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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Aquieta-te

Remete-te ao silêncio,
se não são de paz, as palavras.
Subjuga-te, entrega-te, aquieta-te
se alumiar não consegues e prossegues
ultrajando razões de assim não ser.
Remete-te ao silêncio do pensamento,
sem insultos,
sem julgar ou apontar, das mãos,
os dedos infusos
sem noção ou condição de acurar
o chão presente.
Dorme sobre as trevas e limpa a vidraça.
Olha para dentro, para trás, para o espelho.
Aquieta-te!
No eco do ruído desmedido
o mundo estremece e tudo acontece,
ante o nada e o que parece ser.

Palavras e punhais,
quem salvais?
Remete-te ao silêncio!

sábado, 1 de março de 2025

Consagração

Posso sentir correr os rios como um poema
enquanto explico o voo aos pássaros pensantes:
Há um céu para lá do azul
e um veleiro vazio
que aporta na etérea dor de um piano.
P'las asas sobrepostas ao perfeito,
duas mãos de artíficealagam o vento
a poucos metros de mim.
Levitam lugares por descobrir
e há uma espécie de pacto
entre o degelo e o equinócio melódico da primavera.
Debruçada sobre o monge,
a solidão arranca, às palavras, as vestes
atirando os sentidos contra o possível
enquanto, peregrino, o piano permanece no ar
imóvel...
a olhar a noite nos olhos,
ante o sossego dos Deuses.
Há um poema a nascer
e uma melodia a cortar-lhe o cordão.
A Obra é umbilical.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Segreda-me um poema ao ouvido

Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. A vida e as estações
que por nós passam e os sonhos
que trazes em bolsos de amor.
Segreda-me a pressa dos relógios
e os dias agitados que nos engolem,
a solidão da cidade e a dor de não ver ninguém.
Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. A calma e a quietude
da loucura de ficar só mais um momento,
parada, em silêncio, a olhar para ti.

Segreda-me um poema ao ouvido.
Segreda-me. Segreda-me a vida!

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Não me seduzem os velhos e hipnóticos cantares de sereia

Nunca a superfície do real me cativou. Ostentação, poder, riqueza, plateias, elites ou interesses de ordens diversas. Antes, sou atraída pelo que diáriamente construímos e alimentamos em nós, nos outros, mais dentro, em lugares mais profundos onde a vista não alcança. Laços. São eles que me atam ao que sou e me enlaçam ao que são (os demais, entenda-se). Lealdade, amor, respeito, fraternidade, confiança, amizade, solidariedade, tolerância, empatia, partilha e procura de tudo o que só esse caminho nos oferece. 
Bem sei que a superfície nos chama, mas ensurdeço para o mundo sempre que a realidade é rasa. 
O silêncio, esse, profundamente me envolve e completa. E e lá que tudo o que profundamente se sente, existe realmente.


Não me seduzem os já velhos e hipnóticos cantares de sereia.


 



 

sábado, 17 de outubro de 2020

Rastilho

O silêncio que calo
e atravesso, só...
Como um rastilho:
a noite
que me alaga o desamparo
e se senta solteira por baixo da minha janela.
Resistem as portas
à passagem de ninguém
rente aos espaços
em branco
a que ninguém ouve o grito.
Um corpo inclinado
e um fio de aço a suster o coração
suspenso.
(segurá-lo-ias?)
Um olhar apagado
e a penumbra.
Vida:
corredor que me leva a lugar nenhum...


 



 


 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Escarpas

Clandestina, a vastidão avança entre as escarpas, perturbando o ruído. Evoco o silêncio e só lhe peço que emudeça ante a canção do mar. Pelos meus atalhos, só os pés de areia descalça caminham e há um cortejo de vagas sobre os escombros do mundo.

sábado, 15 de agosto de 2020

Build the sky

 


I push the sky away
and you are running faster than the wind
all these words I can't say
hold my breath
just long enough

You promise me:
we will can fly before we hit the ground
but you pushed the sky away
And there is no way
go back there.
I'm around
running faster than fear
And I don't want to stay.

