quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar
onde, na sombra, os detalhes se ensaiam,
os elementos se vestem de harmonia
e onde todas as ruas parecem regressar
ao segredo.
Há quem nos sorria,
entre frestas de portas e mesas vazias,
quando o olhar frágil se demora,
sobre o aroma nu do sopro na chávena  de café.
Revelação, incompreensão e a certeza
de se estar demasiado perto do peito...
sem jeito de afastar a cadeira
e trocar de lugar com um desconhecido.

Há uma flor a nascer na calçada,
e um quarteirão de luar distancia a cidade.
Eu bebo o primeiro café
e tu deves estar a chegar:
O que é improvável também acontece.

domingo, 31 de julho de 2022

I see blue

I see blue
in your fading face...
two hands are open
and the street lights are broken
In the middle of the night.

I see blue
where the wild fire burns
above the window.
Is narrow...
and you walk on the road of no return.

I see blue
on people's shoulder
looking for rescue in everyone,
looking for home in every town,
but their souls are nowhere to be found.

I see blue
in the round ring of their lifes,
when time runs in a circle
and a last mantle keep their apart.
Where's the heart?
I see blue.

I see blue
but I'am blind...
I'm looking for a fading star
on the ground
It's on my mind?
I've been painted the sky
on the streets' floor of this town,
while I saw blue...

Blue

 

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Linhas Cruzadas



Às vezes, dentro da gente,

trazendo a verdade ou dizendo que mente,
sussurra uma voz baixinho
memórias que danço sozinho,
caiadas de branco no meu coração.

Às vezes, segreda-me a vida uma canção de vento,
portas de outrora onde agora me sento
e escuto o regresso, trajando razão.
São poetas, as ruas que me guiam e desviam
das linhas cruzadas na palma da mão.

Venho de perto, estando tão longe...
eremita da vida, hábito de monge
trauteando lugares por descobrir.
Poemas e vozes trazidos por dentro,
paixões velozes e o desalento
de não habitar lugar nenhum.

Às vezes, fico ao relento contigo,
trocamos olhares e cantigas de amigo
que me devolvem à janela dos teus olhos.
Retratos de onde os meus já partiram...
tanto sorriram e agora choram.

Às vezes, dentro da gente,
sussurra uma voz que nos sente e segura,
nos agarra e nos cura,
conserta e empurra
de volta à canção.

Às vezes, só sabe a gente,
onde toca o coração. 

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Verão Fúnebre

Oh Pátria, herege pátria!
Passasse um cometa no teu rosto sepulcral…
Soasse, longínqua, a harpa de Orfeu
e chovessem, pela mão direita de Zeus,
sobre teus cabelos de ouro,
águas mansas de cristal.
Deserta até ao osso,
tráz, o verão, a morte à terra;
notas graves, cânticos de fogo,
severa estiagem, fundo sem poço,
ventos mortais, cinzas na serra,
secas estivais, a sede  impera…

- Ansiada quimera! – grita o Homem
sem condenação,
assistindo ao enterro da Fénix,
cem vezes morta,
pela mão criminosa da mesma Nação.

Corações descalços caminham sobre as cinzas;
cansadas, as lágrimas, sobre a semente do pão;
Heróis de combate empenham suas vidas,
em cenários de horror e destruição.

Especialistas, os tempos, e de opinião,
letais são os donos das vozes da razão.

 

 

👩‍🚒🔥
Escrito há 8 anos, mantém-se, ano após ano, actual.
O cenário desolador, um pouco por todo o país, a bravura e constância dos operacionais no terreno, numa luta desigual. A mão criminosa, bárbara, doentia. As opiniões - que disso não passam. A razão que a ninguém pertence. O luto das terras, das vidas, do pão.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Para que servem os Poetas?

Penso. Penso, por vezes,
que é melhor adormecer
do que estar assim...
Na estante só, de pó carregado
de enviosado entre outros tantos.
Penso, vezes demais,
que é melhor dormir
entre os marginais
do que ser Poeta.

Digam-me!
Mas digam-me com força na garganta
e olhar de quem arranca
à pele o último bocado:
Para que servem os Poetas em tempos de catástrofe?
Catastróficamente pensantes,
entediantes,
desinteressantes,
balbuciantes
e mal cheirosos.

