sexta-feira, 28 de abril de 2023

Talvez o céu

 


Derramadas as estrelas
sobre a noite quieta,
serve-se a vida
em chávena quente.


Lá fora, anamnese sonora:
dois corações que se tocam, distantes.
Dentro de si, estrangeiras:
as emoções vagueiam,
quase miragem
à margem das circunstâncias.
Transpostas fronteiras, o amor lidera
e os corações encontram-se
no espaço tridimensional
do afecto:
pele com pele
boca com boca
corpo com corpo.
Despojados de procedimentos
metodologias
normas
e tutoriais para comportamentos,
incuprem e amam
sem distância.


Perto:
lugar secreto
do agora
onde a vontade demora
e só a verdade consegue chegar.
Ficar:
distância longa,
excesso de perto.
Dois corações que se tocam, distantes.


Talvez o céu.


 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

E depois?


Aqui sentada sobre o mundo

que onde fica eu já não sei,
neste meu jeito profundo
de procurar, não encontrei
maneira mais indelicada
de olhar a vida virada
da janela feita para dois…
Se depois, parto cidade,
pelas luzes da saudade
e depois meu bem, depois…

Fico sentada sobre o tempo
que atrasado me chegou
olhando o mar em seu lamento
por barco que não ancorou.
Sem sinais nem alfaiate
que lhe cosa uma canção
ao casco que comigo parte
sem tirar ao amor a arte
de naufragar um coração.

E depois meu bem, depois…

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...