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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Por todas as ruas

Nunca dediquei poemas a ninguém,
ao invés disso escrevi-os, 
de tal ordem que pedi que lhe cantassem a desordem
expressa naquela cadeira, onde me sento,
carpideira, desde o principio do mundo.

Às vezes, confesso, não tenho assunto
e ali fico, visita de Poeta moribundo
ignóbil, vil, asqueroso e sujo
como o Amor que nunca cantei.
Imaginei, porém, pura, digna, sobranceira e nobre,
sob o véu casto da Poesia que me cobre,
que percorria contigo todas as ruas do coração.

Pois não.
Nunca dediquei poemas a ninguém,
salvo a quem quero, de mão dada
e de soslaio, olhar embaraçada,
sob a vontade endiabrada
de lhe colher o sol do peito.
E se, por defeito, nenhum outro poema te for feito,
capaz de mim,
espero por ti aqui,
neste verso onde me deito
inábil, inútil, incapaz e sem jeito de te dizer:

Quero andar contigo de mão dada por todas as ruas.

 

domingo, 29 de outubro de 2023

Nos Olhos do Coração

Olhei. Olhei como se olha, vulgarmente 
ao passar por gente que nos olha, também.
Olhei e passei. Passei e voltei a olhar.
Parei. Olhei e não passei
a estrada daqueles olhos para os meus.
Fiquei. Como se fica, fortuitamente,
diante de quem por nós passa,
nos olha, nos estranha e repara
que talvez fique, também.

sábado, 5 de agosto de 2023

Cerca-te de pessoas que te inspiram

Pessoas. Terás sempre pessoas ao teu redor. As certas e as erradas.


Serás levado a aprender a escolher entre quem te vai influenciar positivamente e entre aqueles que pouco ou nada te acrescentarão. Serás, também, impelido a compreender quem são as pessoas que te elevam e quem são as te enfraquecem.


Chegará o dia em que sentirás necessidade de te rodear de pessoas mais inteligentes, sentir a atracção da energia positiva, motivadora e gratificante, capaz de acrescentar valor e transformar a forma como encaras a vida.


Pessoas que te elevam, te desafiam e estimulam, pessoas que te aguçam o pensamento e a sede de conhecimento, gente que te cativa, motiva e se constata  lufada de ar fresco. Pessoas com a capacidade de te fazer olhar para o mundo de forma diferente, idóneas e de bom caráter. Pessoas cuja presença é um contributo para que te possas tornar, a cada novo dia, alguém melhor.


Pessoas que sabem utilizar tão bem o cérebro, quanto o coração. E estão contigo, e por ti, sem qualquer obrigação!


Estas são as tuas pessoas. Fundamentais para o teu crescimento e desenvolvimento pessoal. Para que a tua inquietude seja uma característica construtiva e jamais te impeça de respirar fundo e enfrentar os desafios naturais da vida.


São, também, quem te fará aprender que aquilo que recebes não será mais do que o eco daquilo que emites. E que os locais que frequentas e o teu ciclo de influências interferem directamente com o teu astral.


Quem queres ser? Quais são os teus sonhos e metas?
Quem são aqueles que contribuem - sempre! - para lá chegares e quem são os outros, aqueles que te desviam do caminho, ou se ausentam nos momentos mais críticos?


Cabe-te a ti escolher as pessoas com quem te relacionas e saber atribuir-lhe o grau certo de importância e influência na tua vida.


Cabe-te a ti saber escutar o coração, mas é também teu dever saber ouvir as vozes certas. As que te dizem o que precisas de ouvir e não aquilo que gostavas que te dissessem.


Porque há quem por ti passe, tal como vês o tempo passar. E há quem com o tempo fique, ou ganhe um lugar para ficar.