Não sei, digam-me!
Vós que lhes cantais e acompanhais a indigência,
sem resistência:
Para que servem os Poetas
se não para escrever o que não vemos,
tão poucas vezes compreendemos
e quase enlouquecemos p'la ousadia de entender?
Falam barato e não se ouvem
para além da boca de quem os lê.
Nem se vê, tão pouco, a roupa que trazem no corpo;
casaco às riscas
malabaristas que são no seu dizer,
pelo que julgo saber, através daquela estante.
Não. Não me aproximo!
Não me vá cair no cimo da catástrofe
a ordem natural dos valores.

Poetas! Ai Poetas!
Pois deixem-me ser eu a rir
antes de ir dormir,
ante este mal que é pensar.

Poetas. Mas para que hão-de servir os Poetas?

É melhor não querer saber,
do que tentar adormecer
com um Poeta em meu lugar.

Não. Não servem mesmo para nada, os Poetas.

sábado, 5 de março de 2022

Nem sempre vencer batalhas significa vencer a guerra

 

A Rússia, sabemos, é mais forte em armamento, é sua a supremacia aérea, gozou do factor tempo, ganho inicialmente, mas perdido à medida que se movimenta e infiltra no interior da Ucrânia (a morosidade das colunas de abastecimento militar fragilizam a resposta Russa e determinam a vulnerabilidade das tropas no terreno), poderá conseguir controlar e dominar cidades ou partes do território Ucraniano, como temos assistido, mas… não conseguirá, me parece, segurar o território conquistado. Não por muito tempo. Não contra a união soberana de forças de um povo.

Primeiro, porque não se preparou para a resposta imprevista do Ocidente, no apoio à Ucrânia. Esse Ocidente que, aos olhos da Rússia, sempre se preocupou mais em olhar para si próprio, de forma individualista, do que em falar a uma só voz, unanimemente. Apesar da certeza de Putin de que não existira intervenção da NATO em território Ucraniano, muito por receio de uma rápida escalada do cenário para guerra nuclear. Certeza essa que levou a outra, a de que a Europa empurraria as trincheiras do conflito para o interior da Ucrânia. Depois, porque teve por garantida a dependência ocidental de petróleo e gás russos, o que, à partida, limitaria a probabilidade de países como a Alemanha assinarem sanções pesadas contra o regime russo. E claro, não ponderou a possibilidade de um boicote económico à Rússia. Mas aquilo para que Putin verdadeiramente não se preparou, nem se conseguiria preparar, chama-se resistência da Sociedade Civil, quando, um pouco por todo o mundo, se levantam vozes manifestamente contra a invasão da Ucrânia. Até mesmo no seio do país invasor, onde os militares não são excepção.

O patriotismo e nacionalismo dos cidadãos Ucranianos, na defesa do seu território, tem sido uma lição para todos nós. A resistência, a resiliência, a força e o esforço (sobre)humano, contra um colosso e a barbárie, contra a anulação de um direito básico, a autodeterminação dos povos. E é aí que a guerra se ganha ou se perde, não nas batalhas.

É aí que o Homem se vê.

 

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O Outro Lado do Mundo

 

Por baixo da pele não há quem és.
És outro, não tu.
Não quem eu vejo. Não quem diz ser.
Por baixo da pele não cheira a impunidade. A sensatez.
E a dignidade, que era robustez e se desfez,
deixou à vista estilhaços e enchumaços
da hipocrisia que ostentas, mas não vês.

Há no teu sangue crimes de guerra
que a sociedade enterra para não ver.
(Será ela quem diz ser?)
E nos teus ossos, destroços 
de vidas idas, perdidas, desfeitas e esquecidas
entre delitos , conflitos e divergências de pigmentação,
orientação, ideologia e religião
dos filhos a quem negas a mão.

Já cheira a fel o teu hálito,
por tanto de nós devorado,
expugnado, assassinado, desumanizado.
Por baixo da língua, diz-me, quantos em ti morreram?
Cemitério do povo.

Conto-te nos olhos o mísseis prontos a disparar,
quando finges chorar
à margem dos morreram sem te olhar,
em campos de concentração e horror.
Crianças e adultos inocentes,
globais interesses existentes -
e nós? Sem chão onde nos salvar. 

Sempre que o teu ódio rebenta,
Verdadeira tormenta!
Terra Santa sangrenta.
E um dia irado, menos forte e julgado, 
farás uso do crânio
para nos brindar ao urânio
que a todos servirá de mortalha.

Por baixo da pele não haverá ninguém.

 

 

[ Incompleto, à data. Ou talvez não... O Homem é homem e a História repete-se... ]

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...