Mostrar mensagens com a etiqueta destaques. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta destaques. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Aquieta-te

Remete-te ao silêncio,
se não são de paz, as palavras.
Subjuga-te, entrega-te, aquieta-te
se alumiar não consegues e prossegues
ultrajando razões de assim não ser.
Remete-te ao silêncio do pensamento,
sem insultos,
sem julgar ou apontar, das mãos,
os dedos infusos
sem noção ou condição de acurar
o chão presente.
Dorme sobre as trevas e limpa a vidraça.
Olha para dentro, para trás, para o espelho.
Aquieta-te!
No eco do ruído desmedido
o mundo estremece e tudo acontece,
ante o nada e o que parece ser.

Palavras e punhais,
quem salvais?
Remete-te ao silêncio!

domingo, 13 de julho de 2025

A guerra não cabe numa caixa de sapatos

002.JPG

Nota prévia: Republicação de uma das crónicas que escrevi àcerca da Guerra Colonial Portuguesa. Baseadas em testemunhos reais, por mim recolhidos, com um toque de ficção que em nada fere o realismo da História.
De avô para neto, estas crónicas são cartas de vida deixadas para que a memória e o tempo - mas também os tempos - não nos atraiçoem. 

 

A guerra nunca foi restrita a quem nela combateu. Não foi, nem será, uma realidade menor, dobrável e condenada ao esquecimento, se arrumada numa caixa de sapatos antiga. Há, nos pés dos homens, sapatos cujo desgaste das solas é indissociável do desgaste da vida. 

Diz-me meu neto, quantos sapatos tens e quantos trilhos traçaste?
Não mo digas, acaso sejam mais os sapatos guardados do que os quilómetros de vida por ti percorridos.

Nunca o conforto dos pés – em caminhos que não são os nossos - deverá suplantar o conforto da vida. É no desgaste das solas que o Homem se vê.

Desde o começo que a guerra afetou a sociedade – mesmo que o sistema o negasse. Primeiro, com o sofrimento da despedida daqueles que, como eu, partiam para África. Depois, com as notícias das primeiras mortes e feridos, que foram uma constante durante os anos que se seguiram.

 Na frente de combate não era frequente privarem-nos de ração – que combinava com a nossa nova face primária - armas, munições e fardamento. Contudo, na retaguarda, subia o número de feridos, que se amontoavam nos pequenos hospitais militares, inadaptados e incapazes de suprir as necessidades e os cuidados de que os homens careciam.
Nascia assim, aquilo a que, no seio das Forças Armadas, se chamou Exército de Deficientes, que eu suavizo e apelido de cagulo bolorento do Exército.

Na verdade, esta linha do exército não parou de aumentar, eram cada vez mais os jovens soldados que, na flor da idade, ficavam cegos, contraíam doenças graves – algumas incuráveis - viam os seus membros amputados, ou desenvolviam distúrbios psicológicos. Jovens, cuja flor nem tempo teve para murchar, tamanha foi a violência com que viram as suas pétalas arrancadas. (Tu não sabes, não tens como saber o que é sofrer uma poda definitiva na vida, meu neto. Mas sabem-no eles, esses, aqueles para quem jamais a vida se renovou. Tão pouco com a chegada da primavera). 

Durante a guerra, foi notório o crescedum de caixões transladados. Privilégio daqueles cujas famílias podiam pagar, posto que os custos da morte não eram suportados pelo regime, nem pelas Forças Armadas Portuguesas. Os outros, sem posses, não podiam fazer face às despesas de transladação. Ou eram enterrados nas zonas de combate, (por falta de meios de transporte) ou, com maior sorte, viam a sua última morada gravada numa chapa, nos cemitérios erigidos pelas forças militares, junto às suas bases operacionais.
Sorte?  - Questionarás. -  Sim, essa força sem propósito, imprevisível e incontornável que desencadeia acontecimentos mais ou menos favoráveis para o indivíduo. Entre morrer vivo e assim continuar, apenas existindo, até ao derradeiro cair do pano, ou ser enterrado no mato, que se morra definitivamente - e de uma só vez - e se seja enterrado com dignidade.

Os deficientes da guerra, a face mais visível e transparente dos confrontos, aquela que, ainda hoje, a sociedade mais dificuldade tem em encarar, foram, na época, considerados “inválidos”. Homens que representavam um verdadeiro e pesado fardo para as famílias, que se viram, pelo Estado, obrigadas a esconde-los, como se de impostores se tratasse, caso não lhes fosse atribuída morada nos hospitais militares. Isto porque, oficialmente, Portugal não se encontrava em guerra e a aparição em praça pública de corpos amputados, homens em cadeiras de rodas, cegos ou transparecendo distúrbios vários, poderiam levantar interrogações incómodas para o regime, a respeito do que que era, afinal, a realidade vivida nas colónias de África. 

Um regime cujos passos eram incontestáveis, mas que não mostrava as solas. Um regime cujos sapatos, à medida que pisavam terreno pantanoso, eram de imediato substituídos. Um regime que fechava em caixas as vidas que, pela pátria, eram dadas. Muitas delas detonadas, por minas, num passo em frente – alguns dirão em falso - por aqueles que em nome de Portugal combateram.

Pensa agora meu neto, quantos são os sapatos que tens e quantos trilhos, com História, tens vindo a percorrer. 

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Criar é transgredir e na arte há o dever de o fazer

Hoje, a transgressão e a intervenção, dois dos grandes motores da história, deram lugar à contestação e à exibição, sobretudo digital. A moda talvez tenha sido a única arte capaz de prosseguir, disromper e progredir. Muito do que a música sempre foi capaz de fazer - e deixou de ser - através dos movimentos e correntes das épocas, da atitude e do visual, da filosofia associada aos estilos e bandas, através dos quais se expressava identidade, envolta numa cultura dinâmica e expansiva, disruptiva e transformadora, tanto quanto ameaçadora e provocadora, capaz de rasgar sistemas e máquinas.

Foram Eras pautadas pela reinvenção e necessidade de rebelião, mas também pela preocupação de que a música não fosse só uma canção feita à medida da rádio, mas que fosse, sobretudo, um marco contra o bolor dos valores vigentes e um veículo de união e transformação social.

Todos os movimentos de cancelamento actuais se têm verificado altamente bloqueadores da criação, tal como as ideias conservadoras e os novos ideais sociais. Não há espaço, predomina o sufoco, a repressão, o dedo apontado porque tudo é ofensa moral e há um lugar certo para cada um e para cada coisa.

