“That's what people do who love you. They put their arms around you and love you when you're not so lovable.”
- Deb Caletti -
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
“That's what people do who love you. They put their arms around you and love you when you're not so lovable.”
- Deb Caletti -
O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura,
de toda a passagem
que fere e trespassa ,
se alonga e não cura.
Da verdade, não se olvida a hora,
e é limpo o rio onde renasço:
asas, pétalas, sonhos e cores
histórias, livros, talvez amores...
Ser nascente e ir na corrente
de quem sente, de quem se abraça,
de quem sorri e se enlaça
ao lado certo da vida.
O dia abre mão,
de tudo o que passa.
se esfuma e não dura.
E eu, o meu coração
a tudo, quanto à passagem,
olha, sente, cura...
...e perdura.
O espaço vazio.
A manhã seguinte.
A cama exausta, por ossos doridos.
Na parede ausente, um abraço de nada.
Um calendário anónimo que partiu.
Que dia é hoje? Não há presente.
Da hora ausente, só a tua memória ficou.
A música toca, para me enganar as entranhas.
Não se sobrepõe ao silêncio das minhas frágeis divisões e não avança para mim.
O soalho não range. Já não caminho.
Fico para trás,
na história ilógica, nos braços do fim.
Do abismo que nos separa,
quero as minhas asas.
Cai e finda-te, ou sobe-me ao dorso e abraça-me o voo.
Hei-de dar luz às flores,
Hei-de regressar Primavera.
Acorda-me amanhã.
Hoje nada ..
A saudade pesa e arrasta-se, como quem carrega pedras nos bolsos do coração, pelos dias feridos e vazios. E a dor fura, sem piedade, o frágil tecido de que sou feita. As lembranças pintam as paredes com os traços do que deixou de ser e eu habito memórias que não existem, para lá da janela que se abre sobre o meu peito. (Onde te debruçavas ao amanhecer).
Visto os farrapos da história que por nós passou… sem me levar ou permitir ficar, lugar meu no teu peito. E sigo cega, pela noite cerrada onde os teus passos ainda me alcançam e abraçam, quando ao menino perdido o sonho retorna e aquece.
Da liberdade das asas dos sonhos, apenas restaram as penas desfeitas onde me deito e descanso, ouvindo a melancolia das flores azuis que me chamam lá fora. Foste tu quem as pintou para mim, entre gestos sábios e sorrisos nos lábios que já não vejo.
Queria regressar ao jardim onde fiquei antes de ti, e reencontrar-me na esquina do lago que me devolve a miragem do que agora sou.
As gaivotas ainda sobrevoam as palmeiras, o mar ainda espreita pela janela feliz, num abraço de lua. E de mim? Só a ausência nesse espaço onde te deixei, já nos abraços de outros braços noturnos…
A saudade passeia entre lágrimas e eu, de amor feita e desfeita, não sei arrumar as gavetas do meu coração.
No fundo, somos como os lugares. Existem milhões e, entre eles, os especiais, aqueles pelos quais vale a pena esperar o momento da descoberta.
(...)
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.
Um alfaiate não cose vidas.
A escrita é uma reta que me toca na curva, sem me cortar e com a qual partilho todo o universo de um ponto em comum. A escrita é uma tangente de mim.
Sentindo como quem mente,
partiu ou morreu de repente
ainda antes de ser…
Meu amor pequenino,
semente no meu caminho,
que não chegou a nascer.
Tormentos foram, de te imaginar
perfeitinho e devagar,
na insegurança das horas claras…
nos meus olhos, e por meus braços
de afecto e eternos laços,
embalado ao teu choro primeiro.
Quis a vida que não viesses,
botão meu que não se fez flor;
Pardas estrelas que cedo tecem,
minhas dores que entardecem
no solstício do amor.
Tropeçar nas cores do arco-íris
e colher, no céu, pétalas de estrelas.
E das rosas, que são prosas
que habitam o jardim que sou,
beber-lhes as asas...
Com elas, visitaremos os astros
e pousaremos, amantes, na paixão da lua cheia.
Hei-de levar-te lá,
à tela branca e simples,
para que me pintes assim...
sempre que a janela se abrir, leve
sobre os recantos de mim.
Hei-de mostrar-te os barcos na bruma
e o amor que, sem pressa, navega
na ilusão breve das cores
das asas das borboletas.
Hei-de abraçar-te,
na rua onde te habitam os sonhos
e hei-de encontrar-te,
na esquina do acaso da ternura
sem urgência.
É lá, que ao tempo decai a premência
e os dias se abrem como camélias sem estação...
à medida do que somos:
Cartas de afeição que o vento leva...
sem resposta,
do meu ao teu coração.
Agora, apodrecer.
Nas ruas, no suor das mãos amigas dos amigos, na pele dos espelhos...
desespero sorrido, carne de sonho público, montras enfeitadas de olhos...
...mas apodrecer.
Bolor a fingir de lua, árvores esquecidas do princípio do mundo...
"como estás, estás bem?", o telefone não toca! devorador de astros...
... mas apodrecer.
Sim, apodrecer
de pé e mecânico,
a rolar pelo mundo
nesta bola de vidro,
já sem olhos para aguçar peitos
e o sol a nascer todos os dias
no emprego burocrático de dar razão aos relògios,
cada vez mais necessários para as certidões da morte exata,
Sim, apodrecer ...
"...as mãos, a còlera, o frio, as pálpebras, o cabelo
a morte, as bandeiras, as lágrimas, a república, o sexo...
... mas apodrecer!
Sujar estrelas.
José Gomes Ferreira
Oiço-o bater, frenético. E ainda não são sete da manhã.
Sinto o acomodar da angústia no meu peito, travesseiro de sonhos que me levam. Ainda não são sete da manhã e já a vejo, a luz da angústia, atravessar a janela ferida.
Atrás dos meus olhos, crivadas, as palavras pouco claras e as memórias nítidas. Não há muito que possa fazer. Apenas deixa-las ficar.
A vida tem o rosto de um jogo macabro, como uma pedra que morre. E nós não somos mais que fuligem.
Semeia-me flores lá fora e pinta-as de azul, porque todas as restantes cores sangram antes do amanhecer.
Diz-me quem és.
E quando os sons dos risos dos sonhos ainda ecoarem em ti, volta a dizer-me quem eras.
Sucumbo como uma rosa a quem o amor espera do lado de fora do quarto. A vida não segue um curso claro. Onde estão os lugares e os rostos que me deveriam deixar pegadas na pele?
Ainda se o amor chegasse com o orvalho da manhã azul…
Semeia-me flores lá fora.
Passarei a olhar para elas antes mesmo de o dia nascer. Alimente-as a chuva da Primavera que, para a fazer chegar, eu uso as borboletas.
Do meu amor não sei...mas flui dentro de mim. Já passa das sete da manhã.
Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...