sexta-feira, 29 de junho de 2018

O cansaço onde moro

O cansaço
onde tenho casa,
à beira do náufrago verão,
chegava com o fim do dia
a bordo do teu coração;
de doçura fatigado, bebia
o que de azul se reflectia nos espelhos
e partia...
sem me deixar.


Anoitecia.
E eu vinha de longe,
- Olhos de mar a sul -
para te dar
o que em mim de brilho havia
e iluminar
a hora errante.


O cansaço
onde fiz casa,
tem na morada o teu peito...
já sem leito para me sonhar.


Espera agora, a minha dor, por ser ave...
... e voar! 


 


 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Um excerto de Clarice Lispector - (em tom de desabafo)

"E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver."


 


 


Clarice Lispector LISPECTOR, C. Água Viva. Rio de Janeiro: Editora Rocco. 1973.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Os Loucos Escrevem

Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como os ombros, carregando os anos 
e a fome das respostas
que os romancistas prometeram,
e que não acontecem, tal como a vida.
Páginas cansadas de gente
que nelas está sem existir;
histórias contadas sem acontecer,
entre frases narradas e não proferidas,
escritas para agradar ao nascer, com prazer, 
ao mais solitário dos corações vagabundos
por aí...

De que adianta fazer perguntas a um estranho,
quando o mundo dos poetas não é palpável? 
Utopias cíclicas, encadeadas e indissociáveis 
do sistema solar onde lhes orbita a loucura.
Na verdade, nem a Via Láctea lhes chega! 
É-lhes mais que preciso o buraco negro
para onde se arrastam, 
sugados pela força centrífuga do devorador de sonhos; 
estes loucos que escrevem...


Um olhar que quando cai,
cai muito devagar...
Como um romance, quando finda
e o coração descai
no verso de uma vida que termina
e se esvai... na leve pena de um poema.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

130 Anos de Fernando Pessoa

Há 130 anos, a 13 de Junho de 1888, nascia um dos maiores nomes da literatura portuguesa, o icónico Fernando Pessoa. Um mestre, muito para além do seu tempo, alguém que tudo descobriu antes de nós.


 



 A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver. 
No baile de máscaras que vivemos, basta-nos o agrado do traje, que no baile é tudo. Somos servos das luzes e das cores, vamos na dança como na verdade, nem há para nós - salvo, se desertos, não dançamos - conhecimento do grande frio do alto da noite externa, do corpo mortal por baixo dos trapos que lhe sobrevivem, de tudo quanto, a sós julgamos que é essencialmente nós, mas afinal não é senão a paródia íntima da verdade do que nos supomos.

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego


segunda-feira, 11 de junho de 2018

Poema a dois

Antigamente eu era eterno,
não cedia a este frio que me escalda os ossos
imperfeitos. O mundo ardia e eu fingia, que não via.
Saía, de manhã, e o dia estava sempre bonito 
como tu, à janela da verdade!
E eu sorria ao tempo nunca perdido e celebrava a virgindade de todas as coisas,
como brisa nas árvores... liberdade arrebatadora de uma alma exaltada.
Hoje, bebo whisky a goles sorvidos a compasso
por memórias salobras inscritas no meu peito sedento;
sei de cor os depois depois de todos os depois...
E os agora? Diz-me! O que é feito dos agora se depois...
se depois do agora me vou e findo?


Antigamente eu era eterno.



A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...