Por outro lado, assistimos à comercialização da imagem da Arte, ou da imagem por trás dela, numa Era instantânea que obriga à constante presença digital para que não se seja esquecido. As visualizações, os likes e os seguidores ditam ícones e êxitos. Tenta seguir-se o que de maior impacto as redes revelam, copiando modelos artísticos, estilos de vida, seguindo tendências comerciais, ousando pouco e, mesmo assim, necessitando de passar no teste das massas. É já tudo pouco surpreendente, pelo contrário, demasiado semelhante e sem a magia visceral da disrupção.

Tudo isto é contraproducente. Tudo isto é oposto à criação. Contudo, tudo isto, se aliado aos tempos que vivemos (de degradação política, económica e social) é material suficiente para incitar a transgressão, o confronto, a intervenção e provocação do sistema. Porque uma nova Era virá. Vem sempre. E já tarda.

 

 

quarta-feira, 30 de abril de 2025

O dia depois de ontem

Acordado o país, após apagão, as posições sobre o acontecimento parecem dividir-se e opor-se. Imagine-se, até extremar-se, como "bom" sinal dos tempos.

De um lado a paz e o sorriso tranquilo daqueles para quem o dia foi de libertação, de regresso à base da vida, à tranquilidade, à família, aos cheiros e sabores de outrora, ao tempo para ter tempo, aos sons e vozes desconhecidos - quantas vezes inaudiveis no correr dos dias - ao passo calmo nas ruas, parques e paredões, à partilha e comunhão com vizinhos e à possibilidade consentida de desligamento. Contudo, conscientes dos desafios enfrentados, dos constrangimentos causados, do desdobramento de meios humanos nas várias frentes onde se exigia acção e onde nada parou, nem podia parar. 

Do outro lado, por oposição, a exaltação e o descontentamento imponente, perante a romanização dos primeiros face a um evento caótico, à falha das comunicações, ao açambarcamento nos supermercados, à inactividade tecnológica, à impossibilidade de estar "on" e no controlo descontrolado de um mundo ao segundo, de não saber o "depois" por exposição ao imprevisto mas, também, e especialmente, a revolta por haver quem tenha, apesar de tudo, preferido ver, sentir e viver o lado mais positivo do "blackout".

Claro que poetizar o evento não será sensato, até porque o prolongar da situação teria impactos irreversíveis, contudo, parece-me, reflectir sim, é necessário. 

Reflectir sobre a extrema dependência energética e tecnológica dos nossos dias, reflectir sobre a forma como os vivemos e estamos sistematicamente ligados a tudo e a todos, excepto a nós. Reflectir sobre a forma como se tornou um vício controlar tudo à nossa volta - e dar por nós constantemente a fazê-lo. Reflectir sobre o quanto isso é apanágio do medo do desconhecido e efeito placebo para o tanto que não controlamos.

Vivemos a fugir do desconforto de não estar a par, principalmente do que acontece no mundo, agarrados a uma falsa sensação de segurança trazida pelo imediatismo da informação ao segundo, ainda que, essa mesma informação possa não ser fidedigna, confirmada, transparente ou total. Porque sim, apesar da torrente, aquilo que sabemos ou julgamos saber é uma ínfima parte da realidade do mundo. Todos somos vulneráveis e insignificantes se expostos à escala da História e contexto Mundiais.

Certo é que, ontem, as nossas inseguranças tiveram espaço para se fazer sentir. Demos-lhe palco, ao invés de as retrair ou camuflar através dos ecrãs, da falta de tempo, de espaço e da azáfama diária. Mas a vida é isso, é exatamente aquilo que não controlamos, um círculo bem mais lato. 

E creio que sim, que andamos todos a correr como loucos, para chegar não sabemos onde, num passo desmedido, numa ânsia desenfreada por encontrar respostas e soluções para tudo, sem perceber que o efeito é contrário e perdendo o essencial pelo caminho: a saúde, os momentos, as pessoas, os gestos, o tempo, o sabor da passagem e o seu significado. 

Ontem, apesar de todos os apesares - e onde incluo todos quantos foram chamados a agir na frente de batalha, nos mais diversos sectores e circunstâncias - foram muitos os que tiveram a oportunidade que raramente têm, no correr dos dias, de usufruir da sensação de paz do desligamento, da presença dos seus, da liberdade da rua, das vozes de vizinhos e estranhos, do barulho das crianças ao lar livre - cada vez mais raro, dos sons sem ruído, dos cheiros antigos e do daquilo que a vida é quando se resume ao simples e essencial.

Isto não é romantizar, é constatar que a humanidade caminha no sentido errado e que é necessário equilibrar. 

 

 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Claustrofobia Racional

 

"A minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro".

É cada vez mais frequente o ataque, a crítica infundada, o destilar ódio em todas as frentes, a retórica tantas vezes enfurecida com que se ataca uns e outros, no conforto das trincheiras, (atrás de um ecrã).

Num espaço sem rei nem lei (as redes sociais), onde a promoção da intolerância é gratuita e onde a supremacia às massas (nem sempre pensantes) pertence, o discurso incendiário a nada mais serve se não ao proveito político dos seus defensores, tanto em democracias liberais, como nos regimes autoritários.

Frequentemente confundida com liberdade de expressão, a maledicência padronizada e assente na desinformação e desrespeito pelos direitos e valores fundamentais, exacerba posições de resistência e/ou intolerância face ao "outro", sem que sobre espaço à reflexão sobre quem, afinal de contas, o é.

O "outro" somos nós, todos e cada um, numa ou em várias circunstâncias da vida. Com lugar atribuído, o "outro", que não é contrário à pluralidade humana, nem serve de base à violência irracional e defendida por quem se considera em patamar superior, vê-se estrangulado por críticas, ataques, ofensas directas, ameaças, suposições, boatos e inverdades lançadas à luz da nova Inquisição, num único propósito: o enfraquecimento, afastamento e silenciamento do "opositor" (enquanto o ruído mesquinho e crescente impede a voz da decência, da verdade e da informação).

O ódio sempre teve pressa e nunca soube respeitar lugares, tempos e espaços (à semelhança de alguns). Num atropelo voraz, avança sobre quem se lhe não agrada, diferencia, ou confronta, na ânsia de se lhe derrubar os pilares (falemos dos democráticos, familiares, profissionais ou outros).
É pois, óbvio, que em tempos que avançam, velozes, tecnológica e cientificamente, sem que acompanhá-los "em directo" seja possível, o Homem recue, numa irracionalidade gritante e preocupante, quantas vezes claustrofóbica e egocêntrica, corroendo os valores partilhados, a estabilidade e a dignidade humanas.

FB_IMG_1658903748951.jpg

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Crise e liderança nas organizações

Temos vindo a adoptar, ao longo dos tempos, um sentido de progresso linear onde se crê que será o futuro sempre melhor do que o passado. Sem, no entanto, considerarmos que a vida sempre se revelou cíclica e que, embora os progressos em diversas áreas sejam evidentes, também eles poderão ser suspensos, de tempos a tempos, como acontece em períodos de crise.

