Penso. Penso, por vezes,
que é melhor adormecer
do que estar assim...
Na estante só, de pó carregado
de enviosado entre outros tantos.
Penso, vezes demais,
que é melhor dormir
entre os marginais
do que ser Poeta.
Digam-me!
Mas digam-me com força na garganta
e olhar de quem arranca
à pele o último bocado:
Para que servem os Poetas em tempos de catástrofe?
Catastróficamente pensantes,
entediantes,
desinteressantes,
balbuciantes
e mal cheirosos.
Não sei, digam-me!
Vós que lhes cantais e acompanhais a indigência,
sem resistência:
Para que servem os Poetas
se não para escrever o que não vemos,
tão poucas vezes compreendemos
e quase enlouquecemos p'la ousadia de entender?
Falam barato e não se ouvem
para além da boca de quem os lê.
Nem se vê, tão pouco, a roupa que trazem no corpo;
casaco às riscas
malabaristas que são no seu dizer,
pelo que julgo saber, através daquela estante.
Não. Não me aproximo!
Não me vá cair no cimo da catástrofe
a ordem natural dos valores.
Poetas! Ai Poetas!
Pois deixem-me ser eu a rir
antes de ir dormir,
ante este mal que é pensar.
Poetas. Mas para que hão-de servir os Poetas?
É melhor não querer saber,
do que tentar adormecer
com um Poeta em meu lugar.
Não. Não servem mesmo para nada, os Poetas.

