quinta-feira, 28 de maio de 2020

Vezo Cotidiano

Giramos. Todos os dias rodamos sobre nós próprios. Dia e noite, noite dia, ciclicamente enquanto a terra não nos devora e o disco que somos não deixa de se ouvir.
Ouvimo-nos?
Giramos...
Observamos quem gira em redor.
Giramos...
Voltando sempre ao início da faixa exordial.
Rodamos sozinhos, nesta solidão rotineira que nos consome, apenas fazendo sentido quando nos cantam, quando nos tocam, quando nos ouvem, quando nos sentem.
Giramos em roda viva reinventada, desde o nascimento até à morte. Esse é o espaço que somos.
E tocamos. Tocamos até que o cansaço nos vença, que a vida não passe de um vinil riscado, que as notas percam o sentido e nada mais em nós ecoe que não o desgaste.
Ou tocamos harmoniosamente, rodopiando para sempre no coração, espaço-casa, de quem seja capaz de dançar por nos ter.


Do imediatismo da vida, valha-nos quem nos aconchegue os acordes desta ádvena existência.


 

domingo, 17 de maio de 2020

A vida no gerundio

Caminhando...
Acção ininterrupta, a dinâmica a acontecer, o caminho a cumprir-se passo a passo.
Mais ou menos veloz, menos ou mais lentamente, no seu tempo, no próprio passo, no ritmo mais adequado a cada momento.
É importante persistir e aprender a apreciar o compasso da vida, mesmo que, a dada altura, tenhamos perfeita consciência de que ainda não é por ali, mesmo que seja necessário saltar ou encurtar etapas, prolongar outras ou demorarmo-nos um bocadinho mais numa dada travessia. Ter consciência da direcção certa será meio caminho para alcançar aquilo a que nos propomos.
Ir caminhando, porque caminhar, no gerundio, leva-nos lá, ao lugar onde é necessário ir, onde é necessário estar ou que nos é imprescindível conhecer para poder continuar.


Situações há em que outos se deslocam na mesma direcção, contudo, nenhuma jornada é igual e nenhum caminho se faz de forma similar. Olhar para a esquerda e para a direita, durante o percurso, apenas nos fará desviar o foco da estrada, dos passos e do horizonte (que existe para que não deixemos de caminhar).


Aprender a apreciar a viagem e ir caminhando é tão ou mais importante do que trabalhar a destreza, a rapidez e a agilidade, na medida em que serão, também eles, parte da preparação para a chegada. Seja qual for a viagem que se faça, o mais importante será sempre o caminho e a forma como nele caminhamos.


Não é a vitória ou a derrota, é o esforço. Não é o primeiro ou o último, é o empenho. Não é a rapidez ou a demora, é a precisão. Não é o melhor ou o pior, é a entrega. Não é o timing é a dedicação. Não são as circunstâncias, é a vontade. Não é a sorte, é o trabalho. Não são os outros, és tu!


Gosto do gerundio das coisas acontecendo...

terça-feira, 12 de maio de 2020

Quando uma Guitarra se Cala

"Quando uma Guitarra se Cala" é um Fado com letra da minha autoria, composição musical do fantástico músico bejense João Nunes e com voz da doce e talentosíssima fadista bejense Mafalda Vasques.


Escrito em homenagem ao meu Avô Goinhas Palma, também ele fadista e guitarrista, o Poema esteve três anos na gaveta, na espectativa de uma eventual possibilidade de ser musicado. Foi talvez, por meia dúzia de vezes, pela brava vontade que havia em mim de imortalizar a homenagem possível, apresentado a outros músicos, sem que o interesse desse frutos.


Uma noite, naquelas madrugadas longas num bar da cidade, ao som de um Blues, o João pergunta-me sobre a minha escrita e eu, em jeito de desabafo, digo-lhe que escrevo muito mas não imortalizo nada e que era sonho meu ver alguns Poemas musicados. Pediu-me que lhe enviasse dois ou três para apreciação. Nessa mesma semana compôs o néctar melódico que haveria de ser cantado pela voz celestial da Mafalda.


Ontem lançado, espero que o sintam. 


Avô, é teu ❤️



Quando eu era pequenina
À sombra do teu olhar
Foi de sol a minha sina
E todo o verso que rima
Ao ouvir-te dedilhar...

Foram acordes p'rá vida
Essas notas que tocavas
Com a paixão desmedida
D' uma alma florida
Desse jardim que amavas...

Nas cordas d'uma guitarra
D'outros tempos que vivi
Quantas vozes despontadas
Dessas cordas dedilhadas
Cresceram como eu cresci...

E se vou ao coliseu
Para ouvir cantar o fado
De quem contigo cresceu,
Pressinto vindo do céu
Esse orgulho redobrado...

A guitarra já não toca
E tornou-se em mim saudade
Mas quando alguém bate à porta
No meu sonho o que importa
É que chegues, mesmo tarde...

quinta-feira, 7 de maio de 2020

terça-feira, 5 de maio de 2020

Desconfinamento


Vamos, devagarinho, no gerundio dos dias, caminhando... 
Para que a pressa não nos interrompa a acção.


sábado, 2 de maio de 2020

Evidência

Não se deve acordar demasiado cedo
para o sossego da tarde...
Apertar flores contra o peito
como se fosse de cheiro a saudade.
Não se deve resgatar o abandono
ao reencontro,
se o lugar de onde voltamos
não é o mesmo para onde partimos
antes de começar
a perder a elementaridade das coisas.
Porque o maior decoro é não ter passado
e não acordar de manhã, demasiado cedo,
para o encontro da tarde
em nós.


 



 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...