Penso, para com os meus botões, na romantização massiva da catástrofe a que temos assistido.
1- Deste logo as questões ambientais, cuja melhoria é indubitavelmente uma consequência positiva da paragem abrupta dos vários sectores económicos e da nossa própria rotina, mas que sabemos que não se manterá quando regressarmos à tão ansiada normalidade: necessitaremos de produzir e consumir, de nos deslocar e de produzir desperdício.
2- A par, a utópica ideia de que o Ser Humano atingirá o belo e assim permanecerá no pós-guerra, a residir numa espécie de paraíso de campanha. A ideia, compreendo, é necessariamente uma forma de nos mantermos unos no presente, mas não o será a posteriori, no momento em que as consequências sociais da crise se fizerem sentir sem demora.
3- Por último, a perigosidade do optimismo económico generalizado, gerado pela incapacidade de nos questionarmos, de analisarmos, de pensarmos e de prever. Consequentemente, de antecipar.
Senão vejamos:
Segundo a OCDE, a pandemia da covid-19 é o “terceiro choque económico, financeiro e social do século XXI, depois dos atentados do 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, e da crise financeira global de 2008.” Nas previsões inicialmente feitas, a mesma OCDE equacionou o pior cenário: reduzir em metade o crescimento da economia mundial em 2020, situando-o em 1,5%, o que poderia levar à recessão de economias como a europeia e a japonesa. Porém já ultrapassámos consideravelmente o cenário previsto.
O Governo aprovou a suspensão, até Setembro, do pagamento de créditos à habitação e de créditos de empresas, para aqueles que comprovarem a quebra de rendimentos devido à crise actual, provocada pelo surto de covid-19. Óptimo. Mas…
Embora as moratórias permitam que a prestação (capital e juros) possa ser adiada na íntegra ou parcialmente durante seis meses, “os juros vencidos durante o período da suspensão passam a ser contabilizados automaticamente como capital em dívida.”
O que fará subir o valor de empréstimo, assim como dos respectivos encargos.
Questiono-me se, na altura, existirá disponibilidade financeira nas famílias e empresas, para fazer face a este aumento. Mas não só. Coloco também em questão se serão os portugueses capazes de poupar no entretanto, ou se, por libertação das obrigações mensais, gastarão mais, ou demasiado. Já assistimos ao açambarcar dos produtos alimentares nos supermercados, como um primeiro momento de reacção à situação actual. Seguir-se-à um segundo momento de irracionalidade, quando soar a ordem de soltura e a corrida às férias, aos restaurantes, às viagens, aos produtos de luxo e ao consumo por impulso, do qual estivemos privados, acontecer.
Também o mercado de trabalho não se manterá sem alterações. Sofrerá. E muito. Serão inúmeras as empresas que não resistirão. O aumento do desemprego acompanhar-nos-á e as dificuldades das famílias aumentarão. Isto porque muitas das empresas que assegurarem a sua continuidade, reduzirão postos de trabalho. E não existirão moratórias…
Será o salve-se quem puder. A competitividade tornar-nos-á muito menos humanos, muito menos unos, muito menos tolerantes, muito menos passivos e, obcecados com a sobrevivência, deixar-nos-emos guiar muitas vezes por esse mesmo instinto.
Relembrar a crise de 2008 talvez nos avive o significado de “olho por olho, dente por dente”.
Num mercado que se revelará selvagem, resistirá e permanecerá quem melhor e mais rápido se adaptar às mudanças.
E ainda estarão por pagar as moratórias…

2 comentários:
Ninguém pensa em poupar. Os produtos electrónicos e os de ginástica estão quase esgotados.
Boa noite
Amigo, e o pior está para vir...
Receio bastante o depois...
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