terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Não estou senão comigo

Substituam o Homem por poemas!
Substituam o Homem por flores e pássaros,
por sílabas doces e estrelas acesas.
Substituam o Homem…

Caminho na ponta lancinante do silêncio,
que, na companhia do conforto que o abismo oferece,
tece o gosto da noite,
à simplicidade entregue...
e segue sem perguntar se demora.
Prolonga-se branco, como o lençol que me cobre a pureza
dos sonhos descontentes onde pernoito,
afoito o medo de adormecer e não ver
a vida.

Substituam o Homem pelo vento!
Substituam o Homem pelo mar e pela lua,
por melodias e pela rua
onde, juntas, as esquinas adormecem
e despertam para sonhar.

Por vezes ouço-a, à perturbação do tempo,
cada dia mais insonora e volto a deitar-me
do lado certo do meu coração.
Aqui não estou só.
Não estou senão comigo.

Tudo ao chamamento vem:
o sol, o riso, o céu e o sabor indeciso
da viagem num olhar azul.
A semente, a ave solta, a Primavera
e a manhã revolta na janela
da simplicidade.

Substituam o Homem pelo amor!
Substituam o Homem pelo calor de um abraço,
pela pintura sem traço,
pelo afecto.
Substituam o Homem…

A mim, basta-me o espanto da flor”.

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