O mundo dos negócios não é inteiramente controlável. Composto por factores internos, externos e variáveis, algumas aleatórias e imprevisíveis, requerer lideranças ágeis, humanas e competentes, de mentalidade aberta e visão infinita, conscientes da necessidade e aceitação de alteração das regras, durante o jogo, consoante o seu decurso.

A capacidade de reacção às adversidades, a visão de oportunidade, o tempo de resposta, assim como a sabedoria de utilizar o erro como fonte de aprendizagem, são competências fundamentais quando se enfrenta uma crise. Todavia, os resultados das organizações - em períodos de crise ou não crise - são resultado dos contributos dos seus líderes, mas também do seus liderados. Sempre.

Frequentemente, em alturas controversas, nomeiam-se bodes expiatórios, a quem se possa imputar responsabilidades. Sejam elas de que natureza forem. No limite, serão os próprios clientes um incómodo, residindo neles a "culpa" dos resultados. Isto acontece por falta de preparação para os cargos de liderança, excesso de ego, desenquadramento, acompanhamento insuficiente do e no terreno, resistência à mudança e desvalorização de sinais pré-existentes. (As crises antes de emergirem já criaram raízes).

Assumir a solidão do poder - ainda culturalmente aceite em muitas organizações - impede o contacto directo entre líder e liderados, bloqueando a interacção e a percepção da realidade, abrindo espaço à destorção e suposição, em canal aberto, de informações nem sempre objectivas e fidedignas, capazes de comprometer respostas superiores. 

Do lado oposto, assumir a frente da batalha e dar o corpo às balas, na consciência de que é a dedicação, a vontade, o esforço e o empenho que constroem resultados, vestindo-se a premissa de que é, o trabalho, missão muito mais do que sucesso, permite maior consciência do terreno e do quadro de operações, assim como das suas variantes, necessidades e dificuldades, facilitando a actuação e o rigor das medidas a implementar.

Assumir que não se tem respostas para tudo, que errar é humano e que a ajuda das equipas é crucial para vencer tempestades é o primeiro passo para aceitar a exposição ao terreno. Já a transparência, a presença, o apoio e a disponibilidade em situações de maior fragilidade organizacional, resultarão no fortalecimento do elo de ligação entre os diferentes níveis da pirâmide, cimentando o respeito, a lealdade, o compromisso e a motivação dos operacionais em tempos adversos. Porque as organizações são edificações colectivas, no melhor e no pior e, quando se integra de uma cadeia de valor, todos são responsáveis pela queda e pela rapidez da sua recuperação.

Porque liderar nunca foi chefiar ou ordenar, a liderança conduz e desenvolve pessoas, no presente, rumo ao futuro, através do exemplo, tornando-as parte da solução e da construção do novo.

Ninguém é sozinho.

"Liderança não é sobre títulos, cargos ou hierarquias. Trata-se de uma vida que influencia outra” – John C. Maxwell.

 

Cinzento Fotografia Mês História Negra Post Face

 

 

 

 

 

sexta-feira, 29 de março de 2024

Um alfaiate não cose vidas

 

FB_IMG_1682431297696.jpg

Ilustração de Flávio Horta 

Dormíamos, a maior parte das vezes, no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos qualquer coisa semelhante com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de um animal, durante o destacamento.

Embarquei, em Portugal, em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete de trinta mil toneladas, capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era a pele, parte fundamental do equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número, o nome do soldado e o tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra, para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a outra, a quem chamávamos "Fiel Companheira de Mato", a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, arma de grande porte por quem os guerrilheiros ganharam grande respeito.

Durante as patrulhas, as principais funções eram o reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio, transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão, podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos, por escassos minutos, para comer qualquer coisa ou aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha, muitas vezes, a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?

[Voltemos ao cais]
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

É Preciso

Entre o que vem e o que vai, a vida acontece. Sem romantizar nem dramatizar, é-nos necessário enfrentar a imprevisibilidade do caminho.

Nem sempre a direcção é certeira ou linear ao nosso propósito, mas sair do lugar, criar movimento, ter atitude e determinação é fundamental quando se pretende mudança.

É essencial arriscar, vencer a dúvida, enfrentar o medo e explorar o desconhecido. É necessária coragem de viver, ousadia para tentar, determinação para acreditar e vontade para fazer. É necessário sair da zona de conforto e abraçar o desconforto da possibilidade da evolução, embora dolorosa. É preciso cair para aprender a erguer e voltar ao caminho. É preciso focar, não fugir do processo, não adiar, nem assumir o conformismo, a vitimização ou a derrota - ainda antes de começar. 

É imprescindível ser honesto consigo, traçar metas atingíveis, ultrapassar obstáculos, ser mais forte do que a desculpa, quantas vezes âncora das situações. 

É fundamental sonhar, criar compromissos, trabalhar o equilíbrio, encontrar a paz e olhar além. Aprender com as quedas, encarar os tropeços e utilizar a aprendizagem como veículo motor da transformação pessoal.

É crucial saber o que se quer, sendo tão ou mais importante ter perfeita consciência daquilo que não se quer - e atuar em conformidade.

É importante parar, tirar um tempo, fazer balanços e acertar a rota. Adiar as não urgências e focar no que é efetivamente importante.

Se, por vezes, existem períodos em que somos obrigados a adiar um dos lados da nossa existência (pessoal, emocional/sentimental ou profissional), por motivos diversos, outros há em que o tempo escasseia e a entrega e dedicação imperam.

Porque os timings são um axioma e a vida é quase nada, feita de fragmentos de quases, de pequenos muitos e de muitos nada; sendo nossa a responsabilidade do valor que atribuímos a cada um.

Tão importante quanto saber determinar a hora sair de cena é saber puxar da coragem na hora de abraçar o novo. 

 

FB_IMG_1702113337296.jpg

 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Saber dizer NÃO

É fulcral saber quem se é. Ter certezas a respeito das próprias convicções, valores, princípios e crenças. É preciso saber delimitar o próprio espaço, a própria liberdade sem interferir com a liberdade do outro, respeitar e respeitar-se, assumir actos e identidade, preservar a paz interior e ter perfeita consciência do caminho que se quer - assim como daquilo que não se quer - traçando o percurso nesse sentido.

Muitas são as vezes em que o ser humano se perde por não saber dizer NÃO no momento devido, sendo apanhado em situações que não deseja e se arrastam, sem que seja criada uma porta de saída. Por medo da reação do outro, por forma de compensação do outro, por receio de magoar o outro, por falta de auto-estima, de certeza, de convicção - o que evidência que evitar um NÃO significa, também, em determinadas circunstâncias, agir em função do outro e não do próprio.

