quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Morte da Verdade

Ninguém a viu morrer…
Em contra luz, cegueira acesa e mesa posta
ao redor sentados, desgarrados e embeiçados
pela hipocrisia de bem parecer.
Ninguém a viu morrer…
Só. Num jardim que definhou
sem gota a gota de amor regado
e onde só a trapaça medrou,
num canteiro que se quis florido,
mas desde logo ferido
pela lisura que não viu.
Em cada cravo, em cada rosa
uma pétala arrancada,  
imoralidade marcada pela desonestidade de ser.
Ninguém a viu morrer…
quando ávidos, das suas lágrimas beberam
e do seu corpo comeram
- cansado e ferido -
apodrecidos que estavam,
de coração desnutrido e alma salobra.
Ninguém a viu morrer…
afogada no rio de lodo
de patranhas e engodo,
onde todos lavaram as mãos.

Ninguém viu a verdade morrer.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Tentações

Olhei-a, sentado no meu terraço
impávido e sereno,
cigarro aceso e um copo de bagaço,
antevendo o melaço do regaço daquela mulher.
Em pé, ombro apoiado na parede
mini saia preta e blusa de rede,
uma taça tinta de vinho na mão
e a cumplicidade de um Marlboro na outra. 
Sem infração, contou-me em silêncio segredos,
expondo-me os medos 
que ouvi e bebi, como se fossem minhas 
as pétalas de fumo que lhe nasciam nos lábios.
Embriagado pela subtileza dos gestos sábios,
cedi.
E fumei-lhe a espera,
num salgado jogo sem pressa 
ao leme da tentação.
Em maresia sem promessa...
entregues à ondulação,
dois corpos famintos,
em goles de beijos tintos
salgados instintos de prazer carnal.
Devoção em alto mar
até a onda rebentar...
... e a jusante da maré
lhes permitir regressar.
 


Amantes citadinos num terraço ao pôr-do-sol,
nus.
- Só a liberdade é necessária para amar!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Trapézio

Roçou o vento no trapézio,
quando seguia, já em pontas,
a subtileza do passo
no equilíbrio da vida...
Tombou e ficou
a dor das feridas lambidas,
quantas vezes caladas,
quantas vezes escondidas...
quantas mais vezes ardidas no ruído ensurdecedor do silêncio.
Solas gastas, pegadas despidas.
Noites soluçadas,
manhãs esquecidas, p'la calçada adormecida de sonhos...
Ao virar da rua deserta,
vinte e oito escadas para lado nenhum.



(Ainda ontem lá estava o trapézio...)


 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...