Post para Instagram frase motivacional citação _


 


 


 


 

quinta-feira, 11 de maio de 2023

À proa


Nasço eu, p’los teus braços, amanhã.
Estratosférica e profunda,
breve e oriunda de sonhos crescentes,
como a lua esta noite.
Fóssil de mim, ajusto os ossos,
a mais dura parte de quem sou
à saudade.
Baixa mar de um rio que rasgou as margens
da impossibilidade, ao nascer.
Para os lados da foz, vazante, não lhe conheço caminho
e a jusante de mim, só o teu desaguar
no lago do jardim que me dá de beber
ao coração.
Tu entraste antes de mim nas flores que ficarão
com as lembranças,
quando a névoa cerrar o caminho
e a tua mão deslizar sobre o pensamento,
colhendo o que de nós brotou:


Arte livre, inocente e múltipla,
na proa erguendo o amor.


 

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Linhas Cruzadas



Às vezes, dentro da gente,

trazendo a verdade ou dizendo que mente,
sussurra uma voz baixinho
memórias que danço sozinho,
caiadas de branco no meu coração.

Às vezes, segreda-me a vida uma canção de vento,
portas de outrora onde agora me sento
e escuto o regresso, trajando razão.
São poetas, as ruas que me guiam e desviam
das linhas cruzadas na palma da mão.

Venho de perto, estando tão longe...
eremita da vida, hábito de monge
trauteando lugares por descobrir.
Poemas e vozes trazidos por dentro,
paixões velozes e o desalento
de não habitar lugar nenhum.

Às vezes, fico ao relento contigo,
trocamos olhares e cantigas de amigo
que me devolvem à janela dos teus olhos.
Retratos de onde os meus já partiram...
tanto sorriram e agora choram.

Às vezes, dentro da gente,
sussurra uma voz que nos sente e segura,
nos agarra e nos cura,
conserta e empurra
de volta à canção.

Às vezes, só sabe a gente,
onde toca o coração. 

sábado, 9 de janeiro de 2021

Fado de quem perdoa

É tão suave ao coração a minha mão,
que em gesto nobre se abre
para ti, flor – perdão -- por afeição,
se algum excesso cometi.
É tão simples o que me basta
desta estrada onde colapsa
a minha razão indigente.
Descrente, quem sente,
por leveza e docemente
em caminhos que corri.
Vou sem pressa e adiante,
filha de um acreditar constante
na barca de quem perdoa;
há, confesso, d’outro tempo sem regresso
uma saudade q’ inda ecoa.
E se agora, acaso te vir, perdoa!
Não vou partir, não vou ficar…
no vão do peito, que por defeito
arte faz de te sonhar.


Abro a mão, estendo-a de mim…
- por minha alma clemente -
pelo peito fora,
pelos olhos dentro,
pela demora
sempre que entro
no teu lugar.


Perdoa. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Desigual

[Canção]


Era o sol nascente,
mais uma manhã,
num mundo exigente
puxando a corrente
futuro presente,
cela de amanhã.

Era a agitação fiel
e o burburinho,
o canto das aves sempre baixinho
e as flores já não davam mel.
Era o trânsito arrastado,
homens de olhar apagado,
mulheres de rosto cansado
e crianças sem brincar.
Eram janelas estridentes
vozes iradas, descontentes
horas tardias, negligentes
apatia do luar.
E sempre que o mundo
no horizonte se punha,
era o cansaço quem se impunha,
era tempo de abrandar.

Era uma manhã desigual
adiada a rotina
mal lida sina
p'la cigana ao passar.
Eram quatro, as paredes
lotadas de gente
de outra gente carente,
varandas por quintal.
As lojas fechadas,
grades nas fachadas
dos prédios elegantes
nascidos de fronte para o céu.
E é agora réu todo o afecto
que não sob o tecto
do coração que sustém o véu
à noite insone.
Paira uma nuvem de incerteza
sobre cada cabeça;
tudo deixou de ser colorido.
E num futuro dorido,
não ficará tudo bem.

O telefone toca,
a televisão alerta,
o medo disperta
e o trabalho de ontem ainda está por fazer.
Os miúdos não comem,
são tantos os que morrem!!!
É preciso não esquecer
que outros há, ao relento
sem pão, sem alento
nem abraços onde se recolher.
Ninguém nas ruas
tudo deixou de ser...
e parecem já suas
as razões do anoitecer.