O ser humano cede por facilitismo, dá e recebe em dose excessiva na ilusão de um preenchimento de vazios e/ou falhas pessoais, permite-se ficar onde não quer (ou deseja) estar, por incapacidade de ser honesto consigo e com os demais, por conformismo ou habituação. Age contra-vontade por não ser conciso a respeito da direcção do proóprio caminho. Aceita situações e condições por falta de imposição pessoal. Permite-se e vai-se permitindo até ao limite do desconforto, do vazio extremo, da infelicidade e do sofrimento.

Por outro lado, a arte de saber ouvir e aceitar os NÃOS da vida é aquilo impulsiona novas direcções, permite ser melhor e fazer melhor, procurar novos horizontes, interesses, pessoas, evoluir, crescer, reinventar-se e encontrar-se.

Saber olhar para as derrotas, retirar a lição devida, agradecer a aprendizagem e saber utilizá-la, será sempre meio caminho para atingir uma transformação interior positiva. Porque, em determinados momentos, aquilo de que se necessita é exatamente de que o NÃO aconteça.

Ser sábio é saber aceitar o que não pode ser alterado, saber esperar o tempo certo de e para cada situação, saber usar a disciplina como veículo de melhoria em tudo o quanto pode ser melhorado, retirar das lições os ensinamentos e aplicá-los construtivamente no futuro. É prestar atenção aos detalhes, ser respeitador e ter consciência de que um NÃO ouvido ou dito no momento exacto poderá ser a chave que futuramente abrirá a porta que realmente se quer. Lá dentro, paz de espírito, felicidade, realização e bem-estar.

 

FB_IMG_1700693237618.jpg

 

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

O Porquê dos Porquês

Os acontecimentos recentes e repetitivos em sectores sensíveis do panorama nacional, têm criado, à semelhança do que temos visto acontecer noutros países, com maior ou menor grau de influência, um clima de insatisfação, contestação e suspeição relativo a instituições e figuras nacionais de relevo, que, face à sua posição e aos valores sociais que nos regem, seriam, à partida, por nós, colocados acima de qualquer suspeita.



A verdade é que somos, ainda, e apesar de tudo, um povo brando e romântico, sem prejuízo de, por vezes, se nos acender o pavio, esse que tão rapidamente se inflama e queima como se apaga. E é esta dualidade experimentada que nos tranca o pensamento, quantas vezes em becos sem saída, impedindo-nos de distinguir o principal do acessório, eliminando o segundo. Este confronto interno de chama rápida, que nos condiciona a lucidez para pensar de forma crítica, tem sido o alimento do populismo e do radicalismo ideológico sagaz, presente à hora certa no momento exacto, servindo de combustível à labareda inicial. A par disso, é notória a dificuldade com que olhamos e pensamos os acontecimentos de forma crítica, não colocando em causa o que vemos, lemos e ouvimos, numa óptica de afastamento para análise e compreensão naturalmente diferente, consoante a perspectiva e o contexto nacional ou internacional, de acordo com o presente da História. Porque sim, os ingredientes estão todos lá, há anos, mas a ignorância quase sempre se adianta e se apressa.


Certo é que nos é impossível tomar decisões acertadas sobre o que quer que seja que não conhecemos, assim como não nos é legítimo tomar ou não partido de algo sobre qual não se detém real conhecimento. E isto é válido, inclusive, para as avaliações e análises de “especialistas”, não extremistas, mas, por vezes, tendenciosas e pouco transparentes, que possam não ter por base o legítimo conhecimento de causa. Porque pensar que dominamos todos os assuntos e temáticas e que controlamos o ambiente à nossa volta é absolutamente falacioso.



Vivemos na Era virtual e instantânea, onde o rol de informação e conteúdos nos cresce nas mãos e onde os algoritmos estão montados para nos prender e sugar a atenção. Não há tempo para pensar pela própria cabeça nem para filtrar informação, assim como deixamos de estar disponíveis para a importância das percepções e da observação da realidade à nossa volta. Os ecrãs roubam-nos muito, desde o pensamento, à verdade, passando pelo poder de observação.

Porém, a evolução das sociedades não deixa de estar intimamente ligada aos meios de transmissão de informação, sobretudo digitais. Existisse esta capacidade de dissociar o principal do acessório, a verdade da inverdade, a propaganda da informação, a manipulação da fonte segura, a coerência do oportunismo e a sociedade ganharia maior consciência da sua irrelevância, ausência de influência e da sua falta de importância.

No entanto, sucede que as redes sociais colocam-nos a todos no mesmo patamar, igualando-nos, influenciando-nos a seguir as mesmas modas e tendências, desviando a nossa atenção para conteúdos virias pouco idóneos, permitindo que se diga tudo aquilo que se tem absoluta liberdade para dizer, sobrepondo-se esta liberdade à responsabilidade do acto e evitando a discussão de assuntos que importam e impactam a sociedade e que exigem, realmente, ser pensados. É inequívoco o contributo envenenado das redes sociais na uniformização do pensamento.


Isto leva-nos ao ponto seguinte que é o nosso entendimento sobre uma possível crise de valores, que nos parece tão antiga quanto inultrapassável, por ser de abordagem sistemática, mas sobre a qual não temos opinião firme. A verdade é que o conjunto de mudanças velozes e permanentes nos vários sistemas e tecidos sociais, políticos, profissionais, ideológicos e económicos nos afectam, criando um desequilíbrio ao nível do entendimento sobre quais são, efectivamente, os valores pelos quais nos regemos enquanto sociedade.


Será isto uma crise ou uma transformação? Será ela o apanágio da liberdade ou a sua ameaça enquanto sociedade democrática? Talvez nos seja apenas necessário mantê-la sob vigilância, enquanto as mutações vão acontecendo e o que tem que se acertar acerta, para que os valores e pilares fundamentais não cedam, por forma a tentar criar condições para fomentar uma cidadania activa consciente, baseada no conhecimento, na justiça, na solidariedade, na ética, no respeito e na inclusão. E aqui, o ensino assumirá sempre um papel preponderante, uma vez que é através da educação e da promoção da literacia que as sociedades evoluem construtivamente, adquirindo os mecanismos e ferramentas necessárias para lidar e enfrentar a mudança e o desconhecido.


Será, pois, então, verdade que, sobre o que não sabemos não perguntamos, mas será igualmente verdade que por sabermos, de antemão, algumas respostas, não formulamos as devidas perguntas. Porque acaso o fizéssemos, obteríamos as respostas que nos obrigariam a agir sobre a causa e é isso, em geral, que não queremos ou evitamos fazer.


