reflexões - 12
Quantos sapatos tens e quantos trilhos traçaste?
Não mo digas, acaso sejam mais os sapatos guardados do que os quilómetros de vida por ti percorridos.
Nunca o conforto dos pés – em caminhos que não são os nossos - deverá suplantar o conforto da vida. É no desgaste das solas que o Homem se vê.
Rita
terça-feira, 4 de abril de 2017
A Escolha do Editor

Quando A ESCOLHA DO EDITOR recai sobre um artigo da nossa autoria, assalta-nos o espanto. Depois um sorriso que se alastra interior e exteriormente, exercendo sobre nós todo o seu poder, num misto de felicidade e concretização pessoal.
Quando esse mesmo artigo retrata um dos períodos mais traumáticos da Nossa História enquanto Nação, é despoletado dentro de mim um sentimento de dever cumprido que, aliado à satisfação de um bom trabalho de pesquisa, me incentiva e dá alento para continuar. Mesmo sendo alvo de alguma censura.
Um enorme Obrigado aos Heróis da Pátria
Falo do artigo As Valas, já anteriormente publicado neste blog, aqui !
A normalização como absolvição colectiva
Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...