All these things we cannot speak
All these screams we cannot expel
Hold my scars just long enough
I'll heal yours
I thought about that for quite a spell:
We never asked to much
We just want to survive
Just want to feel alive.
But we pushed the sky away

You and me
Our breath like a breeze
When the sky opens
time freeze
and our fears broken
Hold me...

We will build the sky together.


 

sábado, 25 de abril de 2020

Liberdade

Sair do ninho
Um bater de asas
sozinho:
abrir o céu
anunciar os sonhos
pisar o chão,
beber no lago.
Pousar canção, no galho nú:
quebrar o tempo
despontar da noite
inclusa;
florescer por dentro
diminuir o domínio
e a punição.
Emergir do silêncio, hino:
Ode, Libertação!
E devagarinho
voltar para o ninho:
cumprir,
dormir,
sonhar,
e sair para voar
de manhã.



 


 

sábado, 27 de julho de 2019

Devagarinho

Aproxima-te, de mansinho,
suave e devagarinho,
descontraidamente, como quem mente
ao silêncio que me consome
a alma nua.
Desfolhada que a vida me fez...
rosada tez, pétalas de saudade
que um dia vã se fez,
na incerteza da hora.

Aproxima-te, de mansinho.
Traz o dia, o sol e as manhãs risonhas.
O chilrear das aves lá fora
e o som do mundo.
A junção de todas as notas da vida
a bater na vidraça.
Aproxima-te, devagarinho
para que eu não te veja chegar
e ocupar o lugar vago, inabitado...
onde o meu peito faz leito,
e por esperança, a seu jeito,
não renúncia sonhar.

Suave e de mansinho.
Devagar, devagarinho...
Para que o soalho de sonhos não ranja
e constranja - sem querer -
as notas vivas do choro de uma criança
que compõem o amor, ao nascer.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ser

Esta manhã despertei com a voz do silêncio a segredar-me ao ouvido, numa melodia doce e calma, o significado de tudo quanto o ruído não diz. 

Pelo vidro fechado, espreitavam, suspensos pela ousadia muda em que eu lhes sorria, os sons do quotidiano adiado, da vida sem tempo que não pára, tão pouco para que seja vivida.

Esta manhã despertei e o silêncio abraçou-me, como por vezes se abraça o que se sente e não se diz. Contra o peito, onde o sonho faz leito e o coração imperfeito ressoa…

Esta manhã deixei que os meus olhos pousassem noutros olhos sem cor, lentamente e devagar, como quem lhe lê a História.
-A menina não sabe para onde ir…
-Queira aceitar as minhas desculpas, não era minha intenção transtorná-lo.
- Não sabe se caminhe para dentro e me leia o passado, ou se se mantenha parada e me observe o presente.

(sorri)

- Tráz realismo nos olhos.
- E a menina tráz sonhos. Tantos quantos as histórias que lhe poderia contar sobre lugares inquietos onde não chega ninguém.
- Talvez o senhor seja um deles…

Falou-me de si, não mais do que a duração do silêncio que trazia no bolso.
E falou-me de mim, no prazer incomum de uma conversa muda, ao jeito simples do olhar de um estranho que não julga nem se importa com o que visita em nós:
- … dos lugares misteriosos onde não chega ninguém.

(Porque por vezes sou apenas silêncio…)

 

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Névoa

Há, fora do tempo, 
outro tempo que nos fazia; 
no território das horas inatingíveis,
à boleia do navegar de um veleiro
p'lo tecido azul da tarde.


À proa da névoa, em manto branco envolto,
o alongar do deserto fez-se certo em meu peito.
E p'la sombra prolongada,

morria a lua dilacerada, à noite na baía.
Não podia, porém, saber que era meu o cadáver
que ali sorria,
com a memória da lembrança adiada,
dos sonhos que ainda trazia.