Nas palavras de Valter Hugo Mãe "(...) podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é. As ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. Não importam. As liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. Sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. É um dado adquirido (...)"



segunda-feira, 15 de maio de 2023

O Papel da Arte e do Artista na vida e construção de uma cidade

Republico hoje uma das minhas crónicas n' O ATUAL . 


 


IMG_20210913_132128.jpg


 


A arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. É parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitando o diálogo entre os indivíduos, desde cedo, através da representação de figuras rupestres nas paredes das cavernas. Tem vindo a mutar-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a arte sempre possibilitou a aproximação entre indivíduos, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro. Mais do que isso, a arte opera a capacitação de lidar com o mundo, com o confronto e com a diferença.


Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a arte humaniza.


Limitar a arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção que nem sempre é proporcional ao talento) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, preferência, protecção, interesse ou perfilhamento é errado. Tal como é errado limitar e reduzir a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 


Do que estarei eu a falar? Difícil de entender? Talvez, para alguns.


Em primeiro lugar, a falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de uns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. Não é isso que está em causa) em detrimento de outros, persistindo as assimetrias na representação artística da região. Neste ponto, será necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.


Em segundo lugar, impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista e fechada em si própria tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não é de interesse ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte e Cultura têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


E se “sair da ilha para ver a ilha” é necessário, parafraseando Saramago, “sair da ilha para VER” é ainda mais necessário. Olhar para fora e por fora, sair, ir, vivenciar e entender a realidade externa como uma dimensão da experiência humana. Captar o que de que bom se faz noutros locais, procurar conhecer e ter contacto com iniciativas e artistas diferentes, imaginar e inovar, ousar o diferente e o novo, criar movimento e ser motor de inspiração, em nome da vida urbana, transformada e renovada, onde todos possam exercer e beneficiar do seu direito à atividade participante e à cidade, aos locais de encontro e de partilha, à diversidade cultural.


O exercício da cidadania passa pelo reconhecimento recíproco, pela afirmação e reconhecimento de grupos que ainda se mantém à margem, mesmo pertencendo à cidade, seja na procura de oportunidades para trabalhar e viver, como para conviver, disfrutar, alargar horizontes, ter acesso a programação cultural do seu interesse, mais abrangente e diversificada. A cidade deve ser capaz de garantir a liberdade de escolha, sem que isso se afigure como um factor de exclusão, e  deverá converte-se num espaço de circulação pluricultural e atrativo, onde os seus agentes, grupos, indivíduos (residentes ou visitantes) possam produzir, assistir, disfrutar, encontrar-se e usufruir das mais diversas e diversificadas áreas culturais e artísticas.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada e é dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.


A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Diferentes Pesos, Diferentes Medidas

Visto, sobretudo, como um país de emigração, Portugal tem vindo, nos últimos anos, a contrariar a tendência, assumindo-se, cada vez mais, como país de destino. O saldo migratório foi, pela primeira vez, positivo em 2017 e são cada vez mais os cidadãos estrangeiros a escolher e/ou procurar Portugal para trabalhar, estudar ou viver. Mas o país pacato e aberto, à beira-mar plantado é, por vezes, traiçoeiro para aqueles que de longe nos olham e cujo sonho parece chamar.


Numa tendência generalizada, é crescente o número de cidadãos estrangeiros residentes em Portugal (superior a 555 mil), calculando-se um acréscimo de 40% nos últimos 10 anos, embora com alterações no perfil de entrada. Segundo o Relatório Estatístico Anual sobre Indicadores de Integração de Migrantes 2021, publicado pelo Alto Comissariado para as Migrações, até ao início do século XXI a maior percentagem de solicitações de entrada seriam de natureza laboral, tendo, daí em diante, e por decréscimo das oportunidades de trabalho, sido associadas à necessidade de reagrupamento familiar e ao estudo, pese embora a realidade possa diferir entre regiões. Diferente será, também, a distribuição demográfica e geográfica das comunidades migrantes, sendo certo que, as nacionalidades com maior expressividade em Portugal são a Brasileira (27.8%), Reino Unido (7%), Cabo Verde (5.5%), Roménia (4.5%) e Ucrânia (4.3%).
Segundo dados do INE, sabemos, também, que existe uma tendência crescente das entradas de cidadãos oriundos de países asiáticos, sobretudo nos concelhos onde o trabalho provém, maioritariamente, de explorações agrícolas. No caso do concelho Beja estão identificadas 17 nacionalidades, lideradas pela Índia, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil e Angola, onde se incluem estudantes, cidadão activos e não activos.
Sabe-se, também, que a maior concentração de migrantes acontece na área metropolitana de Lisboa e que 60.5% do total de cidadãos estrangeiros a residir no país são “economicamente activos”, sobretudo em áreas como o comércio, construção civil, limpeza, restauração, distribuição e sector agrícola, em actividades que, assume o país, de outra forma “não sobreviveriam ou entrariam em colapso”.
As habilitações e remunerações verificam-se mais elevadas, em comparação com as dos portugueses, para cidadãos oriundos da EU e EUA, por oposição às remunerações dos trabalhadores oriundos da Tailândia, Bangladesh, Nepal ou Guiné. E destes, 67.7% tem vínculo laboral precário.
Segundo o INE 14.3% dos cidadãos estrangeiros serão patrões e/ou empregadores.


Situando-se a média de idades nos 37.3 anos, abaixo da média da população portuguesas, assumem, não só, estes cidadãos, um papel fundamental na eficiência do mercado de trabalho, como no atenuar dos efeitos do envelhecimento crónico da população, que se verifica há anos, a que soma o contributo para a natalidade (13.5% do total de nascimentos em 2020).
Posto isto, e à margem do populismo das medidas propostas por uns, da falsa “dignidade” defendida por outros, do sacudir ou não “a água do capote” inerente a vários ou mesmo da necessidade de se “escolher que tipo de imigrantes queremos para serem os colabores do nosso desenvolvimento”, citando o líder do PSD, importa, fundamentalmente, discutir com urgência e seriedade as políticas de imigração. Porque sim, evidentemente, Portugal precisa de imigrantes.
E não há dúvidas, segundo o Relatório Estatístico Anual 2022 “os estrangeiros assumem maior capacidade contributiva e são necessários para apoiar a sustentabilidade do Sistema de Segurança Social”, tendo contribuído, em 2021, com 1.293,2 milhões de euros, representando 10% dos contribuintes do país. E se dúvidas houvesse, no balanço entre prestações sociais e contribuições, são as segundas quem mais pesa. É, então, factual a importância do contributo estrangeiro para o “alívio do sistema e para a sua sustentabilidade”.
Por outro lado, no reverso da medalha, existe à luz da legislação portuguesa permissão para a estadia em Portugal de milhares de seres humanos incapazes de garantir o seu sustento, a viver em condições indignas e incapazes de escapar à violência da exploração laboral e humana, por ineficácia do controlo e fiscalização de entradas e das condições de vida e laborais. Vítimas das redes oportunistas, que têm nas lacunas legais a sua oportunidade de negócio, chegam-nos, todos os meses, seres humanos cujo peso da dívida, no país de origem, transcende a dureza da vida. Porque sabemos, as redes de tráfico humano são uma realidade, assim como a fragilidade destas pessoas, expostas a abusos e excessos por parte de patrões, mediadores e dos modelos de trabalho das novas plataformas de distribuição, onde o contrato de trabalho é inexistente e onde todas as responsabilidades inerentes à actividade são afectas aos parceiros, entenda-se distribuidores.