- Mãe, como é que cabem tantos mortos no céu?

 

 

sábado, 17 de outubro de 2020

Rastilho

O silêncio que calo
e atravesso, só...
Como um rastilho:
a noite
que me alaga o desamparo
e se senta solteira por baixo da minha janela.
Resistem as portas
à passagem de ninguém
rente aos espaços
em branco
a que ninguém ouve o grito.
Um corpo inclinado
e um fio de aço a suster o coração
suspenso.
(segurá-lo-ias?)
Um olhar apagado
e a penumbra.
Vida:
corredor que me leva a lugar nenhum...


 



 


 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Por dentro

Vês-me, à porta de um lugar qualquer, de olhos fechados, sentado no prolongamento dos minutos que te separam do coração.
No silêncio das mãos, que evitas estender, guardas-me em memória, num abraço quente e tardio.
Faz frio, à tua porta... coração com passagem para lugar nenhum.
Vês-me, mas não me olhas.
Claro que ainda tens medo de que eu te entre pelos olhos!

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Levou-a o vento

Ao nascer dos primeiros raios de sol, na demora dos primeiros minutos após o toque sonolento do despertador, levantava suavemente a cabeça, levava o braço direito adiante e pressionava, de mão firme, o colchão. Rodava o rosto e comptemplava-a, timidamente, enquanto dormia.
Lentamente, fletia as pernas que arrastava até à extremidade da cama e voltava a demorar-se nela. Os olhos enamorados na pele clara de um rosto delicado, uma rosa nos lábios e o perfume que descaia, pétala a pétala, prolongadamente entre o pescoço e o peito indefeso.

Cruzaram-se a primeira vez entre as estantes de livros de uma biblioteca. Ela equilibrada num só pé, florindo num vestido azul, tentando alcançar um romance meticulosamente arrumado na última prateleira da secção de Clássicos. Ele de poesia nas mãos e tropelias no coração.

("E o Vento Levou", de Margaret Mitchell)

Ficou a vê-la sentar-se, pousando a mão no colo e fechando lenta e graciosamente o ângulo entre as pernas cruzadas. Os sapatos descairam para a esquerda e a mão subiu, abrindo o livro. O indicador flutuou linha a linha, sem que Clara levantasse o olhar. 

- Não é mulher, é poesia!  - deixou escapar - poema não escrito, versos interditos, estrofes que não serão para todas as mãos...
- Trovador? – interpelou-o Clara, sem o fitar.
- Escritor de sonetos. - Respondeu Raul.
- Sonetos são viagens ao coração. Só com ele sei ver.

(Um livro em braille).

Vinte anos se passaram e ao nascer de cada dia, Raul levanta suavemente a cabeça, leva o braço direito adiante e pressiona, de mão firme, o colchão. Roda o rosto e comptempla-a, timidamente, enquanto ela ainda dorme, clara e a seu lado, naquela fotografia:
-Foste tu quem me ensinou a ver com o coração.

domingo, 11 de novembro de 2018

Reflexão - 22

Não sou mais, nem para além de subtis pegadas da poesia, que descalça caminha pelas ruas do coração.

 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Libertação

O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura.
De toda a passagem 
que fere e trespassa ,
se alonga e não cura. 

Da verdade não se olvida a hora, 
e é limpo o rio onde renasço:
asas, pétalas, sonhos e cores
histórias, livros, talvez amores...
Ser nascente e ir na corrente
de quem sente, de quem se abraça,
de quem sorri e se enlaça 
ao lado certo da vida. 

O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura.
E eu, o meu coração
a tudo, quanto à passagem,
olha, sente, cura...
...e perdura.

domingo, 28 de outubro de 2018

Para me fazer lembrar...

