quinta-feira, 22 de julho de 2021

Travessia


É isso, essa coisa da vida:
um infinito sombrio,
uma aventura de luz a correr
nessa ânsia, numa urgência desesperada
de quem cruzaria o mundo
para, de mim, ter somente o prazer
do seu último cigarro.


 


sexta-feira, 16 de julho de 2021

Autárquicas - Mas sempre fizemos assim...

Todos somos (teoricamente) livres e toda e qualquer liberdade termina onde se inicia a liberdade do outro.

 

Somos livres na visão e interpretação de discursos, sejam eles de índole política ou de outra coisa qualquer. Vemos e ouvimos o que queremos, como queremos ou como podemos, condicionando-nos tanto ou quanto nos auto imposermos barreiras e limitações (ideológicas, sectárias, religiosas, clubísticas e daí por diante).

 

Em ano de autárquicas, discursos não faltarão, em campanha ou fora dela, que os haverá para todos os ouvidos. Uns assentes no que "está por fazer", outros cuja âncora os agarra e fixa no combate aos demais, com maior ou menor dose de críticas, insinuações, mal dizeres, injúrias, meias verdades, deturpações da realidade e outras que tais. Faz parte e sempre assim aconteceu. Certo é que olhar-se mais para trás do que para diante não nos fará, nunca, sair do mesmo lugar. E, evoluídos que estão os tempos, diminuir para se ser maior não é mais do que pura ilusão de óptica, para além de feio. Contam-se os anos nesse registo. Perde-se a conta. E talvez estejamos fartos. Fartos de combates de ego e de lutas campais. Talvez queiramos acção, trabalho na melhoria da cidade, do território, das instituições e das pessoas, propostas concretas e exequíveis, serviço à população, crescimento da região, desenvolvimento, abertura, inovação, juventude (a lista continua).  Talvez...

 

Nenhum mal dizer supera outro, todos se diminuem. Andamos, há décadas, a fazer o mesmo e nada se aprende, nada avança e estamos (generalizando, sim) cada vez mais mesquinhos, medíocres de credibilidade e a perder perspectivas (logo, a ver a direito e de forma limitadora). Tudo isso já foi fei(t)o.

Sou sincera, gostava de ouvir, uma vez que fosse, durante o período de campanha, discursos de respeito, construtivos, disruptivos, abertos, de visão e focados naquilo que a cada um compete, sem cair no facilitismo de rebaixar, difamar, usar, citar o nome ou falar dos "outros", sejam eles quem forem (porque os “outros” também o seremos nós, numa ou outra ocasião).

 

Serve, o desabafo, para todos. Não adianta tentar conotá-lo a nenhuma das partes, a não ser a mim própria. Porque sou e permanecerei de pensamento livre.

 

Se todos souberem respeitar o seu lugar e o lugar do outro, discordando ou concordando nas ideias, ideais, visões, crenças, pensamento, será sempre possível o diálogo construtivo, a tolerância e o respeito mútuo. Pensar-se diferente é positivo. Dos confrontos de ideias (levados com seriedade e assertividade) pode nascer o novo, a solução, a possibilidade ou abrir-se um qualquer caminho não vislumbrado ou tido como possível até aí. Certo é que pensar e fazer pensar é (e sempre será) um acto de altruísmo.

É preciso saber aceitar que todos são necessários, que há lugar e espaço para todos, mas que dentro desse espaço existe também o de cada um, assim como a sua liberdade (que não deverá ser posta em causa nem condicionada, como por vezes acontece através do silenciamento, afastamento, injúria, ofensas, críticas, complôs, esquemas, ...).

É dando-se ao respeito e respeitando que se é respeitado.

Que saiba levar o caminho assente nessa premissa.

 

 

Bom trabalho e boa sorte a todos!  

 


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segunda-feira, 12 de julho de 2021

Não me seduzem os velhos e hipnóticos cantares de sereia

Nunca a superfície do real me cativou. Ostentação, poder, riqueza, plateias, elites ou interesses de ordens diversas. Antes, sou atraída pelo que diáriamente construímos e alimentamos em nós, nos outros, mais dentro, em lugares mais profundos onde a vista não alcança. Laços. São eles que me atam ao que sou e me enlaçam ao que são (os demais, entenda-se). Lealdade, amor, respeito, fraternidade, confiança, amizade, solidariedade, tolerância, empatia, partilha e procura de tudo o que só esse caminho nos oferece. 
Bem sei que a superfície nos chama, mas ensurdeço para o mundo sempre que a realidade é rasa. 
O silêncio, esse, profundamente me envolve e completa. E e lá que tudo o que profundamente se sente, existe realmente.


Não me seduzem os já velhos e hipnóticos cantares de sereia.


 



 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Pequenos Artistas e os Ciclos de Invisibilidade

A Arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A Arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. Parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitou o diálogo entre os indivíduos, a começar pelas figuras rupestres presentes nas paredes das cavernas. Mutou-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística, impacto esse que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a Arte sempre possibilitou a aproximação entre o criador e o observador, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro.
Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a Arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a Arte humaniza.


Limitar a Arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, protecção, interesse ou perfilhamento, é errado. Tal como é errado limitar a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 
Difícil de entender? A falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de alguns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. E não é isso que está em causa, tão pouco o valor do seu trabalho). Persistem as assimetrias na representação artística da região, é inquestionável. Sendo necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.
Impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não interessa ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada. É dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.
A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.


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A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...