Já não fechamos os olhos, nem permitimos à classe política que os feche, às condições de habitabilidade de 37.7% da população migrante que, segundo o resultado do CENCUS, assume viver em alojamentos sobrelotados. Sobretudo desde que Odemira e Beja passaram a ser uma realidade das ruas lisboetas e que o poder governativo passou a ser confrontado com aquilo que parecia, até então, apenas ao poder local dizer respeito – quando dizia, pois, nem sempre.
O que à distância acontecia está agora demasiado perto.
Em boa verdade, e à boa vontade, é necessário que se juntem as políticas públicas de apoio, ao trabalho incansável das IPSS e às iniciativas privadas e de cidadãos singulares já existentes, criando uma estratégia concertada que permita dar melhor resposta a quem nos chega, vindo de um país diferente, de uma cultura diferente e em situações, quantas vezes, delicadas.
A responsabilidade de acolher e integrar é, também, dos organismos públicos. Assim como é sua a responsabilidade de perceber, com abertura, olhando para fora, quais as necessidades prementes e de que forma podem, estes organismos, ajudar a supri-las.



Curiosa será, no entanto, a aproximação do risco de pobreza entre cidadãos migrantes e portugueses; 20.2% para os primeiros e 19.3% para os segundos. Revelador da ineficácia das actuais políticas estruturais e sociais e da urgência em discuti-las e trabalhá-las.
E se a discussão do momento é sobre se Portugal deve ou não continuar aberto a imigrantes, sim. Mas garantindo o apoio real e necessários às IPSS, garantindo ética social, transparência na atribuição de vistos e autorizações de residência, combatendo a exploração e o trabalho clandestino e tornado (mais) dignas as condições de vida das pessoas. Porque são diferentes os pesos e as medidas quando se fala em imigração comunitária e extracomunitária, mas também sobre elites privilegiadas - reformados, investidores, trabalhadores altamente qualificados e nómadas digitais – e os demais trabalhadores de base. É necessária a discussão: como viver em Portugal, como habitar Portugal e como ser casa em Portugal?
Não somos ilhas. Somos humanos e devemos pensar como tal: global.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Verão Fúnebre

Oh Pátria, herege pátria!
Passasse um cometa no teu rosto sepulcral…
Soasse, longínqua, a harpa de Orfeu
e chovessem, pela mão direita de Zeus,
sobre teus cabelos de ouro,
águas mansas de cristal.
Deserta até ao osso,
tráz, o verão, a morte à terra;
notas graves, cânticos de fogo,
severa estiagem, fundo sem poço,
ventos mortais, cinzas na serra,
secas estivais, a sede  impera…

- Ansiada quimera! – grita o Homem
sem condenação,
assistindo ao enterro da Fénix,
cem vezes morta,
pela mão criminosa da mesma Nação.

Corações descalços caminham sobre as cinzas;
cansadas, as lágrimas, sobre a semente do pão;
Heróis de combate empenham suas vidas,
em cenários de horror e destruição.

Especialistas, os tempos, e de opinião,
letais são os donos das vozes da razão.

 

 

👩‍🚒🔥
Escrito há 8 anos, mantém-se, ano após ano, actual.
O cenário desolador, um pouco por todo o país, a bravura e constância dos operacionais no terreno, numa luta desigual. A mão criminosa, bárbara, doentia. As opiniões - que disso não passam. A razão que a ninguém pertence. O luto das terras, das vidas, do pão.

sábado, 5 de março de 2022

Nem sempre vencer batalhas significa vencer a guerra

 

A Rússia, sabemos, é mais forte em armamento, é sua a supremacia aérea, gozou do factor tempo, ganho inicialmente, mas perdido à medida que se movimenta e infiltra no interior da Ucrânia (a morosidade das colunas de abastecimento militar fragilizam a resposta Russa e determinam a vulnerabilidade das tropas no terreno), poderá conseguir controlar e dominar cidades ou partes do território Ucraniano, como temos assistido, mas… não conseguirá, me parece, segurar o território conquistado. Não por muito tempo. Não contra a união soberana de forças de um povo.

Primeiro, porque não se preparou para a resposta imprevista do Ocidente, no apoio à Ucrânia. Esse Ocidente que, aos olhos da Rússia, sempre se preocupou mais em olhar para si próprio, de forma individualista, do que em falar a uma só voz, unanimemente. Apesar da certeza de Putin de que não existira intervenção da NATO em território Ucraniano, muito por receio de uma rápida escalada do cenário para guerra nuclear. Certeza essa que levou a outra, a de que a Europa empurraria as trincheiras do conflito para o interior da Ucrânia. Depois, porque teve por garantida a dependência ocidental de petróleo e gás russos, o que, à partida, limitaria a probabilidade de países como a Alemanha assinarem sanções pesadas contra o regime russo. E claro, não ponderou a possibilidade de um boicote económico à Rússia. Mas aquilo para que Putin verdadeiramente não se preparou, nem se conseguiria preparar, chama-se resistência da Sociedade Civil, quando, um pouco por todo o mundo, se levantam vozes manifestamente contra a invasão da Ucrânia. Até mesmo no seio do país invasor, onde os militares não são excepção.

O patriotismo e nacionalismo dos cidadãos Ucranianos, na defesa do seu território, tem sido uma lição para todos nós. A resistência, a resiliência, a força e o esforço (sobre)humano, contra um colosso e a barbárie, contra a anulação de um direito básico, a autodeterminação dos povos. E é aí que a guerra se ganha ou se perde, não nas batalhas.

É aí que o Homem se vê.

 

9d2c1ab1c393e675dea9092db4dcd06922c2befa.jpeg

image.jpg

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O Outro Lado do Mundo

 

Por baixo da pele não há quem és.
És outro, não tu.
Não quem eu vejo. Não quem diz ser.
Por baixo da pele não cheira a impunidade. A sensatez.
E a dignidade, que era robustez e se desfez,
deixou à vista estilhaços e enchumaços
da hipocrisia que ostentas, mas não vês.

