terça-feira, 20 de abril de 2021

Casa

No tempo em que ainda éramos casa

e as ruas abriam portas a quem vinha,
as janelas não tinham portadas.
Tudo era visto!
O mundo desembocava nas praças
e as estradas davam graças
aos viajantes descalços, sobre a vida.
Do mapa, a textura de todos os caminhos
e o cheiro da terra desconhecida.
No tempo em que ainda éramos casa
e o sol encontrava a lua no patamar das escadas,
o céu não se cruzava tantas vezes com o chão.
A vida era grande, de tão pequena
e as noites nasciam nos quintais.
As notícias traziam versos
e os jornais sabiam a data do teu nascimento.
As portas sempre abertas para o mundo
que terminava no princípio da rua.
Ali, onde a casa éramos nós.
Nós na casa.
A casa em nós.


 


Porta e Soleira.jpg


Pintura de Flávio Horta
"Porta e Soleira", acrílico sobre tela, 2004






 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Lugar de Crescer

Aos Professores


Ensinar o céu, treinar o voo,
dar a asa ao medo e voar.
Pelas palavras, preparar para ver
o que olhos ensinam a olhar.
Pensar assim e pensar ao contrário,
do avesso se necessário
e orientar, passo a passo, o caminho.
Tropeçar, cair, levantar, recuar...
falar da escola da vida,
por meio de poema ou cantiga,
ser guia e templo, mestre ou farol
girar com o sol, instruir em qualquer lugar.
Abrir o mundo sobre a janela,
deixar entrar. Ensinar as perguntas:
assim a viagem se faça longa.
Dar-se a todos por inteiro, parte a parte,
e por missão, profissão ou arte
educar no presente a construção do futuro.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...