Hoje estou triste. Cobrindo-me a alma, a retalhada manta melancólica do calendário que passou e não levou, na sua destreza ilusionista de dar o dito por não dito, o passado que não passou.
Hoje estou triste e a apatia que me rasga a roupa e expõe a alma, cresce e trespassa-me a calma que julgo ter, sempre que a mim regressas, vindo por becos e travessas, virando avenidas às avessas para, tão distante quanto o coração de ninguém, me envolveres em memórias agitadas.
Hoje estou triste e nem o velho tic-tac do coração suspenso, no pêndulo do relógio tenso, oiço marcar o compasso do dia. Arrasta-se o domingo dentro e fora de mim, como se o fim não coubesse na hora, na data ou na demora do abraço que não se tem.
Hoje estou triste, por qualquer coisa que ficou de um poema. Estou triste e a minha razão lamenta, o que meu coração guardou.

Hoje estou triste, ainda é longe e faz-se tarde para regressar ao lugar das memórias que fizemos e plantar, no seu lugar, flores que me façam lembrar o meu sabor a Primavera.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos

Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos.

Depois do naufrágio, da tempestade que se abate e não se prevê, da névoa duvidosa nos inquietos caminhos do coração que nos levam ora atrás, ora adiante.




É frequente, e acima de tudo humano, sofrer. E nas relações, sabemo-lo, nunca a isenção da dor e dos maus momentos é garantia. Contudo, não deixarmos de ser (quem somos) é determinante para a minimização das feridas que possam um dia ser abertas, por motivos diversos e que nos são comuns a todos.
Ser, honesta e integralmente quem somos, para nós e para os demais, jamais deverá ser sinónimo de culpa ou sentimento de inferioridade, mesmo que não nos tenham sabido sentir, viver, amar, acarinhar, respeitar e cuidar. Dar, é um dos pilares cujas fundações, bem profundas, garantem a sustentabilidade das relações pessoais e emocionais, sendo fundamental para a harmonia e equilíbrio, tanto da individualidade, como do casal.

Li, por aí, que “precisamos de morrer algumas vezes de amor para percebermos o que queremos da pessoa ao nosso lado e o que é que temos para lhe dar.” Para mim, que me assumo pouco sabedora da “ciência” do amor, amar reside no dar e nao no receber, embora sem partilha uma relação não possa coexistir. 


Contudo, é também neste ponto da doação que assenta a perigosidade de podermos deixar de nos ser, aos poucos, em relações que não entendemos, no seu início, serem unilaterais. Chamemos-lhe relações egoístas, na medida em que uma parte apenas dá e a outra se limita a receber.
Não raras são as vezes em que estas relações se estabelecem entre pólos opostos: um alguém manipulador e outro puramente honesto e sensível, um ser emocional se assim quisermos, em que o primeiro estuda o segundo para que se possa moldar inequivocamente à sua medida e daí, pouco a pouco, conseguir retirar dele tudo aquilo de que a sua alma e vida carecem. A imagem que o manipulador alimenta no ser emocional, cria elos profundos e desperta emoções e sentimentos genuínos como a empatia, a atração, a amizade, a confiança, o respeito, a admiração, o amor… Na verdade, este quase se revê a si na imagem criada.
Não é vergonha assumi-lo. Não é vergonha afirmar que se amou alguém que, afinal, nunca existiu. Chorar sobre os bocadinhos de si próprio caídos no chão, sempre que, inadvertidamente, se vê desmoronar um ideal enraizado do lado de dentro do coração, é humano e puro.



Dá-se. Dá-se sempre mais e procura-se dar ainda mais sempre que a relação não está bem, para que o equilíbrio do parceiro estabilize o barco que, um sozinho, dificilmente faz mover. Sem se dar conta, o ser emocional reduz-se sempre que se constata ser necessário caber nos ideais, vontades, caprichos ou necessidades do manipulador. Cede com frequência e, mesmo quando se impõe, perante situações em que os seus valores são colocados em causa ou estremecem, acaba sempre por apresentar um pedido de desculpa, apenas para ter o prazer de ver o parceiro sorrir e poder sentir a paz reinar novamente. (No fundo, e embora duro de aceitar, são esses momentos em que o outro sorri, ri, se demonstra saciado de amor e transparece bem-estar que dão alimento ao primeiro).
E enquanto de barriga cheia segue um, vai o outro ficando sem si, até ao limite em que deixa de ser e se perde…