Hoje, trago a roupa cansada 
da solidão deste quarto.
E os sapatos, de sola ausente, gritam
elevando-se ao silêncio das letras 
que à meia-noite me confortam, 
sempre que me vem à boca a saudade dos beijos que já não dei...
no seu travo a licor amargo
de um amor que não se cumpriu.


Heresia ou eco de um destino breve,
que cedo e agreste
a bordo de um veleiro anónimo partiu.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Encosta o teu silêncio no meu

Sei que ainda aí estás. Vestindo a ausência magoada sobre a pele de silêncios. Foi lá que nos encontrei, na ausência do ruído, depois das palavras, lado a lado sem incómodo. Dois silêncios em rima branca completos, versos soltos por escrever. Se o nosso lugar falasse, diria que nos completávamos por silêncios e nos (des)encontrávamos nas palavras.
Sei que ainda aí estás e me procuras na quietude dos fins de tarde, na verdadeira solidão das horas velhas. Podes entrar. Não fiques ao relento da vida, sob o casaco azul cansado de ombros caídos. Puxa uma cadeira e encosta o teu silêncio no meu.

Ainda há para além de ti um doce sonhar, onde descalça dancei. Um jardim por arranjar, onde flor me fizeste, e um céu melancólico por explorar docemente. Do mar negro e revolto em que te vais, recolhi as vagas vorazes que te desfizeram, e joguei-me em salvamento. Fui eu quem morreu no final, mas sei que ainda aqui vens para te encontrar nas sementes que deixei.

(Hão-de receber-nos, essas ruas da saudade, à vista de toda a gente.)

Luz em ti o que em ti fui. E escurece tudo o quanto não mais consegui ser, descalça e de alma nua… Não fiques às escuras, entra e puxa uma cadeira, encosta o teu (uni)verso no meu.
Sei que ainda aí estás e que aqui vens para te encontrar, quando todos os sons do mundo se elevam em demasia. É fácil trocar palavras, difícil é ser-se inteiro, em silêncio.

Por todos os cantos da vida esperei por quem me calasse as palavras, permanecendo.
Encosta o teu silêncio no meu. Sei que ainda aqui vens. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Lembranças: um rasgo de tinta e flores

Uma lembrança cai da estante sobre a minha mão e penetra-me a carne macia, onde ainda se entranha e remexe, se aprofunda e permanece junto ao coração.
Como castelo de cartas ao vento, assim me sinto, assim me voo – em asas de memórias inadequadas ao sossego. O som estanca e do ventre de um movimento suspenso paira o momento sobre si, permanecendo muito mais do que ele próprio. O tempo não é corrigido e eu, deformada nas dobras das horas, dos dias e das lembranças, eternizo-o. Suspenso no silêncio que inerte se faz marcha rumo a mim.
Quando a alma se deita sobre a cama de núpcias do mutismo, o mundo está cheio de mais para falar…
Cais-me, memória a memória, da estante onde me propus guardar-te. Sem nome, sem rosto, nem formas, só verso a verso: a poesia que em ti eu li --  do mar ao abismo, da flor ao tormento, do amor ao lamento.
Perco-te o mundo ao adormecer, mas ganho-me em Universo.
Resta-me que amanheça. Essa é a hora em que tudo é puro e translúcido, é a hora em que apenas a luz se move e nos reacende.

Um rasgo de tinta e flores.

As memórias são inadequadas ao sossego. 

terça-feira, 17 de julho de 2018

Reflexão -18


O silêncio não mente nem diz a verdade, não promete nem finge ser o que não é, não chora, não sorri, não ama nem pratica a indiferença, não fala e tão pouco emudece. O silêncio é-o, ao que - de uno - fica de cada instante.