Há no teu sangue crimes de guerra
que a sociedade enterra para não ver.
(Será ela quem diz ser?)
E nos teus ossos, destroços 
de vidas idas, perdidas, desfeitas e esquecidas
entre delitos , conflitos e divergências de pigmentação,
orientação, ideologia e religião
dos filhos a quem negas a mão.

Já cheira a fel o teu hálito,
por tanto de nós devorado,
expugnado, assassinado, desumanizado.
Por baixo da língua, diz-me, quantos em ti morreram?
Cemitério do povo.

Conto-te nos olhos o mísseis prontos a disparar,
quando finges chorar
à margem dos morreram sem te olhar,
em campos de concentração e horror.
Crianças e adultos inocentes,
globais interesses existentes -
e nós? Sem chão onde nos salvar. 

Sempre que o teu ódio rebenta,
Verdadeira tormenta!
Terra Santa sangrenta.
E um dia irado, menos forte e julgado, 
farás uso do crânio
para nos brindar ao urânio
que a todos servirá de mortalha.

Por baixo da pele não haverá ninguém.

 

 

[ Incompleto, à data. Ou talvez não... O Homem é homem e a História repete-se... ]

terça-feira, 31 de agosto de 2021

"Arte, Cidades, Alma - A Conexão como Alavanca"

“Onde nos ouvimos por dentro é casa também.” – As palavras de Pedro Abrunhosa que deram início à conferência Arte, Cidades, Alma – A Conexão como Alavanca.


Por ser urgente pensar as cidades, a arte, a alma, o património e as gentes, assim como perceber e debater a sua conexão e interligação, enquanto contributo para a alavancagem e construção do novo - entenda-se, futuro – sem evitar  questionar o modo como poderemos avançar, mudar paradigmas e corrigir lacunas, sem que se coloque em causa a herança que nos foi sendo doada ao longo dos tempos, a Hall Paxis convidou, a 31 de Outubro de 2020, o músico Pedro Abrunhosa, o actor Bruno Ferreira e o jornalista Paulo Barriga para uma tarde de reflexão conjunta no auditório do Centro Unesco, em Beja.

Desafiado a conceber um paralelismo entre versos de Mário Beirão e a presente realidade, Pedro Abrunhosa colocou-nos perante aquilo que, no seu entender, nos resta depois de tudo, o futuro e a luta permanente para que a existência encontre o seu sentido. “A Liberdade, o livre arbítrio, a construção do presente rumo ao futuro”, no sentido em que a estruturação de qualquer sociedade se iniciará sempre no presente, numa óptica de continuidade, resiliência e concepção de um tempo futuro, no qual o homem de hoje já não viverá.


Por esse motivo, afirmou Paulo Barriga, que uma cidade é composta por finas camadas históricas sobrepostas, “uma caixa de ressonância dos tempos passados”, onde a “impossibilidade material da cidade” converge no encontro do património edificado “com o acto cultural e a vivência”.  Desta forma, será “a ligação entre as pessoas, as políticas culturais, o passado de mil folhas sobrepostas (passado arquitectónico, urbanístico e arqueológico) quem transforma a cultura numa Obra”, a qual se designa cidade.


No entendimento de Bruno Ferreira, “o indivíduo, enquanto ser único, desenvolve-se num ambiente multicultural, com regras, padrões, crenças, o que transforma a cultura num processo de intercâmbio entre diversos indivíduos e comunidades, formando assim uma sociedade. A cidade é um jardim, cujas flores somos nós próprios, os cidadãos” e nessa perspetiva, será sempre necessária a existência de um “jardineiro dedicado” – referindo-se ao poder local - e artistas “que não sendo flores, são as abelhas que as polinizam, permitindo que sorriam”.


Num encadeamento de ideias, Pedro Abrunhosa propôs-nos reflectir sobre a visão de Platão, “nenhum homem se basta a si mesmo”, mas também sobre a possibilidade de “duas pessoas formarem uma cidade. Onde existem dois, existe uma relação de reciprocidade e a possibilidade do acto de um interferir na liberdade do outro”- abordando com clareza a ideia Platónica da construção da cidade justa, uma Cidade-Estado que assumiria todos os valores morais, erguendo-se como a única forma de sociedade possível, segundo uma política que o filósofo definia como “arte que cura a alma e a torna o mais virtuosa possível”.


Pedro Abrunhosa desenvolve a temática: “Alma não é um conceito religioso. É um conceito orgânico. Fazem parte do homem o corpo e a alma que o habita. A cidade tem alma, porque é animada pelas pessoas, muito mais do que pela arquitectura. É a alma que caracteriza o local e o torna identitário. E a política é a arte do possível, a arte de gerir as vontades de toda a gente”. E sobre arte, “é tudo o que nos retira de um local, para nos levar para outro local diferente, que não tem que ser bonito. A arte não tem que ser bonita. Tem que nos transportar de um tempo para outro. É, talvez a par do conceito de Deus, a maior criação da humanidade”.


Já a “política é a gestão do dia a dia” e “aquilo a que hoje se assiste um pouco por toda a Europa é ao desaparecimento de cidades que, outrora, já se assumiram como grandes potências históricas, Beja é uma delas”. “As cidades perdem habitantes, massa crítica, artistas, perdem o público desses artistas, perdem quem ensina e quem aprende”, continuou Bruno Ferreira, frisando o quão importante é o papel dos cidadãos na manutenção das suas cidades e no grau de exigência para com os poderes executivos. “Seria interessante retornar ao Ágora, enquanto espaço livre de encontro e discussão” entre cultura e política, expressão máxima da esfera pública.


Concordando com a observação, Pedro Abrunhosa abordou o fenómeno das redes sociais que “fomentam o afastamento social e não a agregação social”, estabelecendo uma analogia com as palavras de Paulo Barriga, ao constatar que se assiste a uma (re)tribalização - um afastamento social premeditado, como se de tribos se tratasse, no maior retrocesso humano possível, em que os elementos de um mesmo grupo se reconhecem por características, ideias e ideais comuns, excluindo ou mantando os seus dissemelhantes. Segundo Pedro Abrunhosa, “as redes sociais só servem para gostar daquilo que já gostávamos, porque o algoritmo nos mostra aquilo que já conhecemos. A muralha à nossa volta revela-se ainda maior, porque deixamos de ter a percepção de que o outro existe. A incompreensão e a intolerância polarizam as pessoas, afastando-as cada vez mais”.


Já na recta final, e em opinião unânime, os elementos do painel defenderam que “é na cultura que os portugueses encontram razão para sustentar a sua autoestima”, tendo Pedro Abrunhosa definindo cultura como “tudo aquilo que necessita da mão do homem para existir. É o grande suporte do combate à ignorância”. E define-nos, tal como “o plástico define o século XX, porque isso também é cultura”.


