terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Por todas as ruas

Nunca dediquei poemas a ninguém,
ao invés disso escrevi-os, 
de tal ordem que pedi que lhe cantassem a desordem
expressa naquela cadeira, onde me sento,
carpideira, desde o principio do mundo.

Às vezes, confesso, não tenho assunto
e ali fico, visita de Poeta moribundo
ignóbil, vil, asqueroso e sujo
como o Amor que nunca cantei.
Imaginei, porém, pura, digna, sobranceira e nobre,
sob o véu casto da Poesia que me cobre,
que percorria contigo todas as ruas do coração.

Pois não.
Nunca dediquei poemas a ninguém,
salvo a quem quero, de mão dada
e de soslaio, olhar embaraçada,
sob a vontade endiabrada
de lhe colher o sol do peito.
E se, por defeito, nenhum outro poema te for feito,
capaz de mim,
espero por ti aqui,
neste verso onde me deito
inábil, inútil, incapaz e sem jeito de te dizer:

Quero andar contigo de mão dada por todas as ruas.

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Trivial

Estamos todos abastecidos de solidão.
A trivialidade da morte
num jogo de sorte,
num golo de vida.
Subindo o presponto,
do indivíduo,
à bainha por fazer:
memórias.
O regresso à tardinha,
aos cheiros que a vida tinha
aos reencontros por fazer.
A rua a descer
direita ao bar
habitualmente vazio,
dois tostões na mão:
preço do coração que se traz.
No copo,
saudades de quem ainda não se conhece
e do lugar onde amanhece
sem nunca termos lá estado.
Distopicamente:
calado, o silêncio preenche
a casa inacabada que se traja.
Construção empírica e pilares de ferro
racionalmente fundido:
descrente ao nascer,
dogma defendido ao envelhecer.
Transcendente
autista
demente
alienado
estranho
fechado:
o Poeta permanece
sem nunca se concluir.
Paredes por subir,
telhado não tem,
às estrelas
é o chão que as sustém,
porque o céu nunca chega...
E quando chega é sempre cedo demais.

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

Os outros, nós e a empatia

🖊 Estranhos são os tempos que atravessamos, onde a capacidade empática parece assumir o comando das habilidades a desenvolver, para que nos mantenhamos à tona e possamos auxiliar outros nesse processo.

Falar de empatia é, muito provavelmente, falar de uma das funções mais importantes da inteligência humana, intimamente relacionada com a maturidade de cada um e com a gestão das emoções.

Ser empático é poder usar a capacidade de abertura para conhecer a realidade do outro e conseguir intepretá-la, assim como compreender tudo o que é comunicado e expresso através de palavras, ou de formas de expressão não verbais. Não é necessário que se tenha, em algum momento, experienciado, sentido ou vivido um capítulo idêntico, é apenas necessário estar disponível à conexão.

Sem praticar o julgamento precipitado, um ser empático procura auxiliar e compreender o comportamento alheio, em fragilidade, conseguindo estabelecer entre o próprio e o outro um equilíbrio entre aquilo que dele se espera e aquilo que esse alguém lhe poderá, efetivamente, oferecer. Colocar-se no lugar do outro, por outras palavras; o que não é tão fácil quanto possa parecer, embora nos seja, diaria e repetitivamente, imposto.

Ao longo da História, a humanidade sempre evidenciou dificuldade em lidar com a diferença, criando, nas sociedades onde se insere, lugares cativos que crê serem apenas destinados a outros, desde logo às minorias. Por consequência, tanto a alteridade como a empatia, por serem habilidades complexas com necessidade de desenvolvimento e trabalho ao longo da vida, dão lugar à facilidade e à necessidade recorrente de classificar cada qual nesse seu lugar diferente.

E que lugar é esse? É o lugar dos fracos, da mulher, dos pretos, dos brancos, dos homossexuais, dos inválidos, dos inteligentes, dos menos dotados, dos doentes, dos loucos, dos diferentes - resida a diferença naquilo que for.

Para que nos seja possível a colocação num outro lugar, que não o da nossa situação e condição, é-nos absolutamente necessária a abertura, a consciência e a racionalidade. Sem elas nunca nos será possível o auxílio, a compreensão de comportamentos, sentimentos e emoções.
Com clareza, não nos será possível saber nada a respeito de experiências que não foram por nós vivenciadas. Todavia, será sempre possível estar disponível a acolher e ouvir a experiência do outro, permitindo que a pessoa se mostre como é e seja quem ela é, aceitando que os resultados das acções e das experiências dependem de vectores diversos com influência no nosso caminho e não apenas de factores individuais, como a responsabilidade pessoal e a determinação.

E se fosse contigo?

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Alma

Traz a alma na ponta dos dedos
e ao peito o mundo.
A nota que rasga a palavra,
entre os vagarosos silêncios
de uma guitarra
que, ao longe, toca baixinho.
Fluem cores no horizonte
e um cego vê para lá de um muro.
O ruído cessa
o mundo abranda
e a música abraça a esperança
que enlaça
o voo tingido de uma borboleta
a quebrar o casulo.
A vida
a viagem
a passagem
e o poente, de um sol dedilhado
que descai, persistente
sobre o regaço do mundo.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...