 


sexta-feira, 13 de julho de 2018

Plenitude

Quero o silêncio.
Só.
A ausência plena de tudo:
do tempo e das demoras,
das angústias e das auroras,
das paredes de murmúrios pulsantes,
dos tropeços e começos,
dos encontros enviosantes
e desconcertantes memórias,
das alegorias de bandeja,
e da frívola sombra
que sobeja de mim.


Quero o silêncio
Só.
das palavras mudas,
da respiração suspensa,
da pulsação que não sinto
e do grito em que minto o meu nome.
Quero o silêncio.
Só.
O completo mutismo da quietação,
a ataraxia do coração
e a tua solidão por companhia.


Plenitude:
Para te amar, não preciso de nada além do silêncio.


 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Viagem Minha

Abro os braços na extensão da noite,
envolta no silêncio que de mim se inteira.
Ensurdece-me o rasgar de pensamentos
e cega-me, na escuridão, a nitidez de uma imagem
que me arrepia o corpo, ao recordar a viagem
vivida em ti, no suspiro de um momento.


Na passividade do céu
gritam em mim os teus contornos,
traços que a nudez da madrugada esculpiu;
E eu começo onde o toque não termina,
na submissão de um instante que culmina
no desejo com que a noite me despiu…
o coração!

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Fragmentos

Coalham, sílaba a sílaba
as palavras gastas,
como a sola dos pés que nos fez o caminho.
Na aldeia de onde vim,
o branco paz, outrora caiado,
estala agora no interior dos sonhos
que me sustentam as paredes.
Fendas abertas no pendulo do tempo.
Encostado à noite,
dorme o coração
ao relento,
no cume da montanha
onde, sem talento, arde a noite
gélida, frágil e só.

Do mar voam as cinzas,
uma a uma,
e só o silêncio navega
nas minhas entranhas ressequidas.
Já não luzem
as ondas matinais do meu cabelo
onde, para marear,
é preciso saber interpretar o sorriso das estrelas.



À deriva,
ainda por escrever,
ficaram prosas, versos e rosas
sem leito, esquecidas.
Quebradas as maravilhas,
no peito da Primavera semeadas,
nem a Alice nos salvou...
E como castelos de cartas desmoronadas
somos, senão mais,
e de volta ao início,
fragmentos do tempo
e dos lugares vazios onde sempre estivemos.


 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Trapézio

Roçou o vento no trapézio,
quando seguia, já em pontas,
a subtileza do passo
no equilíbrio da vida...
Tombou e ficou
a dor das feridas lambidas,
quantas vezes caladas,
quantas vezes escondidas...
quantas mais vezes ardidas no ruído ensurdecedor do silêncio.
Solas gastas, pegadas despidas.
Noites soluçadas,
manhãs esquecidas, p'la calçada adormecida de sonhos...
Ao virar da rua deserta,
vinte e oito escadas para lado nenhum.



(Ainda ontem lá estava o trapézio...)


 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Silêncios

Há nos meus lábios cansaços 
do parco significado das palavras
ditas a vermelho
em frente ao espelho,
já sem reflexo e vazio de mim.
Não me é o bastante, a cegueira.
É-me mais que precisa a surdez
e a total insensatez, para as tomar de vil maneira
que não me assalte a memória
o tom sangrento dos teus lençóis de cetim.
Foi neles que sucumbi
refreada pelo batom carmim
que degustavas, mas não sentias,
com que eu falava e tu não ouvias,
morrendo o sonho entalado
entre os lábios que mordias.


 


Desgastada, ganhei nos lábios cansaços 
enjoados do cheiro das palavras moribundas
que enterrei no teu jardim
prevendo o fim, de uma semente que não germinou
e se calou, rendida ao silêncio que se ajustou
e se moldou perfeitamente a cada quadrante de mim,
trazendo-me a liberdade para ser quem realmente sou.

(Só o silêncio se ajusta perfeitamente a cada coisa).

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...