domingo, 29 de julho de 2018

Quem Sou? Sou...

Gostava de saber quem sou!
Confesso, não me conheço.
Se ontem era real,
Hoje sou sonho onde adormeço.


Há dias, no meu deserto isolada,
Sem mim, sem nada, sem ninguém...
Noutros, percorro a calçada
Da enorme cidade apressada,
Caminhos que eu mesma criei.


Se penso demais, já lá estou!
Cheguei,
Antes do tempo que me há-de alcançar,
Nos dias em que sem vontade do mundo,
No meu silêncio me deixo ficar.
Se não penso,
Ai se não penso… como posso eu não pensar?
Se penso um pouco menos, não chego
Aí... tão longe;
Onde e quanto me propus a chegar.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Fizemos o mar...

Não tenho mais do que o sonho em que adormeço. E que me envolve, apertando seguro, o peito que aberto arde. Invariavelmente diferentes, os versos que me fazem, a ti os dei, como o mar oferece à Lua o seu reflexo.
Éramos só nós. Inconfundivelmente desenhados no cândido voo das gaivotas livres, manchando o céu, despertando a aurora do amor. Nos teus braços de poeta, rimou o meu coração com as histórias enamoradas onde nos encontrei. Nascíamos ao pôr-do-sol, ao ritmo das estrelas claras e adormecíamos no horizonte do amanhã, depois do breve, mas lento momento em que o céu e o mar se fundiam.
Navegadores ao largo, fizemos o mar.
De marés vivi, assolada pelas ondas marginais de um amor que me fez naufrago o peito. Faz frio. O vento corta e o coração arrefece, padece, falece…
Não tenho mais do que as memórias, nuvens e insónias de tudo o quanto de nós ficou. Nada nos deixa, tudo se transforma, na medida extacta das asas das gaivotas, agora em terra.
Abortados os voos, permaneço ao largo, na praia que existe em mim. Neste repetir do verso final que sou. De peito aberto e ferido…



Dói-me o amor.


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quinta-feira, 26 de julho de 2018

Pertença


Deixei que a paz me entardecesse.

Aqui. Queita.
Entre a melodia das coisas miúdas.

Da flauta pastorícia soluçam notas,
e eu sou fuga para a harpa do vento,
solta e incerta.
A  água corre entre as pedras
e som das raízes desperta
para o silêncio das cores.
Se fores,
deixo que o fim da tarde me suje de azul…

Noturnam-me claras, as águas;
e o fim do mar anoitece.
Padece a monocromia, no peito
que se acende à prata do céu.
Se fores,
deixo que a janela enluteça
e não mais amanheça a tela lírica dos pardais.

Não tenho terra
onde me pertença mais do que a mim.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Fissura

Regresso ao tormento
Como ao alimento que me dás.
Arde-me o peito no inverno
da ternura.
Pura, a água do cântaro deserto.
Seca-me a garganta
e o amor já não canta.
--- Fissura 


Em mim, só resta a secura.


 


 


 


 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Morro-te

Morro-te. Não te cumpri. 
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas, 
me desviaram de ti.


Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento 
que viste partir.


Morremos. Não nos cumprimos. 
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar. 
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

... Meu amor!

terça-feira, 17 de julho de 2018

Reflexão -18


O silêncio não mente nem diz a verdade, não promete nem finge ser o que não é, não chora, não sorri, não ama nem pratica a indiferença, não fala e tão pouco emudece. O silêncio é-o, ao que - de uno - fica de cada instante.


 


Deixem-me Chorar

 


Deixem-me chorar as notas, as letras e as cores das memórias onde me deito.
Deixem-me chorar a dor, o vestido azul, o abraço e a ternura do lençol onde naufrago.
Deixem-me chorar o tempo e o sofrimento decidido. Deixem-me ficar latente, a definhar na almofada dos sonhos desfeitos.
É, por vezes, preciso soluçar o rio da angústia para a poder suportar.
Sigo em noctívagos prantos, tateando e tropeçando no que foi. Ainda não sei andar por aqui... por vielas estreitas e caminhos sozinhos onde os meus olhos, consumidos pelo grito da lágrima quente, perderam a luz.


Ah…! Deixem-me chorar o que não foi e tudo o que ficou por ser. O mais que viria, tudo quanto sabia que tinha raízes para se erguer. Deixem-me chorar o amor.
Deixem-me aqui, chorando de mim e comigo. Deixem que me doa. Que me rasgue. Que me mate. Que me consuma o rastilho e me dinamite o coração. Deixem-me estar só.


Sem murmúrios. Só o silêncio, eu e a dor.


 

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Espero por Ti ao Pé da Ponte

Esperei por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos,
te visse vinte e nove passos apressada.



Chegavas-te a mim com três laranjas no regaço
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar 
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá que embarcar.


Aqui, deste lado da ponte, não há quem sou.
Mas acolá, onde os pássaros cantam, 
onde as flores encantam 
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim, 
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
- enquanto te esperava do lado de cá -
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter. 
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer. 
Vem sentar-te nas minhas costas 
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...
(não é desleixo) e lá em baixo,
no lazarento jardim dos meus sonhos,
será fértil tudo o quanto dele beber.


Vem, que por ti ainda espero ao pé da ponte.


Plenitude

Quero o silêncio.
Só.
A ausência plena de tudo:
do tempo e das demoras,
das angústias e das auroras,
das paredes de murmúrios pulsantes,
dos tropeços e começos,
dos encontros enviosantes
e desconcertantes memórias,
das alegorias de bandeja,
e da frívola sombra
que sobeja de mim.


Quero o silêncio
Só.
das palavras mudas,
da respiração suspensa,
da pulsação que não sinto
e do grito em que minto o meu nome.
Quero o silêncio.
Só.
O completo mutismo da quietação,
a ataraxia do coração
e a tua solidão por companhia.


Plenitude:
Para te amar, não preciso de nada além do silêncio.


 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Poeira d'amor

Pudesse eu ser grão de poeira infinita
e caber, inteira, nos intervalos curtos
do tempo lotado que nos roubou a vida...

Pudesse eu ser partícula de estrelas
e preencher o manto negro derramado
sobre o já cansado e inabitado
espaço livre do teu céu...

Pudesse eu caber inteira
no vácuo da pressa do relógio
que se esgota sem nos levar
à plenitude da calma,
p'las asas da alma,
ao refúgio do amor. 

Pudesse eu ser grão de poeira infinita
e caber, inteira, em ti...

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Recomeço

Recomeço.
Não tenho outra estrada.
Lúgubre, a noite apressada
evoca-me o predestinado ofício.


Recomeço.
O lodo na pele,
sou estrume e fel.
sombra, penumbra, ataraxia;
bolor nos passos,
tropeços e compassos mudos...
Lua tardia.
Recomeço.


De horas ausente,
tarda o ponteiro
a norte.
Negligente, a sorte
que trago nas palavras vãs.
Recomeço.


Indolente e farto, o caminho
destino visinho
da podridão dos sonhos
que me arrasta...
desgasta...
devasta...
Recomeço.


R ...
eco
meço.


 


 


 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...