Habituado a viver numa solidão assistida, vai ficando até não mais ser possível. Aqui, das duas uma, ou é libertado (ou se liberta) para que se possa restabelecer e (ou não) voltar depois, com mais para dar, ou poderá ser descartado e culpabilizado pelo fracasso da relação. Podendo, também, em alguns casos, ser utilizado como o "mau da fita" na relação seguinte, garantido a explicação para a suposta fragilidade do manipulador que, assim, garante a repulsa do novo manipulado para com o anterior, abrindo espaço para jogar com duas peças sempre que isso se justificar. 

Desengane-se quem julga que situações destas apenas acontecem aos patetas ou pessoas mais frágeis, porque um dia, sem esperarmos, podemos ser nós. Os mesmos que hoje dizemos "isso comigo não aconteceria". Basta ter coração e permitir que este se sobreponha à razão. Por mais inteligentes que possamos ser, o nosso lado emocional também nos comanda, boqueia ou liberta, de acordo com as circunstâncias. Do coração, poucas razões lhe conhecemos.

“As relações mais importantes são profundamente frágeis, porque estão sempre debaixo de um sufrágio muito apertado da nossa parte.” (Professor Eduardo Sá) 

Mas, e porque há sempre um mas… Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos: a nós!


 


 


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domingo, 14 de outubro de 2018

Quero

Quero querer, ou será que queria, 
um dia... 
esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver...
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência, 
em que a distância é lugar onde habito, 
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste? 
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma? 
Viva.
Deambulas tu pelos dias vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria? 
Antes que morra e te leve comigo,
quero!


 

sábado, 13 de outubro de 2018

O arroz doce da vida

(Das boas e doces memórias... Porque recordar, por vezes, também é viver.)


 


Comi o amor e bebi a saudade, num prato de mar, em frente à vida...


 


Comi o amor.
Quente e intenso, como se quer o café da manhã. E único, como o teu coração quando, ao cheiro do pão, se derrete pelo queijo fundido da vida.
Comi o amor e lambuzei-me. Voltei a comer e a lambuzar-me outra vez.
Doce e com canela, na medida certa, como o arroz da tua alegria.


 


Porque o amor, afinal, também é fazer pão com queijo e café, e servir, na dose certa em pequenas taças de alma aberta, o arroz doce da vida.


 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Nas ruas manuscritas do meu peito

Como mortalha que avança e cobre a noite,
assim se estendem as ruas manuscritas do meu peito,
pelo rubro dos teus passos ausentes.
Tu que persentes quando me atraso ou adianto,
e à esquina do meu pensar, por espanto,
te insurges indecifravelmente só…
Onde estás?

Ardem até ao fim, as velas breves dos sinais, e o céu,
por estrelas rejeitado, não aclama por nós.
Invariavelmente sós, os teus olhos já não vêem
nos meus a ternura dos silêncios conjugados.
Calaram-se os sonhos, o carinho, o amor e a corrente de gente
que nos arrasta e desgasta, em pontas opostas de um mesmo laço,
pelo desalento do mundo.  
Onde está o teu abraço?

Reconheço-te nas pedras do caminho
a sombra da dilação;
a luz confundiu a aurora do teu coração cego
e sedento de alma. Basta-te nela, o toque frágil.
Sobrando-te, agora, o doloroso tacto da ausência.
Se a penumbra é carência,
acende-me outra vez!

E afirmarei, no fim, a quem me quiser ouvir,
a quem me quiser escutar, sentir ou admoestar
sobre razões que o meu coração desconhece:
- É preciso que o amor baste!

Acende-me outra vez!


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Encosta o teu silêncio no meu

Sei que ainda aí estás. Vestindo a ausência magoada sobre a pele de silêncios. Foi lá que nos encontrei, na ausência do ruído, depois das palavras, lado a lado sem incómodo. Dois silêncios em rima branca completos, versos soltos por escrever. Se o nosso lugar falasse, diria que nos completávamos por silêncios e nos (des)encontrávamos nas palavras.
Sei que ainda aí estás e me procuras na quietude dos fins de tarde, na verdadeira solidão das horas velhas. Podes entrar. Não fiques ao relento da vida, sob o casaco azul cansado de ombros caídos. Puxa uma cadeira e encosta o teu silêncio no meu.

