terça-feira, 29 de junho de 2021

A Minha Avó Dulce

 


Só posso saber quem sou e para onde vou, sabendo de onde vim.


Escreveu para todos eles, entre 1964 e 1987, com maior incidência entre 1974 e 1975.
Para os mais distraídos, o espaço temporal coincide com a entrada em decadência do regime Salazarista (no início da década de sessenta), queda do Estado Novo e a Revolução dos Cravos.
Não por acaso, mas exatamente porque assim tinha que ser. A minha avó, uma então Senhora, à época, dona de uma paixão que não lhe era permitida, mas, pelo contrário, oprimida, abafada e silenciada, o jornalismo, vivia em segredo a sua liberdade: a que a escrita lhe permitia. Entre palavras, tudo podia ser, até o que não era, ou quem não era. Prova disso são os muitos artigos que não assinou.


O desejo de uma Mulher, ser jornalista e livre, viria a ser a sua maior prisão. Num antagonismo vicioso que a acompanhou até ao seu último dia.
Também em segredo, na maioria das vezes, mantinha a sua grande admiração por Mário Soares. Os artigos que não redigiu, recortou e guardou, os jornais para onde não escreveu, comprou e colecionou, as palavras que não libertou leu e deixou... numa compilação de História agora descoberta.


Conhecer as nossas raízes e aqueles que nos antecederam, permite-nos uma melhor compreensão das gerações seguintes, onde nos incluímos. O modo como olhamos a História, assim como a conexão que travamos com ela, facilita-nos a narrativa identitária, autêntica e fundamental à compreensão do "eu". Ninguém nasce de geração espontânea.


Na vida, há sempre um futuro que nos leva ao passado.


É certo que a tendência de nos projetarmos além, é muito mais forte do que o nosso desejo e interesse em olhar para trás. Acreditar que os nossos pais, avós, bisavós, por terem vivido épocas diferentes, não têm nada para nos ensinar é absolutamente falacioso. São eles que nos dão, muitas vezes, se assim o aceitarmos, as ferramentas para melhor entender a nossa experiência e desafios presentes. (Também os futuros).
Claro que, cada época influenciará, em parte e de formas diferentes, maneiras de ser e estar. Condicionalismos distintos, mas com desafios tantas vezes iguais. Caminhos contínuos, mesmo que pertença, a alguns, a intenção deles se desviar.


A compreensão do ontem, a janela do amanhã.


Escreveu José Mário Branco, "Eu vim de longe/ De muito longe/ O que eu andei p'ra'qui chegar".


 


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sexta-feira, 25 de junho de 2021

Na Troca do Passo


A vida vai feia, o vento norteia
e eu vejo-a passar!
Na troca do passo, o meu embaraço fazendo corar
o pai que assiste e a rosa que insiste
em desabrochar
no meu rosto sério, dela o mistério,
beleza do mar.

Se é azar que tenho, ressalvo e mantenho
os pés no lugar.
Ao peito conheço os sonhos e preço
de se enamorar
por saias e ventos, em dias cinzentos, a rodopiar.
Menina travessa, ao amor avessa,
não quer namorar.

Meu amor sincero, degrau onde espero
a vida mudar
as voltas ao prego, por jeito tão cego
de me deixar ficar
à esquina da rua, julgando ver nua
a minha tristeza...
Por tanta avareza, tamanha destreza
em me apaixonar.

Se a vida vai feia e o vento norteia
eu quero navegar
no seu ar matreiro, ser seu marinheiro
o mar desvendar!!
E se o pai assiste e a rosa persiste
em desabrochar,
Insisto no leme, se não há quem reme
coração de alto-mar.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Sobre crise e liderança

Temos vindo, ao longo dos tempos, a adoptar um sentido de progresso linear, onde se crê que o futuro será sempre melhor do que o passado. Contudo, a nossa racionalidade permite-nos ter presente que a vida humana sempre se revelou cíclica e que, embora os progressos em diversas áreas sejam evidentes, também eles poderão ser suspensos, de tempos a tempos, como acontece em períodos de crise.


O mundo dos negócios não é absolutamente controlável. É composto por factores internos, externos e variáveis, algumas aleatórias e imprevisíveis, requerendo mentalidade e visão infinitas, por parte da liderança, assim como humildade e aceitação face à veracidade da necessidade de alteração de regras durante o jogo, consoante o seu decurso.
A capacidade de reacção às adversidades, a visão da oportunidade, o tempo de resposta, assim como a sabedoria da aprendizagem com os erros, são competências fundamentais para enfrentar a crise, contudo os resultados das organizações - em períodos de crise ou não crise - são o resultado dos contributos dos seus líderes, mas também do seus liderados. Sempre. 


Frequentemente, em alturas controversas, tentam encontrar-se bodes expiatórios a quem se possa imputar responsabilidades. Sejam eles quais forem. No limite, serão os próprios clientes um incómodo, residindo neles a "culpa" dos resultados. Isto acontece por falta de preparação para os cargos de liderança, excesso de ego, desenquadramento, falta de acompanhamento no terreno, resistência à mudança e desvalorização de sinais pré-existentes. (As crises antes de emergirem já criaram raízes).


Assumir a solidão do poder, inequivocamente, impede o contacto directo entre líder e liderados, assim como bloqueia a interacção e a percepção da realidade que se atravessa, abrindo espaço a um canal de informações, nem sempre objectivas e fidedignas, capaz de alimentar rumores e falsas permissas.


Do lado oposto, assumir a frente da batalha e dar o corpo às balas, na consciência de que é a dedicação, a vontade, o esforço e o empenho que fazem os resultados, e que trabalho é missão (mais do que o sucesso), permite uma maior consciência do estado terreno, do quadro de operações e das suas necessidades, facilitando a actuação e o rigor das medidas a serem tomadas e impostas.
Assumir que não se tem respostas para tudo, que os erros são humanos e que a ajuda das equipas é crucial para vencer tempestades, ser transparente a respeito da situação das organizações e apoiar situações de fragilidade, resultará num elo de ligação e fortificação. Porque as organizações são edificações colectivas, no melhor e no pior e, quando se é parte integrante de uma cadeia de valor, todos são responsáveis pela rapidez da sua recuperação.


Também a adopção de uma postura de protecção dos colaboradores desenvolve o respeito e a lealdade, o compromisso, o sentido de gratidão e a motivação dos operacionais em tempos adversos. Porque liderar nunca foi chefiar ou ordenar, liderar sempre consistiu em conduzir e desenvolver pessoas no presente rumo ao futuro, através do exemplo, tornando-as parte da solução e da construção do novo.
Ninguém é sozinho.


"Liderança não é sobre títulos, cargos ou hierarquias. Trata-se de uma vida que influencia outra” – John C. Maxwell.


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sábado, 5 de junho de 2021

Cais


No teu rosto há uma praia que começa
e atravessa, sem olhar, em contramão
a rua já com pressa que apeteça
molhar, em ti, os pés do coração.

Entrar devagarinho e sem temer
não ter, no pé, firmeza de enfrentar
o canto das ondas sem perder
o sol de fim de tarde no olhar.

Não esperei naqueles olhos ver-me ser
o casco de um pesqueiro em erosão,
sem norte ou história onde acontecer
no mar, ao solesticio, a paixão.

No teu rosto há um horizonte que começa
e atravessa, sem pensar, a vida inteira
barcos com pressa que amanheça,
em ti, o sol do Cais da Carrasqueira.

Barcos com pressa que se veja,
em ti, nascer-lhes mar a vinda inteira.


 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...