sexta-feira, 18 de março de 2022

Para que servem os Poetas?

Penso. Penso, por vezes,
que é melhor adormecer
do que estar assim...
Na estante só, de pó carregado
de enviosado entre outros tantos.
Penso, vezes demais,
que é melhor dormir
entre os marginais
do que ser Poeta.

Digam-me!
Mas digam-me com força na garganta
e olhar de quem arranca
à pele o último bocado:
Para que servem os Poetas em tempos de catástrofe?
Catastróficamente pensantes,
entediantes,
desinteressantes,
balbuciantes
e mal cheirosos.

Não sei, digam-me!
Vós que lhes cantais e acompanhais a indigência,
sem resistência:
Para que servem os Poetas
se não para escrever o que não vemos,
tão poucas vezes compreendemos
e quase enlouquecemos p'la ousadia de entender?
Falam barato e não se ouvem
para além da boca de quem os lê.
Nem se vê, tão pouco, a roupa que trazem no corpo;
casaco às riscas
malabaristas que são no seu dizer,
pelo que julgo saber, através daquela estante.
Não. Não me aproximo!
Não me vá cair no cimo da catástrofe
a ordem natural dos valores.

Poetas! Ai Poetas!
Pois deixem-me ser eu a rir
antes de ir dormir,
ante este mal que é pensar.

Poetas. Mas para que hão-de servir os Poetas?

É melhor não querer saber,
do que tentar adormecer
com um Poeta em meu lugar.

Não. Não servem mesmo para nada, os Poetas.

sábado, 5 de março de 2022

Nem sempre vencer batalhas significa vencer a guerra

 

A Rússia, sabemos, é mais forte em armamento, é sua a supremacia aérea, gozou do factor tempo, ganho inicialmente, mas perdido à medida que se movimenta e infiltra no interior da Ucrânia (a morosidade das colunas de abastecimento militar fragilizam a resposta Russa e determinam a vulnerabilidade das tropas no terreno), poderá conseguir controlar e dominar cidades ou partes do território Ucraniano, como temos assistido, mas… não conseguirá, me parece, segurar o território conquistado. Não por muito tempo. Não contra a união soberana de forças de um povo.

Primeiro, porque não se preparou para a resposta imprevista do Ocidente, no apoio à Ucrânia. Esse Ocidente que, aos olhos da Rússia, sempre se preocupou mais em olhar para si próprio, de forma individualista, do que em falar a uma só voz, unanimemente. Apesar da certeza de Putin de que não existira intervenção da NATO em território Ucraniano, muito por receio de uma rápida escalada do cenário para guerra nuclear. Certeza essa que levou a outra, a de que a Europa empurraria as trincheiras do conflito para o interior da Ucrânia. Depois, porque teve por garantida a dependência ocidental de petróleo e gás russos, o que, à partida, limitaria a probabilidade de países como a Alemanha assinarem sanções pesadas contra o regime russo. E claro, não ponderou a possibilidade de um boicote económico à Rússia. Mas aquilo para que Putin verdadeiramente não se preparou, nem se conseguiria preparar, chama-se resistência da Sociedade Civil, quando, um pouco por todo o mundo, se levantam vozes manifestamente contra a invasão da Ucrânia. Até mesmo no seio do país invasor, onde os militares não são excepção.

O patriotismo e nacionalismo dos cidadãos Ucranianos, na defesa do seu território, tem sido uma lição para todos nós. A resistência, a resiliência, a força e o esforço (sobre)humano, contra um colosso e a barbárie, contra a anulação de um direito básico, a autodeterminação dos povos. E é aí que a guerra se ganha ou se perde, não nas batalhas.

É aí que o Homem se vê.

 

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