Ainda há para além de ti um doce sonhar, onde descalça dancei. Um jardim por arranjar, onde flor me fizeste, e um céu melancólico por explorar docemente. Do mar negro e revolto em que te vais, recolhi as vagas vorazes que te desfizeram, e joguei-me em salvamento. Fui eu quem morreu no final, mas sei que ainda aqui vens para te encontrar nas sementes que deixei.

(Hão-de receber-nos, essas ruas da saudade, à vista de toda a gente.)

Luz em ti o que em ti fui. E escurece tudo o quanto não mais consegui ser, descalça e de alma nua… Não fiques às escuras, entra e puxa uma cadeira, encosta o teu (uni)verso no meu.
Sei que ainda aí estás e que aqui vens para te encontrar, quando todos os sons do mundo se elevam em demasia. É fácil trocar palavras, difícil é ser-se inteiro, em silêncio.

Por todos os cantos da vida esperei por quem me calasse as palavras, permanecendo.
Encosta o teu silêncio no meu. Sei que ainda aqui vens. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Lembranças: um rasgo de tinta e flores

Uma lembrança cai da estante sobre a minha mão e penetra-me a carne macia, onde ainda se entranha e remexe, se aprofunda e permanece junto ao coração.
Como castelo de cartas ao vento, assim me sinto, assim me voo – em asas de memórias inadequadas ao sossego. O som estanca e do ventre de um movimento suspenso paira o momento sobre si, permanecendo muito mais do que ele próprio. O tempo não é corrigido e eu, deformada nas dobras das horas, dos dias e das lembranças, eternizo-o. Suspenso no silêncio que inerte se faz marcha rumo a mim.
Quando a alma se deita sobre a cama de núpcias do mutismo, o mundo está cheio de mais para falar…
Cais-me, memória a memória, da estante onde me propus guardar-te. Sem nome, sem rosto, nem formas, só verso a verso: a poesia que em ti eu li --  do mar ao abismo, da flor ao tormento, do amor ao lamento.
Perco-te o mundo ao adormecer, mas ganho-me em Universo.
Resta-me que amanheça. Essa é a hora em que tudo é puro e translúcido, é a hora em que apenas a luz se move e nos reacende.

Um rasgo de tinta e flores.

As memórias são inadequadas ao sossego. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Das frágeis gavetas do coração

A saudade pesa e arrasta-se, como quem carrega pedras nos bolsos do coração, pelos dias feridos e vazios. E a dor fura, sem piedade, o frágil tecido de que sou feita. As lembranças pintam as paredes com os traços do que deixou de ser e eu habito memórias que não existem, para lá da janela que se abre sobre o meu peito. (Onde te debruçavas ao amanhecer).
Visto os farrapos da história que por nós passou… sem me levar ou permitir ficar, lugar meu no teu peito. E sigo cega, pela noite cerrada onde os teus passos ainda me alcançam e abraçam, quando ao menino perdido o sonho retorna e aquece.
Da liberdade das asas dos sonhos, apenas restaram as penas desfeitas onde me deito e descanso, ouvindo a melancolia das flores azuis que me chamam lá fora. Foste tu quem as pintou para mim, entre gestos sábios e sorrisos nos lábios que já não vejo.
Queria regressar ao jardim onde fiquei antes de ti, e reencontrar-me na esquina do lago que me devolve a miragem do que agora sou.
As gaivotas ainda sobrevoam as palmeiras, o mar ainda espreita pela janela feliz, num abraço de lua. E de mim? Só a ausência nesse espaço onde te deixei, já nos abraços de outros braços noturnos…

A saudade passeia entre lágrimas e eu, de amor feita e desfeita, não sei arrumar as gavetas do meu coração.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...