Por seu lado, a arte acontece “quando pensamos em coisas que já não conseguimos colocar por palavras e nos silenciamos. Um silêncio de espanto perante uma Obra. Nenhuma língua traduz ou reproduz a emoção sentida, nem nunca será capaz de a explicar. Só explicam a arte, o silêncio e o espanto, sendo a arte o sítio para onde a linguagem escoa através do pensamento, do acto e da produção”.


Arte, Cidades, Alma – Aquilo que nos conecta.


 


IMG_0354.jpg


 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Não nascem flores no invisível

Densos,
os olhos afundam-se, negros,
no obscurantismo do oculto,
onde o fundamentalismo devora luz e jardins.
As cores deixam de ser cores
e o feminismo das formas
subtrai-se à vida humana.
Não se é
e por não se ser
se morre.
Não se olha
e por não se ver
se extingue.
Não se ouve
e por não ter voz
se esquece.


Não nascem flores
no invisível.


 


FB_IMG_1629237120444.jpg


Imagem: ′′ Mother, Daughter, Doll ", fotógrafa iemenita Boushra Almutawakel, da sua série ′′ The Hijab Series ", 2010.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Autárquicas - Mas sempre fizemos assim...

Todos somos (teoricamente) livres e toda e qualquer liberdade termina onde se inicia a liberdade do outro.

 

Somos livres na visão e interpretação de discursos, sejam eles de índole política ou de outra coisa qualquer. Vemos e ouvimos o que queremos, como queremos ou como podemos, condicionando-nos tanto ou quanto nos auto imposermos barreiras e limitações (ideológicas, sectárias, religiosas, clubísticas e daí por diante).

 

Em ano de autárquicas, discursos não faltarão, em campanha ou fora dela, que os haverá para todos os ouvidos. Uns assentes no que "está por fazer", outros cuja âncora os agarra e fixa no combate aos demais, com maior ou menor dose de críticas, insinuações, mal dizeres, injúrias, meias verdades, deturpações da realidade e outras que tais. Faz parte e sempre assim aconteceu. Certo é que olhar-se mais para trás do que para diante não nos fará, nunca, sair do mesmo lugar. E, evoluídos que estão os tempos, diminuir para se ser maior não é mais do que pura ilusão de óptica, para além de feio. Contam-se os anos nesse registo. Perde-se a conta. E talvez estejamos fartos. Fartos de combates de ego e de lutas campais. Talvez queiramos acção, trabalho na melhoria da cidade, do território, das instituições e das pessoas, propostas concretas e exequíveis, serviço à população, crescimento da região, desenvolvimento, abertura, inovação, juventude (a lista continua).  Talvez...

 

Nenhum mal dizer supera outro, todos se diminuem. Andamos, há décadas, a fazer o mesmo e nada se aprende, nada avança e estamos (generalizando, sim) cada vez mais mesquinhos, medíocres de credibilidade e a perder perspectivas (logo, a ver a direito e de forma limitadora). Tudo isso já foi fei(t)o.

Sou sincera, gostava de ouvir, uma vez que fosse, durante o período de campanha, discursos de respeito, construtivos, disruptivos, abertos, de visão e focados naquilo que a cada um compete, sem cair no facilitismo de rebaixar, difamar, usar, citar o nome ou falar dos "outros", sejam eles quem forem (porque os “outros” também o seremos nós, numa ou outra ocasião).

 

Serve, o desabafo, para todos. Não adianta tentar conotá-lo a nenhuma das partes, a não ser a mim própria. Porque sou e permanecerei de pensamento livre.

 

Se todos souberem respeitar o seu lugar e o lugar do outro, discordando ou concordando nas ideias, ideais, visões, crenças, pensamento, será sempre possível o diálogo construtivo, a tolerância e o respeito mútuo. Pensar-se diferente é positivo. Dos confrontos de ideias (levados com seriedade e assertividade) pode nascer o novo, a solução, a possibilidade ou abrir-se um qualquer caminho não vislumbrado ou tido como possível até aí. Certo é que pensar e fazer pensar é (e sempre será) um acto de altruísmo.

É preciso saber aceitar que todos são necessários, que há lugar e espaço para todos, mas que dentro desse espaço existe também o de cada um, assim como a sua liberdade (que não deverá ser posta em causa nem condicionada, como por vezes acontece através do silenciamento, afastamento, injúria, ofensas, críticas, complôs, esquemas, ...).

É dando-se ao respeito e respeitando que se é respeitado.

Que saiba levar o caminho assente nessa premissa.

 

 

Bom trabalho e boa sorte a todos!  

 


thumbnail_1626431420942.jpg


 


quinta-feira, 1 de julho de 2021

Pequenos Artistas e os Ciclos de Invisibilidade

A Arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A Arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. Parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitou o diálogo entre os indivíduos, a começar pelas figuras rupestres presentes nas paredes das cavernas. Mutou-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística, impacto esse que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a Arte sempre possibilitou a aproximação entre o criador e o observador, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro.
Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a Arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a Arte humaniza.


Limitar a Arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, protecção, interesse ou perfilhamento, é errado. Tal como é errado limitar a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 
Difícil de entender? A falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de alguns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. E não é isso que está em causa, tão pouco o valor do seu trabalho). Persistem as assimetrias na representação artística da região, é inquestionável. Sendo necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.
Impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não interessa ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada. É dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.
A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.


20210612_210512_0000.png


 

terça-feira, 9 de março de 2021

As Valas

 


017091180_30300.jpg


(Escrito em 2017 e republicado hoje, porque a História não se apaga nem se reescreve, de acordo com aquilo que se pretende - à data, por conveniência - que ela seja ou tenha sido. A História é o que é, é o que foi, é o que somos). 



Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da Companhia que vinha ao nosso encontro solicitava ajuda à aviação. Haviam caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo inimigo.
Foi o apelo mais dramático de que me recordo, durante toda a Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação: que se bombardeasse tudo. Incluindo a Companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável e o inimigo avançava em número bastante superior.

Quis Deus, que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de tantos outros obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não passaria de miragem. Mas seguimos. Quem a bordo das viaturas se encontrava, saltou para o chão e a coluna avançou a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.


Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos às dezenas. Menos trinta e uma vidas, das nossas.


À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos. Tantos!! Mas estes de alegria. Disseram-me, porque já não os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia.
Ali, o sangue era outro. Sangravam as nossas Colónias e cheirava a perecimento e as lágrimas, mais pesadas que todo o armamento. Lágrimas que sabiam a luto, ódio e potrefação.


Com a noite descemos às valas, que era onde se dormia, em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem, quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.


Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

(Baseado em 3 testemunhos reais, relatados na primeira pessoa).


A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...