sábado, 18 de abril de 2020

O que me dói

Dói-me a manhã,
a tarde e o fim do dia...
Dói-me a ausência do caos em que emergia
a necessidade da hora de acalmar.
Dói-me a madrugada acordada
e a passagem inerte do tempo
pela vida adiada,
neste chão onde me sento.


Trago na mão o calendário
das vidas, outras, que vivi...
Do presente nem diário,
procurei o obituário...
por dilação, mas não morri.


Desfaz-se em domingo, o meu peito
e lá fora nada acontece.
Arrefece-me o pensar,
embrulho-me, retalhada, na manta recatada
onde padece o meu sonhar.


Dói-me a manhã,
a tarde e o fim incerto
do deserto humano na cidade.
Dói-me.
Dói-me toda a noite o país
e, ao sol posto, a delonga mundial...
Dói-me a Europa: folha, caule e raiz
ceifada à mão,
História Universal.


Dói-me. 


 


 


 


 


 

2 comentários:

Francisco disse...

Palavras que me despertavam do sono, e que então me faziam adormecer, no final do dia... São estas que deixas.
Se hoje lhes vejo hoje com menos pesar, ou se dizer que o faço, minto.

Sempre me tens apontado a idade naquilo que penso e digo, e eu de volta o faço, questionando se realmente não me pertence a mente. Contudo, tenho na ideia que sei o que a idade trás, no fim das contas. Algo que perseguia sem bússolas, mapas ou compassos. Apenas deixei aquilo que a origina passar, não fosse o tempo professor de tantos fazeres.
Trás identidade. Chega-nos a nós uma vontade de sermos mais nós mesmos, sabendo quem realmente somos, com o passar do tempo. Com menos receio, também, de o sermos. É isso que a idade oferece, não a visão daquilo que somos, mas a representação daquilo que fizemos para ser.

Pois assim sigo aquilo que me faz sentido. Sempre me deixei de parte, e pouca parte tenho realmente para preencher essa lacuna, e não foi o tempo que me disse para mudar - Foi incitador em seguir aquilo que tinha delineado. Depositar respostas no tempo, esperando que façam sentido com o passar dele mesmo, não as vai mudar, apenas adiar, ou, quiçá, retardar, vá lá o destino traçar oportunidades. Mas as respostas que o tempo altera não são as que precisamos no tempo de ''agora'', pois essas, essas temos que perguntar a nós mesmos, não as quiséssemos no imediato.

Então, nós estamos passando os dias, sendo eles curtos e organizados - Para o tempo tecer aquilo que deles fazemos, criando-nos desde o berço até ao fim dos (nossos) tempos.

Tudo isto para dizer que... Sei lá. Prezo a história de forma tão apaixonada que temo o fim dela. Não da minha. Dela.


Já nem quero deixar nada neste mundo. Apenas que ele deixe algo de si mesmo...

Francisco disse...

Desculpa-me estes desabafos, Rita... Mas há temas que ainda me despertam para pensar mais do que aquilo que devo, indo sempre mais além do que aquilo que me compete.

Fosse eu alguém conhecedor do que digo, e não apenas mera voz daquilo que penso...

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...